Terra Magazine

domingo, 26 de setembro de 2010

Plínio de Arruda é o Cavaleiro da Triste Figura: tudo o que diz é ético e justo. Tem razão em tudo. Mas não cola.

Altino Machado às 8:45 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Num lugar da Paulicéia Desvairada, cujo nome não quero lembrar, vivia há muito tempo um fidalgo, que ficou conhecido como o Cavaleiro da Triste Figura. Beirava os 80 anos. Era de compleição dura, seco de carnes, enxuto de rosto, nariz adunco, com aparência física do personagem do filme russo de Kozintsev. Era o próprio conde de Rachimbal.

Na sua juventude, esse cristão novo entregou-se à leitura de livros de filosofia e de economia. Inconformado com a existência, de um lado, de donos de fábricas, de terras e de bancos e, de outro, de proletários destituídos de bens, em situação de extrema miséria, possuidores apenas de sua força de trabalho, o nosso cavaleiro quis saber por que uns poucos têm tanta terra, tanto dinheiro, e muitos não têm onde cair morto, onde cultivar uma roça. A propriedade privada era mesmo um roubo?

Foi procurar nos livros a resposta sobre as injustiças do mundo. Começou com os dois tomos da Filosofia da Miséria, de Proudhon, e continuou com a Miséria da Filosofia, de Karl Marx, acompanhando a polêmica sobre o que é o lucro e o que é o salário. Na Contribuição para a crítica da Economia Política descobriu a contradição entre as forças produtivas materiais da sociedade e as relações sociais de produção.

Ampliou suas leituras, varando dia e noite sem dormir. Compreendeu o que era o lucro no sistema capitalista, quando devorou os três tomos de O Capital onde aprendeu o conceito de ‘mais-valia’, depois de ruminar – já que ninguém é de ferro – o manual didático da chilena Marta Hanecker – O Capital: conceitos fundamentais – e até mesmo o curso dado aos operários belgas pelo filósofo húngaro-francês, Georges Politzer, em cujo livro - Princípios Elementares de Filosofia - encontrou mastigadas e vulgarizadas as leis do materialismo dialético.

Daí decidiu que não era suficiente compreender o mundo, era necessário mudar o mundo. Como? Leu no Manifesto Comunista que a história social da humanidade é a história da luta de classes. Sonhou com o socialismo e com uma sociedade sem classes folheando as páginas da Crítica ao Programa de Gotha. De tanto se empanturrar de literatura marxista, esse fidalgo paulista acreditou piamente na revolução proletária.

Dom Plinio Del Tieté

Certo de que a classe operária tinha condições de emancipar toda a sociedade, o nosso cavaleiro não quis esperar mais tempo para se tornar, ele próprio, um revolucionário, um cavaleiro andante. Montou seu cavalo Psol, fraco e esquálido, e fugiu de casa em busca de aventuras, com o objetivo de endireitar o que estava torto, corrigir os abusos, praticar a justiça. Pegou uma armadura enferrujada de seu bisavô, fez uma viseira de papelão, armou-se com uma lança e se auto-intitulou Dom Plínio Del Tieté.

Muita gente achou que o excesso de leituras havia deixado seu miolo mole, fazendo com que perdesse o juízo. Foi visto como louco. Ninguém aceitava que os ímpetos e os sonhos da juventude pudessem habitar aquela carcaça envelhecida pelo tempo. Confundido com um Enéas de esquerda – meu nome é Plínio – ele, no seu cavalo, tololoc, tololoc, saiu pra luta, tentando resgatar a esperança no horizonte socialista, com alucinações, como se estivesse vivendo ainda no século XIX, quando o fantasma do comunismo percorria a Europa.

Na sua primeira aventura em suas andanças pelo mundo, o nosso fidalgo encontra um menino, um camponês de nome Andrés, que amarrado numa árvore, era açoitado pelo seu patrão, um cruel latifundiário. Dom Plínio propõe, então, a expropriação de todas as terras que utilizassem trabalho escravo e infantil e a redução da propriedade rural. “Ninguém pode ter terras com mais de mil hectares” – ele sentencia. Advoga também a redução da jornada de trabalho de 40 horas, sem redução salarial.

Mais adiante, depois de lutar contra o latifúndio e o agro-negócio, o nosso cavaleiro visionário dá de cara com outros monstros – os moinhos de vento da agiotagem internacional e da globalização, com seus braços e seus tentáculos assustadores, contra quem ele arremete com toda sua fúria, consciente de que lutava contra gigantes. Quer destruí-los, deseja feri-los mortalmente, clamando por uma auditoria da dívida pública, a suspensão do pagamento dos juros e amortizações, além da taxação progressiva das grandes fortunas.

O nosso cavaleiro se decepciona com seu fiel escudeiro barbudo – Sancho Pança – a quem havia ajudado a se tornar governador de uma ilha, transformada pelo novo governante em um paraíso dos banqueiros e do mercado financeiro, com elevados juros que sangravam cotidianamente o Orçamento da Insula. O cavaleiro critica a política assistencialista, que distribui bolsas - bolsa-disso, bolsa-daquilo - mas não toca nas relações sociais, nem no sistema de propriedade dos meios de produção, nem contribui para mobilizar e organizar a classe operária que vai redimir o mundo.

Na ânsia de combater as injustiças, ele segue enfrentando situações de perigo, mas é ridicularizado, surrado por pastores, pisoteado por ovelhas, cassado por militares, amarga o exílio, leva uma surra de repolhos testemunhada pelo duque de Ibope, que registra que suas façanhas são aprovadas e levadas a sério por apenas 1% dos habitantes da Insula. Muita gente ri dele, debocha desse cavaleiro, “que es valiente, pero tonto”.

A geral copulação

Por que um discurso que se apresenta como “uma opção de esquerda, socialista, popular, feminista, anti-racista e ecológica” não encontra eco na população da Insula? Por que ele é levado para o campo do burlesco, do grotesco, do pícaro? A ironia do destino é que se trata de um discurso generoso e combativo, que nos convida a sonhar e a acreditar na possibilidade de construir uma sociedade mais justa. Tudo que ele diz é ético e justo. Tem razão em tudo. Mas não cola.

Ele luta por saúde pública universal, integral e com controle social; educação gratuita e de qualidade para todos; meios de comunicação efetivamente democratizados; extirpação definitiva do racismo, da homofobia e do machismo. Quando é ridicularizado, quem está sendo achincalhado? É ele, individualmente, ou as idéias da construção de um mundo diferente, consideradas delirantes porque defendem a utopia?

Será que os habitantes da Insula perderam a capacidade de sonhar e de buscar o reino da utopia? Estão acovardados, fracos, envelhecidos? Trocaram as proezas pelas “nãoezas”? Perguntam-se: de que serve a revolução sem a geral copulação? Ou o que está afastando as pessoas é certa soberba do cavaleiro acuado, isolado, que acredita deter o monopólio da verdade e não consegue costurar alianças com outros setores da sociedade?

Devemos agradecer a Dom Plinio Del Tieté, esse atrevido, lírico, fora de moda, por nos mostrar como somos ridículos quando colocamos em público o sonho de mudar o grande teatro do mundo? Por nos ajudar a ver, como num espelho, que somos “tantas vezes reles, tantas vezes vil, tantas vezes irrespondivelmente parasitas e indesculpavelmente sujos”? Ou, enfim, a triste figura, na realidade somos nós, que ridicularizamos seu discurso, porque a utopia é mesmo ridícula no espelho pragmático da política?

No debate da próxima quinta-feira, 1º de outubro, ele entrará nos estúdios da Tv Globo montado em seu cavalo Psol, com sua lança em riste, como se estivesse vivendo no tempo da cavalaria. No final da história original, Dom Quixote morre como um piedoso cristão, mas nos deixa de herança o direito de sonhar, apesar de nossas fraquezas. E Dom Plinio Del Tieté, o que fará depois das eleições de 3 de outubro?  E nós?

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Blogs que citam este Post

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Secretários e mãe de prefeito de Acrelândia são presos suspeitos de mandar matar vereador

Altino Machado às 6:45 pm

Quatro pessoas suspeitas de participação no assassinato do ex-presidente da Câmara de Acrelândia (AC), vereador Fernando da Costa, que era mais conhecido como Pinté, foram presos nesta sexta-feira pela Polícia Civil do Acre.

Os secretários municipais Jonas Prado (Administração) e Joaba Carneiro da Silva (Educação), o funcionário público Carlos Henrique Pereira Lago e a vereadora Maria da Conceição (PSB), mãe do prefeito de Acrelândia, Carlos César de Araújo (PSB), são suspeitos de envolvimento na morte  de Pinté, ocorrida no dia 1º de maio deste ano.

O secretário de Obras de Acrelândia, José Valcir da Silva, teve a prisão decretada, mas conseguiu fugir. Também foi preso Paulo César Araújo, pai do prefeito, com quem a polícia encontrou munição para arma, sem licença.

O secretário de Polícia Civil, Emylson Farias, disse que Pinté foi assassinado porque descobriu e iria denunciar um esquema de desvio de verbas públicas em secretarias da prefeitura e pagamento de propina na Câmara de Acrelândia.

De acordo com o secretário, Carlos Henrique foi contratado para matar Pinté pelos secretários Jonas Vieira, Joaba Carneiro e José Valcir, juntamente com a vereadora Maria da Conceição. O grupo, segundo a policia, pagou R$ 30 mil pelo crime.

Carlos Henrique terceirizou o crime a Jhonata Alves, autor dos tiros, que está preso desde o dia 31 de maio. O condutor da motocicleta utilizada na fuga de Jhonata Alves já foi identificado.

A polícia suspeita que os R$ 30 mil usados para o pagamento dos assassinos tenha sido desviado das secretarias de Obras e Educação. Pinté sofreu ameaças de morte quando sinalizou que denunciaria irregularidades na administração do município.

Blogs que citam este Post

Operação desarticula no Acre quadrilha que fraudava a Previdência

Altino Machado às 10:49 am

Uma força-tarefa da Polícia Federal, Ministério da Previdência Social e Ministério Público Federal foi deflagrada nesta sexta-feira (24) nos municípios de Rio Branco e Plácido de Castro, no Acre.

Denominada de Casamata, a operação cumpre onze mandados de busca e apreensão, três de seqüestro de bens, três de afastamento temporário de servidores do INSS, além de ter sido decretada judicialmente a quebra de sigilo bancário dos envolvidos.

Segundo a Polícia Federal, a forma de atuação da quadrilha consistia em retroagir indevidamente a data de óbito dos instituidores de pensão por morte com o fim de gerar pagamentos retroativos de altos valores. Foram apurados prejuízos aos cofres públicos no valor de R$ 300 mil, porém o prejuízo estimado pode alcançar R$1 milhão.

Também eram listados dependentes fictícios, utilizados “laranjas” como procuradores para realização dos depósitos referentes aos benefícios e dado fim a processos concessórios. Na maioria dos casos, os verdadeiros titulares não sabiam das concessões.

As investigações identificaram o envolvimento de dez pessoas, dentre os quais três são servidores do INSS e uma ex-estagiária da autarquia, sendo os demais intermediários e procuradores de benefícios previdenciários.

Participaram da operação 44 policiais federais e 10 servidores do Ministério da Previdência Social. Já foram apreendidos três veículos e aproximadamente R$ 6 mil reais.

É a primeira operação de natureza previdenciária realizada no Acre. Ela começou em maio, para apurar denúncias de irregularidades na concessão de benefícios previdenciários de pensão por morte e salário maternidade ocorridos no PrevCidade de Xapuri (AC) e na agência da Previdência Social no centro de Rio Branco.

Casamata faz alusão à instalação fortificada, fechada à prova dos projéteis inimigos, usualmente utilizadas em operações militares. Segundo a PF, os envolvidos se protegiam na agência da Previdência Social, onde eram concedidos benefícios fraudulentos e, a partir desta, identificavam as ações da investigação em andamento.

Blogs que citam este Post

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Justiça aceita denúncia contra suposto desvio de R$ 22,8 milhões da BR-364

Altino Machado às 1:59 pm

A Justiça Federal no Acre aceitou a petição inicial da ação civil pública de improbidade administrativa proposta pelo Ministério Público Federal (MPF) em decorrência de suposto desvio de verbas públicas no valor de R$ 22,8 milhões, relativos a trechos das obras de pavimentação e restauração da rodovia BR-364, que liga Rio Branco, a capital, ao interior do Estado.

A denúncia do MPF responsabiliza os ex-diretores-gerais do Departamento de Estradas e Rodagens do Acre (Deracre), Sérgio Nakamura e Tácio de Brito, o diretor de obras do Deracre Joselito José da Nóbrega, além dos empreiteiros Carlos Eduardo Ávila de Souza (Construtora Ideal), José de Ribamar Nina Lamar (CEPEL Construções Ltda), Antonio José de Oliveira e Mauro José de Oliveira (Contrutora Construmil).

O juiz federal Marcelo Bassetto considerou os indícios apontados pelo MPF como suficientes, frente à defesa prévia apresentada pelos acusados. Basseto determinou a continuidade da ação, quando será analisado o mérito, julgando o possível dolo dos acusados e a efetiva prática da improbidade.

Os acusados, caso sejam condenados, terão de ressarcir ao erário os R$ 22,8 milhões desviados, respeitadas as responsabilidades de cada um sobre este montante.

Também podem sofrer outras sanções previstas em lei, como a suspensão dos direitos políticos, perda das funções públicas e a indisponibilidade de bens, além da impossibilidade de contratar com o poder público ou receber benefícios fiscais ou creditícios e multa de até três vezes o valor do prejuízo, isto é, até R$ 68,4 milhões.

Blogs que citam este Post

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ex-deputado Hildebrando Pascoal enfrentará novo julgamento no Acre

Altino Machado às 10:50 am
Hidebrando

Hidebrando Pascoal durante julgamento no ano passado

O ex-deputado Hildebrando Pascoal será julgado em outubro, em Rio Branco (AC), pela prática de constrangimento ilegal, seqüestro e cárcere privado, além de violação de domicílio contra Clerisnar dos Santos Alves, mulher de José Hugo, acusado de assassinar, em 1996, o tenente Itamar Pascoal, irmão de Hildebrando.

A mulher e dois filhos menores, de 7 e 10 anos, foram seqüestrados e mantidos em cárcere privado como forma de atrair José Hugo, que posteriormente foi assassinado no Piauí por Pascoal e seu bando.

O coronel aposentado da Polícia Militar estará acompanhado no banco de réus por Marcos Antônio César da Silva, Manoel Maria Lopes da Silva, Alex Fernandes de Barros, Ney Ari Bandeira Roque, além do primo Aureliano Pascoal, também coronel aposentado.

Leia mais:

Hildebrando: “A vida é uma dádiva divina”

Ex-deputado é acusado de degolar homem no Piauí

Júri condena Hildebrando Pascoal pelo crime da motosserra

O juiz Leandro Leri Gross, titular da Vara do Tribunal do Júri Popular de Rio Branco, informou que é o último processo que ex-deputado responde no Acre, mas não definiu ainda o dia do julgamento. Pascoal ainda terá que enfrentar julgmento na Justiça do Piauí por causa do assassinato de José Hugo.

O ex-deputado chegou a ser denunciado pelo Ministério Público Estadual, em 1999, porém o assassinato do mecânico Agilson Firmino dos Santos, o Baiano, que ficou conhecido como “crime da motosserra”, foi desmembrado do processo.  Baiano, que ajudou na fuga de Hugo, foi asssinado por não ter revelado o seu paradeiro.

Atestados

No próximo dia 23 de setembro completará um ano que o júri popular do Acre condenou Hildebrando Pascoal a 18 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado no caso do “crime da motosserra”, um dos assassinatos mais brutais da década de 1990 no Brasil.

Após o julgamento, o governador do Estado, Binho Marques (PT), afirmou que o Acre virou uma página negra de sua história. Não virou. Somente agora, após 14 anos, a família e Baiano, e do filho dele, Wilder, receberá os atestados de óbito de ambos, vítimas da organização criminosa que era comandada pelo ex-deputado.

Os documentos foram expedidos nesta quarta-feira (15) pela Vara de Registros Públicos de Rio Branco. A partir de agora, poderá ser providenciada, conforme consta na sentença do juiz juiz Leandro Gross, a transferência dos restos mortais de Baiano e Wilder para a cidade onde a família vive refugiada por indicação do programa de proteção de vítimas e testemunhas.

Blogs que citam este Post

terça-feira, 14 de setembro de 2010

MPF pede que Helibras devolva R$ 9,2 milhões da venda de helicóptero ao governo do Acre

Altino Machado às 9:54 am

Por causa de irregularidades detectadas na compra de um helicóptero modelo Esquilo AS 350B2, adquirido em 2008 por R$ 7,9 milhões, o Ministério Público Federal (MPF) no Acre entrou com ação civil de restituição de patrimônio público para anular o contrato celebrado entre a empresa Helicópteros do Brasil S.A. (Helibras) e o Estado.

O primeiro e único helicóptero do Acre foi adquirido pelo governador Binho Marques (PT), após o ex-governador Jorge Viana (PT), atualmente candidato ao Senado, assumir a presidência do Conselho de Administração da fabricante Helibras.

Na compra do helicóptero foram usados recursos provenientes de convênio do governo estadual com o Ministério da Justiça, por meio do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci).

O valor corrigido, a ser devolvido pela Helibrás, caso a Justiça Federal decida pela anulação do contrato, é de R$ 9,2 milhões. Pintado com uma estrela vermelha, o helicóptero foi batizado  de Comandante João Donato, em homenagem ao pai do músico João Donato.

Leia mais:

MPF abre inquérito contra compra de helicóptero de R$ 7,9 milhões no Acre

MPF aciona Justiça contra estrela vermelha em helicóptero de governo do PT

Governo do PT não vai remover estrela vermelha de helicóptero

O procurador da República Anselmo Henrique Cordeiro Lopes afirma na ação que as irregularidades na aquisição do helicóptero vão desde o modelo licitatório aplicado, que não poderia ser pregão presencial, mas sim concorrência, até a inclusão de outros itens no contrato que caracterizam venda casada, como o treinamento de pilotos e mecânicos cujo valor é obscuro no contrato.

Outra irregularidade apontada pelo MPF na ação é a excessiva quantidade de requisitos para a formação do projeto básico do helicóptero, que inclui itens disponíveis apenas em aeronaves fabricadas pela Helibrás, prejudicando o caráter competitivo da compra.

O MPF assinala que as especificidades por si só descaracterizam o helicóptero como bem comum, impossibilitando o uso do pregão como modelo licitatório.

Com relação ao preço da aeronave, a ação comparou valores de helicópteros fornecidos pela Helibrás para quase todos os estados brasileiros e apontou distorções, mostrando grandes variações entre as vendas. A ação demonstra que apenas a variação cambial da época dos contratos não justificaria a diferença abusiva de valores praticados para a venda do mesmo bem, como argumenta a empresa.

Outro pedido da ação é para que sejam ouvidos os responsáveis pelo negócio, tanto por parte do governo do Acre quanto por parte da empresa. A ação teve origem em inquérito civil público instaurado em novembro de 2009. Um inquérito policial federal continua em curso apurando eventuais responsabilidades pessoais.

Blogs que citam este Post

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Google Earth revela no AC 15 desenhos milenares desconhecidos da ciência

Altino Machado às 1:45 pm
C�rculo dupo

Círculo duplo (primeira ocorrência com tal perfeição) pode ser visualizado nas coordenadas 10º 07' 38" S 67º 02' 02" W, no município de Acrelândia

As novas imagens de satélite sobre o Acre, liberadas pelo Google Earth no mês passado, já serviram para revelar a ocorrência de 15 novos geoglifos no Estado. Os geoglifos são estruturas geométricas perfeitas, construídas entre os séculos I e X, que se tornaram visíveis com o desmatamento na região.

Os novos geoglifos foram identificados pelo paleontólogo Alceu Ranzi, que faz parte de um grupo de pesquisadores que já catalogou a existência de 255 geoglifos na parte leste do Acre.

Leia mais:

Geoglifos podem ser reconhecidos como Patrimônio da Humanidade

Arqueologia: novas descobertas elevam para 255 os geoglifos do Acre

Num raio de 20 quilômetros, no município de Acrelândia, Ranzi identificou os geoglifos, sendo alguns considerados novos para a ciência.

- As imagens ampliam a área de ocorrência e apresenta novas formas. É possível visualizar em muito boa resolução, por exemplo, um círculo perfeito duplo de 200 metros de diâmetro, nas coordenadas 10º 07′ 38″ S 67º 02′ 02″ W. É a primeria vez que encontramos um com tal perfeição - assinala o pesquisador.

Localizados em áreas de interflúvio, entre os divisores de água dos rios Acre, Iquiri e Abunã, os geoglifos, de acordo com os pesquisadores, podem ter sido estruturas defensivas, centros cerimoniais, locais de encontro e peregrinação de um povo há cerca de 1.000 anos.

As imensas estruturas geométricas possuem valas de 1 a 3 metros de profundidade. Estão dispersas, ainda, no Peru e  na Bolívia, países vizinhos do Acre.

O uso da ferramenta do Google Earth nos últimos anos tem servido para multiplicar a localização dos geoglifos. Antes de usá-la, os pesquisadores conheciam a existência de pouco mais de 50 geoglifos na região.

- Essas novas informações situam Acrelândia a partir de agora também na possibilidade do turismo arqueológico. Trata-se de um patrimônio que precisa ser reconhecido como da humanidade e cabe a todos nós a responsabilidade de preservá-los enquanto os estudos prosseguem - afirma Ranzi.

Os geoglifos do Acre foram incluídos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), no ano passado, numa lista indicativa de bens passíveis de ser declarados pela Unesco como Patrimônio da Humanidade no Brasil.

Outros geoglifos do Acre podem ser apreciados no Google Earth ou Google Mpas, partir das seguintes coordenadas: (10°12′13.32″S 67°10′18.09″W), (10°22′1.61″S 67°43′24.89″W), (10°18′24.51″S 67°13′12.50″W), (10°13′49.01″S 67° 7′26.71″W), (10°17′14.08″S 67° 4′32.97″W), (10°13′5.25″S 67° 9′28.94″W), (10°18′ 06.64″S 67° 41′41.55″W), (10°11′27.65″S 67°43′20.11″W).

Quadrado duplo a menos de dois quolômetros do centro do município de Acrelândia pode ser visualizado nas coordenadas 10º 03' 40" S 67º 03' 39" W

Blogs que citam este Post

domingo, 12 de setembro de 2010

A sogra do Jacamim em busca da beleza

Altino Machado às 10:19 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

O Jacamim andava ciscando no terreiro e, com seu bico irrequieto, beliscava um inseto aqui, uma minhoca ali, uma sementinha acolá. Sua sogra, que assistia a cena, viu que tudo nele era desproporcional e deselegante. Pescoço pelado, curvo e compriiiiido. Cabecinha minúscula em cujo cocuruto emergia ridículo topete de penas eriçadas. Curtas, demasiado curtas eram suas asas. Altas, excessivamente altas suas pernas. Ela olhou aquele bicho desengonçado e, com a sinceridade que as sogras soem ter, disse:

- Meu genro, não me leve a mal não, mas você é feio! Muito, mas muiiiiiiito feio! Feio pra chuchu! Parece até que minha filha casou com um urubu!

Ele, o jacamim-una de penas pretas, decidiu conferir no espelho do lago. A imagem refletida era, efetivamente, a de um urubu corcunda, pernalta, sem garras e com cabeça de piroca. Não gostou. De tristeza, cantou. Mas de sua garganta saía apenas um som estridente – vuh, vuh, vuh – que vibrava como o toque irritante e uniforme de uma corneta. A sogra que tudo observava, arrematou:

- Tudo em você está errado. Nem cantar você sabe. Seu canto parece latido de cachorro ou berro barulhento de uma vuvuzela. Ah, mas isso não vai ficar assim não. Vamos mudar. Espere aqui, meu genro, vou lá no mato procurar a beleza pra você.

Foi.

A beleza das cores

- Beleeeeza, cadê você? – perguntou a sogra, entrando na floresta com um saco. Foi colocando dentro dele tudo de belo que encontrava: as tintas do beija-flor e suas penas com as sete cores iridescentes do arco-íris; o peito, o abdome e o papo-vermelho da pipira; o bico duro e cônico do azulão e sua mandíbula angulosa. Depois, pegou o olhar aceso do rouxinol e a meiguice do pintassilgo. Guardou a sociabilidade, a alegria e o espírito de camaradagem do bem-te-vi, a mansidão do canário-da-horta, a valentia do gavião e até o aparelho digestivo do murucututu lá em cima do telhado.

Mas a velha queria mais. Continuou enchendo o saco. Capturou o voo elegante e baixo de uma andorinha que, sozinha, não fazia verão, mas riscava o ar em curvas caprichosas. Esperou o tico-tico-rei arrufar suas penas brilhantes – tico-tico lá, tico-tico cá - para roubar-lhe o topete vermelho escarlate que parecia incendiar sua cabeça como uma chama. Na terra com palmeiras onde canta o sabiá, ela se apoderou da cauda empinada e das patas cor de avelã da ave que gorjeava e saltitava com desembaraço,

O saco, já quase cheio, recebeu ainda plumas de seda do sanhaço, penas aveludadas do guará recolhidas em um manguezal e vozes de todos os pássaros que o japiim imitava, coletadas num ninho construído ao lado de uma casa de caba. Finalmente, a velha pegou a garganta do uirapuru, com o repertório de seu canto mágico. E quando já ia embora, ensacou os hábitos de higiene do vira-bosta, que toma sempre seu banho matinal – faça frio, faça calor – depois de revolver o esterco à procura de milho.

- Beleeeeeeza, cadê você – perguntou outra vez a velha. Lá de dentro do saco mil vozes de pássaros trinaram. Satisfeita, ela retornou e entregou ao genro toda a beleza ornitológica da mata:

- Aqui está, meu genro, pra você se lavar, se pintar, se enfeitar, se colorir e afinar sua voz.

- Vou me lavar já – ele disse, agradecido.

Foi.

Mas enquanto tomava banho no igarapé, os outros pássaros furtaram-lhe as tintas, as cores, as plumas, os enfeites, o canto e até mesmo sua própria roupagem. A sogra, vendo o genro nuzinho, perguntou:

- Ô Coisa Feia, onde está a beleza que te dei?

- Eles roubaram.

- Além de feio, és leso e abestado – disse a sogra, esfregando sumo de jenipapo na costa dele, que ficou negra. Depois, passou uma mistura de casca de abacaxi com urucu no peito, que ficou roxo. É por isso que o jacamim-una ficou assim.

Os saberes

Essa história que circula entre os índios do rio Negro (AM) é uma versão livre que eu recriei inspirado na narrativa ‘O jacamin e as cores’ (Yacamy i pinima çaua irumo), recolhida no Rio Branco pelo cientista João Barbosa Rodrigues, um ex-professor do Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, que viveu mais de dez anos no Amazonas (1872-1874 e 1883-1890). Ele organizou e dirigiu o Museu Botânico de Manaus, andou pelos rios da região, conviveu com diferentes etnias e aprendeu o Nheengatu - a língua geral que lhe permitiu ouvir as histórias e registrar a ciência indígena.

Contei essa e outras histórias na quarta-feira, 8 de setembro, no Auditório Solimões do campus da Universidade Federal do Amazonas, em Manaus, numa mesa-redonda compartilhada com o historiador Antônio Loureiro, que se autodefiniu com simpatia e humor como um ING – indivíduo não governamental. A mesa fazia parte da programação do I Simpósio João Barbosa Rodrigues, coordenado por Antonio Webber e promovido por Frederico Arruda, Pro-Reitor de Extensão e Interiorização da UFAM.

A homenagem da UFAM a Barbosa Rodrigues é mais do que merecida. Ele é o autor do livro Poranduba Amazonense, uma edição bilíngue da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro de 1890, que reúne mitos, contos zoológicos, contos astronômicos e contos botânicos, além de “cantigas com que as mães embalavam seus filhos ou animavam as danças e os trabalhos”, num total de 130 textos.

A grande sacação de Barbosa Rodrigues foi perceber, no século XIX, que numa sociedade sem biblioteca, sem livros, sem escrita, mas com forte tradição oral, as histórias e cantos funcionam como enciclopédias onde estão contidos os saberes necessários para a sobrevivência e a reprodução das culturas. São aulas de botânica, zoologia, astronomia, ciências sociais e ciências humanas, com seus supremos mistérios.

A história aqui apresentada, em suas diferentes versões, constitui um mini-tratado de ornitologia, que dialoga com o Catálogo das Aves da Amazônia, organizado posteriormente pela ornitóloga alemã Emília Snethlage (1868-1929), ex-diretora do Museu Goeldi, no Pará. Essas histórias contêm o sistema de classificação das diferentes espécies de aves, pássaros e outros animais, suas características físicas e comportamentais, hábitos, costumes, lugares onde vivem, como se alimentam e se reproduzem.

Parte desse conhecimento, que foi satanizado e discriminado por não se enquadrar dentro dos cânones da ciência e da religião dominantes, se perderia com a morte dos velhos narradores se alguns tupinólogos não os tivessem registrado. Barbosa Rodrigues, que publicou inúmeras obras de botânica, uma delas sobre palmeiras, outra sobre orquídeas, ficou encantado com a capacidade de observação e o espírito científico dos índios.

Segundo ele, os índios “seguiam e seguem um método sintético na classificação das plantas. Designam as espécies por nomes tirados dos caracteres das folhas, flores, frutos ou de propriedades como o cheiro, o sabor, a dureza, a duração, a cor, o emprego, etc.etc. Nenhuma característica essencial lhes escapa. São tão exatas as suas observações, que se encontram gêneros e subgêneros em uma só família, como se fossem agrupados por um verdadeiro botanista”.

O I Simpósio Barbosa Rodrigues fez parte de uma programação maior do 61º Congresso Nacional de Botânica, organizado pela Sociedade Brasileira de Botânica e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, com o apoio da UFAM e de outras instituições. O Congresso reuniu em Manaus, de 6 a 10 de setembro, mais de dois mil pesquisadores do Brasil e do exterior. A mídia, lamentavelmente, não deu a devida importância a um evento que discutiu, entre outros temas, a Amazônia. De qualquer forma, lá compareceu a sogra do Jacamim, que saiu em busca das cores da beleza e acabou encontrando essa outra forma do belo que é o conhecimento.

P. S.:
Alguns leitores estão reclamando porque as eleições de outubro no Amazonas não estão sendo comentadas aqui nesse espaço. Sinceramente, entre Omar Aziz e o Cabo Pereira, eu fico com a sogra do Jacamim.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Blogs que citam este Post

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Justiça Federal acata denúncia contra trabalho escravo no Acre

Altino Machado às 12:04 pm

O pecuarista Ricardo Valadares Gontijo, dono da fazenda Bella Aliança, no município de Bujari (AC), foi denunciado pelo Ministério Público Federal no Acre. Gontijo e os administradores da propriedade, Mário Mariano e Elmo Clemente José Gomes, são acusados de submeter um casal de trabalhadores a situação de trabalho degradante, em regime semelhante à escravidão.

Segundo consta na denúncia apresentada pelo procurador da República Paulo Henrique Ferreira Brito, os responsáveis pela fazenda contrataram o casal para trabalhar na fazenda e o colocou para viver em uma barraca de lona, com chão de terra batida, sem o mínimo necessário para viver dignamente, especialmente porque havia uma criança de um ano e sete meses.

Leia mais:

Pecuarista e capataz são denunciados por trabalho escravo no Acre

As condições de vida dos trabalhadores eram tão degradantes que até mesmo a água que dispunham para beber ou fazer o leite do bebê provinha de uma poça de água barrenta.

Também foi apurado que os trabalhadores desenvolviam suas atividades sem folga, de domingo a domingo, e não recebiam salários, apesar de serem forçados a assinar recibos declarando o recebimento.

Na verdade, os administradores mantinham os trabalhadores na fazenda em virtude de dívida contraída com o fornecimento de bens cujos valores eram anotados para serem descontados no final do mês.

A dívida sempre era maior que o salário a ser recebido pelo casal, forçando-os a continuar presos na fazenda até que o montante da dívida fosse quitado.

A denúncia já foi aceita pela Justiça e a ação corre na 1ª Vara da Seção Judiciária da Justiça Federal do Acre. Caso os acusados sejam condenados poderão cumprir pena de até oito anos de prisão.

Blogs que citam este Post

domingo, 5 de setembro de 2010

Capeta aparece em Dourados (MS) e toma conta da cidade

Altino Machado às 11:12 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Aqui em Dourados (MS) não se fala de outra coisa. “O Capeta tomou conta da cidade” – confidencia em tom alarmista a vendedora da Sapataria Bianca, onde entrei para comprar uma sandália. Ela é da Igreja Universal e jura que o Capiroto – isso mesmo, ele, Lúcifer – entrou no corpo do prefeito e de mais 29 pessoas, incluindo a primeira dama, o vice-prefeito, o presidente da Câmara, nove vereadores, alguns secretários e outros políticos, todos eles presos quarta-feira pela Polícia Federal, acusados de corrupção e formação de quadrilha. Na medida em que habita aqueles corpos aprisionados, o diabo também entrou em cana.

- Vade retro, Satanás! Eu, einh! Vou agorinha para uma sessão de desencapetamento” – disse ao me despedir da vendedora. Era, em parte, verdade. De sandália nova, fui encontrar minha amiga, a lingüista Ruth Monserrat, na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), onde se realizava o Simpósio sobre Línguas Indígenas dentro da programação das XIII Jornadas Internacionais sobre as Missões Jesuíticas e onde havia – vocês vão ver – um cheirinho de enxofre no ar.

Esse evento reúne periodicamente, desde 1982, pesquisadores da América, Europa e Ásia, cada vez em um país diferente. Agora aconteceu no Brasil com a realização de seis mesas redondas, dez simpósios temáticos, conferências, recital de poesia, espetáculo teatral, exibição de filmes, exposição de fotos, lançamento de livros, concerto de orquestras de violões de uma aldeia indígena e outras atividades culturais. Enfim, um senhor evento, que só não teve maior repercussão na mídia, porque a quadrilha de Dourados ocupou os espaços dos jornais.

Durante uma semana, historiadores, antropólogos, lingüistas, arqueólogos, cientistas sociais, museólogos, arquitetos, teólogos e especialistas de quinze países discutiram “o papel ambivalente e contraditório da missão”, como destacou a antropóloga Graciela Chamorro, professora da UFGD que organizou o encontro. Os pesquisadores indígenas apresentaram seus trabalhos, em suas respectivas línguas com tradução simultânea.

DNA da Cultura

Quem apareceu com o nome de José Lúcifer no simpósio sobre línguas indígenas foi o Capiroto, isso eu vi, mas o que não sei é se ele deu também o ar de sua graça nos outros que abordaram temas diferentes: poder colonial, trabalho dos índios, práticas missionárias, educação jesuítica, catequese, memória e patrimônio, gestão de museus e sítios arqueológicos, territorialidade, fronteiras e conflitos por terras.

A presença do Tinhoso precisa ser contextualizada. Ele baixou numa sessão na qual a língua foi apresentada como uma espécie de DNA da cultura e da história, na medida em que registra, como um sismógrafo, todas as transformações sociais. “As palavras vivas conservam as marcas de sua transformação” – explicou Bartomeu Meliá, um dos maiores conhecedores da língua Guarani, para quem a história de um povo pode ser encontrada nas palavras mais significativas ou nas grandes mudanças sofridas por elas através dos tempos

Convencidos disso, os pesquisadores começaram a buscar nos arquivos documentos em línguas indígenas, quase sempre de origem missionária: dicionários, gramáticas, orações, catecismos e outros textos pastorais. Só na Língua Geral Amazônica já foram localizados rios de palavras em oito dicionários do século XVIII que podem ajudar a entender a história da região – diz Cândida Barros, do Museu Goeldi do Pará, uma das organizadoras do simpósio.

Os resultados desses trabalhos apresentados na XIII Jornadas Internacionais permitem compreender melhor a vida cotidiana, a economia, a religião, a política, o sistema de parentesco, o poder e a autoridade, a alimentação, as concepções de doenças e as práticas de cura, as vestimentas, as pinturas e os adornos corporais dos povos que falavam – alguns continuam falando - essas línguas.

Um exemplo interessante foi apresentado por lingüistas da Universidade de Kiel, na Alemanha, que criaram o Projeto Kuatia Ymaguare (Peky) para estudar o guarani. “A busca sistemática de documentos tratando da vida diária nas reduções jesuíticas, mas também dos índios que estavam fora do controle missionário, nos proporcionou uma colheita inesperadamente rica de textos” – informou o lingüista Harald Thun.

A Universidade de Kiel vai editar esses manuscritos, que contém cartas escritas por índios, manuais de medicina e tratados sobre a organização das missões e sua relação com o mundo externo, tudo em língua guarani. Um deles, estudado pela lingüista Angélica Otazu é o Manuscrito Villodas, um dos poucos em que os jesuítas reconhecem o valor da cultura indígena, revelando que aprenderam com os guaranis algumas práticas médicas e, sobretudo, as formas de diagnosticar doenças, o tipo e a duração do tratamento, bem como uma classificação das plantas medicinais. A obra contém 205 receitas e vai ser editada num livro bilíngüe.

Pedro Moreno

Outro documento é o Manuscrito Gülich, uma enciclopédia da vida diária nas Reduções, que descreve a construção de casas e igrejas, a agricultura e a criação de gado, a produção de conservas e até a cozinha, assim como os conflitos internos causados pelo sistema jurídico especial, pelo paternalismo dos religiosos e pelos castigos corporais infligidos aos índios.

Harald Thun contrapôs os dados desse documento às informações proporcionadas por dois jesuítas do século XVIII, um deles o padre Antônio Sepp que justifica assim a ‘paudagogia’ dos missionários:

- É preciso instigar os índios com palavras e até com o chicote; um índio chicoteia o outro por ordem do missionário, como faz o professor com o aluno, de tal sorte que a pessoa castigada jamais se queixa nem dá o menor sinal de impaciência; ao contrário, depois de receberem os açoites, procuram o padre, beijam a sua mão e dizem: ‘Senhor Padre, aguyó beté yebis, que quer dizer: agradeço mil vezes as chicotadas que me corrigiram e me fizeram aprender a ter juízo.

O segundo depoimento do padre Parras faria delirar a procuradora Vera Gomes, que em maio desse ano espancou uma criança por ela adotada, num episódio de repercussão nacional: “(Os índios) internalizaram tão profundamente a idéia de que o castigo é um sinal de amor, que de vez em quando um índio vem se queixar ao padre porque não era castigado, o que era sinal de que não era amado e, então, o padre mandava dar-lhe 25 chicotadas, aplicadas sempre publicamente, no meio da praça”.

Os textos trabalhados por Harald Thun relativizam esse “amor pelo chicote”, embora permaneçam ainda hoje vestígios de seu uso em algumas comunidades indígenas. Entre os Chiquitanos, um povo que habita as terras baixas da Bolivia, o chicote – essa invenção diabólica – tem até nome de gente. Ele é conhecido como Professor Pedro Moreno, que “saca lo malo y pone lo bueno”.

Mas a presença do Capiroto se revelou mesmo foi na documentação apresentada por uma lingüista austríaca, Sieglinde Falkinger, pesquisadora da língua chiquitana, que se tornou a língua de catequese de dez povos que viviam nas reduções jesuíticas. Foi nessa língua que no século XVIII foram escritos os sermões, que ainda hoje são apresentados pelos índios nas portas das igrejas durante as 50 festas religiosas que se celebram ao longo do ano.

O projeto de Recopilação e Documentação dos Sermões Chiquitanos iniciado em dezembro de 2008 está encontrando nas comunidades indígenas uma grande quantidade de textos escritos pelos próprios índios, que estão sendo agora organizados, tratados e transcritos. É num deles que aparece o diabo com o nome de José Lúcifer, fazendo suas estripulias. Um dia eu ainda conto as histórias que Sieglinde Falkinger e a chiquitana Silvia nos contaram..

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Blogs que citam este Post

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Vereadora é suspeita de planejar com amante emboscada e morte do marido, líder do PT no AC

Altino Machado às 9:34 am
Marley Dourado está em liberdade

Vereadora está em liberdade

A polícia concluiu que a vereadora Marleidy Dourado (PT) planejou, em abril, com a ajuda do amante Francisco Adriano, a emboscada e o assassinato do marido Nilson Thaumaturgo Ferreira, que presidia o diretório do partido no município de Feijó (AC), a 350 quilômetros de Rio Branco, capital do Acre.

Após quatro meses de investigação, o delegado Getúlio Monteiro, da Polícia Civil, se baseou nas provas periciais e no exame cadavérico para afirmar que o dirigente do PT foi vítima de homicídio e não de acidente de trânsito.

A versão inicial era de que Ferreira havia morrido na BR-364, entre os municípios de Feijó e Tarauacá, quando, com a mulher na garupa, teriam caído com uma motocicleta numa ribanceira.

A polícia fez reprodução simulada do acidente e afirma ter constatado que a motocicleta estava a uma velocidade insuficiente para causar tantas fraturas e escoriações à vítima. A perícia concluiu que a frenagem encontrada no local do acidente não condiz com o peso da moto e dos ocupantes.

- Os hematomas no corpo da vítima revelam que ela sofreu ação de objeto contundente (supostamente pedaço de pau) na cabeça e peito. Além disso, a moto e os capacetes não apresentavam danos e a suposta segunda vítima, que seria a vereadora Marleidy, não sofreu nenhum ferimento ao contrário da vítima que veio a óbito - sustenta o delegado.

A perícia constatou, ainda, que o dirigente do PT foi atacado e morto no meio da estrada. Depois disso, os assassinos teriam simulado o acidente. Arrastaram a vítima para uma pequena ribanceira e levaram a moto para junto do corpo.

O delegado disse que a vereadora e o amante tentaram enganar a polícia com depoimentos mentirosos. A vereadora simulou até um desmaio quando recebeu os primeiros socorros de um motorista após o suposto acidente.

A perícia constatou que a moto não colidiu com nenhum obstáculo e os capacetes ficaram intactos. A vereadora, que estava na garupa da moto, não sofreu nenhuma lesão, enquanto o marido dela sofreu lesões gravíssimas.

Apesar de ser a principal acusada da morte do marido, a vereadora vai continuar em liberdade. Como tem emprego e residência fixa em Feijó, a lei garante que aguarde o julgamento em liberdade. O inquérito será encaminhado para manifestação do Ministério Público Estadual, que analisará as provas e decidirá se pede ou não a prisão dos acusados.

O município de Feijó experimentou na terça-feira (31) desta semana seu momento de maior visibilidade no país. Durante pouco mais de cinco minutos, foi apresentado em reportagem do “Jornal Nacional no Ar”, da Rede Globo, como uma cidade que passa mais da metade do ano isolada da capital e do país.

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol