Terra Magazine

domingo, 31 de outubro de 2010

Vovó Dilma ou vovô Serra na presidência do Brasil?

Altino Machado às 9:23 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

- Gabi, solta um peidinho pro vovô ouvir, solta!

De quem é essa frase? Quem fez esse pedido despudorado na presença de várias testemunhas? Foi José Serra, avô coruja da Gabi, do Kiko e do Tonho, quando brincava com os netos na sua mansão na Rua Antônio de Gouveia Giudice, no bairro nobre de Alto Pinheiros, em São Paulo? Ou Dilma Rousseff, implorando para que o único neto, Gabriel, recém-nascido, bombardeasse o avô, seu ex-marido Carlos Araújo, na visita que os dois fizeram à maternidade Moinhos de Vento, em Porto Alegre?

Você conhecerá o (a) autor (a) da frase nessa edição. Se você ficar conosco saberá ainda os resultados da pesquisa – única no Brasil - sobre a intenção de votos dos netos feita pelo Data/Taquiprati que, em vez de consultar eleitores, ouviu 2925 crianças. A pergunta foi: se você votasse hoje, qual dos dois avós escolheria para presidir o Brasil? O resultado foi surpreendente, com uma margem de erro muito menor do que a dos institutos tradicionais.

O peido da vaca
Quem não tem netos pode achar estranho um avô querer ouvir o peidinho de uma criança. No entanto, nada mais natural para aqueles que, depois do exercício da maternidade ou da paternidade, se encontram agora em plena curtição da avocidade. Esses acham o pedido plausível, pois sabem que avós são seres que estão se lixando para o que pode ser considerado ridículo. Existe até mesmo uma espécie de maçonaria dos avós, uma rede secreta através da qual trocam esse tipo de experiência, com exemplos incríveis mostrando que qualquer coisa que venha dos netos é bonita.

Foi uma dessas confrarias de avós que celebrou a frase. Afinal, quem é o seu autor? O Papa Bento XVI, com certeza, não é. Ele não criou filhos, não tem netos e, com todo respeito, tudo o que fala sobre crianças é pura abobrinha, não é fruto da experiência própria, não tem valor ético, é politicagem do Vaticano. Se o papa fosse avô, certamente puniria a pedofilia no clero, em vez de ficar jogando para a plateia, como cabo eleitoral.

Mas Dilma e Serra são avós. Ambos se manifestaram contra o aborto, não iriam querer que o neto abortasse um peidinho. Um deles, portanto, pode muito bem ser o autor da frase. Pode mesmo? Vamos ver. O assunto, de importância transcendental, merece uma análise tanto do ponto de vista programático quanto lexical.

Um exame minucioso dos programas de governo de Dilma e Serra comprova o desprezo deles pela questão ambiental defendida por Marina Silva no primeiro turno. Ora, o Brasil é o quarto emissor de gases tóxicos do mundo, devido às queimadas e à emissão de gás metano, produzido pelos gases do gado. Peidos de bois e vacas geram 80% do hidreto de metila disperso na atmosfera. O gás humano, expelido por uma criança a uma velocidade de 0,080m/s, pode contribuir para a poluição ambiental.

Serra e Dilma não estão preocupados com isso. O modelo que defendem é o do crescimento econômico a qualquer custo, com geração de renda e emprego. Ambos são capazes de engarrafar os gases produzidos pelos netos, misturando-os com propano e butano, para uso na cozinha. A única diferença, a favor de Dilma, é que ela mantém os recursos naturais como patrimônio do povo brasileiro, já Serra privatiza tudo, o pré-sal e até o pré-peido. Programaticamente falando não existe, portanto, qualquer impedimento para que o autor da frase seja um dos dois.

Balança a roseira
A prova dos nove, decisiva, fica então transferida para o campo lexical. Na qualidade de avô, Serra seria bem capaz de fazer esse pedido ao neto, mas jamais usaria a palavra “peido”, muito vulgar para um tucano emplumado. Se o autor da frase fosse ele, diria:

-Expele um flato ruidoso pro nono ouvir, expele.

A máxima concessão lexical seria trocar “expelir” por ‘liberar’. Por isso, Serra está descartado como autor da frase. E a Dilma? Bom, ela é pop, não fala tucanês, jamais falaria ‘flato’, mas também é demasiado recatada e formal para empregar a palavra “peidinho”. Prefere termos como ‘pum’, ‘traque’, ‘triscada’ ou ‘vento’. Talvez, se estivesse inspirada, diria poeticamente: “Balança a roseira pra vovó, balança”. Portanto, do ponto de vista lexical, fica comprovado que nenhum dos dois candidatos pode ser o autor da frase.

O autor, na realidade, não é candidato a nada, só a avô anônimo. Trata-se do meu melhor amigo, cuja neta, Ana Pereira, nasceu há duas semanas na Vila Feliz, no Rio Grande do Norte. A frase não se refere a ‘Gabi’, que entrou aqui como Pilatos no Credo, por intriga da oposição. O que ele disse repetidas vezes para sua neta - os vizinhos testemunharam - foi: - “Aninha, solta um peidinho pro vovô ouvir, solta”.

Não estou tentando justificar, mas a frase do avô de Ana só adquire significado dentro do contexto em que foi dita. Aninha tem um primo, de nome Marcelo, que por educação ou por consciência ecológica, não balança a roseira, nem expele flatos, o que lhe traz cólicas dolorosas. A avó do menino, preocupada, telefonou ao meu amigo para trocar experiências. Foi ai que ele falou do treinamento intensivo feito com Ana.

O treino começou com o avô cantando frevo e chacoalhando a neta. Hoje, quando ele implora para ela se pronunciar, Aninha fica vermelhinha, estica os dois bracinhos, move as perninhas como se estivesse pedalando uma bicicleta, franze o cenho e manda ver. O método se revelou tão eficiente que Aninha está indo a Manaus, onde vai ministrar um workshop aos primos com objetivo de ensinar como é que se balança a seringueira.

O avô, babão, declara que já esteve várias vezes perto da morte, mas nunca ficou tão perto da vida quanto no convívio com a neta. Ele lembra a frase de Gore Vidal: “Nunca tenha filhos, só netos. Os netos são a sobremesa da vida”.

Seguindo sugestões do avô de Ana, o Data/Taquiprati fez uma pesquisa de intenção de votos com 2925 netos, numa amostragem probabilística, dentro da linha de Cochran, Bolfarine e Bussab.  A margem de erro é de 2%, e o nível de confiança de 97%. Diante da pergunta - qual dos dois avós você escolheria para presidir o Brasil? – 58% dos netos optaram por Dilma, muitos lamentando não poder escolher Marina.

A democracia avançou no Brasil. Os eleitores não são obrigados a optar para presidente da República pelo lixo: Collor, Barbalho, Roriz, Calheiros et caterva. Os dois candidatos, Dilma e Serra, independente das alianças que fizeram e das limitações pessoais e políticas de cada um, são nomes dignos e capazes de presidir o país. Afinal, ambos são avós.

Se for correta a pesquisa Data/Taquiprati entre os netos, dirigida por dois estatísticos de renome – Geraldinho Pai-da-Greta e Pão Molhado – o Brasil será dirigido pela primeira vez por uma avó. Vamos juntar os cacos e cobrar dela as promessas de campanha.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Obra da sede do Judiciário do Acre é embargada por desrespeito às leis

Altino Machado às 5:41 pm

O Ministério Público do Trabalho e o Ministério do Trabalho e Emprego embargaram nesta quinta-feira (28), em Rio Branco (AC), as obras de construção da sede do Tribunal de Justiça do Acre em decorrência de desrespeito às leis de segurança do trabalho. A obra foi contratada pelo governo do Acre e vem sendo executada pela construtora Albuquerque Construções Ltda.

As irregularidades foram constatadas pelo procurador do Trabalho Everson Carlos Rossi, acompanhado do perito da Procuradoria Regional do Trabalho da 14ª. Região, Antenor Garcia de Oliveira Junior, e do auditor do Trabalho Leonardo Lani de Abreu.

O grupo encontrou escadas sem rodapé, estruturas, inclusive poço de elevador sem guarda-corpo, máquinas sem sinalizador sonoro de ré, andaimes instalados em base precária e sem piso de apoio aos trabalhadores e falta de capacetes.

Não havia abafadores de som em quantidade suficiente para todos os trabalhadores, sendo que alguns usavam chinelos. A situação colocava em risco a vida dos trabalhadores, o que autorizou o embargo da obra.

Também foi constatado que muitos operários que trabalhavam sem proteção e sob risco de morte haviam sido contratados por empresas terceirizadas.

- Isso não afasta a responsabilidade solidária da empresa construtora responsável pela obra do Judiciário no Acre - assinalou o procurador do Trabalho Everson Rossi.

A inspeção encontrou 60 trabalhadores da construtora responsável pela obra e mais 75 trabalhadores das empresas terceirizadas. A construtora comprometeu-se a regularizar a obra e requerer ao MTE o levantamento do embargo.

O MPT no Acre instaurou procedimento de investigação para aferir a regularidade a ser implementada. O embargo da obra não prejudicará o recebimento dos salários dos trabalhadores.

A pedra fundamental da nova sede do Tribunal de Justiça do Acre foi lançada em junho de 2006, com financiamento integral do Governo do Estado. Em março do ano passado, o governador do Acre Arnóbio Marques (PT) prometeu que até o final de sua gestão, em dezembro de 2010, a obra seria entregue.

Recentemente, por determinação do governador, foi instalada na obra uma placa imensa com a seguinte mensagem: “Uma obra a altura da Justiça Acreana”.

Consultado pela reportagem, o secretário de Obras do governo do Acre, Eduardo Vieira, disse que a empresa foi notificada para corrigir as falhas.

- A empresa já providenciou o que foi exigido e a fiscalização ficou de retornar para conferir - acrescentou.

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domingo, 24 de outubro de 2010

Política substitui antropofagia durante campanha eleitoral

Altino Machado às 10:00 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

“A política é a melhor alternativa que a humanidade encontrou para substituir o maior prazer que um ser humano pode ter: bater até à morte para depois comer o fígado do outro, abocanhando-o com a carne ainda quente e o sangue ainda fresco. Quem não está disposto a reconhecer isso, não consegue superar a própria vontade de devorar o outro. Por isso, se num debate político te chamo de criminoso e te xingo, fica contente, isso ainda é melhor do que você ser servido à minha mesa”.

Quem diz isso é meu amigo Henrique Sobreira, professor da UERJ, crítico, irônico, debochado, passional, lúcido, gozador e, sobretudo, fazedor de frases. Para relativizar a oposição entre civilização e barbárie, Henrique lembra que os maiores atos de violência humana sempre foram cometidos por pessoas que se autoproclamaram civilizadas e consideram que “o outro” era alguém que devia ser “educado”. Isso pode ser comprovado nos últimos cinco séculos: de Isabel - a Católica e Dom Manoel - o Venturoso, até os Georges Bushinho e Bushão. Os índios e os mulçumanos que o digam.

No Brasil, pelo menos nas campanhas eleitorais, a política substituiu a antropofagia. Salvo o bispo de sugestivo nome Sardinha, ninguém foi jantado e devorado pelo adversário, ainda que pequenas violências realizadas dentro de certos limites e hipócrita ou sinceramente condenáveis, tenham sido cometidas ao longo da história, como mostram exemplos mais recentes.

Cantando “espada de ouro quem tem é o marechal”, eleitores do marechal Lott cuspiram na cara de Jânio Quadros; o general Figueiredo chamou os estudantes de Florianópolis pra porrada; jogaram ovo e apedrejaram o Mário Covas; atiraram uma galinha preta na Marta Suplicy; esbofetearam o Collor em Niterói; lançaram uma torta na cara do Berzoini, então presidente do PT. Um velhinho deu umas bordoadas no Zé Dirceu. Vaiaram o presidente Lula na abertura do PAN. Esses gestos de violência não deixaram sequelas físicas ou morais.

Dois Serra
Um dia, caminhando pelo calçadão de Icaraí, em Niterói, encontrei um amigo, também professor da UERJ, Ronaldo Coutinho, um doce radical, que se arrastava, todo esparadrapado, exibindo hematomas pelo corpo. Dias antes, ele havia dado um soco no Collor e os seguranças moeram-lhe o corpo de porrada. Apesar de dolorido, estava feliz, feliz da vida: “Estou quebrado, mas acertei o pústula” – dizia, rindo, como um menino travesso. Confesso que fiquei na fronteira da política e do canibalismo, quando invejei a façanha do Coutinho. Ele fez o que eu e a metade do povo brasileiro queríamos fazer. Estou orgulhoso de ser seu amigo.

E isso porque a bofetada no Collor foi mais simbólica do que física, se situou entre a sapatada no Bushinho e a estatueta de metal lançada contra o Berlusconi na Itália. Agora acertaram José Serra com uma bolinha de papel, que assumiu várias formas: “fita adesiva”, “artefato”, “tampa de garrafão de água mineral”, “objeto contundente”, “projétil”, até chegar a uma “bobina de papel crepe que arremessada com força pode provocar danos graves na pessoa atingida” segundo o bobinólogo Merval Pereira, articulista do jornal O Globo. E é aqui que o fiofó da cotia assovia, ou como poderia dizer Orozimbo Nonato: Hic culum cotiae sibilare.

A cotia assovia quando digo que admiro o José Serra. Sinceramente. Sem ironia. Juro. Faço um juramento amazônico: quero ver minha mãe mortinha no inferno, quero que Santa Luzia me cegue se estou mentindo. Mas o Serra que eu admiro é o de carne e osso, que nasceu pobre, filho de um feirante, ex-presidente da UNE, que amargou o exílio, lutou pela redemocratização do país, foi deputado, senador, prefeito, governador, ministro da saúde – bom ministro. Aquele que no início da campanha reconhecia os acertos do governo Lula. Nesse até que dava pra votar. Mas ele não é candidato.

O candidato é o outro Serra, aquele conivente com a mídia conservadora - que o inventou - comprometido com interesses dos setores mais atrasados e obscurantistas do país, arrogante, gigolô do sagrado e da religião, dono da verdade. Aquele cuja mulher declara que a adversária é a favor de matar criancinhas, que quando questionado sobre isso posa de vítima e baixa o nível do debate, que usa o tema do aborto no palanque eleitoral, que se deixa liderar pelo seu vice Indio da Costa – um paspalhão – em política externa e de segurança. E ai Serra perdeu: na emblemática escolha do vice.

A credibilidade
Nesse outro Serra, metamorfoseado em Opus Dei, que espetaculariza sua fé na Virgem de Aparecida, eu não voto, embora o respeite, porque ele é o candidato de mais de 40 milhões de brasileiros, alguns deles amigos muito próximos, com quem mantenho fortes laços afetivos, mesmo se nesse momento um de nós vai pra lá e o outro vem pra cá. No Serra que não voto é no Serra da Rede Globo, que arma, desinforma, sataniza, que zomba da minha inteligência, que acha que o cidadão é um otário, que esqueceu os gritos do povo nos comícios das Diretas Já: “O povo não é bobo, abaixo a TV Globo”.

Nessa semana, os telejornais da Rede Record e do SBT mostraram que Serra foi atingido por uma bolinha de papel atirada por um grupo de mata-mosquito que ele demitiu quando ministro da Saúde. O Jornal Nacional dedicou sete longos e caríssimos minutos para “provar” que a bolinha de papel era só parte da história, tinha havido outra agressão. Apresentou imagens nebulosas, interpretadas por um perito de reputação duvidosa, que diz que está vendo aquilo que não estou vendo, embora olhemos as mesmas imagens. O atentado, então, justificaria que Serra procurasse o médico, ex-secretário de saúde do Cesar Maia, para fazer uma tomografia computadorizada.

Francamente. Por serdes vós quem sois! Não exagereis para não serdes exagerado. Imaginem vocês se depois da cuspida que levou na cara, o histriônico Jânio Quadros exigisse um exame de abreugrafia, desconfiado de que o eleitor de Lott era certamente um tuberculoso que numa guerra química queria contaminá-lo. Serra é o primeiro paciente no planeta que faz tomografia por causa de um arremesso de uma fita crepe. Num país gozador como o Brasil, ele passou a ser objeto de piada, quando merecia contar com nossa solidariedade, se o fato não fosse manipulado e hiperdimensionado.

O episódio de violência, mais que nada simbólica, tem que ser condenado de qualquer forma, com veemência, com a mesma veemência com a qual devemos rejeitar sua exploração política, da forma mais torpe e manipuladora de factoides. Apesar disso, é preciso discordar também da intervenção do Lula que, como presidente da República, representa todos os brasileiros e não podia bater boca com um candidato. Não cabia a ele esse papel.

Numa época em que não havia escrita, no século VI antes de Cristo, na Grécia, um ex-escravo, chamado Esopo, que tinha o dom de narrar, contava entre outras a história de Pedro e o Lobo. Pedro, pastor de ovelhas, todo dia enganava a população gritando: “Olha o lobo!”. No dia em que o lobo apareceu, efetivamente, ninguém acreditou nos seus gritos. Quem acredita num mentiroso contumaz? Lembrei-me dessa história vendo o Jornal Nacional e a primeira página de O Globo, nessa sexta-feira. Assim, quando no domingo, 24 de outubro, o Globo escrever que é domingo, 24 de outubro, duvide, procure outras fontes antes de vestir sua roupa dominical.

P.S.: Às vezes, autoritário. Às vezes, ranzinza e ligeiramente rabugento. Sempre, amigo dos índios Guarani. Armando Barros, professor da UFF, parceiro em tantos projetos, nos deixou nesse sábado, com muita saudade. Seus alunos, seus colegas e os guarani choram a perda.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Justiça condena ex-diretor do “governo da floresta” por crime ambiental

Altino Machado às 1:20 pm

O ex-diretor de Controle Ambiental do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), Jairon Alcir do Nascimento, que ocupava o cargo durante a gestão do governador Jorge Viana (PT), foi condenado pela Justiça Federal, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), a dois anos e cinco meses de prisão.

Jairon Nascimento atualmente é o coordenador geral da Secretaria Executiva da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), do Ministério da Ciência e Tecnologia. Ele cometeu crimes ambientais por causa da concessão ilegal de autorizações para desmate e queima em 2002.

Ele e o então presidente do Imac, Carlos Edegard de Deus, foram denunciados pelo MPF. Ambos emitiram autorizações para desmate e queima de mais de 1,6 mil hectares sem vistoria prévia, contrariando as normas da época para a emissão dos documentos.

O juiz federal Marcelo Eduardo Rossitto Bassetto absolveu Carlos Edegard das acusações. O MPF recorreu da absolvição de Edegard, bem como da pena aplicada a Jairon Nascimento, por entender que existem agravantes que aumentariam o prazo da condenação.

A pena aplicada a Nascimento foi convertida em duas penas restritivas de direito, sendo a primeira para cumprir serviços comunitários durante os dois anos e cinco meses que seriam de prisão.

O condenado deverá pagar multa de 29 salários mínimos, além de doar, mensalmente, a uma entidade a ser definida pelo juízo, a quantia de R$ 1 mil, pelo mesmo prazo de 29 meses referentes à prisão.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Arrastão do Círio: 10 anos de homenagens à padroeira da Amazônia

Altino Machado às 7:56 am

POR YORRANNA OLIVEIRA

Véspera do Círio de Nazaré. Dia de Arrastão do Círio, o cortejo que reverencia a Virgem de Nazaré, o universo ribeirinho, os brinquedos de miriti, o trabalho dos artesãos, a cultura popular. Fogos explodem no céu. O sol e o calor castigam o corpo. Hora do almoço em Belém do Pará. As ruas próximas à Estação das Docas estão entupidas de gente. Buzinas enlouquecem os ouvidos.

Há um colorido vertiginoso na paisagem. Músicos com instrumentos de percussão, pessoas com brinquedos e adereços de miriti, papel e garrafas pet, homens e mulheres em cima de pernas de pau. Uma confusão de cores, sons e cheiros para quem ainda não se acostumou com o ritmo da cidade que espera a padroeira da Amazônia passar.

Quando as águas da Baía do Guajará entregam a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré ao povo, no porto de Belém, a Romaria Fluvial chega ao fim. As homenagens de homens e mulheres que acompanham o traslado pelos caminhos do rio também encerram. E na escadinha do cais do porto, ao lado da Estação das Docas, onde a imagem da Santa desembarca, começa uma nova série de homenagens, entre elas a do Arrastão do Círio, que no próximo dia 9 de outubro, sábado, completa dez anos de homenagens à padroeira dos paraenses.

O Cortejo

O Arrastão do Círio inicia quando Nossa Senhora aporta em terra firme, quase sempre na hora do almoço, vinda do distrito de Icoaraci, em Belém. Nesse momento, fé e festa se encontram enquanto os músicos do Batalhão da Estrela tocam o hino do Círio de Nazaré - “Vós sois o Lírio Mimoso” -, no ritmo da Marujada de Bragança. Eles são acompanhados pela voz de um público que abarrota as ruas ao redor e se espreme na tentativa de ver, tocar, tirar uma foto da imagem, gravar o instante de homenagens. “É o que nos liga ao Círio de Nazaré. Nós, assim como o Auto do Círio e a Festa da Chiquita, já estamos atrelados a ele. O Arrastão é inspirado nesse cenário plástico e artístico dos brinquedos tradicionais, como o roque-roque, o soca-soca, a girândola, que estão presentes no cortejo. É uma imersão à tradição popular do Círio”, afirma Júnior Soares, músico do Instituto Arraial do Pavulagem.

A Santa vai embora depois da homenagem no porto de Belém e o Arrastão do Círio segue por um outro destino. Ele percorre o Ver-o-Peso em direção à Praça do Carmo, no bairro da Cidade Velha, num percurso de quase uma hora. E o povo vai junto, cantando, dançando, pulando ao som de carimbó, retumbão, xote, siriá, entre outros ritmos da Amazônia. Com direito a banho de cheiro na Feira do Ver-o-Peso.

Quem participa da festa vem dos mais diversos cantos do Pará, do Brasil e do mundo. É gente que vem pro Círio e fica sabendo do lado cultural e profano do evento. Gente que vem para a Romaria Fluvial e resolve ver aonde vai parar toda aquela alegria, todo aquele colorido e agitação. Gente que vem amanhecida do Auto Círio, e que ainda pretende participar logo mais à noite da Trasladação, ficar na Festa da Chiquita e no dia seguinte ainda tem pique para acompanhar o Círio. Haja fôlego. E tem gente que vem só para o Arrastão mesmo.

Ao chegar à Praça do Carmo, os músicos do grupo Arraial do Pavulagem continuam a festa, num palco montado para receber atrações musicais de várias partes de Belém e do Estado. Todos para também homenagear Nossa Senhora, tocando os ritmos da região amazônica.

Bastidores

O cortejo sai pelas ruas de Belém, graças ao trabalho do Instituto Arraial do Pavulagem, com o apoio da Prefeitura Municipal. O Instituto é hoje um ponto de cultura, o “Arraial do Saber”, do Ministério da Cultura. Ao longo do ano, ele promove outros cortejos: o Cordão do Peixe - Boi em fevereiro, no Carnaval, e o Arrastão do Pavulagem em junho, para comemorar a Quadra Junina.

O Arrastão do Pavulagem é o mais antigo de todos. Ele começou em 1987, da iniciativa de um grupo de músicos e compositores paraenses com um traço em comum: valorizar e divulgar a música de raiz feita na Amazônia e construir uma relação mais próxima com o público. Com esse intuito, o grupo iniciou uma brincadeira aos domingos na Praça da República, usando a alegoria de um boizinho na tala para atrair o público presente para apresentação musical, no palco do Teatro Experimental Waldemar Henrique. Começava aí os cortejos de cultura popular, os “Arrastões do Pavulagem”.
Como a bateria numa escola de samba, quem agita o público são os integrantes do Batalhão da Estrela, formado por percussionistas, pernas de pau, dançarinos, pessoas que carregam materiais, água e músicos do grupo Arraial do Pavulagem. “Tem todo estilo musical e todo estilo de vida. Tem roqueiro, tem hippie, tem patricinha, tem de tudo aqui”, opina Rogério Pinheiro, de 27 anos, e há seis no Batalhão da Estrela.

O Batalhão ensaia quase o ano inteiro. Participa de oficinas de percussão, dança e artes circenses, promovidas pelo Instituto Arraial do Pavulagem, através do Ponto de Cultura Arraial do Saber, para fazer bonito nas apresentações. O músico Rafael Barros, de 35 anos, comanda essa ‘orquestra’ de rua. É ele quem dita o ritmo e as variações da percuteria (mistura de elementos de percussão com os de bateria) do Batalhão. “Entrei há cinco anos no Arraial, fui convidado só pra dar uma oficina de percussão no Instituto. Depois me perguntaram se eu queria ensaiar o Batalhão, e depois me convidaram pra tocar na banda. As coisas foram acontecendo e estou aqui até hoje”, relembra o maestro.

Rafael tem cerca de 1,62 de altura. Por conta de sua condição “avantajada”, como ele ironiza, teve a ideia de comandar o cortejo em cima de uma perna de pau. “Ficava muito difícil das pessoas me verem e me ouvirem no Arrastão, porque no ensaio é uma coisa, fica fácil. Na rua, você some por causa dos adereços, dos instrumentos, do público em si. Falei pro Walter (produtor dos arrastões), e ele gostou da ideia, achou que ficava uma coisa bem cara de rua, então fui estudar. O pessoal do Batalhão fez um bolão pra ver em qual Arrastão eu cair. Se eu não caísse, eu ficava com a grana. Eu não caí. Mas eu nunca vi esse dinheiro”, reclama Rafael, em tom de brincadeira.

Cultura popular

Não precisa ser artista profissional para participar das atividades do Instituto Arraial do Pavulagem, basta querer e se inscrever para as oficinas no site do Instituto. O espaço é aberto a todos. “Um dos grandes objetivos do Arraial é passar o conhecimento da cultura popular para as pessoas. Isso é a verdadeira democracia. Desde Platão, ele já dizia que só há democracia quando o povo participa de fato das discussões. E o Arraial faz isso com as pessoas, por isso que ele é uma das referências em cultura popular na Amazônia. Acredito que muitas pessoas nunca tinham ouvido falar em samba de cacete, por exemplo. O Arraial faz um resgate desses ritmos e passa para o público”, avalia Mário Valmont, de 29 anos, servidor público em horário comercial, e tocador de caixa de marabaixa no Batalhão da Estrela.

Rubens Stanislaw, de 37 anos, já tem cabelos brancos de Arraial do Pavulagem. “Estou desde 97. Quem entra no Arraial fica com cabelo assim”, brinca. Ele é baixista e produtor da banda, além de presidente do Instituto. O ar grisalho, ele ganhou pela preocupação de levar um trabalho bem feito para o público. Trabalho que tem a colaboração de cada componente do Batalhão da Estrela. Na rua, as pessoas recebem o resultado dessa parceria.

A cobra grande de miriti, símbolo da homenagem e que faz alusão à corda dos promesseiros, do Círio de Nazaré, será substituída por uma cobra feita de garrafas pet. O trabalho realizado por artesãos da capital paraense, crias das oficinas artísticas da Fundação Curro Velho, garante maior resistência do brinquedo às apresentações, mostra a possibilidade de criação a partir de outros materiais, além de reafirmar o caráter sustentável cada vez mais presente nas ações do Instituto Arraial do Pavulagem. Mas os demais brinquedos de miriti permanecem no cortejo.

Ícaro Barbosa é um desses olhos que brilham. Aos 21 anos, ele estuda Engenharia Florestal e desde criança assiste às atividades do Arraial do Pavulagem. Em 2010, participa pelo segundo ano consecutivo das movimentações do Instituto Arraial do Pavulagem, ali, dentro do Batalhão da Estrela, do alto de sua perna de pau - elemento com um significado muito específico no cortejo.

“A gente [pernas de pau] tem a função de controlar o público, pra que ele não esprema o Batalhão, porque como é muita gente e é na rua, andando, dançando, fica difícil as pessoas caminharem. A gente é como se fosse uma barreira, pra que o Batalhão não seja esmagado, além da questão estética também. Eu sempre fico tenso, porque sempre tem criança que puxa a gente, acha bonito e diz: ‘olha mãe, olha o menino na perna de pau!’ E puxa a nossa perna com tudo. Tem mãe que pede pra gente carregar o filho pra tirar foto. Mas não tem como, se não a gente cai. É muito engraçado”, comenta.

Ícaro diz isso com uma empolgação que só vendo. Aliás, em tese, ele nem deveria participar do Arrastão do Círio este ano, muito menos dos ensaios. “Há duas semanas peguei uma bronquiopneumonia, nem deveria tá aqui, mas estou. Não tem como não vir, porque é uma coisa que faz parte da vida da gente, não dá pra você negar, não vir. Aqui a gente se diverte, tu encontras os teus amigos. E assim como toda a forma de arte, quando tu gostas, não tem como tu deixares de vir”.

Fotos: Karina Paes

Serviço:
Arrastão do Círio 2010
Data: 9 de outubro, véspera do Círio de Nazaré
Local: Belém do Pará, na escadinha da Estação das Docas.
Horário: Concentração a partir das 10 horas
Endereço: Av. Boulevard Castilho França, s/n - Bairro da Campina
Site: www.arraialdopavulagem.com.br

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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Tripulação de helicóptero do Acre é afastada por causa de mulheres

Altino Machado às 5:15 pm

O piloto e o co-piloto de um helicóptero de propriedade do governo do Acre foram afastados de suas funções nesta terça-feira (5) pela secretária Márcia Regina de Sousa Pereira, da Segurança Pública, por causa das fotos de duas mulheres dentro da aeronave.

As mulheres também foram fotografadas na companhia da tripulação e de policiais numa praia deserta do Rio Acre. Além do afastamento, a secretária determinou a abertura de sindicância para apurar as responsabilidades e prometeu aplicar sanções disciplinares.

As fotografias foram divulgadas em blogs do Acre. A secretária divulgou uma nota em que reprova a “conduta da tripulação do helicóptero Cel. João Donato, que permitiu o ingresso de pessoas estranhas no interior da aeronave”.

- O helicóptero do Estado tem realizado um trabalho sério e responsável - afirma a nota.

A secretária de Segurança lembrou que o helicóptero está há um ano em operação, já salvou vidas, ajudou a combater queimadas e apoiou o trabalho das polícias Militar e Civil no enfrentamento à criminalidade, alem de ter atendido ao Tribunal Regional Eleitoral nas últimas eleições para garantir acesso às regiões isoladas do Acre.

Apesar do desfecho no âmbito administrativo, o Ministério Público do Acre não manifestou intenção de acompanhar o caso e apurar possível improbidade.

O helicóptero de R$ 7,9 milhões foi adquirido em 2008 pelo governador do Acre Binho Marques (PT), após o ex-governador Jorge Viana, atualmente senador eleito, ter assumido o conselho de administração da fabricante Helicópteros do Brasil S.A (Helibras).

No mês passado, por causa de irregularidades na compra do helicóptero modelo Esquilo AS 350B2, o Ministério Público Federal no Acre entrou com ação civil de restituição de patrimônio público para anular o contrato celebrado entre a empresa  (Helibras) e o Estado.

O valor corrigido, a ser devolvido pela Helibrás, caso a Justiça Federal decida pela anulação do contrato, é de R$ 9,2 milhões. Na fuselagem da aeronave foi pintada uma estrela vermelha. Para o MPF, a estrela do PT; para o governo, a estrela do Estado do Acre.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Aeroporto de Rio Branco fecha por causa das queimadas na região

Altino Machado às 11:34 am

O aeroporto Plácido de Castro, de Rio Branco (AC), está fechado para pousos e decolagens por causa da densa nuvem de fumaça que amanheceu sobre a cidade nesta sexta-feira (1), decorrente de queimadas na região.

Os passageiros do vôo 1908, da Gol, que decolou às 23 horas de quinta-feira (30) de Brasília com destino a Rio Branco, se assustaram durante o pouso. Por causa da fumaça, o avião ficou sobrevoando Rio Branco.

- O pouso abrupto foi horrível. Tivemos a sensação de que o avião caiu de uma vez no chão - contou uma passageira.

No momento, a visibilidade na pista é de 1.000 metros e a Infraero informou que a mesma só será liberada quando a visibilidade for de pelo menos 2,6 mil metros.

A intensa estiagem na Amazônia tem dificultado a vida da população no Acre, onde a temperatura atingiu 41ºC na quinta, com sensação térmica de 44ºC, mas o céu estava livre de fumaça.

O pesquisador Evandro Ferreira, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), disse, baseado em imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que o céu estava realmente livre de nuvens e a direção do vento era no sentido Sudeste, ou seja, do Acre em direção à Bolívia.

- Mas uma frente fria, prevista pelo Inpe, se aproxima e fez com que a direção do vento se invertesse. Agora ele sopra na direção noroeste. Com isso, a fumaça das queimadas existentes na região dos municípios de Plácido de Castro, Xapuri, Brasiléia, Epitaciolândia e até na Bolívia foi transportada de forma repentina e em grande quantidade para Rio Branco.

Segundo Ferreira, a previsão do Inpe sugere que a mudança na direção do vento só vai se consolidar no domingo, quando a frente fria chegar a Rio Branco. A previsão sugere que entre segunda-feira (4) e terça (5), a temperatura atinja mínima de 15ºC em Rio Branco.

- A tendência é a nuvem de fumaça ficar estacionada e se dissipar aos poucos, porém voltando a incomodar a partir de domingo. E no domingo, dia da eleição, temos previsão de chuva. Pouca, mas teremos chuva. Ruim para os candidatos que contam com eleitores das zonas rurais.

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