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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Na Amazônia peruana, fotos inéditas de índios isolados em close-up

Altino Machado às 9:59 am

Fotos em close-up de uma família de índios isolados da tribo Mascho-Piro, habitante do Parque Nacional de Manú, no sudeste do Peru, foram divulgadas nesta terça-feira (31) pela ONG inglesa Survival International.

É o que se viu até agora de mais detalhado dos índios isolados registrado em fotos, mas avistar os Mascho-Piro nos últimos meses tem sido cada vez mais recorrente.

Muitos culpam a extração ilegal de madeira dentro e no entorno do parque, e os helicópteros de voos baixos dos projetos de extração de gás e petróleo, por deslocarem os indígenas de suas florestas. Os Mashco-Piro são uma das cerca de 100 tribos isoladas ao redor do mundo.

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O perigo de contatar tribos que optaram por se manter isoladas foi reafirmado pela recente morte de um indígena Matsigenka. Nicolás “Shaco” Flores foi morto por uma flecha de índios isolados próximo ao Parque Nacional de Manú no Perú. Ele vinha deixando comida e presentes para um pequeno grupo de índios Mashco-Piro nos últimos 20 anos.

Glenn Shepard, antropólogo e amigo de Flores, escreveu em seu blog (veja) e no website Anthropology News, que “a morte de Shaco é uma tragédia”.

- Ele era um homem simpático, corajoso e experiente. Ele acreditava estar ajudando os Mashco-Piro, contudo, com essa tragédia, os mesmos demonstraram a sua vontade de serem deixados em paz - acrescentou Shepard.

Beatriz Huertas, especialista peruana em tribos isoladas, disse à Survival que o caso é “incomum, complexo e extremamente delicado”.

- O contato pode acontecer a qualquer momento. Nós temos que implementar medidas preventivas e planos de contingência com as autoridades locais o mais breve o possível para garantir que isso não aconteça mais uma vez - disse Huertas.

No ano passado, a Survival escreveu ao ministério peruano para áreas protegidas, expressando a sua preocupação em relação a um vídeo mostrando turistas deixando roupas para os índios nas margens dos rios.

A área foi posteriormente fechada para turistas e um aviso de emergência foi enviado aos moradores locais. O Departamento de Assuntos Indígenas do Perú planeja criar um posto de guarda para a proteção de tanto os residentes da região quanto os índios isolados.

- Um ano depois, essas fotos fornecem provas ainda mais esmagadoras sobre a existência de tribos isoladas. Não é mais aceitável por governos, empresas ou antropólogos em negá-la. O primeiro contato é sempre perigoso e frequentemente fatal – tanto para a tribo quanto para aqueles que tentam o contato. A vontade dos indígenas de se manterem não contatados deve ser respeitada - disse o diretor da Survival, Stephen Corry.

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domingo, 29 de janeiro de 2012

Ai de ti, Haiti

Altino Machado às 9:01 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Eles fizeram uma longa fila e foram embarcando, um a um, no navio chamado “Sagrado Coração de Jesus”, que zarpou de Tabatinga (AM) para Manaus neste sábado, 21 de janeiro. Os passageiros, na realidade, não sabiam direito de quem era aquele coração: de Jesus ou de Maria? Desconfiavam que era de Maria. Com todo o respeito ao calvário do filho, só um coração sangrado de mãe - onde sempre cabe mais um - pode abrigar mais de 400 haitianos com tantos sonhos, sofrimentos, dor, medo.

O medo dentro do barco-coração que descia o rio Solimões era “o medo da fatalidade que sempre acompanhou o Haiti”. Quem diz isso é um amigo chileno, Fred Spinoza, professor de espanhol em Tabatinga, que testemunhou a passagem dramática dos haitianos pelo Alto Solimões, ameaçados de se tornarem um boat people – refugiados que ninguém quer receber e que, sem chão onde pisar, transformam o barco em sua nova pátria e ficam, à deriva, vivendo na terceira margem do rio.

Fred, poeta como qualquer chileno - todo chileno verseja – me enviou trechos do Navio Negreiro de Castro Alves para ilustrar o cenário daqueles haitianos amontoados em redes armadas umas sobre as outras. No domingo passado, ele me cantou o roteiro do motor da linha: “O Sagrado Coração, que saiu ontem daqui, deve passar hoje por Fonte Boa, amanhã por Coari e chegar no Roadway, em Manaus, na terça, dia 24”. Manifestou preocupação quanto à recepção aos hermanos haitianos em Manaus.

Sangrado coração
Manaus, nascida de um parto sangrento, é filha de um crime e de um roubo, cometidos em 1669 por militares portugueses. Tropas armadas invadiram e saquearam a aldeia dos Manaú, mataram muitos índios, escravizaram outros e usurparam suas terras. Seu comandante, Francisco da Mota Falcão, construiu ali, bem em cima do cemitério indígena, o Forte de São José do Rio Negro, usando a mão de obra de índios escravizados e, como matéria prima, o barro das urnas funerárias quebradas e violadas. Portanto, foi a pilhagem colonial que pariu Manaus.

Por isso, talvez, Manaus sabe ser impiedosa, cruel. Mas sabe também ser generosa, como mostra o outro lado de sua história. Muitas vítimas do terremoto de Lisboa, de 1755, foram acolhidas pela cidade já mestiça, que lhes deu teto, trabalho, comida. Na época da borracha, entre 1877 e 1914, mais de 500 mil nordestinos, fugindo da seca, migraram para a Amazônia, muitos deles armaram suas redes aqui. Com eles chegaram sírios, libaneses, espanhóis, judeus, árabes, palestinos, japoneses, espanhóis e nova leva pacífica de portugueses. Recentemente, a Zona Franca trouxe os sulistas.

Dessa forma, a cidade foi se construindo sobre os alicerces da diversidade, com trabalho, sangue e suor dos estrangeiros que souberam muito bem se integrar à sociedade de base índia. Era tudo gente de paz. Como o portuga José Ventura - o Comandante Ventura - que em 1961 morreu para nos salvar. Manaus não tinha como combater incêndios. Ele criou em 1952 o Corpo de Bombeiros Voluntários. Faleceu quando combatia um incêndio que consumia vorazmente a periferia da cidade, como nos lembra pesquisa histórica realizada por Roberto Mendonça.

Outro portuga que ama a cidade e ajudou a construí-la é o dono do bar da Bica, o Armando, o mais caboco de todos os portugas, que está nesse momento, aos 75 anos, numa UTI de um hospital manauara com uma infecção pulmonar. Armando e o comandante Ventura fizeram mais por Manaus do que o belicoso Francisco da Mota Falcão, Pedro Teixeira e todo o exército colonial. Jornais lusos editados nessa época no Amazonas, estudados pelo historiador Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, estão nos revelando muito sobre essa migração.

Água no feijão
Os haitianos que chegaram agora vieram também em missão de paz, de trabalho, mas foram recebidos à bala com um grito de “nós não queremos vocês aqui”. O governador do Amazonas, Omar Aziz (PSD), filho de um imigrante palestino que se mudou para Manaus em 1968, debochou, sugerindo que o governo federal os abrigasse em Brasília, “em apartamentos de deputados federais”, conforme matéria publicada pela Folha de São Paulo assinada pela correspondente Kátia Brasil.

Pra puxar o saco do governador, a colunista social Mazé Mourão atacou os haitianos, chamando-os de “abusados”. Num texto boçal, reclamou que eles estão tomando conta dos empregos nas fábricas do Distrito Industrial e “como não sabem falar a nossa língua, trabalham caladinhos e até passam da hora sem cobrar nada”. Preocupada exclusivamente com o quintal de sua casa, sugere: “Por que os haitianos não ficam em Tabatinga ou vão povoar outros municípios do Amazonas?”. Conclui: “Sorry, sorry e sorry, o Haiti definitivamente não é aqui”.

Que me perdoem os ouvidos pudibundos, mas esse é o lado escroto de Manaus, o lado “farinha pouca meu pirão primeiro”. A colunista social alega que “se nós não conseguimos resolver os nossos problemas, que dirá de quem chega e toma de assalto esta Manaus de Mil Contrastes”. É como se ela dissesse, em 1919, ao Comandante Ventura e às centenas de portugas que com ele vieram: “Não podemos receber vocês, porque temos muitos problemas, não temos sequer um Corpo de Bombeiros Municipais” …E olha que nesse momento naufragava a economia da borracha, com centenas de mendigos espalhados pelas ruas da capital.

Felizmente, o outro lado, generoso e solidário, o lado “água no feijão que chegou mais um” se manifestou imediatamente. Dezenas de leitores ocuparam as redes sociais apoiando artigos que se solidarizaram com os haitianos e lhes deram as boas-vindas. Três deles merecem destaque.
Allan Gomes, com base no processo histórico da Amazônia, sustentou que “a imigração haitiana não deve ser vista como um problema, mas como parte da solução”. Da mesma forma que Manaus não podia apagar um incêndio porque carecia de bombeiros e foi salva pela migração lusa, assim também os haitianos podem contribuir para melhorar a cidade, se formos capazes de organizar e planejar a estadia deles aqui.

Alberto Jorge, coordenador geral da CARMA – Coordenação Amazônica da Religião de Matriz Africana e Ameríndia – confessa que teve ânsias de vomitar quando leu o texto de Mazé “que destila ódio e desprezo,é preconceituoso, asqueroso em todos os sentidos”. E Ismael Benigno considerou que a reação dela mais parece “um chilique da socialite Narcisa Tamborindeguy contra os pobres do que uma tentativa de entender o problema que ainda vamos ter”.

De qualquer forma, se o artigo tem algum mérito é o de desencadear um debate, permitindo revelar a xenofobia e a intolerância que trazemos dentro de todos nós, mas também a solidariedade com os refugiados. Quem sofreu o exílio, por razões políticas, econômicas ou sociais, sabe a importância dessa acolhida. É evidente que a questão é complexa, é claro que precisamos organizar uma intervenção de forma mais planejada, mas sem preconceitos, como o de um leitor de Mazé Mourão, que se referiu depreciativamente à religião dos haitianos e à magia negra.

Se a colunista social não pedir desculpas, publicamente, nós, os que ficamos chocados com seu texto - sorry, sorry, sorry - acamparemos com os haitianos no quintal da casa dela. Faremos um trabalho de magia negra para transformá-la em um ser inteligente, sensível e solidário. Se bem que suspeito não existir magia capaz de dar jeito nisso. Mas a gente tenta.

P.S.: O poeta haitiano René Depestre escreveu, entre outros, um belo livro – “Aleluia para uma Mulher-Jardim”, editado em português em 1988. Não tive acesso à edição brasileira, mas à edição francesa, de 1981, de onde traduzi a frase, diz: “Si le monde est une vallée de larmes, Haiti est le coin le mieux arrosé de la vallée” (pg. 40).

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO). Escreve no Taqui pra ti.

Foto: Altino Machado

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sábado, 28 de janeiro de 2012

AC: Sucuri gigante causa aglomeração em ponte

Altino Machado às 9:46 am

A imensa sucuri foi encontrada perto da ponte sobre o Rio Moa, entre os municípios acreanos de Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima, na região mais ocidental do país, por volta das 16h30 desta sexta-feira (27).

- Ela poderia ter permanecido mais tempo, mas as pessoas ficam meio histéricas quando veem cobra. Houve aglomeração de dezenas de pessoas sobre a ponte e a cobra foi se afastando. Outra pessoa, que chegou antes, viu e fotografou a sucuri ainda na lama, na beira do rio - relatou Denis Cristiano, autor da foto.

Foto: Denis Cristiano

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

No Pará, MPF recorre de sentença que absolveu donos da Pagrisa

Altino Machado às 3:12 pm

O Ministério Público Federal anunciou nesta sexta-feira (27) que recorreu da sentença que absolveu, no final de 2011, os empresários Murilo, Marcos e Fernão Villela Zancaner, donos da Pagrisa.

Os empresários foram acusados de manter mais de mil trabalhadores em situação degradante em uma fazenda produtora de cana no município de Paragominas (PA). A sentença chegou ao MPF no último dia 13 de janeiro e o recurso foi interposto no último dia 18.

Os trabalhadores foram libertados em 2007 por uma fiscalização do Grupo Móvel do Ministério do Trabalho, mas o juiz federal José Valterson de Lima, da Vara Federal de Castanhal (PA), não aceitou o relatório dos fiscais do trabalho como prova no caso.

Segundo Valterson, o laudo não tem validade por ter sido produzido antes do processo penal. Com isso, todas as fotos, autos de infração, depoimentos e dados colhidos na época da inspeção foram desconsiderados e a sentença foi de absolvição por falta de provas.

O MPF discorda com o argumento de que, para a validação do laudo, deve ser observada a qualidade técnica e o cumprimento das normas legais, o que estaria presente no caso.

- O relatório foi elaborado por profissionais do Ministério do Trabalho, qualificados para auferir as condições de trabalho e salubridade do ambiente de trabalho - diz o recurso assinado pela procuradora da República Maria Clara Barros Noleto.

Na apelação, a procuradora afirma que os próprios representantes da Pagrisa confirmaram os fatos, mas sempre se referindo como fatos isolados, e que já estavam tomando as providências necessárias para sanar as irregularidades.

- Tanto é que, após a fiscalização, várias comissões se dirigiram à fazenda e não mais encontraram a nefasta situação relatada nos autos. Os réus correram contra o tempo para apagar os vestígios dos seus crimes, tentando com isso enganar à sociedade. Mas o que deve ser levado em consideração é a contemporaneidade dos fatos delitivos, e não sua posterior modificação, com a suposta adequação aos regramentos legais - acrescenta a apelação.

O MPF pede a revisão da sentença e a posterior condenação dos réus pelos crimes de redução à condição análoga à de escravo (artigo 149 do Código Penal) e de frustração de direito trabalhista (artigo 203).

Na ação inicial, eles chegaram a ser acusados do crime de perigo para a saúde de outrem (artigo 132), mas o próprio MPF depois do trâmite processual pediu que eles não sejam condenados por essa acusação.

Se forem condenados na segunda instância, os irmãos Zancaner ficam sujeitos a penas que variam entre um a oito anos de prisão, mas as penas podem ser aumentadas até 14 anos pela quantidade de vítimas. A apelação será julgada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região em Brasília.

Os 1064 trabalhadores que foram libertados eram submetidos à condição análoga à de escravo, com jornadas de trabalho exaustivas, condições degradantes, salários abaixo do mínimo, ausência de água potável, instalações sanitárias insalubres, habitações precárias e cerceamento do direito de locomoção.

As vítimas eram obrigadas a executar um corte de cana não usual – corte no olho da cana, feito no ar, que coloca em risco a saúde dos trabalhadores.

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Justiça cogita fechar presídio no Acre por violação de direitos humanos

Altino Machado às 10:41 am

A juíza Luana Campos, titular da Vara de Execuções Penais de Rio Branco, declarou nesta sexta-feira (27) ter ficado “chocada com a falta de respeito aos direitos humanos”, após inspecionar o Complexo Penitenciário do Acre.

A magistrada considera a possibilidade de pedir a interdição de duas unidades prisionais caso o governo estadual não adote providências no prazo de 20 dias. Com 2,8 mil detentos, o Acre é, proporcionalmente, o estado com a maior população carcerária do país.

Luana Campos esteve na Unidade de Recuperação Social Francisco D’Oliveira Conde (FOC), que possui o maior número de presos, e na Unidade de Regime Fechado 2 (antigo Antônio Amaro), que abriga os apenados que respondem por crimes mais graves, de clamor público ou envolvidos em organizações criminosas.

Ela constatou superlotação, falta de atendimento médico, falta de medicamentos, demora na realização do exame criminológico, proliferação de doenças, celas sem iluminação, ventilação, colchões, água e material para higiene.

A titular da Vara de Execuções Penais de Rio Branco criticou a atuação do Instituto de Administração Penitenciária do Acre (Iapen), do governo estadual:

- Não estão sendo dadas pelos setores responsáveis as devidas condições de respeito e dignidade a essas pessoas.

No mês passado, o Ministério Público Federal no Acre chegou a enviar recomendação aos governos federal e estadual, além do Judiciário, para que tomem medidas visando garantir direitos humanos e melhoria das condições de vida dos presos no Estado.

A juíza considera que a Unidade Provisória, na FOC, apresenta a pior situação. Existem 796 presos provisórios, número mais de quatro vezes maior do que a capacidade máxima, que é 190 apenados.

- É um dormindo em cima do outro, sem o menor respeito aos direitos humanos - resumiu a juíza.

Em 2010, o Mutirão Carcerário, do Conselho Nacional de Justiça, esteve no Acre e exigiu uma série de providências para atenuar o quadro alarmante do sistema prisional do Estado.

- Apesar disso, nenhuma das providências deliberadas à época pelo CNJ foram cumpridas - observou a juíza.

Embora a Unidade Semi-Aberto não enfrente tantas dificuldades quanto à superlotação (possui capacidade para 148 presos e atualmente abriga 234), há outro impasse: a maior parte deles acaba cumprindo uma pena mais rigorosa do que a que foi imposta. Sem trabalho externo, ficam trancados dia e noite, e assim acabam cumprindo toda a pena em regime fechado.

A juíza vai editar uma portaria permitindo que esses detentos saiam pela manhã, mesmo sem o trabalho, e retornem para o pernoite. Nesse caso, serão concedidos 30 dias a todos que estão no regime semi-aberto, para que saiam durante o dia e procurem trabalho voluntariamente.

Durante esse período, serão impostas todas as condições formais, como recolhimento noturno, entre outros regramentos. Decorrido o prazo, caso não consigam emprego, terão que retornar à unidade prisional.

- Fico muito preocupada com toda essa problemática que encontrei nas unidades, porque detectei que o sistema não ressocializa os detentos e não reinsere esses indivíduos, seja na sociedade ou no mercado de trabalho. Isso faz com que eles provavelmente voltem a delinquir, já que não lhes estão sendo dadas as mínimas condições de estrutura, acolhimento, higiene e saúde - avaliou a juíza.

Uma unidade de castigo, conhecida como Chapão, no presídio estadual, possui capacidade para 320 presos, mas está com 1.178. Segundo a juíza, falta até água para tomar banho. A média varia de 10 a 15 pessoas por cela, com apenas seis baldes, de modo que alguém sempre fica sem banho.

Também falta acompanhamento médico, equipamento dentário, além de assistência social e jurídica. A falta de medicamentos é um dos maiores problemas. Alguns detentos que fazem uso de remédios controlados estão sem recebê-los há pelo menos um mês.

Segundo a juíza, uma reclamação que é repetida por quase todos os presos é quanto às atividades internas. Não há trabalho e estudo suficientes para todos. Isso é considerado fundamental até mesmo para remissão da pena.

Atualmente estão sendo desenvolvidas atividades somente de horta, faxina, cozinha e escola, mas são poucas as vagas para o montante de apenados. Já as demais atividades profissionais, como as de uma fábrica de bolas, estão paralisadas.

Providências

A Justiça anunciou que vai solicitar ao Iapen, em caráter de urgência, a transferência equitativa dos presos da Unidade de Regime Provisório. O objetivo é desafogar o complexo penitenciário.

O assunto será encaminhado à corregedoria do Tribunal de Justiça, para que adote providências junto aos juízes criminais, especialmente no sentido de agilizar a apreciação dos processos de presos provisórios.

Quanto ao regime fechado, para não prejudicar os apenados, a juíza vai adotar como sistemática a contagem de horas de serviço, mesmo que a unidade não ofereça atividades profissionais no âmbito do complexo penitenciário.

A juíza anunciou, ainda, que vai solicitar providências urgentes ao Iapen sobre as questões que envolvem atendimento médico, odontológico, higiene, medicamentos, reforma e manutenção dos pavilhões que apresentam situação insalubre.

Luana Campos já determinou que a autorização para trabalho externo de detentos seja deferida pela direção do Iapen e não mais pela Vara de Execuções Penais de Rio Branco.

Também foi repassado o controle do livramento condicional para o Conselho Penitenciário, como forma de desafogar o trabalho da Vara de Execuções Penais de Rio Branco, que poderá se dedicar prioritariamente à análise processual.

Foto: Tribunal de Justiça/Divulgação

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

MPF aciona governo brasileiro por violar direitos humanos de imigrantes haitianos

Altino Machado às 1:49 pm

O Ministério Público Federal no Acre (MPF-AC) entrou com ação civil pública contra a União para que sejam garantidos direitos humanos dos imigrantes haitianos que vêm ao Brasil em busca de trabalho e condições dignas de sobrevivência, após o terremoto devastou o Haiti há pouco mais de um ano.

- O Brasil vem atentando duplamente contra os direitos humanos dessas pessoas ao deixar de prestar-lhes assistência humanitária devida e ao dificultar o ingresso em território brasileiro - afirma o procurador da República Anselmo Henrique Cordeiro Lopes.

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A ação pede que a Justiça Federal determine o reconhecimento da condição jurídica de refugiado de todos os haitianos que estão ou que venham para o Brasil, cessando todo e qualquer impedimento injustificado para o ingresso deles em território brasileiro.

No entendimento do MPF-AC, a falta do reconhecimento de refúgio aos haitianos consistirá em nova violação de seus direitos e os colocará em situação de vulnerabilidade ainda maior, expondo-os a crimes típicos de exploração humana, como a prostituição e trabalho escravo.

O procurador da República reforça o pedido de garantia de assistência humanitária básica aos haitianos que já se encontram no Brasil, provendo-lhes comida, água, moradia provisória e serviços básicos de saúde até que consigam vínculo empregatício e possam manter-se por meios próprios.

No final do ano passado, o MPF recomendou ao Governo Federal que prestasse assitência humanitária, porém o poder público preferiu ignorar e sequer respondeu aos ofícios enviados pelo procurador.

Fundamentos

Segundo a ação, os direitos humanos, conforme descrito na Carta Internacional de Direitos Humanos e acolhidos pelos Estados democráticos como parte de seus sistemas internos, são universais, sobrepondo-se ao direito convencional e servem, inclusive, como limite à soberania dos países, conforme reconhecido atualmente pela doutrina internacional.

O procurador assinala que o instituto do refúgio não está isolado no Direito Internacional e deve ser compreendido como instrumento de garantia do exercício pleno dos direitos humanos.

O MPF argumenta que mesmo a legislação brasileira se atualizou e ampliou a possibilidade de concessão de refúgio ao incluir na Lei 9474/97 a condição de refugiado a todo aquele que “devido a grave e generalizada violação dos direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade e buscar refúgio em outro país” .

A ação argumenta, ainda, que o direito ao refúgio não pode ficar estaticamente ligado ao fundamento da perseguição política, mas, tal como os direitos humanos, deve ser dinamicamente entendido, tendo em vista as novas investidas e ameaças aos direitos humanos.

O MPF cita os casos de tragédias ambientais ou naturais, principalmente se tais eventos são potencializados pelo caos social e político da região, como é o caso específico do Haiti, que viveu esse caos durante décadas antes do grande terremoto de 2010, levando seus cidadãos exatamente à situação de vítimas de graves violações dos direitos humanos.

A obrigação do Brasil de atender e acolher aos haitianos, segundo o texto da ação, consiste também em atender à própria Constituição Federal que expressamente sujeita o Brasil à “prevalência dos direitos humanos”.

O MPF afirma que é obrigado a guiar-se pela solidariedade humana em relação aos povos da América Latina, de acordo com o art. 4º, parágrafo único, da Constituição da República (“A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”).

Foto: MPF/Divulgação

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Falso pastor é indiciado por ter mantido índios em cárcere privado

Altino Machado às 1:31 pm
Falso

Antonio Alenquer Pereira Pontes foi preso em Lábrea

O falso pastor Antonio Alenquer Pereira Pontes, que passou 10 dias desaparecido com 14 índios da etnia Paumari (cinco adultos, sete adolescentes de 12 a 16 anos, um menino pequeno e um bebê de colo) , foi indiciado em Lábrea (AM) por cárcere privado, ameaça, estelionato e falsa identidade.

Pontes é acusado de ter mantido os índios sob terror e intimidação durante uma viagem supostamente destinada a ir buscar material e mercadorias prometidas por ele aos habitantes da aldeia Crispim, no Rio Purus.

- Toda hora ele dizia que ia me bater com uma corda. Meu pai nunca me bateu. Eu não entendia por que esse homem queria me bater, nem por que ele dizia que seríamos todos presos. Nós não matamos ninguém. Nós tínhamos que ficar o tempo todo escondidos na canoa e cada vez que passava um motor ele dizia que era a polícia nos procurando. A gente não podia conversar, nem olhar um para o outro. Ele só deixava a gente sair do barco para fazer as coisas que ele mandava - relatou uma adolescente.

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Os indígenas contaram que não chegaram a passar fome, mas não podiam dormir por causa do medo e dos carapanãs (pernilongos) no rio.

- Agora passo o dia chorando porque foi muito sofrimento que passamos nas mãos desse homem - relatou à antropóloga Oiara Bonilla  a adolescente paumari que viajava com o falso pastor.

Pontes dizia aos índios que era filho de desembargador e que mandaria matar a todos na aldeia caso fosse preso. Os índios eram obrigados a servi-lo, tendo, por exemplo, que retirar seus sapatos e meias, sem reclamar.

- Ele também disse para nós que era um “mentalista”, que ele lia a mente das pessoas. Disse que ensinaria as mulheres a se tornarem “mentalistas” como ele.

Alguns paumari estão prestando novos depoimentos na delegacia de Lábrea nesta quarta-feira (25). A polícia quer esclarecer alguns pontos e obter mais detalhes sobre o ocorrido ao longo dos dez dias em que os índios estiveram viajando com o falso pastor.

A prisão dele aconteceu após a antropóloga Oiara Bonilla denunciar o caso no Blog da Amazônia. A antropóloga é pesquisadora do Museu Nacional e trabalha junto aos Paumari desde 2000.

- Nos próximos dias, os paumari estarão voltando para a aldeia, e provavelmente conversarão e refletirão muito sobre o ocorrido, para que fatos como esse nunca mais se reproduzam. O triste episódio também serve como alerta para todos nós, pois aponta para a extrema fragilidade e exposição que a região do Sul do Amazonas vive. Ela estará cada vez mais exposta com o avanço do desmatamento e da frente agropecuária do norte de Rondônia - comentou a antropóloga.

Foto: Armando Soares/Funai

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

No Peru, 200 haitianos aguardam autorização para entrar no Brasil

Altino Machado às 3:42 pm
Abrigados em igreja peruana, imigrantes são alimentados por brasileiros

Abrigados em igreja peruana, imigrantes são alimentados por brasileiros

Um grupo de 200 imigrantes haitianos, abrigados na igreja católica da cidade peruana de Iñapari, na fronteira com Assis Brasil (AC), aguarda autorização do governo Dilma Rousseff para ingressar em território brasileiro.

Os imigrantes saíram do Haiti antes do dia 12 de janeiro, quando o governo brasileiro decidiu pela emissão limitada de vistos de trabalho para haitianos e determinou reforço policial para impedi-los de ingressarem a partir das fronteiras com a Bolívia, Colômbia e Peru.

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Peru faz apelos para Brasil receber imigrantes haitianos na fronteira

O pároco René Salízar relatou que os haitianos estão com muita esperança de que o governo abrirá a fronteira para que possam realizar o sonho de trabalhar no Brasil. Alguns imigrantes têm como destino a Guiana Francesa, de onde pretendem seguir para o Canadá.

Os haitianos que esperam em território peruano uma decisão do governo brasileiro estão sendo alimentados basicamente com sopa. Os víveres estão sendo fornecidos pela prefeitura do município de Assis Brasil.

- Precisamos aumentar a conscientização sobre a gravidade da situação para que o governo brasileiro amoleça o coração e abra a fronteira. Os haitianos não tinham conhecimento da decisão final do Estado brasileiro sobre a concessão de vistos de trabalho, pois já estavam em viagem rumo ao Brasil - acrescentou o padre Salízar.

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Doze crianças indígenas morrem no Acre com sintomas de diarreia, desidratação e febre

Altino Machado às 10:58 am
Criança indigena no centro de Sena Madureira (AC)

Criança indígena no centro do município de Sena Madureira (AC)

O secretário Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (MS), Antônio Alves de Souza, viajou nesta segunda-feira (23) para aldeias indígenas no município de Santa Rosa do Purus (AC), onde 12 crianças já morreram desde o dia 15 de dezembro do ano passado com sintomas  de diarreia, desidratação e febre.

O MS já contabilizou cerca de 186 casos notificados por Doença Diarreica Aguda (DDA), mas até o momento não foi confirmado caso ou óbito por rotavírus nas comunidades indígenas da região. Souza interrompeu suas férias para assumir o comando das ações emergenciais que estão sendo traçadas para conter um possível surto de DDA.

Centenas de indígenas de várias etnias acamparam durante cinco meses, entre 2010 e 2011, na porta da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), em Rio Branco, denunciando desvio de verbas e exigindo melhorias na assistência à saúde indígena prestada pelos governos federal e estadual no Acre.

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Índios do Acre protestam contra “descaso” no atendimento de saúde

Índios protestam no Acre contra atendimento de saúde nas aldeias

- Entregamos para as autoridades um documento com as reivindicações. Uma delas envolvia a parte de saneamento básico. Pedimos prevenção, muito mais que obras. Estipulamos prazos, mas até agora sequer recebemos um retorno - disse Francisco Ninawá Huni Kuin, um dos líderes do protesto.

Três equipes estão nas aldeias realizando investigações epidemiológicas e sanitárias, fazendo orientações preventivas e prestando ações assistenciais às populações indígenas da região  acometida pela DDA.

O secretário Especial de Saúde Indígena disse que o “plano estratégico emergencial” poderá ser efetivado como ações permanentes na região. Todo o esforço neste momento, segundo Souza, deve ser concentrado para que se evitem mais mortes pelo mesmo diagnóstico, que até o momento já somam 12 entre crianças com menos de dois anos de idade.

Na semana passada, uma equipe enviada pelo Ministério da Saúde desembarcou no Acre para dar início às investigações dos óbitos e de todos os casos notificados pela Secretaria de Saúde de Santa Rosa do Purus.

A equipe, composta de sete profissionais, somou-se aos técnicos do Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Purus (DSEI), que já trabalham em campo, num total de seis profissionais, e mais dois técnicos da Secretaria de Saúde do Acre, compondo no total 15 profissionais.

O Ministério da Saúde e a Secretaria de Saúde do Estado do Acre estabeleceram como estratégias para conter novos casos de DDA a reidratação imediata das crianças por meio de soro via oral e a distribuição de cerca de 150 filtros de barro para consumo de água às famílias das aldeias com incidência da doença.

A lista de insumos emergenciais inclui também a distribuição de hipoclorito às mães para o tratamento da água, suplemento alimentar para combater os casos de desnutrição infantil nas aldeias, aquisição de cestas básicas de alimentação e administração de vitamina “A” para crianças.

Menino ind�gena na margem do rio Iaco, em Sena Madureira

Menino indígena na margem do rio Iaco, em Sena Madureira

Fotos: Altino Machado/Terra Magazine

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domingo, 22 de janeiro de 2012

Volta pro navio, seu porra!

Altino Machado às 10:29 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Tirando o carimbó do Pinduca, o que é que o Amazonas tem que a Itália não tem? A resposta foi dada por um estudo comparativo entre o naufrágio do Costa Concordia em águas italianas do mar Tirreno, na última sexta-feira, 13 de janeiro, e o acidente de três embarcações que colidiram no Amazonas, num sábado, 18 de julho de 1953. A pesquisa encomendada pelo Data/Taquiprati explica porque o comandante Francesco Schettino abandonou o navio, sem prestar socorro aos passageiros, enquanto os capitães amazonenses resgataram cada uma das vítimas antes de salvar a própria pele.

Os pesquisadores analisaram minuciosamente a estrutura de cada embarcação, a rota percorrida, o perfil psicológico e profissional de seus comandantes, a formação técnica e a biografia de cada um deles, bem como os contatos externos que tiveram no momento da tragédia, procurando saber de quem teriam recebido orientação. Para isso, consultaram, no caso dos barcos amazonenses, os jornais da época e depoimentos de velhos que testemunharam o ocorrido e, no caso italiano, entre outros documentos, tiveram acesso à caixa preta do navio.

Caixa preta

Lançado ao mar em 2006, o Costa Concordia custou uma fortuna: 570 milhões de dólares. Podia transportar até 4.000 passageiros, para quem estavam disponíveis 1.500 camarotes, 5 restaurantes, 13 bares, 4 piscinas, quadras poliesportivas, sauna, banho turco, cinema, teatro, cassino, discoteca. Um luxo! No momento do naufrágio, navegava em água calma, numa rota conhecida que percorria, semanalmente, 52 vezes ao ano.

Seu comandante Francesco Schettino nasceu há 52 anos em Castellammare, perto de Nápoles. Cursou o Instituto Náutico de Piano di Sorrento, onde estudou matérias técnicas, mas também Ética - disciplina na qual obteve nota máxima depois de ter decorado todo o Código de Ética da Marinha Mercante. Começou a viajar em cruzeiros como oficial responsável – oh ironia! - pela segurança. Foi promovido a capitão em 2006. É casado, tem uma filha de 15 anos e, depois da tragédia, buscou o colo materno: a primeira pessoa que chamou por telefone foi sua mãe, dona Rosa, de 80 anos.

Bom filho e bom amigo, esse Schettino, que mudou a rota habitual do navio, só porque queria se exibir para um velho amigo seu, o ex-capitão Mario Palombo, que vive na ilha de Giglio. A manobra acabou fazendo com que o casco do navio batesse nas rochas e afundasse. “Cometi um erro na aproximação, ordenei a manobra tarde demais e acabei em parte muito rasa” – confessou Schettino. Um dos funcionários do navio confirmou: “A impressão é que ele estava dirigindo um ônibus como se fosse uma Ferrari”.

Embora o navio estivesse a poucas braçadas da costa, foi um “salve-se quem puder” e “o resto que se lixe”. O capitão Schettino, que devia ser o último a sair, vestiu o colete e, todo encagaçado, abandonou correndinho o navio, apesar de não correr qualquer risco de morte. Junto com ele se picaram o grego Dimitri Christidis - segundo comandante e a terceira no comando, Silvia Coronica.

Todo o comando deu vexame em cenas deprimentes e surrealistas. Parecia até o navio de luxo que serviu de palco para o funeral de uma cantora lírica no filme E la nave va dirigido por Fellini. Um dos personagens é um rinoceronte asqueroso, que deixava enorme fedentina por onde passava. Não seria surpreendente se ele pulasse das telas para o convés do Costa Concordia. Foi esse olor fétido que o mundo assistiu com o naufrágio responsável por 11 mortes, 21 desaparecimentos e muita covardia. Não foi isso que ocorreu no Amazonas.

Catraias manauaras

As embarcações que colidiram em Manaus, em 1953, faziam sempre a mesma rota, diariamente, dezenas de vezes. Eram três catraias que atravessavam um braço do rio Negro - o igarapé de São Raimundo – transportando para o outro lado as pessoas que iam trabalhar, estudar, passear, namorar no bairro de Aparecida ou no centro da cidade.  Naquela época, a catraia cobrava dois tostões por travessia e era o único ponto de ligação entre os dois mundos. Cada uma delas havia custado o equivalente a 600 dólares e tinha capacidade para carregar 15 passageiros.

O comandante da Sertaneja era o João Baú, cearense de idade indefinida, aleijado, sem pernas, que se deslocava com o corpo apoiado dentro de um caixote. Ele se revezava no remo com seu filho, o Facadinha.Quem comandava a Novo Amazonas era o Boca de Jóia, um cabocão parrudo, desdentado e de lábios caídos, de 50 anos, nascido em Parintins. A Rumo Certo era – digamos assim – a terceira nave, capitaneada pelo Chico Cururu, um antigo vendedor de vísceras e miúdos de boi. Dos três, ele era o único que havia aprendido a ler no Grupo Escolar Olavo Bilac, onde cursou até o 2º ano A do curso primário. Nenhum deles estudou ética.

Como ocorreu o acidente? Naquele sábado, o time dos bucheiros – o Sul América Sport Club - levando numerosa torcida, atravessou o igarapé para enfrentar, no campo do Hore, o Independência do bairro de Aparecida, na decisão disputadíssima de um torneio de vida e morte. Perdeu de 5 x 1, dois gols do Quinha, dois do Melado e um, de falta, do Paulo Lira, o maior ponta esquerda do mundo. O jogo terminou já no comecinho da noite debaixo de muita porrada. Jogadores e torcida correram, em fuga desordenada, para o porto das catraias.

Nem mesmo a Pinta, a Nina e a Santa Maria tiveram papel histórico tão relevante como a Rumo Certo, Novo Amazonas e Sertaneja, que acolheram homens, mulheres, crianças e idosos perseguidos por uma pequena multidão raivosa. As catraias ficaram apinhadas, cada uma com o dobro do limite máximo de passageiros. A travessia era mais demorada do que de costume por ser noite e porque o rio estava transbordando. Em 1953, o Amazonas enfrentava a maior cheia de sua história.

A noite era um breu. Os remos mal conseguiam se mover. Foi aí que as três canoas se chocaram, não aguentaram tanto peso e afundaram com cerca de 100 passageiros - alguns dos quais não sabiam nadar - nas águas do igarapé que recebia esgotos domésticos e efluentes industriais e tinha alto índice de coliformes fecais e metais pesados.

Fala Brasília

Sejamos honestos: a primeira reação dos comandantes – Chico Cururu, João Baú e Boca de Jóia – foi abandonar o barco, porque eles eram tão cagões quanto Francesco Schettino, eu e você, leitor (a).  Encagaçar é humano, mas persistir no encagaçamento é que é desumano. Eles se encheram de coragem quando ouviram um grito solidário que cortou a noite:

- Salvem primeiro as crianças, as mulheres, os velhos, e quem não sabe nadar!

Alguns dizem que o grito foi de Dazinha, a Adalgiza, enrolada na bandeira do Sul America que ela mesma havia bordado. Outros juram que o grito foi da Neca, a Ludinéia. O certo é que, independente da autoria, o grito foi escutado.

Assim foi feito, e ninguém morreu afogado, embora por haver mergulhado no coco e na merda, muita gente teve diarreia, colite, gastrite e outras doenças infecciosas. Os três catraieiros – Chico Cururu, Boca de Joia e João Bau – esse último nadando “cachorrinho” – parecem ter ouvido também o apelo do Pinduca num carimbó que ainda nem existia. O certo é que foram buscar o amor no lado de lá.

No caso do Costa Concordia, no lado de cá, um grito também cortou a noite: Gregorio De Falco, da Capitania dos Portos de Livorno, mandava o capitão Schettino voltar ao navio, numa ordem que no dia seguinte estava impressa em camisetas por toda a Itália envergonhada:
-  Vada a bordo, cazzo!

O comandante italiano, sem saber o que responder, telefonou para Brasília pedindo instruções ao EDEMA – Escritório das Desculpas Esfarrapadas Mais Absurdas. A caixa preta gravou um diálogo entre ele e vozes que ora parecem ser do Sarney, ora do Renan Calheiros, ora do Jader Barbalho ou de algum ministro defenestrado: - Negue sempre. Diga que você escorregou e caiu em um bote salva-vidas. Diga que está tudo escuro e você não vê nada.

Assim foi feito. O comandante, que devia ser o último a abandonar o navio, foi o primeiro. Como os ratos. Usou essa desculpa esfarrapada. Se ela sempre deu certo em Brasília, por que não daria com ele?

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO). Escreve no Taqui pra ti.

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sábado, 21 de janeiro de 2012

Polícia captura falso pastor que havia desaparecido com 14 índios da etnia paumari

Altino Machado às 2:40 pm

POR OIARA BONILLA

Paumaria na aldeia

Índios paumari num mutirão de limpeza na aldeia Crispim

Um homem que se apresentou como pastor e estava desaparecido há mais de uma semana com 14 índios da etnia paumari que vivem na aldeia Crispim, no Rio Purus, foi preso na noite de sexta-feira (20) no município de Canutama (AM) durante uma operação que envolveu a Polícia Civil e funcionários da Funai (Fundação Nacional do Índio) no Amazonas.

Antônio Alenquer Pereira Pontes, de 45 anos, que tem passagem pela polícia como estelionatário, estava sumido desde o dia 12 de janeiro, acompanhado de cinco adultos, sete adolescentes de 12 a 16 anos, um menino pequeno e um bebê de colo.

Leia mais:

No Amazonas, falso pastor desaparece com 13 índios da etnia paumari

Policiais civis e funcionários da Funai de Lábrea, Canutama e Humaitá, que participaram da operação, disseram que os indígenas aparentemente estão bem.

O falso pastor estelionatário será transferido de Canutama para Lábrea, onde será interrogado e possivelmente indiciado por aliciamento de menores. Os paumari também serão interrogados em Lábrea.

A Funai de Lábrea comandou a operação com policiais das três cidades. Enquanto em Lábrea continuavam investigando sobre os antecedentes de Antônio Alenquer Pereira Pontes, a policia de Canutama iniciava as buscas no Rio Mucuim, afluente da margem direita do Rio Purus.

Segundo relato do coordenador regional da Funai de Lábrea, Armando Soares, no trajeto a polícia encontrou os paumari. Os indígenas estavam todos juntos, se dirigindo para Canutama.

Indagados sobre o falso pastor, os indígenas informaram que o mesmo havia pedido para parar em uma comunidade ribieirinha chamada Belo Monte, na beira do Rio Purus.

Os funcionários da Funai e os policiais pediram que os paumari prosseguissem no caminho, mas permanecessem em Canutama, e seguiu na direção de Belo Monte, onde prendeu o falso pastor.

Ainda na noite de sexta, o falso pastor foi transferido para a delegacia de Canutama, onde aguarda transferência para Lábrea.

Oiara Bonilla é antropóloga, pesquisadora do Museu Nacional (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e trabalha junto aos Paumari desde 2000.

Fotos: Oiara Bonilla

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

“Podem curtir e cutucar, mas quero que evitem minha namorada”, pede dono da boate Facebook

Altino Machado às 1:35 pm
Humbert Camacho

Humbert Camacho: "Criei a boate depois de ter assistido ao filme Social Network"

Nesta sexta-feira (20), em Epitaciolândia, município do Acre com pouco mais de 15 mil habitantes, a 235 quilômetros da capital Rio Branco, é feriado por causa da festa de São Sebastião, o padroeiro da cidade.

Mas a data será marcada mesmo é pela inauguração da boate Facebook, na avenida Santos Dumont. Ela foi idealizada por Humbert Camacho, 30, que é dono de outra boate, Insomnio, em Cobija, capital do departamento boliviano de Pando. Epitaciolândia e Cobija estão separadas pelas águas do Rio Acre, mas conectadas por uma ponte de 50 metros.

A boate Facebook começou a ganhar visibilidade quando as primeiras fotos foram publicadas nas redes sociais e num blog do Acre, no começo de janeiro. Há duas semanas, de passagem por Epitaciolândia, o fotógrafo americano Douglas Engle captou imagens da fachada da boate.

Uma das imagens serviu para ilustrar a reportagem assinada por Tom Phillips, correspondente no Brasil do jornal britânico The Guardian, publicada na edição desta quinta-feira (19), intitulada “Facebook, the club: social networking on the dancefloor in Brazilian Amazon“.

O Facebook, segundo o Guardian, não comentou a existência da boate que leva o seu nome, se limitando a demonstrar surpresa: “Fica realmente na Amazônia?”.

O dono da boate é filho de um médico boliviano com uma brasileira. Em entrevista exclusiva ao Blog da Amazônia, Humbert Camacho contou que decidiu criar a boate Facebook depois de ter assistido ao filme “The Social Network”.

- Nunca imaginei que minha modesta boate fosse alcançar repercussão mundial. Vários veículos de comunicação, de dentro e fora do país, estão querendo me entrevistar antes da inaguração. A noite será muito diverti. Podem curtir e cutucar, mas quero que evitem Joseline, minha namorada - brinca Camacho.

Veja a íntegra da entrevista, sem edição

Camacho se diverte com a fama da boate

Camacho se diverte com a fama da boate

Interior da boate Facebook no dia da inaguração

Interior da boate Facebook no dia da inauguração

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Peru faz apelos para Brasil receber imigrantes haitianos na fronteira

Altino Machado às 9:47 am

DIRETO DE IÑAPARI

Jeanelus e a filha Belizaire

Jeanelus e a filha Belizaire

Autoridades de Iñapari, no Peru, passaram a fazer apelos para que o governo brasileiro receba um grupo de 162 imigrantes haitianos (124 homens e 34 mulheres) que ocupa o coreto da praça de armas da cidade de 1,2 mil habitantes.

Ao relento, sem apoio de grupos de defesa dos direitos humanos, os haitianos que estão em território peruano padecem de fome, não têm onde beber água e dormem sentados no chão, recostados na bagagem ou nos corpos de seus compatriotas.

- Nós não temos nada, mas aqui está melhor do que no Haiti. Perdemos tudo em nosso país, onde tudo permanece no chão desde o terremoto - afirmar Jeanelus Eslande, de 37 anos, enquanto capta água da chuva com uma garrafa de plástico.

Ex-empregada domésticca, Jeanelus deixou na casa de parentes um filho de seis anos de idade e se aventurou na longa viagem com esperança de ingressar no Brasil acompanhada da filha Belizaire Mirmathe, de 13.

- No Haiti, estamos morrendo de fome, doenças, e não temos trabalho. Querem nos mandar de volta para lá, mas o que vamos fazer no Haiti se vendemos tudo o que tínhamos para chegar até aqui? - indaga a mulher, que dormiu com a filha, ambas escoradas na mala que carregam.

Iñapari é separada pelo Rio Acre do município de Assis Brasil, a 345 quilômetros de Rio Branco, a capital acreana. Na quarta-feira (18), quando havia apenas 120 haitianos do lado peruano, os imigrantes tentaram atravessar a Ponte da Integração, mas foram barrados por agentes da Polícia Federal, que pedi reforço da Força Nacional para enfrentar a situação.

Os 162 imigrantes que estão em Iñapari saíram do Haiti antes do dia 12, quando o governo brasileiro decidiu pela emissão limitada de vistos de trabalho para haitianos e determinou o reforço policial na fronteira com a Bolívia, Perua e Colômbia.

O visto terá caráter especial e será concedido pelo Ministério das Relações Exteriores, por intermédio da embaixada do Brasil em Porto Príncipe, capital do Haiti.

Uma resolução do Conselho Nacional de Imigração prevê que poderão ser concedidos até 1,2 mil vistos por ano, correspondendo a uma média de 100 concessões por mês.

No coreto de Iñapari, haitianos sonham com o Brasil

No coreto de Iñapari, haitianos sonham com o Brasil

O governou brasileiro alega que o objetivo da medida é regularizar a situação dos imigrantes haitianos que têm entrado no país pelo Acre e pelo Amazonas. Segundo o Ministério da Justiça, foram quatro mil no ano passado.

O grupo que se encontra na praça de Iñapari já estava em viagem quando o governo brasileiro decidiu praticamente fechar a fronteira. Na quarta, em carta enviada ao prefeito de Iñapari, os haitianos deixaram claro que o destino deles é o Brasil.

- Nós estamos de passagem somente, porque nosso objetivo é chegar ao Brasil, em busca de melhores condições de vida, já que nosso país está devastado pelo  terremoto. Não temos nem água para tomar banho nem para beber e já estamos adoecendo por causa disso.

Na carta, os haitianos pediram aos peruanos hospedagem, comida e água como ajuda humanitária. Depois que os imigrantes foram barrados e enviaram a carta, autoridades brasileiras e peruanas se reuniram em Iñapari no dia seguinte.

Segundo informações da Direção de Migrações de Puerto Maldonado, uma da regiões mais pobres do Peru, mais haitianos estão a caminho de Iñapari, onde as autoridades não contam com recursos financeiros nem infraestrutura para ajudá-los. A presença dos haitianos já é considerado um problema social na pequena cidade.

O superintendente da Polícia Federal no Acre, José Calazane, participou da reunião junto com o delegado Edilson Barbosa. A PF permitirá apenas o ingresso de haitianos que apresentarem passaporte com visto obtido na Embaixada Brasileira em Porto Príncipe.

- Nós temos que cumprir uma decisão de estado. Não estamos autorizados a permitir o ingresso de imigrantes que deixaram o Haiti antes da decisão do governo brasileiro. Dependemos agora de uma decisão da presidente Dilma. Só ela para resolver o impasse - disse o superintendente Calazane.

As autoridades peruanas informaram que todos os haitianos presentes em Iñapari são considerados imigrantes legais, pois  ingressaram no Peru com vistos de turistas. Eles poderão permanecer no país até um ano.

Os peruanos pediram com insistência para que a Polícia Federal permita o ingresso dos haitianos em território brasileiro. Eles também defenderam que a diplomacia dos dois páises devem buscar um solução humanitária para o problema.

- Com homens e mulheres impedidos de passar para o Brasil, porque na ponte está a Polícia Federal vigiando, está criada uma crise humanitária na fronteira. Esperamos que as negociações com o governo do Brasil prosperem e os haitanos possam ingressar no país - comentou o padre peruano René Salizar, de Iberia, que atua num grupo de defesa dos direitos humanos na fronteira.

Os haitianos têm agido com honestidade ao tentarem passar pelas barreiras policiais, especialmente quando alcançam a fronteira brasileira.

Existem centenas de caminhos dentro da floresta que conduzem às margens do Rio Acre. A Polícia Federal jamais vai dispor de homens suficientes para garnecê-los.

A partir de qualquer um desses pontos, bastaria os haitianos atravessarem o rio para alcançarem o território brasileiro.

Brasiléia

Café dos imigrantes em Brasiléia

Café dos imigrantes em Brasiléia

Ainda existem 550 imigrantes haitianos no município de Brasiléia, na fronteira com a Bolívia. Diferente dos que estão em Iñapari, estão abrigados, se alimentam três vezes ao dia e várias empresas passaram a disputar a contratação dos imigrantes.

Nesta semana, a construtora Odecrecht levou 40 haitianos para uma obra no Mato Grosso. Entre eles estava um jovem de 24 anos que fala fluentemente cinco idiomas e que nos últimos meses lecionava português para os compatriotas nos finais de semana.

A Romena, uma indústria de massas de Gravataí (RS), contratou 14 haitianos. A empresa pagou as passagens aéreas dos imigrantes do Acre ao Rio Grande do Sul. Tem sido cada dia mais frequente a presença de empresários ou seus representantes selecionando haitianos para o trabalho.

O fazendeiro Antonio Carlos Franganiello Melhem e o filho, Thadeu, agrônomo, se destacam na praça central de Brasiléia, que passa o dia ocupada por homens e mulheres haitianos. Pai e filho conversaram com dezenas de imigrantes ávidos por informações.

- Saiba que sou primo do Wálter Fanganiello Maierovitch, que também escreve em Terra Magazine. Vivo em Sete Barras, perto de Registro, a 200 quilômetros de São Paulo. Estou aqui porque quero sangue novo trabalhando comigo - disse o fazendeiro em entrevista exclusiva ao Blog da Amazônia.

Fotos e vídeo: Altino Machado/Terra Magazine

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Policiais do Brasil e Peru encurralam haitianos sobre ponte na fronteira

Altino Machado às 3:18 pm
Haitianos deuixando o Acre na semana passada

Haitianos deixando o Acre na semana passada

Um grupo de aproximadamente 100 imigrantes haitianos está encurralado desde sábado (14) sobre a ponte binacional que liga o município de Assis Brasil (AC) a Iñapari, no Peru, tentando ingressar em território brasileiro.

A polícia do Peru pressiona para que os haitianos prossigam viagem rumo ao Brasil e não permite que percorram o território peruano de volta ao Haiti. Do lado brasileiro, agentes da Polícia Federal impede a entrada dos haitianos.

A TV Gazeta, de Rio Branco, exibiu imagens dos haitianos sobre a ponte, e relatou o clima de tensão. Segundo a emissora, funcionários da imigração peruana teriam estabelecido prazo para que os haitianos se retirem de Iñapari.

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Os haitianos estão na pequena cidade peruana estão há três dias sem se alimentar. Outros 600 haitianos ainda permanecem em Brasiléia. Agentes da Polícia Federal intensificaram nos últimos dias a fiscalização na fronteira do Acre com o Peru e com a Bolívia para impedir a entrada de haitianos.

A determinação de barrar os imigrantes haitianos partiu do governo federal foi comunicada à Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre, que deixou de oferecer comida e abrigo aos que chegarem a cidade de Brasiléia.

- A situação é tensa. Estou triste com a decisão do governo brasileiro - afirmou o representante da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre, Damião Melo.

O representante do governo do Acre disse que todos os dias chora ao ouvir relatos de sofrimento dos imigrantes haitianos que buscam trabalho no Brasil.

- Temos um haitiano aqui há três meses. Ele hipotecou a casa no Haiti e deixou lá a mulher e os filhos. Não tem mais dinheiro e o banco vai tomar a casa dele. É uma situação muito triste, embora meu telefone não pare de tocar com empresários de todas as partes do Brasil querendo contratar mão-de-obra haitiana - disse Melo.

Foto: Altino Machado/Terra Magazine

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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Haitanos hoje, nós amanhã?

Altino Machado às 12:14 pm

POR FOSTER BROWN

A imigração de haitianos ao Brasil, especialmente à cidade de Brasiléia (AC), precisa de contexto, pois a entrada deles no País é uma questão nacional e a situação deles uma questão universal de direitos humanos.

As dimensões populacionais e econômicas do Brasil e do Haiti são extremamente diferentes. O Brasil tem uma população equivalente a quase vinte vezes a do Haiti e um PIB trezentos vezes maior.

O PIB per capta brasileiro é quatorze vezes maior do que o PIB per capta haitiano.   Este ultimo dado explica um dos motivos para a migração: pobreza profunda no Haiti quando comparado ao Brasil.

Mas ainda assim o Haiti é um pais pequeno: a soma de todos os haitianos em Haiti e em outros países é menos do que a população do Rio de Janeiro metropolitano.

Os fluxos atuais de imigrantes são também de escalas bem diferentes. O Ministério das Relações Exteriores lista cerca de três milhões de brasileiros vivendo no exterior, isto é, são imigrantes em outros países. Brasileiros na Bolívia são cerca de 50 mil, com 200 mil no Paraguai. Em comparação, se fala de quatro mil haitianos no Brasil.

Em outras palavras, existem mais de dez vezes mais brasileiros na Bolívia e cinqüenta vezes mais brasileiros no Paraguai do que haitianos aqui. Dentro de fluxos chegando ao Brasil, a diáspora haitiana é ainda pequena.

Em comparação, nos primeiros seis meses de 2011, mais de 300 mil portugueses regularizaram os seus passaportes para trabalhar no Brasil, mais de setenta vezes o número de haitianos que chegaram em 2011.

Apesar da entrada de haitianos sendo uma gota de água na escala nacional, ela tem um impacto significativo no estado do Acre, especialmente nos municípios gêmeos de Brasiléia e Epitaciolândia.

Mil haitianos em cidades onde se mede a população numa escala de dez mil é uma concentração muito alta, afetando a capacidade dessas cidades na área de hospedagem, comida e apoio de saúde.

Sem ajuda do governo estadual, teria entrado em colapso a capacidade de Brasiléia e Epitaciolândia de apoiar o influxo de haitianos. Mesmo assim,  o pagamento de centenas de marmitex por dia esgotou o orçamento da Secretaria Estadual de Justiça e dos Direitos Humanos.

Algo semelhante aconteceu em abril na fronteira, na cidade peruana de Iñapari, quando o Brasil fechou a fronteira temporiamente aos haitianos.

O acúmulo de cinqüenta haitianos arrebentou a capacidade da cidadezinha de mil habitantes.  Doações individuais e o apoio da igreja católica conseguiram contornar a situação, oferecendo somente uma refeição por dia para os haitianos, mas por pouco tempo.

Imigrantes haitianos, em geral, sabem pouco do Brasil. Em entrevistas, muitos citaram a seleção brasileira e a construção para a Copa Mundial em 2014 como atraentes, além de ter ouvido falar do crescimento econômico do país.

Alguns citaram o tratamento humano de imigrantes que o Brasil faz como fator. Porém, poucos imigrantes haitianos conhecem outros países, além da República Dominicana, que faz parte da mesma ilha.

A única referencia para muitos é os Estados Unidos, onde residem 500 mil haitianos, e 1,3 milhão de brasileiros. Eles têm uma noção de quanto um trabalhador ganha nos EUA e muitos pensam que seria igual ou melhor no Brasil. Leva tempo para compreenderem a realidade brasileira.

A violação de direitos humanos parece como uma doença contagiosa que agrava com o tempo.  Quando se abusa um grupo, a tendência é o abuso se multiplicar e espalhar para todos. No caso dos haitianos, eles faziam a trajetória da estrada Interoceânica entre Puerto Maldonado e Iñapari.

Para baixar o custo de transporte até Brasiléia, os haitianos passavam, via Bolívia, com a ajuda de coiotes. Nos últimos meses, iniciou-se uma série de roubos sistemáticos de haitianos no percurso em territórios do Peru e Bolívia. Em semanas mais recentes, houve relatos de tentativas de estupros de mulheres haitianas neste percurso e até a observação de defuntos na floresta.

O agravamento das violações colocou urgência em buscar soluções e evitar que os delitos fiquem impunes. Um grupo de pessoas do Madre de Dios (Peru), Acre (Brasil) e Pando (Bolívia), conhecida como Iniciativa MAP de Direitos Humanos, reuniu em dezembro, em Iñapari, para abordar as violações.

O grupo fez as seguintes recomendações:

1. Que os órgãos oficiais do Governo do Acre e do Governo Federal do Brasil registrem as testemunhas de violações de direitos humanos aos haitianos em seu trajeto desde o Haiti até o Acre (Brasil) e compartilhem estas informações com as organizações de defesa de direitos humanos de Pando-Bolívia e de Madre de Dios-Peru, exigindo desses países o compromisso de realizar uma investigação direcionada aos atores dos delitos e à prevenção de futuros.

2. Existem grupos de haitianos que não querem permanecer o Brasil, o que nos permite sugerir que o Governo brasileiro selecione as pessoas que não desejam permanecer no Brasil para que os mesmos tenham prioridade na concessão de um visto de ingresso e assim possam seguir seu trajeto até seu destino final (geralmente Guianas).

3. Alertar os governos do Peru, da Bolívia e do Brasil sobre esta situação para que não se criem novas crises humanitárias devido ao fechamento das fronteiras.

4. Que os três países exijam da Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti (MINUSTAH), que a ajuda humanitária que vem sendo enviada para a reconstrução do Haiti seja empregada de maneira transparente e destinada para o seu fim, que é a reconstrução do país e melhoria das condições de vida de sua população, buscando evitar futuras crises humanitárias.

5. Que as autoridades dos três países identifiquem demandas de mão de obra em empresas e concedam vistos temporários de trabalho para os haitianos que desejam permanecer e trabalhar no país, e que as empresas garantam estas  fontes de trabalho.

Vários dos participantes estão reunidos novamente nesta terça-feira (17) no salão paroquial da Igreja Católica, em Brasiléia, para juntar as informações coletadas e acompanhar o que os autoridades de Bolivia e de Peru vão fazer em relação à primeira recomendação.

Hoje a situação de deslocamento é dos haitianos. Amanhã, quem sabe? O potencial de desastres ambientais que podem causar migrações está aumentando na região.

Os incêndios florestais de 2005, algo inédito para Acre e repetidos em 2010, deram uma pequena amostra do que pode acontecer nos próximos anos com secas prolongadas.

Espero que possamos aprender com a experiência dos haitianos para minimizar o sofrimento em migrações futuras. Afinal, pode ser a gente procurando abrigo.

Foster Brown é geoquímico, pesquisador do Woods Hole, professor da Universidade Federal do Acre, cientista do Experimento de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazonia (LBA) e membro da Iniciativa MAP de Direitos Humanos.

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