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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Novas fotos inéditas dos índios isolados do Acre

Altino Machado às 9:24 am
Índios isolados observam o avião

Índios isolados observam avião sobrevoando maloca

A Survival International divulgou nesta segunda-feira (31) novas fotos de índios isolados que vivem no Acre, perto da fronteira com o Peru. As fotos foram tiradas pela Fundação Nacional do Indio (Funai), que autorizou a organização, sediada em Londres, a utilizá-las como parte de sua campanha para proteger o território dos índios isolados.

As fotos mostram os índios em detalhe nunca visto antes e revelam uma comunidade próspera e saudável com cestos cheios de mandioca e mamão fresco cultivados em suas roças. Alguns isolados aparecem nas fotos com roupas e utensílios furtados das casas de brancos e índios da região. Os isolados poderão ser vistos no episódio Jungles, do programa Human Planet, da BBC1, na quinta-feira (3).

Leia mais:

Índios isolados são fotografados pela 1ª vez no AC

Como sertanista matou índio isolado em situação “dramática”

Exploração de petróleo e madeira ameaça índios isolados na fronteira

A Survival alerta que a sobrevivência da tribo está em sério perigo por causa da entrada de madeireiros ilegais que estão invadindo o território dos índios isolados no lado peruano da fronteira.

As autoridades brasileiras acreditam que o influxo de madeireiros está empurrando índios isolados do Peru para o Brasil, e é provável que os dois grupos entrarão em conflito.

A Survival e outras ONGs há anos fazem campanha para que o governo peruano aja de forma decisiva para impedir a invasão, mas pouco tem sido feito.

No ano passado, uma organização dos EUA, Upper Amazon Conservancy, realizou o último de vários sobrevôos do lado do Peru, revelando mais evidências de extração ilegal de madeira em uma área protegida.

- É necessário reafirmar que esses povos existem e para isso apoiamos a divulgação de imagens que comprovam estes fatos. Esses povos têm tido seus direitos mais elementares, sobretudo à vida, ignorados… Portanto devemos protegê-los - afirmou Marcos Apurinã à Survival.

O líder indígena Davi Kopenawa Yanomami, também apoia a divulgação das imagens:

- Tem que cuidar e proteger o lugar onde os índios moram, pescam, caçam e plantam. Por isso é útil mostrar as imagens dos isolados, para o mundo inteiro saber que eles estão lá na floresta deles e que as autoridades devem respeitar o direito deles de morar lá.

O sertanista José Carlos dos Reis Meirelles, da Funai, explicou que são os povos isolados são “meio desconhecidos”.

- É difícil convencer até o próprio estado que eles existem. A partir disso, você demarcar um território maior para eles já é uma dificuldade. É um desafio porque você vai mexer com um monte de interesses. É o segundo desafio é manter realmente essa terra isenta de interferência externa - assinalou Meirelles.

ATUALIZAÇÃO: Survival dá respostas aos comentários dizendo que os índios não podem ser isolados porque usam facão e que devem ser deixados “em paz”:

“O fato de os índios terem facão não significa que eles estão atualmente em contato com a sociedade de fora. A maioria das tribos utilizam algumas ferramentas de metal, que eles encontraram, roubaram  ou negociaram com os seus vizinhos, por muitos anos ou mesmo gerações.

É provável que esta tribo isolada seja descendente de índios que escaparam das atrocidades do boom da borracha no século passado. Durante várias décadas, eles tiveram o conhecimento e acesso aos produtos de metal, como facas e panelas, adquiridas através de redes de comércio inter-tribal.

Às vezes, é necessário fazer sobrevôos para verificar onde estão os índios isolados e se suas terras estão sendo invadidas. É importante chamar a atenção para sua existência, e até mesmo provar que realmente existem. É necessário fazer sobrevôos quando o objetivo é salvá-los da destruição. E provável que os índios já viram avionetas muitas vezes no passado.

Sem a realização de sobrevôos como um meio de proteger seu território, a terra e a vida dos índios estão fortemente ameaçadas. Forasteiros querem suas terras ou seus recursos, para extração de madeira e minérios, construção de barragens e estradas, criação de gado e etc.  O contato é geralmente violento e hostil, mas os assassinos principais são as doenças- muitas vezes comum como a gripe e sarampo- e para as quais os índios isoladas não apresentam imunidade e que muitas vezes são fatais.”

Fotos: Gleison Miranda/Funai/Survival

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domingo, 30 de janeiro de 2011

Essa Manaus que se foi

Altino Machado às 7:25 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Cartão postal do Teatro Amazonas

Cartão postal do Teatro Amazonas

A peruana Chabuca Granda, conhecida por muitos brasileiros depois que duas de suas músicas -Fina Estampa e La flor de La canela– foram gravadas por Caetano Veloso, canta a cidade de Lima em algumas valsas memoráveis. Numa delas, ‘Lima de verdade’, demonstra amor pela cidade onde viveu, mas confessa que a fonte de sua inspiração não é a Lima moderna, “de carne e osso” –digamos assim- mas a velha cidade que está dizendo adeus: La Lima antigua que se va.

As alamedas, ruas, becos e praças, as pontes sobre o rio, os jardins, os balcões coloniais, as sombras que ocultam miradas, os passos de dança da marinera, o charme de suas mulheres, as cores, os cheiros e o som da cidade –nada escapa aos olhos observadores de Chabuca. Em outra valsa diz que “essa Lima que se distancia e se perde na lembrança é uma bela senhora, cheia de mistério e de tempo”. Entrega, então, a Lima de mis amores a um cavalheiro que vem de longe.

Lembrei-me da cantora peruana, visivelmente enamorada de sua cidade, ao ler Manaus - meu sonho, livro organizado por Joaquim Marinho e publicado pela Valer. Ele também está enamorado. Vem paquerando Manaus desde sempre, chegou a ter um caso com a cidade –que a Silene me perdoe a inconfidência– quando dirigiu o Departamento de Turismo do Amazonas. Foi aí que convidou Ziraldo, Henfil, Fernando Sabino e outros cavalheiros vindos de longe, a quem pediu que ajudassem a cuidar da Manaus de mis amores.

Manaus - Meu sonho

O livro, editado com cuidado, reproduz fotos de Manaus antiga. Marinho se recusa a dar adeus àquela cidade que só existe na nossa lembrança. É como se ele teimasse em nos dizer que ela continua existindo porque está dentro de nós, em nosso pensamento. Penso, logo ela existe. Ele se queixa que tentaram destruir tudo: o porto flutuante, o entorno da Manáos Harbour, “até as mais novas ameaças de fazer um porto em frente ao Encontro das Águas”:

“Merecemos continuar a ser a cidade sorriso, e mesmo com tantos milhões de carros, ar-condicionados e toneladas de asfalto para atender os quase dois milhões de habitantes, nos dias de hoje, temos de preservar a floresta, os rios, os animas e a nossa gente (…)”.

Esse é o foco central do livro, que traz textos de quinze autores. Renan Freitas Pinto recupera o etnólogo alemão Theodor Koch-Grunberg, que passou por Manaus em 1903 e retornou em 1911, testemunhando as mudanças sofridas em oito anos.

“No dia 27 de maio de 1911 cheguei a Manaus. O porto está irreconhecível. A Companhia Manáos Harbour o modernizara inteiramente. Por todas as partes erguem-se grandes armazéns. Os transatlânticos atracam imediatamente em suas plataformas flutuantes, pelas quais se desembarca facilmente. Pelas toscas ruas correm e saltam os automóveis. A cidade perdeu por certo muito de seu panorama, antes tão encantador”.

Observa Renan o confronto entre duas cidades. Os sentimentos do visitante estão divididos, mas parece que estão mais próximos da cidade que deixara de existir, “daqueles elementos de Manaus que a identificavam mais claramente como uma cidade amazônica, com um modo de ser impregnado de elementos mais locais do que cosmopolitas”.

Nessa mesma linha insistem dois autores que passaram por Manaus em 1970: Fernando Sabino e Ziraldo. Sabino comparece com uma crônica, onde apresenta as palavras de um presidente africano como diretrizes ideais para Manaus:
“A herança que nos legaram nossos antepassados é a beleza natural de nosso país. São os nossos caudais, nossos rios, nossas florestas, nossas montanhas, nossos animais, nossos lagos, nossos vulcões e nossas planícies. Em uma palavra: a natureza é parte integrante, inseparável e real da nossa essência peculiar”.

O livro reproduz desenhos de Ziraldo, que converteu a floresta amazônica em formas geométricas e coloridas. Ele fala de sua experiência: “Quando, enfim, pude conhecer de perto o rio e a mata colossal que o contém, descobri que era preciso inventar outro jeito de contar para todo o mundo o susto do meu olhar. As cores da Amazônia são as do começo do mundo!”. Será? Vamos ver. Fala, Márcio Souza!

Vê bem, Maria

Num livro de Marinho não podia faltar seu parceiro de sempre, o escritor Márcio Souza, com seu estilo ferino e provocador. Ele critica prefeitos e administradores da capital amazonense e sobra pra quem enfiar a carapuça:“Manaus é a cidade mais odiada do mundo, cidade acostumada a apanhar na cara, a ser violentada, a ser roubada vergonhosamente pelos seus amantes. Cidade puta”.

O ator Ediney Azancoth lembra “os anos em que vivemos na escuridão”, no final da guerra, os bondes que paravam com o corte de energia, as lanternas, os lampiões apagados nos postes de ferro, as lamparinas de querosene, o som inaudível do rádio, as manifestações teatrais e, finalmente, o oásis de luz, único refúgio de alegria e diversão: os cinemas que tinham gerador próprio.

O mais amazonense de todos os paraenses, José Seráfico defende: “Manaus, a despeito das sucessivas tentativas de desfigurá-la, é uma cidade bela” – diz, mas condena a violência ambiental: “Se ontem aterrar igarapés e promover o sacrifício de espécies florestais não significava mais que adequar-se aos padrões de modernidade admitidos, desde a reunião de Oslo (1972), isso se tornou cada dia mais questionado”.

Vale a pena ler a carta escrita por Tenório Telles ao poeta Quintino Cunha, autor do poema ‘Encontro das Águas’. Tenório suspeita que o poeta estava apaixonado quando escreveu esse poema: “Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este / é o Rio Negro aquele é o Solimões./ Vê bem como este contra aquele investe,/ Como as saudades com as recordações”. O poema termina: “Se esses dois rios fôssemos, Maria / todas as vezes que nos encontramos,/ Que Amazonas de amor não sairia / De mim, de ti, de nós que nos amamos”.

Os outros autores são: João Bosco Araújo, Domingos Demasi, Tricia Cabral, Ulisses de Azevedo Filho, além dos poemas de  L. Ruas, Aldisio Figueiras e Ornan Correa, todos eles sobre Manaus. Vale a pena conferir.

Os textos são de qualidade. Nada que lembre o deputado Josué Filho, que num comício no bairro Alvorada II, em 1992, comparou Manaus a “uma linda mulher, uma noivinha de véu e grinalda, que durante as eleições procura um noivo perfeito para se casar”. Diante dos pretendentes à mão da noiva, só resta lembrar o irreverente escritor irlandês Bernard Shaw: “O primeiro homem que comparou a mulher a uma rosa era um poeta. O segundo, um perfeito imbecil”.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO).

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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Índios do Acre protestam contra “descaso” no atendimento de saúde

Altino Machado às 12:33 pm
Francisco

Francisco Ninawá no acampamento em frente à sede da Funasa

Mais de 100 indígenas de 14 etnias do Acre se revezam há 83 dias sob uma tenda de palha e plástico improvisada como acampamento em frente ao prédio da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), em Rio Branco, para protestar contra o desvio de verbas destinadas ao atendimento da Casa de Apoio Saúde do Índio (Casai) na capital.

Os indígenas já chegaram a invadir o prédio, impediram a entrada e saída de funcionários e mantiveram como refém o coordenador regional da Funasa. O governo federal destina mais de R$ 15 milhões por ano para o sistema de atendimento de saúde dos povos indígenas do Estado.

Os índios denunciam que cada instituição receptora, além de gastar a verba com outros fins, desrespeitam direitos e os discriminam.

- Não temos nenhuma prioridade e a assistência de qualidade não sai da teoria e dos papéis. Estamos cansados de falsas propagandas e desperdícios de recursos. Nossos parentes estão morrendo e resolvemos reivindicar nossos direitos com a esperança de que possamos existir como povos indígenas em nossas terras e construir nosso próprio sistema de saúde, conforme a especificidade de cada povo - afirma Francisco Ninawá Huni Kuin, um dos líderes do protesto.

O Ministério Público Federal (MPF) no Acre realiza nesta quarta-feira (26), em Rio Branco, audiência pública sobre a precariedades no atendimento da Casa de Apoio Saúde do Índio. Os procuradores da República Paulo Henrique Ferreira Brito e Ricardo Gralha Massia, convidaram membros dos governos estadual e federal para buscarem solução para os problemas.

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), sediada em Manaus (AM), divulgou nesta terça-feira (26) uma nota em que manifesta apoio aos povos indígenas do Acre e critica o “descaso” da Funasa e da Secretaria Especial de Atendimento aos Povos Indígenas, do governo estadual.

A nota da Coiab afirma que “a vergonha se instala na saúde indígena no Acre” e considera revoltante a forma com que vem sendo tratada a questão na Amazônia.

- Não é possível que essa verba destinada aos povos indígenas do Estado não seja aplicada de forma correta e eficaz. Não é justo que as nossas crianças paguem com a vida, pela cobiça de gestores irresponsáveis - assinala a organização.

A Coiab denuncia que a Casa de Apoio Saúde do Índio no Acre não atende as condições básicas para o recebimento e tratamento dos indígenas, pois falta respeito para com os doentes, material, comida e remédio para os pacientes internados, que deixam a floresta, descrentes da medicina natural, e apelam para a saúde pública.

Fotos: Altino Machado/Terra Magazine

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domingo, 23 de janeiro de 2011

Dona Alvina, a tacacazeira

Altino Machado às 8:20 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

A banca de tacacá -me entendam bem- não era apenas um lugar onde se ia tomar tacacá, como pensa o simplório. Era muito mais do que isso. Era um templo, um santuário da fofoca. Isso em Manaus, cinquenta anos atrás, quando se cumpria sempre um ritual: a gente saía de casa ao entardecer levando, às vezes, a própria cuia pintada, made in Monte Alegre (PA). Aí, na banca, entre um gole e outro de tacacá, se falava tanto da vida alheia, mas tanto, que a língua ficava entorpecida e os lábios dormentes. A anestesia era creditada ao jambu, mas sabemos que a boca tremelicava por causa do disse-me-disse.

O freguês ia à banca em busca do mexerico. Sal, pimenta murupi e tititi eram os temperos do tacacá feito com tucupi, goma de mandioca, camarão e jambu. As tacacazeiras, sacerdotisas desse ritual, eram a Nega Vitória, com banca ao lado do Cine Odeon, a Maria Portuguesa em frente ao Guarany, a Preta Idalina na Praça XIV e muitas outras que mereceram algumas páginas antológicas de André Araujo em sua “Introdução à Sociologia da Amazônia”, de 1956.

Mas a maior fofoqueira entre todas era - não duvide - dona Alvina, do bairro de Aparecida. Ela não possuía o physique du rôle das tacacazeiras, que em geral eram fartas e generosas de seios e ancas. Dona Alvina, ao contrário, era magrinha e espigada, mas sua banca alimentava a freguesia com bom tacacá, banana frita no palitinho, croquete, bolo de mandioca, tapioca e, pra rimar, muita fofoca.

Fofoca - por favor, não me interpretem mal - não era só maledicência. Havia quatro tipos. O primeiro tipo era notícia pura. Num tempo em que quase ninguém lia jornais, que não havia ainda rádio de pilha, que a televisão não chegara a Manaus, a banca de tacacá era um centro de informações sobre o que acontecia no Amazonas, no Brasil e no mundo. Era o lugar onde você ficava antenado. Foi numa banca de tacacá que fiquei sabendo, em 1954, do suicídio de Getúlio Vargas e da derrota do Brasil para a Hungria, no mundial na Suíça. O arauto foi o Pedro Marceneiro.

Pedro Lambança

Pedro Marceneiro, também conhecido como Pedro Lambança, tinha um rádio Philips, grande, com uma caixa de madeira vistosa fabricada por ele mesmo. Era um rádio, cuja válvula vivia queimando, originando uma recepção fraca, em baixo volume. Pra piorar, o capacitor precário provocava ruído de fundo, um zumbido, um chiado perturbador. Ainda por cima, era um rádio manhoso, só funcionava quando queria. Precisava de umas tapinhas no gabinete pra começar a falar. Era movido a porrada, que nem mulher de malandro.

Numa tarde, Pedro Lambança chegou esbaforido na banca da Dona Alvina, gritando desesperado: - “A Hungria eliminou o Brasil por 4×2″. Parecia que o mundo tinha acabado. Zé Buchinho, que tinha encaçapado vários tacacás e croquetes, anotou os nomes dos autores dos seis gols e com uma cuia na mão, servindo de microfone, irradiou toda a partida, inventando lances geniais, com tanto realismo, que parecia de verdade. De vez em quando, interrompia para os comerciais: “A Casa Tem Tem, do pobre e do rico também” ou “A Banca da Alvina, onde só tem gente fina”.

Foi na banca de dona Alvina que ficamos sabendo de fofocas federais como o tiro no pé do Carlos Lacerda e logo depois, no final de agosto, o tiro que Getúlio Vargas disparou em seu próprio peito. Quem ouvia rádio, trazia a novidade para a banca, que fervilhava e borbulhava com comentários abalizados.

Mas havia ainda um segundo tipo, a fofoca municipal: eventos locais que, embora reais, jamais seriam noticiados pela rádio e que tinham guarida na banca de tacacá, como foi o caso da tentativa de suicídio do Sansão.

Se não me falha a memória, Sansão morava na Matinha. Era um cara pintoso, topete de Elvis Presley, dirigia um jipe vermelho e namorava a Mariona do Beco da Escola, num agarramento escandaloso que não escapou aos olhos observadores de dona Alvina. Num belo dia, ele perdeu sua Dalila para um bancário do Beco da Bosta. Desconsolado, conseguiu com o Américo Loureiro uma porção de carbureto dizendo que era para soldar metais, e ingeriu, segundo uns, ou fingiu ingerir, segundo outros, o ácido abrasivo, lambuzando com ele a boca, que ficou toda branca. Por via das dúvidas e por outra via, deram-lhe uma lavagem estomacal e pespegaram-lhe o apelido de Carbureto, que ostenta até hoje.

O terceiro tipo de fofoca eram os inventos, como o amor do Petel pela sua cunhada Leonor, cantado em prosa e verso na banca da dona Alvina. A imaginação dos vizinhos que gostavam de murmúrios, futricas, mexericos, inventou esse amor, que se existia, era platônico. Petel jamais colocaria chifres no próprio irmão, embora na banca de tacacá houvesse quem espalhasse o contrário, dizendo que ele brechava a Leonor no banheiro, de uso comum, com paredes de ripa, que ficava no quintal.

Templo da fofoca

O quarto tipo de fofoca, mais sofisticado, no qual dona Alvina se tornara especialista, era algo inédito. Não registrava um evento - o acontecido, nem um invento - o não-acontecido, o boato, o rumor. Não! Previa aquilo que com certeza ainda iria acontecer.

Num furo de reportagem, Alvina profetizou, com seis meses de antecedência, que a Terezona ia engravidar e que o pai era um padre. Isso mesmo, um padre, que puxava as novenas nas terças-feiras na igreja de Aparecida. Não deu outra. Alvina foi a maior repórter da Paróquia. Apurava bem, fazia entrevistas, checava os dados, mas sobretudo sabia analisá-los e fazer previsões.

É que dona Alvina parecia ter um telescópio, que podia olhar em curva. Lá da sua banca, por exemplo, ela via o Geraldão, o rei das caboquinhas, com sua farda de oficial do CPOR, acochando as meninas, escondido num escurinho detrás da igreja. Alvina sabia de tudo e não guardava segredos: as cartas perfumadas, os encontros furtivos, as lágrimas no travesseiro, os poemas de amor de JG de Araújo Jorge e os boleros de Anísio Silva.

A fofoca de dona Alvina, se fosse hoje, seria certificada com o ISO 9001:2008, um modelo de garantia para satisfação do freguês. Atestado de virgindade assinado por ela valia mais do que qualquer exame ginecológico. Ela não passava nada adiante sem antes conferir a origem, cuidava da vida alheia com senso profissional e seriedade. Sua forma de transmissão não era apenas verbal, mas gestual: olhares expressivos, cutucões, cotoveladas, beiço esticado, que complementavam a informação.

Por isso, sua banca, na esquina da Alexandre Amorim com a Xavier de Mendonça, era frequentada por gente ilustre. O pintor Moacir Andrade e o poeta Luiz Bacelar, quando abriam a porta de suas respectivas casas, davam de frente com ela e não resistiam a um dedo de prosa. Migraram depois para o Tacacá da Dona Maria, na Ramos Ferreira, frente à Academia de Letras, onde Berinho, o eterno Secretário de Cultura, leva os gringos para tomar o “Take Khak’ka, a soup common to Nothern Brazil”.

Tacacá era tucupi, jambu, goma, fofoca e diarreia. O resto é prosopopeia. Hoje se toma bom tacacá em Manaus, inclusive em shoppings: Tio João na Darcy Vargas, Gisela na Praça São Sebastião, Adalgiza na Praça da Polícia, Hilda e Tia Socorro no centro e até o japonês Ishiba no Eldorado.

Eis o que eu queria dizer: deviam levar dona Alvina para a região serrana do Rio, onde morreram quase 800 pessoas. Ela seria mais eficaz que radares planejados para prevenir desastres ambientais que não foram instalados. Por outro lado, não funcionou o sistema meteorológico de Petrópolis para medir o nível dos rios, a umidade do ar, a velocidade dos ventos e a quantidade de chuvas, já que 19 estações foram desativadas, porque a burocracia não chegou a um acordo sobre quem devia operá-las.

Conservamos o bom tacacá, mas perdemos o templo da fofoca, até mesmo no Amazonas. O eleitor que votou no Amazonino Mendes (PTB,vixe, vixe), por exemplo, não usou a sabedoria da dona Alvina para prever a merda que ia dar sua gestão na prefeitura. Eis o que eu queria dizer: tenho saudades da dona Alvina.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO).

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sábado, 22 de janeiro de 2011

PF prende funcionária da TAM por furto de bagagem

Altino Machado às 5:44 pm
Bagagem na casa da funcionária da TAM

Bagagem encontrada na casa de funcionária da TAM

Uma funcionária da TAM foi flagrada pela Polícia Federal (PF) nesta sexta-feira (21) furtando bagagens de passageiros no aeroporto Plácido de Castro, em Rio Branco (AC).

Além de imagens comprovando o furto, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão na casa da funcionária, onde foi encontrada a bagagem pertencente à família de um oficial do Exército.

Segundo a PF, a família do militar, oriunda de Porto Alegre (RS), realizava visita aos familiares em Rio Branco, mas teve o embarque de retorno impedido em decorrência do RG de uma das filhas ser antigo.

O fato gerou muitas discussões da família com os funcionários da empresa aérea. O embarque só ocorreu dois dias depois por força de medida liminar.

Ao chegar ao destino, a família constatou que as bagagens haviam sumido, o que fundamentou suspeitas sobre os funcionários envolvidos nas discussões.

A PF obteve imagens que mostram as malas sendo levadas para o veículo particular da funcionária da TAM. Presa em flagrante, a funcionária vai responder pelo crime de receptação.

No mesmo dia outra funcionária foi interrogada e indiciada pela prática do crime de furto qualificado, cuja pena prevista é de 2 a 8 anos de reclusão.

Foto: Divulgação

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

No Acre, PF encontra 2,6 quilos de cocaína pura escondidos em motor de carro; dois são presos

Altino Machado às 11:41 am
Coca�na pura e pasta básica

Cocaína pura e pasta base

Dois homens foram presos pela Policia Federal (PF) em Rio Branco (AC) com 2,6 quilos de cocaína pura e 200 gramas de pasta base, que pode ser vendida como crack ou oxidado, também conhecido como oxi, considerado uma das drogas mais potentes e perigosas.

Os traficantes foram detidos por agentes da PF na Via Chico Menes, após deixarem Epitaciolândia, município que faz fronteira com Cobija, capital do departamento de Pando, na Bolívia, a 235 quilômetros da capital acreana.

A droga estava no compartimento do motor e atrás do painel corta-fogo. Os dois homens disseram que trabalham em Epitaciolândia e Brasiléia como prestadores de serviços de informática.

O que declarou ser o dono da cocaína e pai de um filho, havia vendido uma casa para comprar a droga na Bolívia.

Foto: PF/Divulgação

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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

TSE decidirá sobre provas encontradas pela PF nos computadores do senador eleito Jorge Viana (PT-AC)

Altino Machado às 10:25 am
TRE decidiu a favor do ex-governador Jorge Viana

TRE decidiu a favor do ex-governador Jorge Viana

A Procuradoria Regional Eleitoral no Acre (PRE-AC) interpôs recurso extraordinário e recurso especial junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em que pede a reforma do acórdão do Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC), que considera ilegais as provas obtidas partir da busca e apreensão no escritório do senador eleito Jorge Viana (PT-AC).

Na véspera do primeiro turno das eleições de 2010, a Polícia Federal, cumprindo ordem judicial, apreendeu dois laptops, três discos rígidos e cinco pen drives do então candidato Jorge Viana. Os juízes do TRE-AC decidiram pela a anulação de todas as provas, incluindo as escutas telefônicas.

O TRE-AC acatou o argumento da defesa de Viana de que não poderia ter sido expedida ordem de busca e apreensão baseada somente em denúncia anônima. Porém, a PRE entende que o mandado de segurança não poderia ter sido admitido para reverter uma decisão judicial.

De acordo com a PRE, a legislação prevê que cabe ao juiz eleitoral realizar as diligências que julgar necessárias à ordem e presteza do serviço eleitoral, bem como  tomar conhecimento das reclamações que lhe forem feitas verbalmente ou por escrito, reduzindo-as a termo, e determinando as providências que cada caso exigir.

A PRE sustenta que o mandado de segurança não poderia ter sido utilizado como substituto do recurso cabível contra a decisão judicial. Segundo os recursos interpostos, a decisão do TRE-AC acabou por afrontar artigos da Lei nº 12.016/2009, do Código de Processo Civil e do Código Eleitoral.

Além disso, segundo a PRE, também teriam sido violados artigos da Constituição Federal. Caso o TSE acolha os argumentos, todos os dados que venham a ser encontrados nos equipamentos de informática apreendidos poderão ser analisados e passar a integrar o conjunto de provas das ações que já estão em andamento contra o senador eleito.

Foto: Altino Machado/Terra Magazine

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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Com país arrasado, Acre se torna rota para entrada de haitianos no Brasil

Altino Machado às 5:10 pm
Governo apóia refugiados hatianos no Acre

Refugiados haitianos no Acre recebem apoio do governo estadual

O governo do Acre anunciou que o Estado está se tornando rota para a entrada de haitianos no Brasil. As autoridades estaduais estimam a presença de pelo menos 180 refugiados no município de Brasiléia, que é separado pelo rio Acre de Cobija, a capital do departamento de Pando, na Bolívia.

O primeiro grupo de haitianos chegou a Brasiléia no dia 2 de dezembro do ano passado. A situação preocupa o governador Tião Viana (PT), que pediu ao secretário de Justiça e Direitos Humanos, Henrique Corinto, para averiguar as condições dos refugiados no fim de semana.

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Bengalês é preso no AC ao tentar levar oito clandestinos para SP

Os imigrantes partem em navios de Porto Príncipe, capital do Haiti, atravessam o Mar do Caribe e desembarcam no Panamá, de onde seguem para o Equador e depois para o Peru. De ônibus, táxis e até mesmo a pé, partem dos portos de Lima e seguem pela Rodovia Interoceânica rumo ao Brasil.

A maior parte dos refugiados é de jovens entre 20 e 30 anos, basicamente estudantes, que são considerados a elite do Haiti. A viagem deles ao Brasil chega a custar US$ 1 mil, obtidos com a ajuda de parentes.

- Nós estamos no Brasil porque queremos uma vida melhor. No Haiti não tem nada, o terremoto acabou com a vida dos haitianos. É por isso que viemos para cá, para buscar uma vida melhor - disse Milena Auguste à estatal Agência de Notícias do Acre.

O secretário Corinto disse que os haitianos deveriam ser deportados, de acordo com as leis brasileiras, a partir do momento em que entram ilegalmente no país. A medida não será adotada por se tratar de questão humanitária. A situação já foi relatada ao Ministério da Justiça e ao Ministério das Relações Exteriores.

Corinto conversa com refu

Corinto conversa com refugiados em Brasiléia

Fotos: Gleilson Miranda/Secom

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RR: Justiça manda demolir casa de ex-governador

Altino Machado às 4:10 pm

Localizada em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, a casa do ex-governador de Roraima, Neudo Ribeiro Campos (PP), será demolida por determinação da Justiça Federal. A ordem para demolir o imóvel decorre de pedido do Ministério Público Federal (MPF) em Roraima.

A ação do MPF, ajuizada em 2007, foi movida com base em um comunicado do governo venezuelano ao governo brasileiro de que o imóvel encontrava-se em situação irregular, violando um acordo com o país vizinho no qual impede qualquer construção a menos de 30 metros da linha fronteiriça.

O imóvel, localizado a 18 metros da fronteira do Brasil com a Venezuela, possui dois andares, três quartos, escritório e uma sala. Segundo a ação, além da casa do ex-governador estar muito próxima da Venezuela, a construção também invade a terra indígena de São Marcos.

Na decisão, proferida pelo juiz federal Helder Girão Barreto, o magistrado afirma que o ex-governador Neudo Campos substituiu, de maneira “criminosa”, um dos marcos de pedra da fronteira para tentar legalizar a situação do imóvel.

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domingo, 16 de janeiro de 2011

“A Terra é nosso parente”

Altino Machado às 8:55 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Talvez a mimosa pudica possa nos ajudar a entender a tragédia que se abateu nessa semana sobre a região serrana do Rio de Janeiro, causando mais de 600 mortes. A mimosa é uma plantinha sensitiva, conhecida popularmente como “dormideira”, “morre João’ ou “Maria-fecha a porta”, encontrada em locais úmidos da Mata Atlântica ou da Floresta Amazônica. Possui flores pequenas, cor de rosa, um caule com espinhos e folhas divididas em vários folíolos. O que ela tem a ver com as chuvas torrenciais que tantos estragos fizeram?

As imagens da TV mostraram um quadro desolador, com depoimentos dramáticos de sobreviventes. A correnteza, com forte estrondo, vem descendo do alto da serra. No caminho, arranca árvores, desenterra pedras, soterra casas e arrasta tudo o que encontra em sua frente: casas, carros, pontes, gente, bichos, corpos, barro, lama, entulho, lixo. Barreiras desabam nas áreas de encostas. Pequenos córregos e riachos se transformam em rios caudalosos que transbordam, irrompem velozmente pelas cidades e racham o asfalto, engolindo ruas, praças, bairros, semeando dor, sofrimento, morte. Um cenário de terra arrasada: escombros, devastação, destruição.

Ainda estamos contando, enterrando e chorando os mortos e os desabrigados em cinco cidades do Rio. A tragédia, em menores proporções, atingiu São Paulo, cuja capital ficou submersa, dando um nó no trânsito. A Folha publicou quarta-feira (12) foto impressionante: toneladas de garrafas plásticas cobrem o rio Pinheiro, que transbordou. Em Minas Gerais, 72 municípios estão debaixo d’água. A chuva castigou outros países - Austrália, Filipinas e Sri Lanka. Por que tanta raiva e tanta violência da natureza? Parece que o planeta está reagindo e é aqui que entra a Maria fecha a porta.

Teu pai morreu

A última vez que vi a Maria foi em setembro de 2007, em Soure, Ilha do Marajó, acompanhado de uma pajé cabocla, Zeneida Lima, e de um sábio guarani, então com 96 anos, o karai Tupá Werá, da Aldeia de M’Biguaçu (SC). Não resisti em reconstituir uma brincadeira de infância em Manaus, que consiste em passar a ponta do dedo no meio da sua folha, dizendo: “Maria, fecha a porta que teu pai morreu”. Ela fecha. Os folíolos obedecem sempre, se inclinam numa reverência e imediatamente murcham, para logo em seguida, com o pai ressuscitado, voltarem à posição normal.

Tem algo de mágico para uma criança falar com uma planta, trocar sensibilidade com ela, provocá-la e obter uma resposta imediata, o que não é nenhuma novidade para os índios para quem não é só a Maria que fecha sua porta, é possível falar com a Terra, as plantas, os bichos, os rios, os morros, as pedras. É outro sistema de pensamento. O guarani Marcos Moreira, meu aluno no curso de formação de professores, entrevistou para um trabalho de avaliação o velho karai Alexandre Acosta, da Aldeia de Jataity (RS) que declarou, entre outras coisas:

- Esta Terra que pisamos, é gente como nós, é nosso irmão. É por isso que o guarani respeita a Terra, que é também um guarani. O guarani não polui a água, pois é o sangue de um karai. Esta Terra tem vida, só que muita gente não sabe. É uma pessoa, tem alma. A mata, por exemplo, quando um guarani precisa cortar uma árvore pede licença, porque sabe que ela é uma pessoa. A Terra é nosso parente, mas está acima de nós. Por isso ensinamos as crianças a respeitarem a Terra, que até hoje se movimenta, só que não percebemos. Quando os parentes morrem, carne e corpo se misturam com a terra. Por isso, temos que respeitar esta terra e este mundo em que a gente vive.

A tragédia vivida em diferentes partes do Planeta nessa última semana não é um acidente natural, mas produto de uma intervenção desastrada do homem, que esqueceu que a Terra é gente como nós. As chuvas, que aterrorizam e paralisam as cidades, não causam tais estragos numa aldeia indígena. É que as cidades cresceram sem respeito ao “nosso parente”, se expandiram sem “pedir licença”, isto é, desordenadamente, agressivamente, sem planejamento de impacto ambiental e adoção de medidas para proteção de encostas, reflorestamento, uso do solo e destino do lixo urbano.

Jogar no mato

Na busca do lucro rápido, a especulação imobiliária desmatou indiscriminadamente, construiu em encostas, alterou os caminhos naturais da drenagem da água, tornando instáveis os terrenos e ferindo de morte a terra. Expulsos das áreas mais nobres, os deserdados abriram ainda mais a ferida, construindo perigosamente nos morros. Hoje, as cidades não ensinam às crianças sequer a tratar o lixo.

Quando chove, minha rua alaga. Da janela do meu apartamento, contemplo a estupidez humana. Vejo boiando garrafas pet, sacos de plástico, embalagens de alumínio, latas de refrigerantes, que entopem as grelhas dos bueiros das galerias pluviais, prejudicando a vazão da água. Na minha infância, a vovó Filó recomendava dar um destino ao lixo: “joga no mato”. Mas o lixo atirado no quintal era sobra de alimentos, casca de banana e de outras frutas, bagaço de laranja, que adubavam a terra.

Hoje, o lixo é formado por resíduos sólidos, embalagens descartáveis de plástico, lata, vidro, alumínio, mas continua predominando a mentalidade de “jogar no mato”. A foto da Folha de São Paulo é uma prova gritante do fracasso da educação ambiental na escola e no ambiente familiar. Crianças e adultos atiram o lixo em espaços coletivos, com a mentalidade patriarcal de que o espaço público é terra de ninguém e de que existem garis para limpar nossa sujeira. Quem a terra fere, com a terra será ferido?

Na visita feita ao sítio da pajé Zeneida Lima, em Soure, ela entrou no mato com o guarani Tupã Werá, conhecido no mundo não indígena como Alcindo Moreira. Os dois trocaram informações. Ali, onde qualquer pessoa, mesmo o paraense comum, só via árvores genéricas, eles viam cada espécie em particular. Alcindo dava o nome em guarani, algumas vezes também em português, descrevendo as propriedades medicinais ou alimentícias de cada planta.

- As árvores falam. A gente é que desaprendeu e não sabe mais escutar o que elas dizem - disse.

Gabriel Garcia Márquez conta que em dezembro de 1981 recebeu telefonema de um amigo sério e inteligente, perguntando-lhe qual era o tema da crônica da semana, que seria publicada no dia seguinte no jornal El Espectador, de Bogotá. Ele respondeu que estava escrevendo sobre o sofrimento das plantas e das flores, sustentando que elas têm alma. Alarmado, o amigo exclamou:

- Ay, carajo! Te estás volviendo maricón?.

Meus amigos do Ceará me informam que o governador Cid Gomes - aquele que levou a sogra para Paris com dinheiro público - encaminhou à Assembléia Legislativa, em caráter de urgência, Projeto de Lei que dá poderes extraordinários ao governador para dispensar de licenciamento ambiental no Estado do Ceará uma série de atividades, dentre as quais o desmatamento, os aterros sanitários, habitação dita de interesse social, estradas de rodagem, projetos agropecuários e outras atividades e obras modificadoras do meio ambiente.

Enquanto o planeta for povoado por machos dessa estirpe, que formulam e implementam políticas públicas, não ouviremos a voz da terra e as tragédias se repetirão. Maria, fecha a porta que teu pai está morrendo.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO).

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Autoridades tentam resgatar criança brasileira retida ilegalmente na Bélgica

Altino Machado às 11:24 am

Autoridades brasileiras tentam resgatar uma menina de 5 anos de idade, nascida em Macapá (AP), que se encontra retida ilegalmente na Bélgica desde junho do ano passado.

Convidada pelo pai, Philips Sterkmans, para passar férias naquele país, a criança foi autorizada pela mãe, Guízela Winter, 28, a realizar a viagem mediante compromisso do pai de garantia do retorno da filha.  A mãe trabalha e estuda no município de Ourilândia (PA).

O pai comprou as passagens de ida e volta e a criança viajou para a Bélgica acompanhada da avó materna. Porém, na hora de retornar para o Amapá, o pai impediu a filha de embarcar, obrigando a avó a viajar sozinha.

Em Macapá, a família da criança procurou o Ministério Público Federal (MPF) em busca de ajuda.

O procurador regional dos Direitos do Cidadão intermediou o contato da mãe e da avó com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

O caso está sendo acompanhado pela Autoridade Central Administrativa Federal (ACAF), pois envolve a Convenção de Haia.

Recentemente, o MPF recebeu a avó da menina muito aflita. Ela não consegue dar andamento ao processo na ACAF pelo retorno da neta.

Segundo o MPF, a avó, após solicitar os documentos traduzidos para o inglês, a ACAF  pediu que fossem traduzidos para o francês, língua oficial na Bélgica.

A tradução foi realizada e os documentos reenviados. Porém, ao consultar o número do processo, a avó constatou que o mesmo não existe.

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ANP define empresa que vai investigar existência de petróleo e gás natural no Acre e Amazonas

Altino Machado às 8:02 am
Mapa com linhas s�smicas no Vale do Juruá

Mapa com linhas sísmicas no Vale do Juruá

A empresa da serviços Georadar Levantamentos Geofísicos S.A., de Minas Gerais, foi declarada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) vencedora de duas licitações realizadas pela agência para aquisição de dados sísmicos terrestre no extremo-oeste do País.

Os dados sísmicos fazem parte da prospecção de petróleo e gás natural em curso no município de Cruzeiro do Sul (AC), na fronteira do Brasil com o Peru. Todas as etapas da prospecção tem sido realizadas sem consulta e sem que os resultados sejam divulgados à sociedade.

O mapa do Vale do Juruá exibe no entorno das linhas sísmicas seis terras indígenas, uma unidade de conservação de uso sustentável, além do Parque Nacional da Serra do Divisor, de conservação integral, considerado uma das áreas de maior biodiversidade do Planeta.

A Georadar venceu a concorrência com proposta de R$ 53 milhões. Participaram da disputa o consórcio Stratageo/Atech/Gobkin e a empresa Geokinetics, que cotaram o serviço em R$ 83 milhões e R$ 92 milhões, respectivamente.

A decisão a favor da empresa mineira foi tomada na última reunião de diretoria da ANP, em dezembro de 2010. A Georadar fará a aquisição de 1.017 km de linhas sísmicas 2D na Bacia Sedimentar do Acre e aquisição de dados em uma área menor da Bacia do Solimões, no Amazonas, na divisa com o Acre.

Serão adquiridos e processados 40,7 mil registros (sismogramas) de sísmica de reflexão. A cobertura inclui a área no Amazonas visando maximização da qualidade dos dados obtidos.

Noutra concorrência arrematada pela Georadar, está prevista a aquisição de 1.515 km de linhas 2D e um estudo magneto telúrico para visualizar rochas abaixo das camadas vulcânicas na Bacia do Amazonas.

A ANP teve que realizar a licitação duas vezes. Na primeira, a concorrência foi suspensa pela inexistência de um item no edital que possibilitasse a participação de empresas em consórcio.

Seis empresas foram convidadas pela ANP para cotarem o serviço no Amazonas. Além da Georadar, participaram a Geokinetics, Strataimage, Stratageo, Atech e VNII Geofísica.

No dia 29 de dezembro, a ANP empenhou pagamento de R$ 28 milhões à Georadar. O valor se refere ao contrato nº 7.175/10-ANP-005.778 para os serviços técnicos de aquisição e processamento de sísmica para prospeção de petróleo e gás natural.

Como o levantamento sísmico está localizado parcialmente na faixa de fronteira (150 km do limite com países vizinhos), a empresa deverá pedir autorização prévia ao Conselho de Defesa Nacional.

Contradição

Quando era senador, o novo governador do Acre, Tião Viana (PT), garantiu emenda parlamentar de R$ 75 milhões no Orçamento da União para que a ANP pudesse realizar prospecção de petróleo e gás no Estado. Viana tem argumentado que a possibilidade de existir petróleo no Estado “é uma base a mais para o desenvolvimento socioambiental”.

A ANP e o governo estadual têm desconsiderado os alertas de ambientalistas, para quem a prospecção de petróleo e gás na região causará impactos, além de contrariar as conclusões do Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre.

Os ambientalistas argumentam que  exploração de petróleo contraria as políticas defendidas há 12 anos pelos governos do PT no Estado.

Lideranças do PT e do governo estadual obtiveram reconhecimento nacional e até internacional na defesa de políticas de valorização do ativo florestal, de definição de mecanismos de pagamento por serviços ambientais, incluindo planos para a redução das emissões de gases de efeito estufa, provisão de recursos hídricos e a conservação da biodiversidade.

No ano passado, o Acre criou o Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais e o Programa de Incentivos por Serviços Ambientais ISA Carbono, vinculado à Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal.

Meio ambiente

Um termo de referência da ANP, de 27 páginas, estabelece que a Georadar será responsável pelos atos de seus empregados e consequências cíveis e penais decorrentes de inobservância de quaisquer leis, normas e regulamentos de Segurança, Meio Ambiente e Saúde vigentes no país.

Antes do início dos trabalhos de campo, a empresa terá que divulgar o projeto junto às comunidades vizinhas, destacando os riscos inerentes à atividade e os
cuidados a serem tomados.

O documento estabelece ainda que qualquer contato com comunidades indígenas na área do empreendimento deverá ser acompanhado por técnico da Funai.

A locação de acampamentos e bases deverá privilegiar as que apresentem maior probabilidade de recuperação da vegetação natural, limitando a área das instalações ao estritamente compatível com requisitos operacionais, sanitários e de segurança, de modo a minimizar os efeitos ambientais e sobre as comunidades locais.

A partir da assinatura do contrato, a empresa terá 60 dias para apresentar à ANP relatório contendo o planejamento detalhado para a execução do levantamento, levando em consideração fatores fisiográficos, logísticos e ambientais.

Em tese o planejamento deverá contemplar a identificação de estradas, centros urbanos, vilas, domicílios, populações, terras indígenas, aeroportos, campos de pouso, portos rios, áreas alagáveis e unidades de conservação e respectivas áreas de entorno ou zonas de amortecimento.

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domingo, 9 de janeiro de 2011

O ministro Pedro Novais e a pipa do vovô

Altino Machado às 8:43 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Chamemo-la de Das Dores, assim, sem vergonha da ênclise. É. Maria Das Dores. Afinal, precisamos de um nome, de uma cara, de uma história para identificar a “noiva” do deputado Pedro Novais (PMDB vixe vixe!), atual ministro do Turismo, na quadrilha junina formada por 15 casais, naquela animada noite de junho, no Motel Caribe, em São Luís (MA). Das Dores é, certamente, um bom nome para ser par do chefe da quadrilha, o “noivo” de 80 anos. Detrás de um nome, no entanto, há sempre relatos, dores, feridas.

Biografemo-la, então, em busca dessas indeléveis cicatrizes, que tornem a narrativa mais verossímil. Das Dores, pra todos os efeitos, nasceu em Olho D´Água das Cunhãs, sendo batizada pelo padre Ribamar na capela de Nossa Senhora da Conceição da Porta Aberta, em Bacabal (MA). Foi quando a praga do bicudo infestou as plantações de algodão, arruinando dezenas de pequenos produtores rurais, todos eles chamados de Ribamar. Um deles, seu pai, colocou as tralhas num caminhão, despediu-se do rio Mearim e se mudou de Bacaba´s City para a capital com toda a família.

Sigamo-la até o bairro de Turu, na periferia de São Luis. Entremos na casa de Das Dores, que fica na Rua Fé em Deus, bem nos fundos do Motel Caribe, cuja entrada principal é pela Rua União. Lá, ela ficou conhecida como “a princesinha do Mearim”, nome também de uma fábrica de sabão local. Foi lá que um assessor do deputado Pedro Novais a recrutou, juntamente com sua irmã Ribamarina, para participar do - digamos assim - arrasta-pé junino realizado no Motel Caribe.

Motel Caribe

Imaginemo-la -ainda fiel à ênclise- circulando pela pérgula da piscina ou freqüentando a sauna desse motel de São Luis, que recebe grupos em suas suítes temáticas com nomes de ilhas caribenhas. A mais cara é a Bahamas, que tem garagem dupla e custa R$ 98,00 (três horas). Essa foi justamente a reservada pelo deputado Pedro Novais para a festa que organizou, em junho do ano passado, segundo informou ao Estadão a gerente do estabelecimento, que se identificou como Sheila.

O motel oferece “pequenos artifícios para apimentar sua relação e sair da rotina”: dvds eróticos, afrodisíacos, lubrificantes, sabonetes íntimos, cinta peniana inflável, calcinhas vibratórias, máscaras, chicotes, coleiras, algemas, vestuários sensuais e afins, como o espartilho Natasha, vendido por 69,90 ou 18 prestações de RS$ 5,54. Nada disso foi discriminado na nota fiscal nº 7.058 do Motel Caribe, só o valor total de R$ 2.156,00, pago pela Câmara, depois de apresentada pelo deputado Pedro Novais.

O escândalo pipocou nos jornais em plenas festas natalinas, porque o vetusto senhor de 80 anos assumiria dias depois o ministério do Turismo, bancado pelo clã Sarney, proprietário da Capitania Hereditária do Maranhão e de sesmarias no Amapá. Como é que um parlamentar paga orgias e bacanais com o meu, o teu, o nosso dinheiro? Essa pergunta foi feita por um jornalista importuno ao futuro ministro que respondeu: “Pare de encher o saco, faça o que você quiser”. Seu chefe de gabinete, Flávio Nóbrega, reconheceu que a inclusão da nota fiscal “foi um erro” e providenciou o ressarcimento.

Dessa forma, no dia 3 de janeiro, Pedro Novais, de 80 anos, tomou posse como ministro do Turismo, na presença dos caciques do PMDB (vixe, vixe): seu padrinho José Sarney, presidente do Senado, Roseana Sarney, governadora do Maranhão, Michel Temer, vice-presidente da República e os colegas de ministério: Wagner Rossi, da Agricultura e Edison Lobão, de Minas e Energia. Só gente fina.

No seu discurso de posse, o novo ministro destacou o papel da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), mas não anunciou, como previam as más línguas, a criação da Surubatur ou Surubabrás, nem deu um pio sobre o escândalo.

Quem tentou encontrar uma explicação foi o deputado Luiz Sérgio, presidente do PT-RJ (vixe?), que chegou a ser cotado para a pasta do Turismo, mas acabou assumindo o Ministério das Relações Institucionais. Demonstrando que é mesmo um especialista em relações apimentadas, ele insinuou que a pipa do vovô não levanta mais ao justificar: “Dormir num motel não significa necessariamente fazer amor”. Mas não disse que outras coisas podem ser feitas com dinheiro público por casais que se encontram num motel.

Encontro de casais

De qualquer forma, supunhetemo-lo correto, ainda encliticamente. Supunhetemos, sem a obliqüidade do pronome, que o novo ministro das Relações Institucionais tenha razão, que um motel pode funcionar como uma casa geriátrica de repouso, com direito à massagem especial feita por fisioterapeutas credenciadas. Ou um lugar para um Encontro de Casais com Cristo (ECC).

Objetar-se-á, agora mesocliticamente, que um ECC exige presença de um assistente eclesial. Ora, isso não é problema pra nossa imaginação. Todos nos lembramos daquele padre Ribamar que batizou Das Dores. Pois é, convoquemo-lo para tal tarefa, tornando a hipótese plausível. Juro por Deus: é preferível imaginar - imaginemo-lo - a realização de um evento religioso em um motel do que admitir que vivemos numa republiqueta de merda, onde um deputado organiza orgias com dinheiro publico e ainda é promovido ao cargo de ministro.

Um deputado pode fazer o que quiser com o dinheiro ganho com o suor do seu rosto -suor de seu rosto é uma força de expressão- mas não com o dinheiro público. Foi por isso que imaginamos a quadrilha de São João. A quadrilha justifica os gastos com o orçamento da União. Lá vai o deputado Pedro Novais, o “noivo”, puxando a contradança ao lado da Das Dores, rodopiando: “lá-ra-lá-ra-la-lá” e comandando: “A Grande Roda…Caminho da Roça…Preparar para o travessê…lá vem chuva…é mentira…”

Trata-se de uma saudável manifestação folclórica de interesse para o turismo nacional e internacional. A formação da quadrilha é perfeitamente verossímil, já que a festança foi no mês de junho, que não faltou matuto e caipira e que para dar maior credibilidade e cor local os personagens se chamam todos Ribamar, como José Sarney, Ferreira Goulart, esse locutor que vos fala e todos os maranhenses que se prezam.

O novo ministro, Pedro Novais, ao organizar a quadrilha, revelou seu compromisso com o turismo. Seu poder de fogo ficou evidente, segundo o noticiário, porque antes mesmo de assumir, apenas nos quatro últimos dias de 2010, ele garantiu o repasse de R$ 32 milhões do seu Ministério para obras no Maranhão. O valor supera a soma de tudo o que foi prometido no mesmo período para as três principais economias do país: São Paulo, Rio e Minas. Os coronéis do Maranhão, seus motéis, a família Sarney e Das Dores agradecem. Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a rede de motéis do Maranhão.

No final do evento, o Motel Caribe solicitou preenchimento de uma ficha de avaliação: “O que você falaria para seu amigo: recomendo ou não gostei? Dê uma nota para o atendimento”. Das Dores, desapertando o espartilho Natasha, deu nota dez e escreveu em observações gerais: “A-mei. De pai-xão. Com essa festa, o Pedrão Novais se credencia a jogar baralho com dona Brígida (Cleyde Yáconis) e a ocupar o coração dela no lugar do Diógenes e do Benedetto. Se até o Totó ressuscitou, por que a pipa do vovô não pode levantar?”.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO).

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sábado, 8 de janeiro de 2011

PA e MT concentram maior parte das florestas da Amazônia sob risco de desmatamento, diz Imazon

Altino Machado às 11:21 am

A maior parte das florestas sob risco de desmatamento na Amazônia concentra-se no Pará (67%) e Mato Grosso (13%). A conclusão consta da primeira edição do Boletim de Risco de Desmatamento, publicado neste sábado (8) pela organização Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), sediada em Belém (PA).

O boletim do Imazon apresenta o risco de desmatamento em municípios, Áreas Protegidas, Assentamentos e áreas privadas, devolutas ou sob conflitos por posse, para o período de agosto de 2010 a julho de 2011.

Áreas privadas, devolutas ou em conflitos por posse concentraram 59% das áreas de florestas sob maior risco de desmatamento. Outros 25% estão dentro de assentamentos de reforma agrária. As Unidades de Conservação e Terras Indígenas concentram 12% e 4% das áreas sob risco de desmatamento, respectivamente.

Vários municípios foram classificados com risco alto, sendo a maioria no Pará. Novo Progresso e Novo Repartimento foram classificados pelo Imazon com risco crítico de desmatamento (área e intensidade do risco altos).

Os três municípios com maior área sob risco de desmatamento são São Félix do Xingú, Altamira e Novo Progresso, todos no Estado do Pará, acumulando 22.6% do total.

O modelo usado para determinar o risco de desmatamento é baseado em técnicas geoestatísticas. Elas permitem, segundo o Imazon,  estimar, de forma explícita, o risco de desmatamento futuro com base na distribuição espacial do desmatamento passado.

O modelo também leva em conta fatores que contribuem para a ocorrência do desmatamento: proximidade de estradas e rios navegáveis, custo de transporte de madeira, topografia, elevação de terreno, declividade e unidades de conservação.

O resultado do modelo é um mapa de probabilidade de desmatamento na Amazônia para células de 1 quilômetro quadrado.

As informações foram combinadas para classificar as áreas de florestas em quatro categorias de nível de risco de desmatamento: baixo (<10km2), moderado (10 a 100km2), alto e crítico (>100km2).

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Tribunal de Justiça concede férias para advogados do Acre

Altino Machado às 1:54 pm

A seccional da Ordem dos Advogados do Brasil  no Acre obteve nesta sexta-feira (7) a aprovação do Pleno do Tribunal de Justiça do Estado de uma resolução inusitada que concede férias aos advogados.

A OAB-AC deu entrada com um processo administrativo no Tribunal de Justiça solicitando a suspensão de audiências e prazos processuais no período de 7 a 20 de janeiro, incluindo janeiro de 2011, para possibilitar “descanso aos profissionais da Advocacia Acreana”.

Embora a advocacia seja uma atividade privada, os desembargadores decidiram a favor da OAB e suspenderam os prazos processuais, no período de 7 a 20 de janeiro de 2011.

Não haverá sessões de julgamento do Tribunal Pleno, Câmara Cível, Câmara Criminal e Turmas Recursais, bem como audiências nas Varas das Comarcas do interior e de Rio Branco, a capital do Acre.

As pautas de sessões e audiências já designadas para o respectivo período deverão ser remarcadas. A resolução do Tribunal de Justiça tem efeitos retroativos a 7 de janeiro de 2011.

Oficialmente, nesta sexta-feira seria o primeiro dia de trabalho da Justiça após o recesso de final de ano. O desembargador Adair Longuini, que será o próximo presidente do Tribunal de Justiça do Acre, foi o único que votou contra. Longuini argumentou que a decisão é inconstitucional.

Longuini justificou que, mesmo entendendo as razões e motivos da OAB, votava contra o pleito porque o Judiciário não pode administrar o sistema de Justiça por meio de resolução.

- Este pleito contraria todo o movimento nacional para banir a morosidade da Justiça, os anseios da sociedade - afirmou.

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