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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Na pior seca dos últimos 40 anos, nível do Rio Acre baixa para 1,57m

Altino Machado às 11:55 am
Bombeiro conserta motor de barco no meio do rio

Bombeiro conserta motor do barco no meio do rio

O Rio Acre, que enfrenta a pior seca dos últimos 40 anos, amanheceu nesta quarta-feira (31) com apenas 1,57m de profundidade. O menor volume de água registrado antes (1,64m) pela Defesa Civil do Acre foi em setembro de 2005, quando a estiagem amazônica na região leste do Estado resultou em mais de 200 mil hectares de florestas devastados por megaincêndio.

O nível do rio Acre, em abril, chegou a 15,89m. Bairros foram inundados e mais de 1,7 mil famílias ficaram desabrigadas. A Defesa Civil Estadual tem expectativa de que o nível do rio baixe até 1,48m, antes de começarem as chuvas do inverno amazônico, a partir de outubro.

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O Rio Acre banha os municípios de Assis Brasil, Brasiléia, Epitaciolândia, Xapuri, Porto Acre e Rio Branco, a capital. Ele é a principal fonte de abastecimento de água das cinco cidades, mas todas lançam seus esgotos no leito do rio.

O Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco (Saerb) usa bombas flutuantes para garantir o abastecimento de água tratada. As bombas da estação de captação estão inativas porque não conseguem mais alcançar o nível da água.

As autoridades municipais pedem para que a população economize água, mas negam que haja risco de racionamento. Desde maio, o Saerb instalou uma segunda bomba flutuante para atender a capital e pretende instalar outra porque o nível do rio não estabilizou.

Esgoto do Parque da Maternidade, no centro de Rio Branco

No centro de Rio Branco, esgoto do Parque da Maternidade é lançado no rio Acre

A situação do rio se agrava a cada ano. Na Universidade Federal do Acre (Ufac), um grupo de pesquisadores se dedica a realizar estudos sobre a mata ciliar pela recuperação das características ambientais da Bacia Hidrográfica do Rio Acre.

Segundo os pesquisadores, na mata ciliar está a resposta para grande parte do comportamento dos rios. As informações científicas indicam que existe estreita relação entre o equilíbrio hidrológico dos rios, em especial na Amazônia, e as condições de degradação das suas respectivas matas ciliares.

O professor Ecio Rodrigues, especialista em manejo florestal e desenvolvimento sustentável, afirma que haverá maior tendência ao desequilíbrio, mediante ocorrência constante de enchentes e secas extremas, sempre que a mata ciliar for estreita demais ou se encontrar em estágio avançado de degradação.

- A cada hectare de mata ciliar que é desmatado para a criação de ½ boi, conforme a lamentável produtividade da pecuária na região, ampliam-se as chances de escassez de água para a população urbana abastecida pelo rio - avalia Rodrigues.

Assuero Veronez, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Acre e vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, contesta os argumentos de que a situação do Rio Acre esteja relacionada ao modelo de ocupação da região.

- Atravessar o Rio Acre a pé não é novidade. Durante a Revolução Acreana, quando o Acre foi tomado da Bolívia, os soldados liderados por Plácido de Castro fizeram isso, em 1902. Está relatado no livro de Genesco de Castro, irmão de Plácido - afirma Veronez.

Rio Acre, no centro de Rio Branco

Rio Acre, no centro de Rio Branco

Fotos: Altino Machado/Terra Magazine e Marcos Vicentti/Divulgação

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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Deputado ganha R$ 1,8 milhão por mês com transporte no Rio Madeira

Altino Machado às 10:21 am

DIRETO DO DISTRITO DE ABUNÃ (RO)

Roberto Dorner é o "dono" do rio

Roberto Dorner é o "dono" do rio

O deputado Roberto Dorner (PP-MT), 63 anos, possui quatro outorgas de autorização concedidas pelo governo federal para explorar serviço de transporte de passageiros, veículos e cargas na navegação de travessia em três rodovias federais na Bacia Amazônica.

A outorga mais lucrativa do parlamentar, empresário, agricultor e pecuarista, é no Rio Madeira, no distrito de Abunã (RO), a 280 quilômetros de Rio Branco (AC), passagem obrigatória de quase tudo que entra ou sai via BR-364, a única que liga as demais regiões do País ao extremo-oeste brasileiro.

Há 23 anos, três balsas operam dia e noite na confluência dos rios Madeira e Abunã, onde o faturamento médio de Roberto Dorner é avaliado em R$ 60 mil por dia ou R$ 21,6 milhões ao ano. Até 1988, o transporte de passageiros, veículos e cargas no local era de responsabilidade do Exército.

Catarinense de Bom Retiro, Dorner assumiu como suplente o mandato em decorrência do licenciamento do deputado Pedro Henry. Ele é presidente do Sindicato Marítimo de Rondônia. No Mato Grosso, lidera o Grupo Roberto Dorner de Comunicação, que possui emissoras de TV em Sinop, Cuiabá e Rondonópolis.

As quatro outorgas para transporte de travessia, por tempo indeterminado e em regime de liberdade de preços, foram concedidas pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), ligada ao Ministério dos Transportes.

A Antaq chegou a autorizar Dorner, como empresário individual, a atuar no transporte de travessia no Rio Madeira, em Porto Velho (BR-319), no Rio Abunã (BR-364) e em Humaitá (BR-230), no Amazonas.

Desde o ano passado, o deputado usa também as empresas Amazônia Navegações Ltda., na milionária outorga na divisa do Acre com Rondônia, e a Rodonave Navegações Ltda, em outro trecho da Transamazônica, sobre o Rio Tapajós, nos municípios de Itaituba e Mirituba, ambos no Pará.

A mina do transporte de travessia no País abrange 130 operadores que trabalham em 89 pontos interestaduais, internacionais ou em diretrizes de rodovias federais.

Há vários anos a operação da empresa de Roberto Dorner no Rio Madeira tem gerado críticas e queixas de usuários em relação à falta de segurança, à cobrança de tarifas excessivas e à má qualidade dos serviços prestados.

A tabela do pedágio para travessia no distrito de Abunã isenta apenas pedestres e ciclistas. Os valores variam de R$ 3,80 (animais) a R$ 130,00 (carreta tremião de nove eixos, carregada). A travessia de cada automóvel pequeno custa R$ 19,00 e dos ônibus R$ 46,00.

TABELA

Tabela de preços exibe nome de Roberto Dorner

O governo federal financia há mais de quatro décadas, no Acre, a construção da controversa BR-364, que liga Rio Branco, a capital, a Cruzeiro do Sul, no ponto mais ocidental do País.

Além disso, financiou a pavimentação da BR-317 até Assis Brasil, na fronteira com o Peru e a Bolívia. O trecho da rodovia no Acre foi batizado de Estrada do Pacífico, mas o Estado permanece praticamente isolado.

De Rio Branco a Cruzeiro do Sul, já foram construídas mais de 20 pontes pequenas, médias e grandes, que somam mais de três quilômetros de vão, mas a ponte sobre o Madeira não passa de projeto.

De seis em seis meses, no auge da estiagem amazônica, a travessia em balsas é prejudicada pela falta de água no Madeira. Longas filas de automóveis, ônibus e caminhões se formam com produtos e pessoas.

A Comissão de Viação e Transporte, da Câmara dos Deputados, chegou a aprovar por unanimidade, em 2008, uma emenda inicial de R$ 36 milhões para construção da ponte sobre o Madeira para atender o Acre e Rondônia. A ponte, cujo valor é estimado em R$ 500 milhões, teria mais de um quilômetros de extensão, mas o edital da obra foi cancelado em julho.

- Cancelaram o edital sob a alegação de que o projeto precisa de revisão do Tribunal de Contas da União e da revisão do nível do Madeira em decorrência da barragem das hidrelétricas que estão sendo construídas em Rondônia - comenta Marcos Alexandre, diretor do Departamento de Estradas e Rodagens do Acre.

Políticos, empresários e comerciantes, do Acre e Rondônia, passaram a acusar o deputado Roberto Dorner de operar nos bastidores contra a construção da ponte sobre o Madeira. O descontentamento ganhou força nos últimos dias por causa da intensidade da estiagem na região.

Balsas lotadas cruzam o Madeira dia e noite

Balsas lotadas cruzam o Madeira dia e noite

O Acre poderá a voltar a ficar isolado, como no ano passado, por causa da seca do Madeira. As balsas de Dorner, que fazem a travessia, já começaram a encalhar nos bancos de areia. A pressão é para que seja agilizada a abertura de canais de navegação com uso de dragas e acelerado o processo para a construção da ponte.

O diretor da Amazônia Navegações, Gerson Nava, disse que a responsabilidade pela abertura de canais de navegação no Madeira é do Ministério dos Transportes, mas que a empresa mesmo assim contratou máquinas para o serviço.

- O que está existindo é muita fantasia de político incompetente. Os políticos do Acre, por exemplo, preferem o discurso fácil quando dizem que a nossa empresa tenta inviabilizar a construção da ponte. Em Porto Velho, onde também temos outorga, existe uma ponte em construção, na BR-319, que liga a capital rondoniense a Humaitá, no Amazonas. A ponte em Abunã depende apenas de uma decisão do Ministério dos Transportes e nós não temos interferência nenhuma nisso - afirma Nava.

O senador Jorge Viana (PT-AC) ocupou a tribuna nesta terça-feira (29) para anunciar que o diretor técnico do Ministério dos Transportes, Pedro Brito, concorda com o afastamento imediato da empresa do deputado Roberto Dorner para melhorar a prestação do serviço no porto de Abunã.

- Não adianta insistir com a atual empresa. Ela tem, talvez, o melhor negócio do mundo. Algumas contas falam e, são números que o cálculo tem que ser empírico, mas quem conhece a realidade como nós conhecemos, fala em faturamento acima de um R$ 1 milhão por mês. Ela cobra o pedágio mais caro do país em troca de um serviço irregular e lento - afirmou.

Segundo Viana, existem interesses atuando dentro do governo para que se mantenha o serviço de balsas no Rio Madeira sob controle da iniciativa privada.

- Esses interesses adiam, como tem ocorrido nos últimos 10 anos, a construção da ponte. Ou seja, a BR-364 está ficando pronta, mas sequer é feita a licitação da ponte sobre o Madeira.

Coordenador da banda bancada federal do Acre, o senador petista Aníbal Diniz considera o assunto  de “extrema gravidade”, pois interesses econônimos e sociais do Estado estão sendo preteridos em benefício de uma empresa.

- Nós vamos atuar no sentido de convencer o Ministério dos Transportes a realizar, o mais rápido possível, a licitação para início da construção da ponte sobre o Madeira e também pedir uma solução paliativa neste verão amazônico. O nível da água baixou muito e o Acre começa a ter problemas de abastecimento

A reportagem fez várias tentativas para ouvir o deputado Roberto Dorner. A assessoria dele se limitou a informar que o parlamentar está afastado das empresas e que não gosta de falar sobre o assunto porque costuma ser mal interpretado pela imprensa.

Emarque numa das balsas de Roberto Dorner

Embarque numa das balsas de Roberto Dorner

Fotos: Roberto Dorner/ Divulgação e Altino Machado/Terra Magazine

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domingo, 28 de agosto de 2011

O tambor do caboco suburucu

Altino Machado às 10:30 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

“Charapa” é o nome que no Peru e no Equador se dá a um cágado que vive nos rios, lagos e floresta da Amazônia. Essa espécie de tartaruga, de casco negro com manchas amarelas, corresponde ao nosso tracajá. É com essa palavra que os peruanos denominam todos aqueles que nascem na região amazônica.

Nascido em Iquitos, em 1943, o poeta Manuel Morales é um ‘charapa’, um ‘tracajá’ autêntico, do tipo “caboco suburucu, popa de lancha e bandeira azul”. Ele ganhou vários prêmios de poesia, entre os quais o primeiro lugar nos Juegos Florales Universitários de 1967, organizado pela Universidade Nacional de Educação, conhecida como La Cantuta.

Nessa época, publicou dois livros: Peicen Bool (1968) e Poemas de entrecasa (1969), editados por La Cantuta. Enquanto viveu no Peru, esse caboco suburucu integrou o Movimento Hora Zero, que congregava os poetas de sua geração. Mas logo depois, nos anos 1970, viajou para o Brasil, vivendo por mais de trinta anos em Porto Alegre (RS), onde morreu no dia 2 de outubro de 2007, aos 64 anos, longe dos amigos peruanos, mas cercado por tocadores de tambor, flauta, violão e cavaquinho.

Continuo intrigado sem saber bem por que nós, da Amazônia brasileira, desconhecemos os nossos vizinhos de outros países amazônicos, de cujo convívio salutar estamos privados, apesar da proximidade geográfica e cultural. Lendo o poema de Manuel Morales intitulado ‘Si tienes um amigo que toca tambor´, pensei que os brasileiros gostariam de conhecê-lo. Por isso, publiquei há vinte anos uma tradução desse poema, que quero uma vez mais compartilhar com os leitores para tentar, dessa forma, derrubar alguns tijolos do muro que nos separa.

“Se tens um amigo que toca tambor
Cuida bem dele!
É mais que um conselho: cuida bem dele!
Porque hoje em dia ninguém mais toca tambor.
Pior ainda: ninguém mais tem um amigo.
Então, cuida bem dele,
Que esse amigo guardará tua casa.
Mas não o deixes sozinho com tua mulher, lembra-te
Que ela é tua mulher e não de teu amigo.
Se segues este conselho, viverás
Muito tempo. E conservarás a tua mulher
E um amigo que toca tambor.

Uma carta de Manuel Morales enviada do Brasil ao seu amigo Tulio Mora, que também é poeta, foi publicada recentemente num periódico de Lima. Nela, ele se declarava ainda vinculado, mesmo de longe, ao movimento Hora Zero:

“Te digo que escrever é viver. A poesia é, portanto, um estado de reconstrução e nominação dos elementos do mundo. Vocês dirão: Manuel Morales viveu longe e nos esqueceu. Não é verdade. Tenho orgulho de ser um militante de Hora Zero, o movimento que ajudamos a construir para que a poesia não seja uma farsa”.

Outro poema de Manuel Morales, publicado na Antologia da poesia peruana, organizada por Alberto Escobar, se intitula ‘Usos son de la guerra’, algo assim como ‘São os costumes da guerra’, e guarda o mesmo humor refinado.

“No amor e na cama,
Napoleão foi um fracasso.
Não digo o mesmo
na guerra. Seu êxito
consistia em envolver o inimigo.
E a França o teve
como seu filho mais dileto;
e lhe deu fama
e suas mais formosas mulheres.
Tão grande na estratégia
e com um pênis tão pequeno, na cama
mandavam suas mulheres. (A vitória
se deveu a seus generais).

O voo do Sarney

Havia pensado em conversar hoje com os leitores sobre a presepada do presidente do Senado José Sarney, que viajou de férias de São Luís para sua ilha particular, em Curupu, num helicóptero da Polícia Militar do Maranhão, um modelo comprado por R$ 16,5 milhões, com recursos públicos do Ministério da Justiça, destinado ao uso exclusivo da segurança e saúde.

O voo do Sarney, que deu carona a Henry Dualibe Filho, um empresário de “ficha duvidosa” segundo a Folha de São Paulo, acabou prejudicando o transporte e o socorro a um doente, um pedreiro acidentado que teve de aguardar numa maca, em outro helicóptero, até ser transportado para a ambulância.

Quando deram um flagra nele, vestido de branco, com uma boina, cercado por funcionários da PM que carregavam suas bagagens e caixas de isopor, Sarney teve o cinismo de declarar que tem direito a transporte de representação em todo o território nacional. Foi apoiado pelo vice-líder da governadora Roseana Sarney, o deputado Magno Bacelar, do Partido Verde, que respondeu agressivamente:

- Vocês queriam o quê? Que o presidente do Senado fosse andar em jumento? Esse helicóptero, é claro, tem que servir os doentes, mas tem que servir as autoridades, esta é a realidade.

José Ribamar Sarney é o atraso do atraso do atraso. Só podia usar esse helicóptero, se fosse para ser conduzido à prisão. Enquanto ele exercer qualquer tipo de poder, o Brasil não deixará de ser uma República das Bananas. Decididamente, não se faz mais Ribamar como antigamente. Lula, que em campanha eleitoral havia chamado Sarney de corrupto, vai ficar devendo essa para a História do Brasil: tê-lo ressuscitado.

Peço desculpas ao leitor, mas prefiro me refugiar na poesia. O Sarney me dá nojo, talvez porque sua existência mostra que nós brasileiros, que convivemos com tanto cinismo, somos uns vermes, por permitirmos que a máquina pública do Estado seja apropriada por coronéis de barranco como Sarney, dono do Maranhão, o estado mais pobre e miserável do Brasil. Que país é esse?

Retorno a Manuel Morales, o nosso caboco suburucu, para concluir com outro poema dele, intitulado “No busquen una pátria”.

“Não busque uma pátria
Que contenha rosas. Hoje
As rosas não existem mais. Só existe
Uma pátria na palma do peito
E outra no centro do olho.
Continuem buscando rosas. Encontrarão
Um balaço no peito
E outro
No centro do olho”.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO). Escreve no Taqui pra ti.

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sertanista explica por que matou onça-pintada na fronteira Brasil-Peru

Altino Machado às 10:53 am

POR JOSÉ CARLOS DOS REIS MEIRELLES
Direto da Frente de Proteção Etnoambiental, na fronteira Brasil-Peru

Oi,

Altino, é bom que se diga que a morte da onça seja creditada a mim e a nossos mateiros.

Se o cachorro não estivesse dormindo a cinco metros de dois soldados que estavam de guarda, fora de casa, teríamos um soldado da Força de Segurança Nacional morto ou gravemente ferido.

Leia mais:

Onça é morta a tiros ao atacar base da Funai na fronteira Brasil-Peru

As pessoas criadas na cidade, que pouco conhecem de mata, podem nos achar uns predadores. Só que por aqui ou você preda ou é predado.

Não dá pra levar um papo com a onça na porta de casa. As onças aqui não falam português. A vida por aqui pode ser dura e seca. Às vezes você tem que decidir se mata ou morre.

Fiz o e-mail e mandei as fotos pra você na tentativa de mostrar o quanto somos vulneráveis, pois nem arma podemos portar, oficialmente.

A natureza por aqui nos coloca ora caçadores, ora caça. Não tem meio termo, dardinho tranquilizante, ou telefonema pro Ibama.

Além dos traficantes que resolveram estar por aqui, nas terras dos isolados.

Se puder e quiser, gostaria que você esclarecesse isso.

E que o pessoal da Força Nacional de Segurança não ajudou, em hora nenhuma, a matar a dita onça.

Uma pintada rosnando ao matar um cachorro a cinco metros deles, parece ser uma situação nova. O susto foi bem grande.

Um abraço.

Foto: José Carlos dos Reis Meirelles/Divulgação

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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Mais um agricultor é assassinado no Pará; é a sétima vítima na Amazônia desde maio

Altino Machado às 6:27 pm

O agricultor Valdemar Barbosa de Oliveira, 54 anos, mais conhecido por Piauí, foi assassinado a tiros na manhã desta quinta-feira (25), na periferia de Marabá, sudeste do Pará. Em maio, seis pessoas foram assassinadas em decorrência da luta pela posse da terra na Amazônia.

Piauí, a sétima vítima, morreu quando trafegava numa bicicleta. Ele foi atingido por balas disparadas por dois pistoleiros que estavam numa moto e usavam capacetes.

A Polícia Civil do Pará informou que já começou a investigar o assassinato. Piauí era casado e residia no bairro Nova Marabá.

Segundo a polícia, o agricultor foi abordado por dois homens em uma moto quando chegava de bicicleta em um balneário conhecido por Geladinho, localizado no bairro São Félix.

Os criminosos mandaram a vítima descer da bicicleta e atiraram à altura do rosto e pescoço.

- Não posso falar nada sobre a investigação neste momento - disse  o delegado de Conflitos Agrários de Marabá e Redenção José Humberto de Melo Júnior.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) informou que Piauí era sócio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Marabá. Ele coordenou por vários anos um grupo de famílias que ocupava a fazenda Estrela da Manhã em Marabá.

A fazenda não foi desapropriada e ele voltou para a cidade, onde ajudou a organizar uma ocupação urbana na Folha 06, no bairro onde estava residindo.

Segundo a CPT, o agricultor não desistiu de lutar por um pedaço de terra. Há mais de um ano passou a coordenar um grupo de famílias que ocupava a Fazenda Califórnia no Município de Jacundá.

No final do ano passado as famílias foram despejadas da fazenda pela Polícia Militar do Pará. Piauí não perdeu o contato com as famílias e ameaçava voltar a ocupar novamente a fazenda.

De acordo com informações obtidas pela CPT, a Fazenda Califórnia está localizada a 15 km de Jacundá e, além de pecuária, é envolvida com a atividade de carvoaria.

- Pistoleiros teriam sido contratados pelo fazendeiro para impedir uma nova ocupação do imóvel. O assassinato de Piauí pode ter ligação com a tentativa de reocupação da fazenda - avalia a CPT.

A organização, ligada a igreja católica, assinala que após o assassinato dos extrativistas José Cláudio e Maria do Espírito Santo, Piauí é o quarto trabalhador assassinado com fortes indícios de que os crimes tenham sido por motivação agrária, ou seja, disputa pela terra.

- Após três meses, apenas os assassinatos dos extrativistas de Nova Ipixuna foram parcialmente investigados. Dos seis homicídios, ninguém foi preso até o momento. O comportamento da Polícia Civil do Pará tem sido de investigar as vítimas e não os responsáveis pelas mortes, quando se tatá de crimes no campo - critica a CPT.

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Justiça obriga empresas aéreas a reduzir tarifas para remarcação de passagens

Altino Machado às 12:18 pm

As empresas Tam, Gol, Cruiser, TAF e Total estão obrigadas, a partir desta quinta-feira (25), a reduzir em 10% o valor das tarifas cobradas para remarcação ou cancelamento de passagens. A decisão judicial foi publicada no diário oficial eletrônico da Justiça Federal na 1ª Região.

Caso os pedidos de cancelamento ou de remarcação das passagens aéreas forem feitos em até 15 dias antes da data da viagem, a taxa máxima permitida é de 5% sobre o valor da passagem.

Se a solicitação for feita nos 15 dias que antecedem a data do voo, a tarifa máxima só pode chegar a 10%, decidiu o juiz federal Daniel Guerra Alves.

As empresas terão que devolver aos consumidores os valores cobrados além desses limites. A devolução deverá ser feita em todos os casos ocorridos desde 5 de setembro de 2002.

Se não cumprirem essas decisões, as companhias aéreas terão que pagar R$ 500 para cada caso de negociação irregular.

A Justiça também determinou que as empresas paguem indenização por danos morais coletivos equivalente a 20% dos valores cobrados ilegalmente. A indenização vai para um fundo de defesa dos consumidores, conforme previsto em lei.

O processo tramita na 5ª Vara Federal em Belém (PA). Segundo levantamento do Ministério Público Federal, autor da ação, em 2007, quando o caso foi encaminhado à Justiça, as taxas para remarcação ou cancelamento de passagens chegavam a 80% sobre o valor dos bilhetes.

Na época, as empresas Sete, Puma, Meta e Rico não foram processadas porque assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) comprometendo-se a atender as exigências feitas pelo MPF.

Na sentença judicial, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) foi obrigada a fiscalizar o cumprimento das medidas. O plano de fiscalização tem que ser apresentado em até 120 dias depois que os prazos de recursos contra a decisão judicial tiverem se esgotado.

Se o plano não for apresentado, o funcionário da Anac responsável pela fiscalização geral da execução dos contratos de transporte de passageiros ficará sujeito a multa de R$ 2 mil por dia.

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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Terremoto de 7 graus, no Peru, faz tremer o Acre

Altino Machado às 3:39 pm

Um terremoto de 7 graus na escala Richter, com epicentro perto de Pucallpa, no Peru, foi registrado nesta quarta-feira (24) pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (veja), próximo da fronteira com o Brasil.

O terremoto foi sentido de Rio Branco, a capital do Acre, até Cruzeiro do Sul, no extremo-oeste do país, às 13h46 local (14h46 em Brasília).

- Eu estava dentro do carro e tive que parar porque estava com dificuldade para continuar guiando. Foram dois tremores muito fortes. As pessoas ficaram assustadas e abandonaram casas e prédios - relatou Dudé Lima, assessor do governador Tião Viana (PT), que está em Cruzeiro do Sul, dois minutos após o abalo.

Leia mais:

Novo terremoto atinge o AC, na fronteira com o Peru

Terremoto no Peru assusta os moradores do Acre

Terremoto de 4,5 graus em Santa Rosa do Purus (AC)

Em Rio Branco, o tremor também casou pânico. Funcionários abandonaram vários prédios públicos e comerciais.

- Eu estava sentada numa cadeira, rezando, quando o lustre começou a balançar. Tive vontade de gritar dizendo que estava acontecendo um terremoto, mas me contive. Fiquei receosa de que em casa pudessem pensar que eu estava doida ou tonta - disse a aposentada Maria Machado, que em seguida confirmou o terremoto com seus vizinhos.

A região da fronteira Brasil-Peru frequentemente é atingida por terremotos. O epicentro do terremoto foi a 85 quilômetros de Pucallpa e a 205 quilômetros de Cruzeiro do Sul.

- A  população está toda fora dos prédios aqui em Cruzeiro. Realmente a cidade precisa de uma ponte anti-terremoto - contou o radialista Pablo Cândido, referindo-se a uma ponte inaugurada recentemente na BR-364, sobre o Rio Juruá, que banha a cidade.

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Onça é morta a tiros ao atacar base da Funai na fronteira Brasil-Peru

Altino Machado às 12:16 pm

Homens da Força Nacional de Segurança (FNS) e da Funai (Fundação Nacional do Índio) mataram na noite desta terça-feira (24) uma onça que atacou e matou uma cadela da base da Frente de Proteção Etnoambiental, na fronteira Brasil-Peru, habitada por quatro etnias que vivem em isolamento.

- A coisa aqui está braba e ainda acham que nós, que trabalhamos na mata, devemos andar desarmados. Mais essa agora. Que a mãe natureza nos perdoe e o Ibama não nos processe - pondera o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles.

A onça matou a cadela na escada da porta da casa da base da Funai.

- Além dos traficantes, ainda tem desses bichinhos. Alguém em sã consciência quer morar aqui sem nenhuma arma? Ou devemos telefonar pro Ibama quando ela entrar em casa? Ou ligar pra Funai? - indaga o sertanista.

Fotos: José Carlos dos Reis Meirelles/Divulgação

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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Na Amazônia Legal, 93 km² foram desmatados em julho, diz Imazon

Altino Machado às 4:00 pm

A Amazônia Legal sofreu 93 km² de desmatamento em julho, de acordo com dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), divulgados nesta terça-feira (23) pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente  da Amazônia (Imazon).

Houve redução de 40% em relação a julho do ano passado quando o desmatamento somou 155 km². A maioria do desmatamento ocorreu no Pará (41%), Mato Grosso (23%), Rondônia (18%), Amazonas (14%), e o restante no Amapá, Acre e  Tocantins.

O desmatamento acumulado no período de agosto de 2010 a julho de 2011, correspondendo aos doze meses do calendário atual de desmatamento, totalizou 1.628 km². Houve aumento de 9% em relação ao ano anterior (agosto de 2009 a julho de 2010) quando o desmatamento somou 1.488 km².

As florestas degradadas (intensamente exploradas pela atividade madeireira e/ou queimadas) somaram 116 km². A degradação florestal acumulada no período de agosto de 2010 a julho de 2011 totalizou 6.389 km².

Em relação ao período anterior (agosto de 2009 a julho de 2010) houve aumento expressivo (241%) quando a degradação florestal somou 1.873 km².

O Imazon afirma que o desmatamento detectado pelo SAD em julho comprometeu 6,6 milhões de toneladas de CO² equivalente - uma redução de 27% em relação a julho de 2010.

Considerando os doze meses do calendário atual de desmatamento (agosto de 2010 a julho de 2011), Mato Grosso lidera o ranking com 37% do total desmatado no período. Em seguida aparecem o Pará com 26%, Rondônia (21%) e Amazonas (11%).

Os quatros Estados foram responsáveis por 95% do desmatamento ocorrido na Amazônia Legal naquele período. O restante do desmatamento (5%) ocorreu no Acre, Roraima, Tocantins e Amapá.

Houve aumento de 9% no desmatamento ocorrido em agosto de 2010 a julho de 2011 quando comparado com o período anterior, de agosto de 2009 a julho de 2010.

Em termos relativos, houve aumento de 800% no Tocantins, 106% em Rondônia, 76% no Mato Grosso, 15% no Amazonas, e 6% no Acre. Mas houve redução de 84% em Roraima e 40% no Pará.

Em termos absolutos, Mato Grosso lidera o ranking do desmatamento acumulado com 603 km², seguido por Pará (423 km²), Rondônia (338 km²), e Amazonas (187 km²).

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domingo, 21 de agosto de 2011

Cante lá que eu canto cá

Altino Machado às 10:21 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Atirei no que vi e acertei o que não vi. Foi aqui em Natal (RN), de onde escrevo. Vim participar de um evento acadêmico - o 6º. SIGET - Simpósio Internacional de Estudos dos Gêneros Textuais, seja lá o que isso signifique – e acabei encontrando, inesperadamente, festas, folguedos, brincantes, mamulengo, literatura de cordel, bois de reis, pastoril, maracatu, dança de roda, ciranda, shows, exposições, podendo escolher entre mais de 400 apresentações, tudo isso por conta da programação do mês da cultura popular, celebrado em agosto.

Dei sorte de estar na terra de Luís da Câmara Cascudo agora, às vésperas do dia do folclore, que se comemora nesse 22 de agosto. Cai na gandaia. Assisti a vários espetáculos, entre os quais o teatro de bonecos de Heraldo Lins, mamulengueiro conhecido em todo Brasil, e o boi de reis do bairro do Bom Pastor, ambos no terreiro do Museu do Homem Missioneiro Potiguar, que organizou ainda o II Ciclo de Palestras com uma mesa redonda sobre “A Cultura da tradição nos tempos modernos”, da qual tive o privilégio de participar.

Criado em 1995 por Hélio de Oliveira, historiador e restaurador, esse museu comunitário localizado em Pium, distrito de Parnamirim, reconstitui um aldeamento missioneiro do século XVII, com 46 casas, uma igreja e um chafariz, numa organização retangular do espaço, com as casas voltadas para o grande terreiro, respeitando a estrutura arquitetônica, as fachadas, a tecnologia de construção, o material empregado e as cores. Fazem parte do seu acervo uma coleção de peças arqueológicas, mobiliário, objetos da cultura da tradição, artes visuais e utensílios domésticos.

Papel do avô

O Museu convidou para a mesa redonda a diretora do Memorial Câmara Cascudo, Daliana Cascudo Roberti Leite, a historiadora e antropóloga da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), doutora Wani Fernandes Pereira, a mestre em Ciências Sociais, Maria das Graças Cavalcanti e esse locutor que vos fala.

Coube a doutora Wani algumas reflexões teóricas sobre os conceitos de tradição e contemporaneidade, apresentados às vezes como se estivessem numa relação de oposição, ou de concorrência ou até mesmo como se fossem complementares. Afinal, qual é a fronteira entre a tradição e a modernidade? “Jamais fomos modernos”- disse a palestrante, citando o antropólogo Bruno Latour, para quem se fossemos modernos, não estaríamos opondo de forma tão radical natureza e cultura.

Ela defendeu o diálogo entre os saberes da tradição e os saberes da cientificidade, como uma estratégia para as futuras gerações. Estabeleceu ainda uma relação entre os dois conceitos em questão, tomando por referência uma leitura dos conjuntos de objetos que compõem o acervo do Museu Câmara Cascudo, da UFRN, no qual ela foi professora e pesquisadora.

Esse foi o gancho para Daliana, a segunda palestrante, que traçou a trajetória pessoal e intelectual de Câmara Cascudo, seu avô, cujo papel foi central na reflexão sobre cultura popular. Ele foi um precursor no estudo do folclore e um pesquisador da cultura tradicional, autor de mais de cem livros e de cerca de 150 artigos publicados em revistas especializadas. Em conversa antes da palestra, manifestamos curiosidade sobre o comportamento de Câmara Cascudo como avô. A neta lembrou então a definição que ele costumava dar:

- Avô é um burro brabo, que o filho amansou para o neto poder montar.

Na ocasião, foi lembrado ainda o espetáculo “Cascudo: Canta lá que eu conto cá” – encenado pelo grupo Trotamundos Companhia de Artes ao longo do mês de agosto no Parque das Dunas. Trata-se de uma viagem ao universo imaginário do conto, baseada na obra de Câmara Cascudo, adaptada à linguagem do teatro de bonecos, embalado ao som da música nordestina.

Esse espetáculo discute o ato de contar histórias, que acompanha o ser humano desde os tempos ancestrais, bem como as funções dessas narrativas orais de armazenar e transmitir conhecimentos e tradições. Ele faz parte de um projeto de extensão da UFRN que pretende elaborar um inventário da oralidade potiguar baseado nos estudos de Câmara Cascudo, pesquisando e documentando os registros orais na região do Agreste.

Da Dadi ao Dadá

O teatro de bonecos, conhecido no Rio Grande do Norte como João Redondo, foi o tema da terceira palestrante, Maria das Graças Cavalcanti, autora do livro “Dadi e o Teatro de Bonecos: memória, brinquedo e brincadeira”, cujo lançamento ocorreu no início de agosto. O fio condutor do livro é a história de vida da calungueira, fazedora de bonecos, Maria Ieda da Silva Medeiros, 72 anos, conhecida por Dadi, residente em Carnaúba dos Dantas.

- Menina, essa brincadeira é de homem – disse a mãe de Dadi, quando viu a filha, ainda muito pequena, encantada com o teatro de bonecos. Naquele momento, Dadi pensou em desistir, mas felizmente acabou dedicando toda sua vida a esculpir bonecos coloridos de luva com acessórios variados. Além de confeccioná-los, constrói narrativas em forma de diálogo entre os personagens, quando conta histórias de trancoso, diálogos amorosos, fuxicos, e até incorpora a linguagem da televisão, tudo feito com muito humor e poesia.

“Memórias de bonecos no exílio” foi o tema abordado por esse locutor que vos fala, que traçou um breve histórico do Teatro de Bonecos Dadá, feito por Euclides Coelho de Souza e Adair Chevonika de Souza. O casal fazia teatro de bonecos em Curitiba, de 1962 a 1964, quando levava seus espetáculos em sindicatos, colégios, praças e ruas e participava da alfabetização de adultos com o método Paulo Freire.

Depois do golpe militar de 1964, os dois foram processados sob a acusação de promoverem “o ensino de marxismo-leninismo a crianças de três anos”. Condenados, tiveram que se exilar no Chile e depois no Peru, onde retomaram suas atividades de bonequeiros.

O palestrante, que foi agregado ao Teatro Dadá no exílio, falou sobre diversas peças brasileiras montadas no Peru e na França, incluindo a adaptação de uma história recolhida por José Maria Arguedas, nos Andes, intitulada Sueño Del Pongo, encenada no Festival Mundial de Teatro de Marionetes na França. O Dadá demonstrou, no exílio, a capacidade criativa da cultura popular brasileira e sua universalidade, ao fazer dialogar a força da oralidade do teatro de bonecos do Brasil com línguas e linguagens de outros países.

As atividades culturais programadas no agosto da alegria em Natal acabaram atraindo a atenção de pesquisadores de diferentes países da Europa, América e Austrália, participantes do 6º SIGET, que ouviram a voz de Patativa do Assaré: “Poeta cantor de rua, que na cidade nasceu, cante a cidade que é sua, que eu canto o sertão que é meu”.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO). Escreve no Taqui pra ti.

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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Google e ONG levam a tecnologia do Street View para a Amazônia

Altino Machado às 5:33 pm
asasa

Equipe do Google no Rio Negro

O Google Street View, funcionalidade do Google Maps que oferece aos usuários da web a oportunidade de explorar digitalmente diversas cidades e lugares por meio de fotos em 360°, tem agora um novo desafio: levar imagens do Rio Negro e de suas comunidades, na Floresta Amazônica, para todo o mundo.

Conhecido como “Street View na Amazônia”, o projeto será realizado em parceria com a Fundação Amazonas Sustentável (FAS), uma ONG que promove educação, apoio social, econômico e ambiental para as comunidades locais. Será uma oportunidade única de compartilhar a beleza do ambiente e da cultura local com o mundo.

A primeira fase já começou e terá duração de três semanas. As imagens do Rio Negro serão capturadas por barcos com o trike acoplado - um triciclo com câmeras. Próprio para locais que não são acessíveis por carros, o veiçulo também será utilizado para mapear as comunidades da região.

Uma equipe composta por funcionários do Google e da FAS em uma ação educativa capacitará moradores das comunidades para operar o trike. Os moradores convidaram o Google para fotografar o interior de diversos lugares das comunidades, como os centros cívicos e escolas. Depois da coleta, as imagens serão processadas e disponibilizadas aos usuários gratuitamente através do Street View.

- Esta parceria inédita com a Fundação Amazonas Sustentável vai tornar possível nosso projeto de treinar e preparar os moradores das comunidades para captar imagens da Amazônia - afirma Karin Tuxen-Bettman, líder do time de Geolocalização do Google.

Segundo Karin Tuxen-Bettman, assim que todas as imagens estiverem no ar, serão compartilhadas a cultura e a beleza de locais da Amazônia com qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo.

Virgílio Viana, superintendente geral da FAS, acredita que proporcionar ao mundo essa experiência de um tour interativo dentro da Floresta Amazônica, destacando as peculiaridades da vida e cultura da população local, é mais do que apenas entretenimento.

- Isso assume um papel de extrema importância na conscientização sobre os desafios de conservação, desenvolvimento comunitário e sustentabilidade na Amazônia. Esperamos que esta iniciativa fomente outras parcerias que também possam unir a alta tecnologia com a sabedoria dos moradores da Floresta.

Clique aqui para saber mais sobre o Street View.

Fotos: Google/Divulgação

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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Força Nacional não busca invasores da área dos índios isolados no Acre

Altino Machado às 10:10 am

POR JOSÉ CARLOS DOS REIS MEIRELLES
Direto da Frente de Proteção Etnoambiental Xinane, na fronteira Brasil-Peru

Senhores,

Em toda a minha vida profissional de 40 anos de trabalho com os índios, isolados ou não, sempre soube a hora de calar, de respeitar hierarquia.

Soube também protestar a meu modo, quando necessário, a meu modo, jeito e responsabilidade. Pois agora é a hora de gritar, e alto! Embora isso signifique, como já aconteceu quando fui demitido da Funai, na criação da SBI que protestava contra o regime militar da época, a favor dos índios.

Lá vou eu, depois de velho, de novo.

A Frente Etnoambiental do Rio Envira, no Acre, como todos sabem, foi tomada por uma força paramilitar estrangeira, composta de traficantes e provavelmente acompanhados de índios recém contatados do Peru.

A Polícia Federal veio à nossa base, pensava eu, de acordo com plano que junto com ela fizemos em Rio Branco, de duas equipes, uma acima da base e outra abaixo, pousadas de helicóptero a distancia não audível dos invasores da base, que viriam por terra, na esperança de prendê-los.

O plano não foi executado. Sobrevoaram a base antes disso, de helicóptero, espantaram os caras. Uma equipe pousou na Aldeia Simpatia e subiu o rio. Foi resgatada antes de chegar na base. Outra pousou na base.

Nossos mateiros seguiram um rastro e entregaram o Sr. Joaquim Fadista, português que anteriormente foi preso aqui mesmo e deportado para o Peru, apesar se ser procurado por tráfico internacional de drogas, inclusive no Brasil. Voltou e foi preso de novo.

Satisfeita, a Polícia Federal abandonou a base, como se a missão estivesse toda realizada. Uma pequena equipe, Sr. Carlos Travassos, coordenador da CGIIRC/FUNAI, Artur Meirelles coordenador da Frente, Francisco de Assis (Chicão, mateiro), Francisco Alves de Castro ( Marreta, mateiro) e  José Carlos Meirelles ( Governo do Estado do Acre), por decisão unânime, resolveram vir para a base, que era de novo abandonada.

A Polícia Federal lacrou a base. No outro dia que chegamos estava tudo arrombado de novo. Os peruanos continuavam aqui. Vimos vestígios de menos de 15 minutos.

Veio de Rio Branco o Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Acre. Foram feitas pequenas incursões. Encontramos acampamentos, mochila dos peruanos com pedaço de flecha dos isolados dentro. O Bope vai e vem a Força Nacional, sem ordem de se afastar a 500 metros da base.

Nestes dias de Força Nacional, sempre se escuta tiros em locais próximos à base, à noite, com características de arma de bala e não de cartucho.

Esta noite mesmo, foram ouvidos três disparos, de um lado e de outro do rio. A Força Nacional está esperando o Exército, que deveria aqui chegar no dia seguinte à invasão da Base, ocorrida há quase um mês.

E ninguém ainda se dispô a bater realmente estas matas e desvendar o que realmente estas pessoas, que continuam aqui, fazem e querem. Não temos acesso ao depoimento do português. Parece que é propriedade da Polícia Federal.

Há tempos, desde 2007, temos alertado sobre a exploração ilegal de madeira, do outro lado da fronteira, em reserva de isolados no Peru, a reserva Murunahua.

Agora, tudo leva crer que além de madeireiros, temos traficantes de drogas. E pelo andar da carruagem, como se diz aqui pelas matas, parece que estão botando roçados. Ou seja, não tem a mínima intenção de ir embora. Afinal, ninguém os perturba. Nós da Funai, do governo do Acre e os mateiros, que ganharam um presente da Funai: foram dispensados, mas estão aqui por opção. O risco é por nossa conta, somos pagos ou não pra isso.

Os índios isolados da região, verdadeiros donos desse pedaço de Amazônia, não tem nada com isso. E serão eles, com certeza, mais uma vez que pagarão o maior preço pela invasão de suas terras por um grupo  de traficantes e sabe-se lá mais que personagens.

Não dá mais pra esperar calado. Não vou mandar abraço pra ninguém. Meu coração está apertado. Quando sinto essa sensação, dificilmente erro.

José Carlos dos Reis Meirelles é sertanista

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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Força Nacional protege área dos índios isolados no Acre; ONG faz apelos ao governo do Peru

Altino Machado às 1:55 pm

Homens da Força Nacional de Segurança (FNS) já estão na base da Frente de Proteção Etnoambiental, mantida pela Funai (Fundação Nacional do Índio), no igarapé Xinane, na fronteira Brasil-Peru, habitada por quatro etnias que vivem em isolamento.

A FNS substitui os seis homens do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Acre, que foram enviados para a área após a base da Funai ter sido atacada por grupos paramilitares peruanos. Sem data definida, a FNS será substituída pelo Exército.

Leia mais:

Acre enfrenta “situação de crise”, avalia Secretaria Nacional de Segurança Pública

Comissão Pró-Índio pede presença das Forças Armadas no Acre

Funai suspeita de matança de índios isolados por paramilitares peruanos

Tião Viana teme violência de mercenários peruanos contra os índios isolados

Grupo paramilitar peruano cerca equipe da Funai em território brasileiro

Grupo paramilitar peruano invade território no Acre

- Agora, no auge do verão amazônico, quando os isolados estão espalhados pelas beiras dos igarapés, comendo peixes, vamos começar a dar uma olhada nas cabeceiras dos igarapés pra ver se os peruanos estão escondidos por lá, esperando a poeira baixar - relatou o sertanista José Carlos dos Reis Mereilles.

O sertanista disse que “é hora de a Funai ter uma relação estreita e forte com as embaixadas dos países vizinhos, se quisermos um futuro mais longo aos nosso parentes brabos.”

- Ou repensamos tudo isso ou os dias dos parentes estarão contados. Tudo gira em torno das fronteiras de países vizinhos, que pensam só em desenvolvimento, estradas, petróleo e tudo mais. É preciso deixar espaço e tempo para os povos indígenas dessas fronteiras, isolados ou não. Ou todos estarão a serviço das madereiras, petroleiras e traficantes num futuro bem próximo - alerta Meirelles.

“Angústia extrema”

Baseada em Londres, a organização Survival International elogiou nesta segunda-feira (15) a decisão do governo brasileiro de enviar agentes da FNS para ajudar a proteger  os índios isolados que teriam desaparecido após o ataque dos peruanos à base da Funai no Xinane.

- A Funai fez um sobrevoo na área para procurar sinais dos índios isolados e viu que a aldeia e as plantações estavam em boa condição. Mas os temores permanecem elevados, já que ainda não há visualização confirmada dos índios - alerta a Survival International.

A organização tem enviado apelos ao presidente do Peru para evitar novas invasões ao território dos índios isolados e para que sejam adotadas medidas para proteger as tribos. O diretor da Survival, Stephen Corry, classificou o desaparecimento deles como uma “angústia extrema”.

- Parece que medidas estão sendo tomadas pelo Brasil para melhorar a segurança na área, e esperamos que essa parte da Amazônia seja protegida e não se torne um abrigo para os traficantes de drogas. Mas o Peru deve fazer a sua parte também - afirmou Corry.

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Oxi não é “nova droga” porque se constitui de cocaína, diz laudo da PF

Altino Machado às 11:33 am
droga

No Acre, a droga apresenta elevados teores de cocaína

Perícia do Instituto Nacional de Criminalística  (INC) da Polícia Federal (PF) analisou o perfil químico de amostras do entorpecente denominado oxi, oriundas do Acre, e concluiu que na verdade se constituem de cocaína nas formas de pasta base e cocaína base, que é a pasta base refinada.

Logo, de acordo com o laudo assinado pelo farmacêutico e perito criminal da PF, Ronaldo Carneiro da Silva Junior, não há o que se dizer de “nova droga”, uma vez que a substância entorpecente (cocaína) já é conhecida.

- Nem mesmo há o que se falar de “nova forma de apresentação” tendo em vista que os componentes majoritários, minoritários e até mesmo os eventuais adulterantes encontrados nas amostras do suposto “oxi” são os mesmos encontrados na pasta base de cocaína e na cocaína base apreendidas pela Polícia Federal no Estado do Acre - afirma.

O estudo revela que, além do crack e da cocaína sal, comercializados nas ruas, os usuários do Acre estão consumindo diretamente pasta base (sem refino) e cocaína base (refinada) com elevados teores da droga (acima de 60% de cocaína).

- Isso pode contribuir para gerar pronunciados efeitos estimulantes e psicotrópicos e aumentar a possibilidade de efeitos deletérios como overdose, por exemplo - alerta o perito.

Os primeiros relatos da existência de uma forma de apresentação da cocaína denominada como oxi foram feitos no Acre, em 2005, através de trabalho publicado pela Polícia Federal. A partir disso, a mídia passou a sugerir que o oxi era uma nova substância entorpecente, que estaria se espalhando pelos estados brasileiros.

O oxi é consumido na forma fumada, geralmente em cachimbos ou cigarros artesanais. É muito semelhante ao crack, ou seja, pedras pequenas de cores normalmente pardas, brancas ou amareladas.

Conforme se divulga nos meios de comunicação, o oxi se diferenciaria do crack pelo fato do crack conter sais de carbonato e/ou bicarbonato na sua formulação, ao passo que o oxi seria adicionado de óxido de cálcio (cal virgem) e querosene (ou gasolina).

- O que se observa são diferentes formas de apresentação típicas da cocaína (sal, crack, pasta base, cocaína base) sendo arbitrariamente classificadas como “oxi”, sem que sejam utilizados para este processo critérios objetivos e técnicos - assinala o laudo.

O INC analisou 20 amostras de oxi, além de 23 amostras de cocaína base livre que foram apreendidas por agentes da Polícia Federal. O estudo comparativo buscou semelhanças e diferenças entre amostras apreendidas pela Polícia Civil do Acre, que representariam amostras de oxi, e amostras da PF, apreendidas em situações mais características de tráfico de drogas internacional ou interestadual.

Ao excluir as amostras de cocaína na forma de crack e sal (cloridrato), os demais entorpecentes apreendidos pela Polícia Civil como sendo oxi constituem-se pasta base e cocaína base (pasta base refinada), com características químicas idênticas àquelas encontradas nas substâncias apreendidas pela PF.

Foto: Polícia Federal/Divulgação

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domingo, 14 de agosto de 2011

As duas mortes do vovô

Altino Machado às 9:40 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

O velho Cabral estava lendo o jornal “O Trabalhista”, sentado numa cadeira de balanço, daquelas de macarrão, na varanda de sua casa, na Rua Cláudio Mesquita, em Manaus. De repente, começou a rir, inicialmente de forma discreta, contida, mas o acesso de riso foi crescendo, se avolumou, se apoderou de seu corpo que balançava, em convulsão. A gargalhada sonora, capaz de matar de inveja a Fafá de Belém em seus dias mais hilariantes, ecoou por todo o seringal Mirim. Ele riu, riu, riu, mas riu tanto que morreu de rir. Literalmente. Teve um ataque fulminante do coração. Tombou já sem vida.

- O vovô morreu – gritou Huguinho Reis, muito assustado.

Minto, estamos na década de 50, Huguinho não era nem nascido. Quem gritou, já de olho em uma das netas com quem depois acabou casando, foi o Ferreti, que viu o velho esticar as canelas. O vovô era capaz de rir desbragadamente como a Fafá, mas não possuía, que nem ela, um cofre enorme para guardar tanto riso, por isso o peito dele não aguentou. Explodiu. O corpo desabou, junto com os óculos, sobre o jornal, cuja manchete panfletária berrava em letras garrafais: “ABAIXO O CABELEIRA, O MAIOR LALAU DA CERA”.

Cabeleira era o apelido do ex-governador Álvaro Maia. CERA, a Comissão de Estradas de Rodagem do Amazonas, que depois se transformou em Departamento, mudando a sigla para DERA, o precursor do DNIT. E “O Trabalhista” era o jornal do PTB, liderado na época por Plínio Coelho, que baixava o sarrafo denunciando a corrupção, embora Álvaro Maia fosse um poço de virtudes se comparado ao filho do ex-ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, cujo enriquecimento foi galopante.

No velório do velho Cabral, lá na Funerária Almir Neves, que acabou sendo divertido, com todo o respeito, vinha a clássica pergunta:

- Ele morreu de quê?

Os parentes, no meio da dor e do sofrimento, explicavam, e aí ninguém aguentava, as pessoas começavam a rir e queriam saber mais:

- Morreu rindo, mas rindo de quê?

Mistério

Pois é, rindo de quê? Um mistério. Ninguém entendia. Até hoje ninguém sabe, nem mesmo uma das netas do velho Cabral, a Rosilene Odina, que me contou, ontem, por telefone, com riqueza de detalhes essa história absolutamente verdadeira, testemunhada por várias pessoas que estão vivas e são dignas de fé.

Ela diz que o velho Cabral fazia parte da ala que os opositores da UDN e do PSD chamavam de “canalha da quinta coluna petebo-comunista” e que provavelmente o ataque de riso fora provocado pela notícia sobre a corrupção nos transportes.

Mas qual é a graça que pode ter a corrupção? Num exercício especulativo, podemos ressuscitar o velho Cabral, colocando-o diante do noticiário dessa semana no “Diário do Amazonas”. Vamos lá. Ele abre o jornal e lê a manchete: “Policia Federal prende 36 pessoas por desvios de recursos do Turismo”.

No corpo da notícia, o velho Cabral é informado que no ano de 2010 desembarcaram 459 turistas estrangeiros no Amapá. Considerando que o Airbus A-330 pode transportar até 475 passageiros em cada voo, o total de turistas que entraram no Amapá durante um ano inteiro não lotaria um avião numa única viagem. O Amapá participa com 0,001% - eu falei zero vírgula zero, zero um por cento - dos que embarcam em voos internacionais no Brasil e 0,005% dos que desembarcam. O fluxo de passageiros nos voos nacionais é igualmente irrisório.

Dos 8.956 guias de turismo existentes no Brasil, apenas 18 atuam no Amapá, cujos hotéis, pousadas e flats somam 19 unidades. No entanto, o Ministério do Turismo não hesitou em aprovar um megaprojeto de cursos de capacitação para os guias do Amapá. Assinou três convênios suspeitos no valor de R$ 17,7 milhões – eu falei dezessete milhões e setecentos mil - com uma ONG, o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Infraestrutura Sustentável (Ibrasi), que sequer ministrou os cursos, mas embolsou o dinheiro. Aqui o velho Cabral começa a rir.

Continua lendo que as verbas foram desviadas, com orientação do próprio secretário-executivo do Ministério do Turismo, que ensinou a um empresário como montar um negócio de fachada para enganar a instituição. O riso do velho Cabral aumenta ao saber, ainda, que quem defende os membros da ONG fraudulenta é o escritório do filho do ministro do TCU, que teve acesso prévio à acusação.

Vovô Cabral começa a gargalhar quando toma conhecimento de que a autora da emenda que deu origem aos recursos desviados é a deputada Fátima Pelaes (PMDB-AP), acusada de embolsar parte da grana. A deputada jura que não conhece o Ibrasi, que escolheu essa ONG para desovar a bufunfa, porque soube de sua existência através de panfleto distribuído em evento do Ministério do Turismo. Aí as gargalhadas tomam conta do corpo do velho Cabral.

Os membros da quadrilha do Turismo foram presos. O avô de Rosi Odina vê na televisão o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), criticar como “um exagero” a prisão do ex-deputado pelo PMDB, Colbert Soares e dizer que “o uso das algemas pegou muito mal”. Aí, o vovô lê as declarações da ministra de Relações Institucionais Ideli Salvatti e do ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, primo do Collor de Mello, ambos condenando como abuso a utilização de algemas nos presos e que isso “leva as pessoas a pensarem que o caso é mais grave do que é”.

Crime hediondo

O velho Cabral começa a ter convulsões de tanto rir. Ele constata que todos os envolvidos com corrupção nos ministérios do Turismo, da Agricultura e dos Transportes são indicações dos partidos aliados do governo, que milhões de reais foram sugados do erário público, num escândalo envolvendo altos funcionários e que o vice-presidente da República, a ministra e o ministro que se apressaram em condenar as algemas esqueceram-se de externar qualquer indignação contra o roubo.

Seu riso fica igual ao da Fafá quando lê as outras notícias: “CPI no Paraná descobre rombo de R$ 491 milhões no Porto de Paranaguá, um dos gestores era o irmão do ex-governador Requião”. “Prefeito de Belo Horizonte gasta R$ 900 mil com jatinhos”. “Ministro do Turismo, Pedro Novais, indicado por Sarney, paga motel com dinheiro público”. “Cunhado do governador de SP, Alkmin, denunciado por fraude em escola de Pindamonhagaba”. Não escapam nem os militares: “Fraude no Instituto Militar de Engenharia tem cinco generais sob suspeita”.

É aqui que o velho Cabral morre pela segunda vez, de tanto rir, quando lê que o líder do DEM na Câmara, Antonio Carlos Magalhães Neto – logo quem? - é que quer investigar os corruptos. Consciente de que o desvio dessas verbas é responsável pelos médicos mal pagos, pelas ambulâncias abandonadas, pelos hospitais sem equipamentos e pelos remédios com validade vencida, o velho Cabral morre outra vez antes de saber do lançamento da Frente Parlamentar de Combate à Corrupção coordenada pelos deputados Francisco Praciano (PT-AM), Paulo Rubem (PDT-PE), Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) e Alessandro Molan (PT/RJ).

A Frente quer que a Câmara aprove projeto tornando crime hediondo os casos de desvios de verbas destinadas à saúde, educação, compra de medicamentos, merenda escolar e saneamento básico. Já morto, vovô Cabral não leu o relatório “Corrupção: custos econômicos e propostas de combate” da Federação das Indústrias de São Paulo, mostrando que se a corrupção fosse reduzida, a quantidade de leitos nos hospitais públicos poderia subir de 367 mil para 694 mil, se poderia construir moradias para 3 milhões de famílias ou levar saneamento básico para 23 milhões de domicílios.

É assim que vovô Cabral morre outra vez, rindo. Rindo de quê? Da nossa própria desgraça coletiva, do fato de boa parte dos homens que ocupam cargos públicos serem verdadeiros bandidos que provocam protestos de indignação quando são algemados. O vovô Cabral morre com saudades do jornal “O Trabalhista”.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO). Escreve no Taqui pra ti.

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