Terra Magazine

sábado, 31 de dezembro de 2011

Bolívia não se rende à “festifuderia”

Altino Machado às 4:38 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Nos anos 1940-50, a gastronomia não tinha pressa, nem agonia, buscava cada iguaria, ali, no lugar onde se vendia: pão na padaria, leite na leiteria, peixe na peixaria, pastel na pastelaria, doces na confeitaria, outros alimentos na mercearia. No entanto, logo que acelerou a economia - vixe-maria!- começou a louca correria. Passou a se comer pizza na pizzaria. E fast food? Na festifuderia. É lá, onde o afobado come cru e qualquer porcaria. Mantendo a rima fácil, eu te perguntaria, por que a Bolívia não é “bolivía”? É o que a seguir veremos, sem qualquer nostalgia.

Tudo começou quando a “festifuderia” criou um novo estilo de preparar e consumir alimentos. Os restaurantes recebem e estocam toneladas de comida processada e plastificada, o que lhes permite produzir em massa num piscar de olhos. Seu carro-chefe é o hambúrguer – um bloco compacto de carne bovina moída e frita, de cheiro duvidoso de cadáver, cheia de sebo e gordura, imprensada dentro de duas fatias de pão, com alface, tomate, ketchup, mostarda ou maionese. Mas tem também o cheeseburger e outros burgers, comprovando que fast food = easy money.

“O mundo inteiro vai comer burgers” – decidiram, de olho no lucro rápido e não na saúde dos consumidores, as cadeias de restaurantes e lanchonetes americanas que se espalharam por todo o Planeta. A maior delas – McDonald’ s – abriu um quiosque num subúrbio de Chicago, em 1955, e hoje tem mais de 30 mil lojas em 120 países do mundo, servindo burgers diariamente a 50 milhões de clientes. A segunda é o Burger King de Miami, atualmente com 12 mil pontos de venda em 70 países.

Essas cadeias globalizaram a alimentação. Os burgers invadiram todos os recantos, até a antiga cortina-de-ferro: Hungria, Polônia, Ucrânia, Bielorússia, Tchecoslováquia e regiões tão distantes como o Curdistão e a Turquimênia. O McDonald’ s abriu enorme restaurante em Moscou – apelidado de McKremlin e, em Pequim, inaugurou o maior de todos com mais de 700 assentos – o McMao. Os restaurantes, com o mesmo design e a mesma comida, são conhecidos na Índia, Japão, Europa, Nova Zelândia, Austrália, Egito e outros países da África, na América do Sul e em todas as bibocas do Planeta.

O McLanche

Em todas? Quer dizer, em quase todas, porque na Bolívia o buraco é mais embaixo. Ou mais em cima. Lá nos Andes, no teto do mundo, os burgers entraram, forçaram a barra, permaneceram 14 anos, mas acabaram de levar um sonoro pontapé na bunda e se retiraram, derrotados, conforme noticiado por Pátria Latina editado pelo jornalista baiano Valter Xéu. Na semana passada, os gringos fecharam os oito restaurantes nas três principais cidades da Bolivia: La Paz, Cochabamba e Santa Cruz de La Sierra e saíram com o McRabinho entre as pernas. Só tiveram prejuízos.

Acontece que ninguém os freqüentava, viviam às moscas. Os marqueteiros fizeram tudo para reverter a situação. Desencadearam milionária campanha publicitária, com jingles e imagens coloridas da festifuderia e dos burgers. Tudo inútil. Os bolivianos, nem seu Souza. Os gringos inventaram, então, o McLanche Feliz, uma estratégia agressiva que junta à merenda plastificada um brinde com personagens conhecidos pelas crianças. Quem compra um burger, ganha um brinquedinho de plástico. Mas ninguém deu bola.

Na Califórnia, a lei considera manipulação indevida e proíbe promoção desse tipo, se o alimento em questão não atender às exigências nutricionais, o que é o caso, embora, ao contrário do que se possa supor, o burger não é letal, pelo menos em termos imediatos. Fora da Bolivia, muita gente come e, apesar disso, consegue sobreviver, não morre, dando razão à tese de que “o que não mata, engorda”.

E engorda mesmo. Dez adolescentes americanos que juntos pesam uma tonelada estão processando o McDonald’s por seus problemas de saúde. O fast food é o responsável pelo grave problema da obesidade que se alastra como uma epidemia, porque é uma alimentação – digamos assim - pobre em fibras, mas com alta concentração de caloria, açúcar, sal e gordura, grande parte dela transgênica ou de óleos parcialmente hidrogenados, que aumentam o risco de ataque cardíaco e provocam um ganho de peso rápido.

O que não mata, engorda, mas o que engorda, mata. O food é fast, porém a morte é lenta, já que a obesidade está relacionada a várias doenças: câncer do estômago, do cólon e de mama, diabetes, artrite, pressão alta, derrames e problemas cardíacos, que estão levando à morte na Inglaterra, inclusive crianças entre 6 e 10 anos, conforme denúncias do jornalista americano Eric Schlosser, em seu livro “O País do Fast Food”, lançado em 2001.

A McEmpanada

No entanto, não foi por isso que o boliviano esnobou o burger, conforme constataram os gringos, que procuraram saber por que estavam operando no vermelho por mais de uma década. Ouviram sociólogos, economistas, antropólogos, nutricionistas, historiadores, educadores, cozinheiros, consumidores. Descobriram que os bolivianos, simplesmente, preferiam a “empanada” de carne ou de verdura, o tamal de milho e, no lugar de refrigerantes, o despepitado, o mocachinchi e a orchata, à base de frutas ou bebidas quentes como o mate de coca e o api, bebida doce feita com milho.

Um consultor ou assessor sugeriu que se criasse, então, a McEmpanada e o McTamal, numa adaptação à cultura local como fizeram na Índia, onde os lanches são feitos com vegetais ou carne de carneiro, por ser a vaca um animal sagrado, mas isso se revelou inviável pela incompatibilidade na forma de preparar. Os conceitos de comida são diametralmente opostos. Os andinos são mais refinados, têm muito arraigada a noção de que a comida, para ser boa, requer, além do sabor, dedicação, higiene e muito tempo na preparação, o que contraria o estilo vapt-vupt da fast food.

A massa da empanada saltenha, por exemplo, é preparada um dia antes e, depois de socada, é envolvida numa toalha úmida. Fica repousando e refrigerando a noite toda. O recheio, às vezes, leva três dias sendo temperado com ají, cominho, orégano, cebola picada, cebolinha, ervilha cozida, geléia de mocotó, tutano, batata, uva passa, azeitonas pretas fatiadas – aquelas enormes de Arequipa, de sabor inconfundível.

É por isso que na Bolívia não tem o menor espaço para o fast food. Nem foi preciso fazer como na rebelião dos jovens, na França, em agosto de 1999, quando liderados por Joseph Bové, os manifestantes depredaram um McDonald’s em Milau, considerando-o responsável pela difusão da “malbouffe” –  comida avaliada como prejudicial do ponto de vista dietético. Bové pegou três meses de cadeia e quando saiu começou um movimento de educação culinária nas escolas. Na Bolívia, isso não foi preciso. Eles já são educados e se limitaram, apenas, a não consumir. Só com isso, derrotaram o monstro.

O boliviano prefere comer o pão que o diabo amassou, mas não come cru.  Foi assim que a Bolívia, que não é “bolivía”, conseguiu se constituir no primeiro território livre de festifuderias, uma vitória de David contra Golias. Aos leitores, um ano novo com empanada, tacacá, acarajé, abará e muito xis caboquinho, lembrando que nas aldeias indígenas também não tem McPaca nem McMacaco.

Viva a Bolívia! Vivam as empanadas!

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO). Escreve no Taqui pra ti.

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8 Comentários »

  1. Meu Deus, como eu gostaria que isso acontecesse no Brasil. Infelizmente é impossível. O povo brasileiro é (como dizem meus filhos) “pagä päu” de americano; o q é “bom” pra eles deve ser pra nós também.
    Detesto os McLanches e os BigBurguers tto qto a BibEsfiha e sempre duvidei da higiene utilizada na sua confecção.
    NÃO FREQUENTO, NÃO CONSUMO E NÃO RECOMENDO, mas confesso q passo no Drive Thrue de qwdo em vez pra comprá-los pros meus filhos, à pedido deles.
    Q NOJO.

    Comentário por Alessandro — sábado, 31 de dezembro de 2011 @ 11:54 am

  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    O mequidônaudes se festifodeu…

    Comentário por Boliviano — segunda-feira, 2 de janeiro de 2012 @ 6:52 pm

  3. Apesar de também não gostar deste tipo de refeição, duvido muito que se parte da população boliviana tivesse uma condição econômica melhor, estas lojas teriam fechado.

    Comentário por sossegão — quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 @ 2:23 pm

  4. Eu tenho duas teorias muito mais realistas:

    1) Evo Morales esta falindo o pais e as pessoas mal tem dinheiro para sobreviver, tampouco vão ter dinheiro para faze um lanchinho fora com a família.

    2) Evo Morales não respeita a propriedade privada, e já provou isso nacionalizando diversas industrias, entre elas a Petrobras, lembram? Pois bem, o risco do McDonald’s perder suas lojas no pais devido aos caprichos de um governo discricionário não compensam o pequeno lucro.

    Comentário por Realista — quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 @ 2:56 pm

  5. Eu estive na Bolívia em 1997, pouco após a inauguração de duas lojas do McDonald’s em Santa Cruz de la Sierra. Fazia o maior sucesso com a garotada. Acredito, como alguém falou aí em cima que a rede de lanchonetes não vingou porque seus preços são impraticáveis num país pobre e que empobreceu ainda mais na última década.

    Existem muitas salteñerías por lá, e realmente é um alimento gostoso. Mas assim como tudo no comércio, umas abrem e permanecem, outras fecham com pouco tempo.

    “Os andinos são mais refinados, têm muito arraigada a noção de que a comida, para ser boa, requer, além do sabor, dedicação, higiene e muito tempo na preparação, o que contraria o estilo vapt-vupt da fast food.”
    Higiene!?!? Faz-me rir. Na Bolívia, sobretudo na parte andina, higiene é o que mais falta entre a população nativa e seus quiosques.

    Textinho desonesto e maniqueísta esse, hein!

    Comentário por Rolando — quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 @ 3:00 pm

  6. Ai o Realista, vai estudar. É ÓBVIO que o Evo “não respeita a propriedade privada”, assim como o Chavez e o Fidel, se entendermos “propriedade privada” como braços do imperialismo estadunidense, e que o projeto político deles é ABERTAMENTE ANTICAPITALISTA (ainda que com as evidentes incongruências, uma vez que não são projetos internacionalizados, e são obrigados a conviver com o capital inimigo). Tem mais é que acabar com isso tudo mesmo de fast-food, essas cadeias de exploração dos trabalhadores, assassinas dos clientes e que só dao lucro pros american motherfu****. Enquando não dá pra ma t a r a burguesia, a gente fica assistindo quem tem coragem.

    Comentário por Aletheia — quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 @ 3:09 pm

  7. É isso aí, Aletheia. Voce falou pouco mas falou bonito. Aproveito para lhe convidar para comer uma saltenha na feira boliviana que ocorre todos os domingos em SP. As barracas de alimentos são super higiênicas (mas convem que voce traga alguma erva desenvolvida pelos nossos indios para conter a sua dor de barriga). E a empresa do papai, vai bem ?

    Comentário por sossegão — quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 @ 3:49 pm

  8. McShit. Quem ainda tem coragem de comer essa porcaria?
    O fast-food caminha para o mesmo abismo das indústrias tabagistas.
    Há pouco tempo tempo atrás li no BMJ (www.bmj.com) que os EUA estão chegando à primeira geração de idosos que comeram fastfood na infancia, fato concomitante ao crescimento nos casos de câncer no trato digestivo-urinário das pessoas com mais de 60 anos. Há enormes possibilidades desta JUNK-FOOD estar criando condições favoráveis ao surgimento de câncer em que as consome. Isso é prova nova, mas sabemos há séculos que é uma comida com sabor apelativo sem nenhuma base nutricional.

    Acredito que todos devem ter conhecimento pleno dos riscos causados à saúde por alimentos como estes. A escolha de comer de cada um deve ser respeitada.

    Comentário por Marcio — quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 @ 6:08 pm

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