Terra Magazine

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Desmatamento na Amazônia caiu 71% em julho, diz Imazon

Altino Machado às 4:10 pm

O Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), detectou, em julho de 2010, 155 km² de desmatamento na Amazônia Legal, o que representa uma redução de 71% em relação a julho do ano passado quando o desmatamento somou 532 km².

O desmatamento acumulado, até junho deste ano, apresentava um aumento de 8% em comparação com o período anterior (agosto 2008 a junho 2009). Porém, com a queda expressiva no desmatamento em julho de 2010 em relação a julho de 2009, houve uma queda também no desmatamento acumulado do ano (agosto 2009 a julho 2010).

O desmatamento acumulado nesse período atingiu 1.488 km², o que representou uma redução de 16% no desmatamento em relação ao mesmo período do ano anterior (agosto de 2008 a julho de 2009) quando o desmatamento foi 1.766 km².

Em junho de 2010, a maioria do desmatamento ocorreu no Pará (51%), seguido por Mato Grosso (23%), Rondônia (9%), Amazonas (8%), Acre (8%) e Tocantins (1%).

O desmatamento acumulado no período de agosto de 2009 a julho de 2010 resultou no comprometimento de 95,6 milhões de toneladas de C02 equivalentes, as quais estão sujeitas a emissões diretas e futuras por eventos de queimadas e decomposição.

Houve uma redução de 20% em relação ao período anterior (agosto de 2008 a julho de 2009) quando o carbono florestal afetado pelo desmatamento foi cerca de 121 milhões de toneladas de C02 equivalente.

As florestas degradadas (florestas intensamente exploradas pela atividade madeireira e/ou queimadas) na Amazônia Legal somaram 159 km² em julho de 2010. Desse total, a maioria ocorreu no Pará (57%), Mato Grosso (32%), Rondônia (5%), Acre (3%) e Amazonas (3%).

O amazona analisou a situação dos 43 municípios considerado “críticos do desmatamento”. Nesses municípios, de acordo com o SAD, o desmatamento de agosto de 2009 a julho de 2010, foi 631 km². Se comparado com o mesmo período anterior (agosto de 2008 a julho de 2009), quando o desmatamento nesses municípios atingiu 1.033 km², houve redução de 40% no desmatamento.

Em julho de 2010, foi possível monitorar 79% da área com cobertura florestal na Amazônia Legal. O boletim do Imazon apresenta também resultados da verificação dos dados do SAD através de sobrevôos, em parceria com o Greenpeace, e levantamentos de campo conduzidos por técnicos do município de Paragominas (PA).

Foram monitorados 79% da área com cobertura florestal na Amazônia Legal, pois somente 21% da região estavam cobertos por nuvens. A região não mapeada corresponde a área de floresta do Amapá, de Roraima, norte do Pará e Amazonas. A parte do Maranhão que integra a Amazônia Legal não foi analisada.

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Seca do Madeira ameaça interromper ligação entre Rondônia e Acre

Altino Machado às 1:39 pm
Balsa encalhada na travessia da confluência dos rios Madeira e Abunã

Balsa encalhada na travessia da confluência dos rios Madeira e Abunã

O nível do Rio Madeira está tão baixo em decorrência da estiagem na Amazônia, que ameaça interromper a ligação de Rondônia com o Acre e com o Amazonas, via BR-364 e BR-319, cuja travessia de veículos é feita com o uso de balsas. A interrupção poderá afetar o transporte de alimentos e combustível para o Acre.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou nesta terça-feira (31) que a travessia em direção ao Acre, em Abunã, distrito de Porto Velho RO), está muito lenta. Uma das balsas está avariada, existe uma fila de veículos de quase quatro quilômetros e a espera pela travessia chega a demorar até cinco horas.

As manobras do rebocador da balsa tentam evitar os bancos de areia que se formaram no Madeira, mas a situação considerada mais crítica é na balsa que liga a BR-319, entre Porto Velho e Humaitá (AM).

Existem duas balsas encalhadas, lotadas de carretas, num trecho navegável do Madeira, na localidade de Calama, a 20 quilômetros de Porto Velho.

De acordo com a PRF, no ponto de travessia de Abunã, por volta das 23 horas da segunda-feira (30), houve um encalhe de uma das balsas que opera no local, por causa de avarias em seu casco.

O local do encalhe impossibilitava a utilização do embarcador existente, ocasionando a interrupção total da travessia. Mesmo com a utilização de três rebocadores e um pá carregadeira, a retirada somente ocorreu por volta das 9 horas da manhã desta terça-feira.

A balsa avariada conseguiu fazer a travessia com a utilização de uma bomba para a retirada da água que entrava pela fissura existente, porém ficará inoperante até seu conserto.

A PRF informou que a balsa avariada foi substituída por outra de menor porte, o que fez aumentar o tempo de espera para a travessia, que já estava próximo da normalidade.

A situação, na avaliação da PRF, poderá se agravar devido a ultima chuva. O terreno próximo ao embarcador encontra-se encharcado e com possibilidade de formação de atoleiros.

A previsão de finalização da reconstrução de outro embarcador é para acontecer até a sexta-feira. A PRF recomenda o adiamento de viagens terrestres para o  Acre.

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domingo, 29 de agosto de 2010

Agora vale a lei anterior, ou seja, o deboche e a gozação no ano eleitoral

Altino Machado às 9:05 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

- O debate entre as sogras dos candidatos deu o maior ibope. E, agora, doutor, como é que fica depois da liminar do Supremo Tribunal Federal (STF)? Será que os promotores do debate, que foram censurados, podem reclamar seus direitos entrando com algum tipo de ação legal?

A pergunta, feita pelo acadêmico de direito ao seu professor, especialista em legislação eleitoral, recebeu resposta imediata:

- Cerrrrrtamente, meu jovem. A liminar concedida na quinta-feira, 26 de agosto, pelo ministro Ayres Britto, permite impetrar uma ação redibitória. Digo mais: o impetrante pode ficar podre de rico, porque não se trata de uma açãozinha redibitoriazinha vagabundinha qualquer. Não! Aqui cabe, claramente, uma ação redibitória quanti minoris com pleno efeito repristinatório.

O diálogo acima só pode ser entendido se informamos como transcorreu o debate entre as sogras e o que é que ele tem a ver com a liminar do STF, esclarecendo ainda que diabo é uma ação redibitória.

Debate de sogras

O evento ficou conhecido no meio jurídico –eles metem o latim em tudo- como Discursio Jararacorum ou, em bom tucanês, Discursio Mater Matris Conjungium Candidatorum.

- Esse sim vai pegar fogo, porque é um debate boca – explicou José Simão, cuja coluna na Folha de São Paulo serviu de palco para o confronto.

Simão, que é o Esculhambador Geral da República, além de presidente de honra do PGN –Partido da Genitália Nacional– serviu de mediador. Quem começou a falar, escolhida por sorteio, foi a sogra do José Serra (PSDB), que é chilena. Ela fez revelação bombástica “al tirito nomes”, contando intimidades do genro:

- Sierra tiene explosiones intestinales, se tira cuescos fétidos en la hora del almuerzo. Es un pedorrero. Además, es un perdulario, cada vez que va al toilette gasta varios rollos de papel higiénico.

A sogra da Marina Silva (PV) também fez uma confissão que pode mudar o voto de muitos eleitores:

- Marina fazia fogueira na Amazônia quando criança, nas festas juninas.

Dilma (PT) levou vantagem. Casada duas vezes, ela já bateu de frente com duas sogras e, por isso, teve o dobro do tempo.

- Sogra da Dilma é pleonasmo! A Dilma é a sogra do Brasil, no sentido atribuído por Dicró ao termo – comentou Simão.

Já a mãe da mãe da mulher do candidato do PSOL fofocou sobre o Velhinho Traquinas:

- Quando o Plínio bebe mais de um copo de cerveja, fala se cuspindo todo, diz que seu sonho é ser fazendeiro no Mato Grosso pra plantar soja.

A sogra do Eymael (PSDC) não hesitou em condená-lo por cultivar o hábito execrável de tirar cera do ouvido com tampinha de caneta Bic: “Além disso, ele é caspento e tem chulé”.

A idéia de sogras na campanha eleitoral se alastrou pelo Brasil inteiro, convocando sogras federais, estaduais e municipais. A democracia ganha com uma interatividade maior com os eleitores.

Enquanto no confronto só de candidatos, cada debatedor diz, hipocritamente, apenas aquilo que acha que o eleitor quer ouvir, no debate entre sogras é o eleitor que escolhe o que ele próprio quer ouvir, inventando o discurso das sogras. É, portanto, mais autêntico e altamente revelador.

Dessa forma, cada Estado pode organizar debates imaginários entre as sogras locais e, especialmente, ouvir a voz das ex-sogras. Em Minas Gerais, por exemplo, um deles já tem até nome de sogra: Anastasia.

A sogra do outro, Hélio Costa (vixe vixe!), pode nos contar o que ele fazia com o Dan Mitrione na época da ditadura militar. Imagine a riqueza do discurso das sogras e ex-sogras de Collor (AL), de Alkmin (SP), da Mammy Murad, sogra e ex-sogra da Roseana Sarney.

No Rio Grande do Sul, o Tasso já é mesmo genro de todas, e no Ceará, o governador Ciro Gomes impetrou um habeas-sogra preventivo, quando levou a mãe de sua mulher para a Europa, com despesas pagas pelo contribuinte. No Amazonas, meu Deus do céu, o que diriam as sogras do Omar Aziz e do Alfredo Nascimento sobre seus respectivos genros? (Cartas para a redação).

Efeito repristinatório

Acontece que a Lei das Eleições, em vigência desde 1º de outubro de 1997, em seu artigo 45, proíbe o humor em período eleitoral –atenção, só em período eleitoral- vetando qualquer gozação, sátira, ironia ou deboche com os candidatos. Portanto, sogras não podem debater, a regra é clara, como diz Arnaldo Cézar Coelho. A multa pra quem não respeitar a lei é de R$ 200 mil, levando um recuo de programas humorísticos como Casseta & Planeta, CQC e Pânico na TV.

A eleição ficou triste, como denunciaram os manifestantes na passeata de protesto na orla de Copacabana, no Rio, domingo passado. Mas desde a última quinta-feira, à noite, a situação mudou. O ministro Ayres Britto, do STF, aquele mesmo que deu razão aos índios no caso Raposa/Serra do Sol, atendeu em menos de 24 horas uma ação de inconstitucionalidade e concedeu liminar suspendendo a censura ao humor na campanha eleitoral.

A ação vai ao pleno do STF na próxima quarta-feira para definir se o medo que o Poder tem do riso justifica a censura. Afinal, em que distúrbios gástricos e chulés de candidatos atentam contra a democracia? Por enquanto, vale a liminar de Ayres Britto, que argumentou:

- O humor concorre, e muito, para o fortalecimento da democracia. Isso é sinal de maturidade democrática. Em todo o mundo, o humor é reconhecido como expressão de liberdade de imprensa. Criticar e ironizar são atividades inerentes ao humor. Programas humorísticos, charges e modo caricatural de pôr em circulação idéias, opiniões, frases e quadros espirituosos compõem as atividades de imprensa, sinônimo perfeito de informação jornalística A liberdade de imprensa livre não é de sofrer constrições em período eleitoral. Ela é plena em todo tempo, lugar e circunstâncias.

Se o STF confirmar a liminar, os humoristas que foram prejudicados poderão entrar com uma ação redibitória. Quem diz isso?  Não, não foi um especialista em legislação eleitoral, personagem inventado aqui tanto quanto o discurso das sogras. Trata-se apenas de uma lembrança dos meus tempos da Faculdade Nacional de Direito, onde estudei durante três anos num curso que não concluí. Lá, fui aluno relapso de Direito Civil de Clóvis Paulo da Rocha, que em todas as aulas, só falava disso. Fui reprovado na prova em que ele perguntava o que é ação redibitória com efeito repristinatório.

Fiquei com traumas, mas encantado com a sonoridade das palavras “redibitória” e “repristinatório”, que nunca esqueci. Até hoje não sei muito bem o que é isso. Redibir é anular judicialmente um contrato em que a coisa negociada foi entregue com vícios ou defeitos ocultos. Se for provado que uma das partes interessadas conhecia o vício, a outra pode entrar com uma ação redibitória de perdas e danos. É o caso do debate das sogras dentro da Lei Eleitoral. O macaco Simão vai ficar podre de rico, processando o Marco Maciel que assinou a lei, como presidente interino da República.

E o efeito repristinatório? Boa pergunta. Quando uma lei que revoga uma lei anterior é declarada inconstitucional, a primeira lei volta a ter a validade restaurada. É isso que se chama efeito repristinatório. A partir de agora, portanto, vale a lei anterior, ou seja, o deboche e a gozação. Atenção, sogras, ex-sogras, quase-sogras e futuras sogras de todos os candidatos do Brasil, entrem em ação: ação redibitória neles.

P.S.: Estou sendo processado por uma juíza do Amazonas. Ela também, a seu momento, terá a ação redibitória que merece.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

MPF quer impedir a retomada da exploração de ouro em Serra Pelada

Altino Machado às 11:15 am

A portaria do Ministério de Minas e Energia (MME) que autorizou a retomada da exploração da mina de Serra Pelada pela sociedade entre a cooperativa dos garimpeiros e a mineradora canadense Colossus passou a ser questionada  pelo Ministério Público Federal (MPF) no Pará.

O MPF solicitou à Justiça Federal o cancelamento imediato da autorização sob o argumento de que o contrato que criou a sociedade é totalmente irregular e só foi aprovado porque os garimpeiros foram enganados pela diretoria da cooperativa.

Assinada pelos procuradores da República André Casagrande Raupp e Tiago Modesto Rabelo, a ação foi encaminhada à Justiça Federal nesta quarta-feira (25), e também pede a suspensão da assembleia convocada para o próximo sábado pela Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp).

Segundo os procuradores, tudo indica que o objetivo da diretoria é realizar o evento só para dar aparência de legalidade a fraudes que viabilizaram a assinatura da parceria com a Colossus.

O MPF afirma que as irregularidades começaram em 2007, quando a Coomigasp atrasou a publicação do convite a empresas interessadas em explorar a mina, beneficiando a Colossus, que teve mais tempo para elaborar uma proposta porque a empresa já vinha acompanhando os trabalhos da diretoria da cooperativa.

A Colossus, antes mesmo de o convite ser publicado, procurou outra mineradora que tinha contrato com a Coomigasp, a Phoenix Gems, para acertar a participação dessa outra empresa na nova parceria.

A Colossus e a Coomigasp, em dezembro de 2007, formalizaram a atuação conjunta, criando a Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral. No entanto, a criação dessa sociedade teria sido feita sem atender ao estatuto da cooperativa.

De acordo com o MPF, as votações em assembleia foram realizadas sem terem sido convocadas e, de acordo com depoimentos de garimpeiros, a diretoria da cooperativa ameaçava os associados dizendo que se o acordo com a Colossus não fosse aprovado a Coomigasp perderia o direito de explorar a mina.

- Exploraram, pois, a ingenuidade e parca instrução dos garimpeiros, fazendo afirmação falsa e distorcida, tudo com o objetivo de direcionar o contrato e lograr intento ilícito, o que resultou em prejuízo aos garimpeiros - denunciam os procuradores na ação.

A diretoria da Coomigasp, antes de realizar as assembléias,  decidiu ampliar a participação da Colossus no empreendimento. O terceiro termo aditivo ao contrato aumentou a porcentagem de participação da mineradora no capital social da sociedade de 51% para 75% sobre os produtos extraídos da mina, e alterou a forma de pagamento da indenização.

Apesar de as denúncias dos garimpeiros terem sido encaminhadas ao Departamento Nacional de Produção Mineral, que comprometeu-se a realizar auditoria sobre o caso, o MME publicou em maio deste ano portaria autorizando a exploração da mina pela sociedade entre a cooperativa e a Colossus.

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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Pecuarista é denunciado por trabalho escravo

Altino Machado às 3:30 pm

O pecuarista Alonso Souza da Rocha, proprietário da fazenda Bom Futuro, em Rio Branco (AC), foi denunciado nesta quarta-feira (25) à Justiça Federal pelo Ministério Público Federal no Acre por ter mantido em condição análoga à escravidão o trabalhador Eliseu Xavier dos Reis, em julho de 2009.

Assinada pelo procurador da República Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, a denúncia afirma que o trabalhador foi aliciado pelo pecuarista em Goiânia (GO), tendo recebido promessas de emprego em boas condições de trabalho para cuidar da fazenda de gado no Acre.

Ao chegar na fazenda, o trabalhador Eliseu Xavier dos Reis verificou que as condições de trabalho eram péssimas, com jornada das 7 horas às 19 horas, com intervalo de 30 minutos para se alimentar e sem descanso em fim de semana ou feriado.

Leia mais:

Operação liberta 13 vítimas de trabalho escravo em RO

Pecuarista e capataz são denunciados por trabalho escravo no Acre

Trabalhadores resgatados de condições degradantes no centro de Porto Velho

De acordo com a denúncia do MPF, a água oferecida ao trabalhador para beber, fazer sua higiene ou alimentação, provinha de uma poça barrenta sem qualquer condição de potabilidade.

Também não era oferecida alimentação adequada. O trabalhador passou fome, a ponto de ter comido um bezerro que encontrou morto no terreno da fazenda. A situação do trabalhador foi flagrada pelo Grupo de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego.

Além disso, o trabalhador teria recebido apenas um par de botas para sua proteção, cujo valor lhe teria sido cobrado, assim como lhe foi cobrada a viagem de Goiânia até Rio Branco, além da parca alimentação que lhe foi oferecida.

A cobrança fez com que o trabalhador adquirisse uma dívida para com o fazendeiro da qual dificilmente se livraria, tendo, por esta razão, ficado preso na fazenda, pois não tinha condições de quitar seu débito e retornar à cidade.

Caso o pecuarista seja condenado, poderá pegar pena de 2 a 8 anos de reclusão.

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Maior conjunto de ilhas flúvio-marinhas do Planeta, Marajó quer ser Reserva da Biosfera

Altino Machado às 10:50 am
Marajó

Marajó necessita de unidades de conservação de proteção integral e avanços no zoneamento ecológico-econômico

O arquipélago do Marajó, no Estado do Pará, é conhecido mundialmente como o maior conjunto de ilhas flúvio-marinhas do Planeta.  A mesoregião tem ao todo 104 mil km2 e o arquipélago mesmo 68 mil Km2. É uma área de dimensões de Portugal, sendo maior que oito Estados brasileiros. São 425 mil habitantes em 16 municípios e centenas de comunidades rurais, a maioria acessível apenas de barco. 75% dos habitantes não recebem água tratada em suas casas e 505 não têm eletricidade.

A região registra índices alarmantes nas questões de gênero, de trabalho infantil, violência contra mulher, pedofilia, prostituição infantil, mas nesta terça-feira (24), no Museu Histórico do Pará, em Belém, a organização Instituto Peabiru dá os primeiros passos para estabelecer uma rede da sociedade em defesa do Marajó, a Rede Marajó.

O arquipélago reúne três biomas – o amazônico, o costeiro e o marinho, chamado por muitos de Amazônia Azul. Existem 48 paisagens diferente na porção terrestre, sendo algumas exclusivas, como as savanas-parque em Chaves.

- Não há uma única unidade de proteção integral, apenas reservas extrativistas federais - alerta João Meirelles, do Instituto Peabiru.

Meirelles coordena o programa “Viva Marajó”, que aceitou desafio do Fundo Vale para o Desenvolvimento Sustentável, de contribuir para a candidatura do Marajó como Reserva da Biosfera, pelo programa Homem e Biosfera, da Unesco, proposta a cargo da Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará.

- A Reserva da Biosfera é apenas um dos aspectos abordados pelo “Viva Marajó”. São muitas as questões para promover a sustentabilidade e garantir a conservação do meio ambiente e da cultura do Marajó. Acho que todos nós, amazônidas, e brasileiros, ganharemos com isto. Precisamos reconhecer que no afã de progredir deixamos muitas regiões para trás, que, ao invés de acompanhar as locomotivas do progresso, entram em colapso e estão na UTI. E o Marajó encabeça esta lista - acrescenta.

O marajoara é mestre em sobreviver ao tempo adverso, aos extremos da chuva e da seca, às marés diárias, ao clima equatorial, à abundancia e à escassez, aos abusos do período colonial, aos senhores da borracha e da pecuária e da madeira.

Veja entrevista com João Meirelles, do Instituto Peabiru, uma organização da sociedade civil de interesse público com 12 anos de atuação em defesa das florestas tropicais da Amazônia, com sede em Belém:

Ribeirinhos no

Ribeirinhos nos furos de Breves

Por que o Instituto Peabiru volta suas atenções ao Marajó?
Porque se trata de região de altíssima prioridade, tanto em termos ambientais como sociais, e há atenção insuficiente por parte do poder público, empresarial e das próprias organizações da sociedade civil. Confesso que o Marajó sempre esteve aqui em minha frente, mas parece invisível, pois, como a maioria, não me dava conta de sua grandeza e carência.

No que consiste o Viva Marajó?
O Viva Marajó inicia-se com um desafio lançado pelo Fundo Vale para o Desenvolvimento Sustentável para contribuir para a candidatura do Marajó como Reserva da Biosfera, pelo programa Homem e Biosfera, da Unesco, proposta a cargo da Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará. A Reserva da Biosfera é apenas um dos aspectos abordados pelo Viva Marajó. São muitas as questões para promover a sustentabilidade e garantir a conservação do meio ambiente e da cultura do Marajó.

Qual é a realidade do Marajó?
É uma das regiões de pobreza mais crônica da Amazônia e que vive grave crise econômica. Por causa disso apresenta muitas prioridades. A falta de unidades de conservação de proteção integral parece algo de menor importância, mas sem uma definição do uso do território, a segurança fundiária e o zoneamento ecológico-econômico, fica difícil propor ações de larga escala que promovam a sustentabilidade e garantam uma economia forte e a geração de emprego e renda de maneira sustentável.

Qual a importância da região?
O arquipélago do Marajó é o maior conjunto de ilhas flúvio-marinhas do Planeta. É um conjunto único de patrimônio natural e cultural. Segundo o IBGE, são 48 diferentes paisagens apenas na porção terrestre, algumas exclusivas ao Marajó, como as savanas-parque em Chaves. Esta incrível região reúne três biomas – o amazônico, o costeiro e o marinho, chamado por muitos de Amazônia Azul. Não há uma única unidade de proteção integral, apenas reservas extrativistas federais. Trata-se de área de dimensões de um país como Portugal, com 108 mil km2, e maior que oito estados brasileiros.

Ra�zes tubulares

Raízes tubulares Caviana

Quais as ameaças que existem?
A região possui uma biodiversidade para a qual não se dá a devida atenção, mesmo entre cientistas e organizações ambientalistas. Há crescente número de espécies ameaçadas. Só da lista paraense de espécies ameaçadas ¼ estaria no Marajó. Há também diversas ocorrências de endemismos, ou seja, daquelas espécies só encontradas na região.

Certamente é uma região com muita biodiversidade.
A biodiversidade está expressa no número de 862 espécies de vertebrados, que corresponde a 11% do total do Brasil em apenas 0,59% do território nacional. No caso, se trata do Arquipélago apenas. Vale destacar a presença presumível de quase 20 espécies de mamíferos aquáticos, entre os quais estariam as duas espécies de peixe-boi. É a única região do mundo onde convivem. Entre os quelônios, as tartarugas, pode-se chegar a 17 espécies, as cinco espécies marinhas que freqüentam o Brasil e outras de ambientes de água doce, questão que o Instituto Peabiru e a uma equipe de pesquisadores liderados pelo professor Juarez Pezzutti se propõe a verificar.

O Marajó  está no noticiário sempre com questões sociais graves, como prostituição infantil, tráfico de drogas, roubo de gado, madeira ilegal. Dá para mudar isso?
É verdade, as notícias que vem do Marajó são mesmo alarmantes, e resultam de um descaso com a região que remonta décadas, ou mesmo séculos. Em nenhum momento da história o marajoara foi respeitado e foi efetivamente beneficiário dos processos econômicos locais. O déficit social acumulou-se de tal maneira que é hilário quando economistas do estado de São Paulo discutem o analfabetismo no Estado, 10% no meio rural, e que no Marajó estão na casa dos 80%. O último número do Tribunal Regional Eleitorla, que acaba de sair, aponta que 85% dos eleitores são analfabetos ou não tem o primeiro grau completo. A média de anos de estudo per capta é inferior a 2 anos.

Como sair da situação de pobreza com este tipo de educação?
Em termos sociais, mais de 90% de seus 425 mil habitantes é considerada pobre ou miserável. Dados de 2008 do IBGE indicam 13,2% para a pobreza nas áreas urbanas brasileiras e 29,4% para os residentes nas zonas rurais.

Aça�

Açaí

Estamos falando do mesmo país?
Esta é a questão. O Brasil está eufórico com seu progresso, mas abandona, no meio do caminho muita gente. É como se fossemos aquele trem que vai se vendo livre dos vagões com gente com deficiências, com dificuldades de aprendizado, com dificuldades em participar da festa da economia mundial. É o Brasil de mentirinha das grandes cidades lançando ao mar os Marajós e os sertões das Alagoas, os interiores do Piauí e do Maranhão e assim por diante.

E é uma região do tamanho de Portugal.
Pois é, mas onde não existe um leito de UTI, onde não há hospital. Outro dia, uma pesquisadora do Peabiru acompanhou o sofrimento de uma senhora que teve queimadura em seu corpo e teve que enfrentar seis horas de canoa até a cidade de Muaná, depois viu-a, por uma noite, a gemer e agonizar numa rede no barco que atravessa o rio Pará. Quando chegou, num porto precário, a maré baixa não permitia o desembarque, e não havia ambulância para levá-la ao hospital. Infelizmente a senhora faleceu, e talvez, se fosse atendida em seu próprio município, a tempo, isto seria evitado.

Mas essa é a situação de boa parte da Amazônia.
Sim, a maioria das 30 mil comunidades rurais, onde vivem alguns milhões de quilombolas, ribeirinhos, quebradeiras de coco, seringueiros etc. sofre este isolamento e o descaso. Somente no Marajó estamos falando de mais de 500 comunidades, muitas delas a vinte, trinta, quarenta horas de barco de uma grande cidade, com alguma infra-estrutura. Na região com maior quantidade de água doce do mundo 75% não tem acesso a água limpa e 50% não tem energia elétrica, nem são beneficiários do Bolsa Família e outros programas. Mais de 20% de seus habitantes não possuem sequer documentos básicos. E estamos falando de uma população extremamente jovem. A maioria da população tem menos de 20 anos (51% para homens e 52% para mulheres).

Guarás no mangue

Guarás no mangue

Como resolver isso?
Primeiramente, pra mudar precisamos ouvir o próprio marajoara. Não somos, os técnicos, que sabemos o que a região necessita. Por isto 20 pesquisadores do Programa Viva Marajó visitaram os 16 municípios para escutar representantes do poder público, da sociedade civil, da cultura, de empresas, enfim de diferentes setores. Este quadro, juntamente com os estudos existentes e a experiência de diferentes organizações da sociedade civil permitirá avançar.

Nesse sentido, o que você considera fundamental?
É fortalecer o tecido social, ou seja, garantir que as próprias associações da sociedade civil local tenham voz e vez, tenham direitos e consigam se manifestar, apresentar propostas, encaminhar e conduzir projetos, enfim, empoderar a sociedade civil local. Somente assim será possível dar seguimento ao belo trabalho do Ministério Público Federal de monitoramento de políticas públicas. Como estão sendo utilizados os recursos pelas prefeituras locais? Pelas escolas? Pelas câmaras? Pelo governo estadual?

Como é, por exemplo, a merenda escolar no Marajó?
O exemplo da merenda escolar é prova de que as coisas vão muito mal. Uma das regiões com maior abundância de pescado e frutas, como o açaí, serve, em suas escolas públicas suco artificial, bolachas industrializadas e macarrão de baixa qualidade, com enlatados com alta quantidade de conservantes.

Fenômeno da pororoca

Fenômeno da pororoca

Mudando um pouco de assunto: por que a economia entrou em colapso?
Porque se trata da exploração predatória de recursos de maneira informal e fora da legislação. O processamento de madeira em Breves, por exemplo, é um bom exemplo. Na medida em que as autoridades ambientais federais e estaduais passaram a cobrar a legalidade das madeireiras, estas fecharam as portas e colocaram 5 mil pessoas na rua, e estamos falando de mais da metade da força de trabalho de um município.

A pecuária perdeu seu significado?
A pecuária perdeu seu significado na medida em que a pecuária de terra firme no sul do Pará, mais moderna e mais produtiva e, diga-se de passagem, bem mais destrutiva que a do Marajó. Do ponto de vista econômico, a região encontra-se estagnada há décadas. A maior parte das atividades (pecuária bovina e bubalina extensiva, pesca artesanal e comercial, extração de madeira etc.) pode ser caracterizada como predatória.

Campos alagados

Campos alagados

É um poço profundo.
E só sairemos dele quando o produto marajoara tiver valor. Você sabia que metade do açaí consumido no mundo vem do Marajó? Que boa parte do pescado da região vem do Marajó? Pois isto não é valorizado, e não garante renda pra região. O Marajó inteiro fatura, em um ano, menos que um bilionário brasileiro, e estamos falando de 425 mil habitantes.

E como a valorização da cultura pode ajudar?
Do ponto de vista cultural, esta é uma região, como poucas no Brasil, onde há clara identidade cultural. O Marajó apresenta significativo patrimônio material, apresentando conjunto único de sítios arqueológicos, ameaçado e desprotegido; bem como de patrimônio imaterial (mitologia, linguajar, folclore, danças, festejos, culinária etc.) sub-valorizado e ameaçado, bem como de conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade, seja manejo de recursos naturais para a farmacopéia popular, seja para outros fins. Se há  uma maneira de superar a pobreza e a estagnação econômica é por meio da valorização cultural. Produtos com identidade tem valor. Por que o queijo do Marajó nada vale diante de um queijo artesanal europeu que alcança US$ 100 o quilo? É por isto que iniciamos um estudo de cadeias de valor prioritárias –açaí, pecuária, pesca e mandioca- que pretende discutir gargalos, oportunidades com os diferente elos do mercado.

Praia pesqueiro

Praia pesqueiro

Fotos: Peabiru

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domingo, 22 de agosto de 2010

Da arte de ser Manoel Octávio em Manaus

Altino Machado às 9:15 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

No início da década de 1960, no Colégio Estadual do Amazonas, todos nós, alunos, queríamos ter a sabedoria do Manoel Octávio, o domínio de palco do Manoel Octávio, a fluência verbal e a elegância do Manoel Octávio. Enfim, todos nós queríamos ser Manoel Octávio, aceitando até mesmo, de contrapeso, sua careca brilhante, que lhe custou o apelido de ‘Jacaré’, por ele repudiado. Mas já não se faz mais Manoel Octávio com ‘c’ como antigamente: erudicto, seductor, retórico.

Ele era o nosso professor de História. Traçava tudo: pré-história, idade antiga, medieval, moderna, pós-moderna, contemporânea, o que pintasse. Discorria sobre Egito, Roma e Grécia como se tivesse sido testemunha presencial dos fatos. Quem assistiu suas aulas jamais esquecerá a narração da cena na qual o imperador Julio César recebe de presente da rainha do Egito um enorme tapete e ao desenrolá-lo - oh, surpresa! - encontra lá dentro, nuazinha, a própria Cleópatra, que se tornou sua amante. Foi a primeira vez que ouvi a palavra ‘calipígio’, que ele pronunciava com um estranho brilho nos olhos.

Gostava de usar palavras que nos obrigavam a ir ao dicionário. Sua narração, rica em detalhes, era mais apimentada do que o croquete da dona Alvina, em cuja banca de tacacá rolavam as fofocas mais maliciosas do bairro de Aparecida, incluindo nomes de quem encroquetou quem. Ele nos revelou que quem despiu e embrulhou a rainha do Egito no tapete - aqui pra nós, não é pra espalhar não - foi Apolodoro, o criado dela, um negão siciliano com quem teve um caso, dizem as más línguas.

Pois bem, o caso foi censurado no filme ‘Cleópatra’, que entrou em cartaz no cinema Politeama de Manaus, em1964, estrelado por Elizabeth Taylor, Rex Harrison e Richard Burton. Um cara tão importante como Apolodoro, que despiu Cleópatra e a banhava com leite de cabra, massageando-lhe o corpo, é discriminado no filme, onde não passa de um zeguedegue qualquer, de um figurante secundário protagonizado por um ator obscuro, um tal de Cesare Danova.

Essa é a prova de que as aulas de Manoel Octávio estavam mais up to date do que os filmes holywoodianos da Memérica. Não tinha censura em relação às sacanagens. Manoel Octávio nos ensinou que a História tem que ser como dona Alvina, a tacacazeira: precisa, objetiva, bem informada, crítica e contestadora. Se puder, também fofoqueira, que ninguém é de ferro.

Quando havia fofoca, ela emergia nas aulas de Manoel Octávio, que saía do Egito antigo para a Europa medieval e não hesitava em nos falar do ‘direito de pernada’. Pulava os fossos dos castelos feudais com a maior familiaridade, como se estivesse entrando no ‘La Hoje’, na ‘Pausada’, ou em qualquer centro noturno de lazer de Manaus. Nem o Islam, que admirava, escapava de suas atentas observações, está aí a jovem Aicha que não me deixa mentir.

A jovem Aicha

A aula sobre Aicha atraía gente de outras turmas. Aula, hoje, virou esculhambação com um entra e sai constante de alunos, celular tocando, gente conversando. Mas naquela época era algo tão sagrado quanto uma missa, tinha seu ritual, sua liturgia. Era teatro puro, com cenário, figurino, movimento cênico, iluminação e plateia silenciosa e atenta.

Manoel Octávio vestia sempre um terno de linho bem engomado - cada dia uma cor diferente. Entrava em sala de aula e saudava, religiosamente, com sua voz anasalada: “Bom dia, jovens!”. Fazia-se um silêncio respeitoso. Ele, então, tirava do bolso a carteira de Holywood sem filtro, pegava um cigarro e com ele dava uns tapinhas sobre a carteira, antes de acendê-lo com um isqueiro de chama escandalosa.

Fazia a chamada, expelindo fumaça pela boca, em pequenos rolos. Tragava e enquanto falava a fumaça ia saindo. Sua aula sobre o Islamismo deixava a todos nós fascinados com Maomé, casado quinze vezes, quase sempre com mulheres mais velhas, como a viúva Kadidja. O profeta, porém, exagerou com a única esposa mais nova. Quando noivaram, ela tinha seis anos de idade, casando-se aos catorze. Naquela época não tinha esse negócio de pedofilia não, tema sobre o qual não convém tocar em época de eleição no Amazonas.

De qualquer forma, decorei, palavra por palavra, a narrativa de Manoel Octávio com sua voz fanhosa e empostada, intercalada por baforadas de fumaça: “E Maomé deixou a infância alegre entre os beduínos, onde pastoreava os carneiros da família, deixou os camelos da viúva Kadidja, já morta, e apaixonou-se por Aicha, es-plen-do-ro-sa-men-te bela (aqui dava uma paradinha) na explosão dos seus 14 anos”. Acelerava as últimas palavras, como se quisesse aumentar a explosão.

No momento em que ele exaltava a beleza da jovem Aicha, com imagens fortes, ouvia-se um murmúrio crescente e uníssono se levantando na sala de aula, como no Maracanã, quando a torcida espera um gol, e a bola sai tirando tinta do travessão. Talvez, alguém da turma pensasse na beduína mais próxima, Charufe Nasser, a sultana do seringal, que morava na Ferreira Pena com Monsenhor Coutinho e era, com todo respeito, um piteuzinho. Mas o xodó de Manoel Octávio era mesmo o Império Gupta.

O Império Gupta

Andei perguntando aqui e ali, dentro da própria universidade, e encontrei poucas pessoas que sabem, atualmente, o que foi o Império Gupta, a maior potência política e militar que floresceu no norte da Índia, se estendendo pelo vale do rio Ganges, durante três séculos. A novela da Globo - Caminho das Índias - com tanta dancinha, are baba, namasté, ignorou olimpicamente o Império Gupta. Mas o Manoel Octávio não. Ele adorava o Império Gupta, a quem dedicava várias aulas.

Não vou contar aqui o que imperador Samudragupta aprontou com uma cortesã chamada Ajita Gosaliputra porque nem a banca de tacacá da Dona Alvina aguentaria. Talvez algum aluno tenha guardado o caderno de pontos das aulas de História do Manoel Octávio e possa disponibilizá-lo na internet. Aqui, prefiro lembrar o que nosso mestre nos ensinava: que nunca na história da Índia, houve tanto progresso como no Império Gupta. No entanto, esse fato não era reconhecido pelo filósofo invejoso e imoral, chamado Purana Kassapa (também, com esse nome!).

Eis o que eu queria dizer nesse espaço que está terminando. O jornal O Globo está igualzinho ao Purana Kassapa. A manchete de ontem, sábado, berra em letras garrafais uma não-notícia: “Governo Lula Não mudou a calamidade no saneamento”. Outros registros vão na mesma direção: “PT e aliados da AL pregam controle da mídia”. “Mais crianças catam lixo”. Tudo isso na primeira página. Lá dentro: “Doze milhões de casas sem água”; “É vergonhoso e atenta contra a saúde”; “País tem cerca de um milhão de dependentes de crack”. E para fechar: “Serra defende Zona Franca de Manaus”.

As notícias são todas editorializadas, responsabilizando Lula por tudo de ruim que existe no país. Tudo bem, o papel da imprensa é esse mesmo: criticar, dar pau no poder, mas não de forma seletiva. Isso me cheira a manipulação. Nesse espaço aqui, criticamos sem ambiguidades as alianças do Lula com Sarney e Roseana, com Collor, Jader Barbalho, Michel Temer… Mas esse tipo de crítica O Globo não faz, porque aí teria de contar a história ao estilo do Manoel Octávio, revelando os podres de todos os lados. Suspeito que quem escreve os editoriais de O Globo é o próprio Purana Kassapa.

P.S.:
Esse texto é uma homenagem póstuma a Maria Eulália Martins, professora aposentadora do Curso de Serviço Social da UFAM, que nos deixou e com quem compartilhei, com cumplicidade, a admiração por Manoel Octávio, um dos nossos melhores professores, aqui apresentado da forma que Eulália gostava: brincando, com humor.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Queimadas aumentam em 30% internações por doença respiratória no AC

Altino Machado às 3:00 pm

A Secretaria de Saúde do Acre constatou aumento de 30% nos casos de internação por infecção respiratória em Rio Branco, nas últimas duas semanas, por causa da gigantesca nuvem de fumaça que tomou conta do Estado, originada pelas queimadas de florestas e pastagens na região.

Pessoas de todas as idades são afetadas pela baixa umidade relativa do ar, ausência de chuva, calor, ventos e alta concentração de poluentes, mas crianças e velhos são os que mais sofrem com a situação. Apresentam tosse seca, cansaço, ardor nos olhos, nariz e garganta, além de falta de ar e respiração ofegante.

Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do 2º Distrito de Rio Branco, entre os dias 1 e 17 de julho, foram atendidos 1,5 mil casos de crianças e adultos com problemas respiratórios. No mesmo período de agosto, já foram atendidas mais de 1,7 mil pessoas.

- Os números provam que mais pessoas têm tido problema em decorrência da inalação de fumaça - assinalou o secretário de Saúde, Oswaldo Leal Jr.

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Durante os dias, a umidade relativa do ar tem sido abaixo de 30% na região leste do Acre. Na tarde desta quarta-feira (18), a baixa umidade relativa chegou a 12%, sendo que normalmente varia de 80% a 90%. Naquele dia fez 40ºC de temperatura.

Vista parcial de Rio Branco (AC) nesta sexta-feira

Não há registro de chuvas em qualquer ponto do Estado nos últimos cinco dias. Também não há previsão de chuva para os próximos cinco dias. A umidade relativa do ar deve manter-se entre 15% e 60% e a temperatura deve continuar oscilando entre 20ºC e 37ºC.

Neste ano, a estiagem amazônica no Acre já é tão severa quanto a de 2005, quando 200 mil hectares de áreas abertas e quase 400 mil hectares de florestas primárias foram afetados pelos incêndios na região leste do Estado.

O governo estadual decretou estado de alerta ambiental no Acre há duas semanas por causa do risco de desastre decorrente da incidência de incêndio em coberturas florestais e queimadas descontroladas.

Caso seja mantida a taxa de desperdício de água tratada pela população, a capital Rio Branco corre sério risco de voltar a sofrer com o desabastecimento, como ocorreu na estiagem de 2005.

Naquele ano, o nível do Rio Acre, que banha a cidade, chegou a 1,64m. O nível do rio tem baixado diariamente e já se encontra em 1,95m. O Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco (Saerb), que não consegue captar mais água a partir de sua torre, teve que instalar bombas flutuantes.

O prefeito de Rio Branco Raimundo Angelim (PT) e o engenheiro Semy Ferraz, presidente do Saerb, têm alertado à população que o desperdício poderá resultar no desabastecimento da cidade de 305 mil habitantes.

Atualmente, estão sendo captados mil litros de água por segundo, o que eqüivale a 86 milhões de litros por dia, que são distribuídos para 84 mil unidades consumidoras.

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Aeroportos são fechados no Acre e Rondônia por causa da fumaça

Altino Machado às 11:17 am
Vista parcial de Rio Branco (AC)  às 9h50 local (10h50 em Bras�lia)

Vista parcial de Rio Branco (AC) às 9h50 local (10h50 em Brasília)

Com visibilidade de apenas 900 metros, os aeroportos de Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO) estão fechados nesta segunda-feira (16) para pouso e decolagem por causa da densa nuvem de fumaça que encobre as duas capitais.

Na tarde de domingo (15), a péssima condição de visibilidade causada pela fumaça das queimadas de florestas e pastagens impediu que um avião da Gol pousasse em Rio Branco. O vôo teve que ser desviado para Manaus (AM).

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou à superintendência da Infrareo no Acre e ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo em Rio Branco que não autorizem nenhuma atividade de decolagem ou pouso de aeronaves em período noturno até o final de outubro.

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O MPF também recomendou à superintendência do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT) em Rondônia e Acre e à Polícia Rodoviára Federal no Acre que impeçam o tráfego de veículos em rodovias federais localizadas no Acre em período noturno.

- Estamos muito preocupados com a situação. Recomendamos que os vôos e o tráfego de veículos sejam autorizados apenas em situações de emergência ou se as condições de visibilidade forem realmente boas - disse o procurador da República Anselmo Cordeiro Lopes.

A estiagem no Acre neste ano já é tão severa quanto a de 2005, quando 200 mil hectares de áreas abertas e quase 400 mil hectares de florestas primárias foram afetados pelos incêndios na região leste do Estado.

A grande ocorrência de queimadas neste período do verão amazônico levou o governo do Acre a decretar na semana passada estado de alerta ambiental.

A baixa capacidade de captação de água do rio Acre para abastecer Rio Branco se agravou nos últimos dias. O Serviço de Água e Esgoto alerta que o desperdício poderá resultar no desabastecimento da cidade.

A fumaça das queimadas tem prejudicado também a visibilidade e gera risco de acidentes, sobretudo durante a noite. Boa parte das queimadas ilegais são realizadas à noite para dificultar o trabalho dos órgãos de fiscalização e investigação criminal.

Existe outro fato a agravar a vida de quem mora ou necessita viajar para o Acre. Por causa das obras da reforma da pista do aeroporto de Rio Branco, a Gol e a TAM operam no Estado desde o mês passado com aviões de menor capacidade para transporte de passageiros.

A TAM, que operava com Airbus A320, passou a operar com Airbus A319. Podia transportar até 174 passageiros, mas agora transporta apenas 144. A Gol teve que trocar seu Boeing 737-800 pelo 737-700. Transporta agora apenas 108 passageiros. Para conseguir uma vaga é necessário se inscrever em listas de espera.

As duas companhias aéreas tiveram que adequar o peso de suas aeronaves porque os primeiros 600 metros da pista foram interditados manutenção. A pista mede 2,1 mil metros de extensão e tem 45 metros de largura.

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domingo, 15 de agosto de 2010

Esperança de que os terena não voltem a conversar com o espelho

Altino Machado às 8:45 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Casal

Maria de Lourdes e Celinho Belizário

Escrevo da aldeia Cachoeirinha, em Miranda (MS), onde acabo de presenciar uma operação arriscada. Vi como desmontaram o gatilho de uma arma infernal que já causou mortes e emudeceu vozes, criando um silêncio de cemitério. O gatilho assassino foi desarmado por dois Terena - a professora Maria de Lourdes Elias Sobrinho, ex-empregada doméstica, filha de um índio plantador de milho, arroz, feijão e banana - e seu colega, o professor Celinho Belizário, ex-cortador de cana.

Nessa sexta-feira, 13 de agosto, cada um deles defendeu sua dissertação de mestrado na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) de Campo Grande (MS), que abriu seu Programa de Pós-Graduação em Educação para formar pesquisadores indígenas, com apoio da Fundação Ford.

No entanto, a defesa aconteceu - o que é inédito no Brasil - não no campus universitário, mas dentro da própria aldeia. Fomos nós, os professores da banca de avaliação, que nos deslocamos até lá, num movimento que não se limitou a uma simples troca de espaço, mas implicou mudança de perspectiva: a universidade desceu de suas tamancas e com isso ampliou seu universo de conhecimentos.

Maria de Lourdes fez a apresentação oral, toda ela em língua terena, para compartilhar sua pesquisa com os índios ali presentes. Na medida em que falava, o data-show ia projetando o texto da tradução ao português, permitindo que a banca e o público não-indígena acompanhassem sua fala. O trabalho escrito também é, em grande medida, bilíngue em terena e português. Essa foi, talvez, a primeira vez no Brasil que um índio não precisou renunciar à sua língua para ter um diploma reconhecendo aquilo que sabe.

O boi baba

A pesquisa de Maria de Lourdes procura identificar, justamente, os mecanismos engatilhados contra a língua terena, buscando um escudo para protegê-la. Através desse caso particular, é possível entender o extermínio, em cinco séculos, de mais de mil línguas indígenas, que deixaram de ser faladas no Brasil. Cerca de 180 delas continuam ainda resistindo, como a língua terena. De que forma foi possível silenciar tantas vozes que enriqueciam o patrimônio cultural da humanidade, sepultando com elas cantos, narrativas, poesia, músicas e saberes?

As tentativas de sufocar a língua terena - um crime de glotocídio - foram testemunhadas pela própria Maria de Lourdes, em sua infância. “Da primeira até a quarta série do Ensino Fundamental, cursei na Aldeia Cachoeirinha de 1968 a 1972, minha professora era purutuye (branca). Quando cheguei à sala de aula, meu primeiro impacto foi com a questão da língua, isto é, eu, falante da língua terena e a professora da língua portuguesa. Quando ela começou a explicar a matéria, parecia que eu estava em outro mundo, pois não entendia nada do que ela estava falando”.

Lourdes se lembra de sua primeira cartilha - O caminho suave - onde lia que “o boi baba”, em voz alta, mas não entendia bulhufas. “Em 1976, na cidade de Miranda, fui para uma escola pública cursar a 5ª série à noite. Numa das aulas, a professora pediu para eu ler um texto de história. Li. Depois ela me pediu para explicar aos colegas o que tinha lido. Sem dizer nada, comecei a chorar, pois não sabia o que o texto dizia, eu não falava a língua portuguesa”.

Lourdes chegou a estudar num convento de freiras, em 1975. Lá, “era tudo estranho, a começar pela língua. Não entendia o que as freiras falavam comigo. Lembro quando uma freira me pediu água. Fiquei parada na cozinha sem saber o que ela tinha pedido. Eu não perguntava o que ela queria, pois não sabia nem como perguntar. A minha comunicação com elas era bom dia, boa tarde e boa noite. Essas foram as primeiras palavras que me ensinaram”.

Quando saiu do convento, Lourdes foi trabalhar como empregada doméstica. “Trabalhava de dia, e à noite estudava o segundo grau numa escola pública, mas tinha vergonha de falar a língua terena no meio dos brancos, isto porque não queria que eles percebessem que eu era índia, pois quando percebiam me isolavam do grupo”. Com a língua, ela silenciou também brincadeiras infantis, danças, benzimentos, cantos, pajelança e até a culinária terena, especialmente o lapâpe - uma massa de mandioca aberta como uma pizza e preparada na frigideira quente.

Lourdes foi atingida no próprio corpo pelos disparos de uma arma letal, que assassina almas e emudece vozes. Dessa forma, descobriu o mecanismo de extermínio, que começa com a discriminação da língua indígena considerada pelo senso comum preconceituoso como “inferior” ou “pobre”. Depois vem a proibição de falar essa língua, o que significa enxotar da escola os conhecimentos tradicionais que ela veicula. Em seguida, a obrigação de aprender a ler em português, uma língua desconhecida. Por último, o falante se automutila, na medida em que é obrigado a esconder sua identidade.

Rito de passagem

Quando Lourdes se formou no Curso Normal Superior Indígena e foi lecionar na primeira série do ensino fundamental, na Aldeia Cachoeirinha, constatou que apesar das garantias constitucionais e do direito dos índios de serem alfabetizados em suas línguas maternas, a escola continuava fazendo com as crianças aquilo que havia feito com ela. As crianças não aprendiam a ler em terena, apresentando alto índice de repetência e evasão escolar.

Foi aí que Lourdes decidiu romper esse círculo vicioso, organizando a resistência ao desmontar os mecanismos que acabariam com sua língua materna. Como coordenadora pedagógica da escola, ela elaborou e implantou em 2007 o projeto de alfabetização e produziu a cartilha “Ler e Escrever na Língua Terena”. O português passou a ser ensinado como segunda língua.

A pesquisa de Lourdes no mestrado teve como objetivo analisar essa experiência. Ela realizou testes de leitura e compreensão de texto com crianças terena alfabetizadas na língua indígena e com outros alfabetizados em português. Os resultados foram surpreendentes: no primeiro caso, as crianças que liam e escreviam em Terena, se expressavam com mais fluência inclusive em português e interpretavam textos com mais facilidade nas duas línguas.

As duas pesquisas - a de Lourdes e a de seu colega Celinho, que analisou o projeto político pedagógico da escola - se apropriaram das teorias e dos conceitos dos autores nacionais e estrangeiros indicados por seus respectivos orientadores: a doutora Adir Casaro e o doutor Antônio Brand da UCDB. No início não foi fácil: “O Homi Bhabha não queria conversar comigo” - disse Lourdes, com humor, referindo-se ao teórico indo-britânico, que analisou o confronto de sistemas culturais e cuja noção de entre-lugar como local da cultura acabou se tornando familiar a ela.

Alguns autores brasileiros como Aryon Rodrigues, Ruth Monserrat e Roberto Cardoso de Oliveira, serviram aos dois pesquisadores que, além disso, realizaram observações na aldeia e na escola. Entrevistaram velhos, professores, alunos, pais de alunos, registraram as falas nas reuniões de trabalho, consultaram os textos de autores indígenas de outras línguas como Higino Tuyuka, Chiquinha Pareci e Darlene Taukane, cruzaram as fontes orais com as fontes escritas. Enfim, produziram uma pesquisa de qualidade, como assinalou a doutora Marta Azevedo, da Unicamp, membro da banca.

“Os Terena estão buscando novas formas de sobreviver em meio a essa cruzada de flechas e às novas e gigantescas colunas de fogo que se alastram em direção a nós, vindas do entorno regional” - escreveu Celinho, que definiu sua pesquisa como “a semente de um sonho”, porque “outros pesquisadores indígenas continuarão essa reflexão”.

Na ocasião, duas cerimônias foram realizadas pela comunidade terena para celebrar o nascimento dos novos mestres. Lourdes entrou no recinto, acompanhada dos membros da banca, passando no meio de duas fileiras formadas por meninas que dançaram o Xiputrena, animadas por um tocador de pife (oxoti étakati) e um tocador de tambor (ixúkoti pepêke). Já Celinho foi recebido com o Kohitoxi Kipâhi ou dança do bate-pau, numa fileira meninos com os corpos pintados de vermelho e na outra, de azul. Tinha algo de belo e de sagrado na reverência daquelas crianças aos novos suportes do saber.

Há alguns anos, o último falante de uma língua indígena foi considerado doido, porque conversava em língua xetá com sua imagem projetada no espelho, como uma forma dramática de manter sua identidade e sua memória. As pesquisas dos dois novos mestres fazem parte de uma estratégia, uma esperança para que nenhum terena jamais precise conversar com o espelho. Que Orekajuvakai nos ouça!

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Fotos: Caroline Maldonado

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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Tribunal divulga lista dos que têm mais processos na Justiça do Acre

Altino Machado às 6:13 pm

O Tribunal de Justiça do Acre divulgou nesta sexta-feira (13) uma lista (pessoas físicas e jurídicas) com os nomes das 100 maiores instituições públicas e privadas (veja) que mais possuem processos na Justiça Estadual.

A instituição campeã, em primeiro grau, é o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), com 2.443 processos, sendo apenas cinco como autora, e 2438 como ré. O governo do Acre, com 1.801 demandas judiciais, 859 como autora e 942 como ré, está em  segundo lugar.

Em terceiro, a Seguradora Lider dos Seguros dos Consórcios DPVAT, com 1.539 feitos, a maioria deles (1.533) como ré, e somente seis como autora. Por sua vez, o Banco Cruzeiro do Sul possui 1.316 ações na Justiça, divididas entre 1.533 como ré, e seis como autora, ocupa o quarto lugar da lista.

No âmbito do 2º grau, aparecem o Banco Cruzeiro do Sul, a Seguradora Líder dos Consórcios do Seguro DPVAT, o Banco BMG, o Governo do Acre e a Telesp Celular - Vivo S/A como as cinco empresas que mais possuem processos.

- É muito relevante essa medida porque permite conhecer quanto cada empresa demanda do Poder Judiciário Acreano. Também possibilita que a população tenha total acesso às informações e saiba em que setores se concentram essas demandas - disse o desembargador Samoel Evangelista, Corregedor Geral da Justiça e Gestor das Metas e Ações Prioritárias de 2010.

Com a medida, o Tribunal de Justiça do Acre alcança o cumprimento de uma das ações prioritárias do Poder Judiciário Nacional - a divulgação da relação dos maiores litigantes.

A relação não inclui processos das Justiças Eleitoral e Militar, de execuções fiscais, processos da infância e juventude e da área criminal.

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Rio Branco (AC) pode ficar sem água por causa da estiagem amazônica

Altino Machado às 1:37 pm
Trecho do rio Acre no centro de Rio Branco

Trecho do rio Acre na altura do centro histórico de Rio Branco

A estiagem em Rio Branco (AC) neste ano já é tão severa quanto a de 2005, quando 200 mil hectares de áreas abertas e quase 400 mil hectares de florestas primárias foram afetados pelos incêndios na região leste do Acre.

A baixa capacidade de captação de água do rio Acre para abastecer a cidade se agravou nos últimos dias por causa do “verão amazônico”. O engenheiro Semy Ferraz, presidente do Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco (Saeerb), alerta que o desperdício poderá resultar no desabastecimento da cidade.

Este período do ano caracteriza-se pela baixa concentração pluviométrica, baixa umidade relativa do ar e a intensidade dos ventos, que costumam favorecer o aumento das ocorrências de incêndios florestais na região.

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AC: incêndio destrói 500 hectares de floresta nativa em assentamento do Incra

O nível do rio está tão baixo que o Saerb não consegue mais captar água  a partir de sua torre e se vale de bombas flutuantes. A água tratada é consumida pelos 305 mil habitantes de Rio Branco.

Apesar de ter firmado dentro e fora do país a imagem de um estado comprometido com a defesa do meio ambiente, o governo do Acre nada fez até hoje para evitar os alertas de que o rio Acre está morrendo.

As duas margens do rio, da fronteira com Peru e Bolívia até desembocar no rio Purus, em Boca do Acre (AM), foram devastadas pelos pecuaristas. Não existe nenhuma iniciativa de reflorestamento e elas ainda continuam sofrendo danos ambientais.

O rio Acre continua a receber o esgoto de todas as cidades que banha e abastece. As autoridades não são capazes nem de respeitar as leis e proteger um aqüífero existente em Rio Branco, sobre o qual já foram erguidas várias edificações, incluindo hospital e rodoviária.

Em Rio Branco, a estação de coleta de dados do Instituto Nacional de Meteorologia registrou, entre 1º de junho e 11 de agosto de 2005, 31,5mm de precipitação. No mesmo período deste ano, a precipitação foi de 32,8mm.

De acordo com o Boletim dos Focos de Calor e Clima do governo do Acre, não há previsão de chuva. O rio Acre abastece as cidades de Assis Brasil, Brasiléia, Xapuri e Rio Branco.

Em Brasiléia, na fronteira com a Bolívia, a cota do rio é de 1,44m. Nesta mesma época, no ano passado, era de 1,74m. Em Rio Branco, o rio Acre está com profundidade de 2,06 m - era de 1,83 m em agosto de 2005.

A estiagem amazônica afeta também outros rios do Acre. O rio Iaco, no município de Sena Madureira, está na cota de 2,13 m. O Juruá, em Cruzeiro do Sul, no extremo-oeste brasileiro, está na cota de 4,18m.

A capital do Acre continua sob densa nuvem de fumaça. Entre a segunda-feira (09) e esta sexta-feira (13) foram registrados 345 focos de calor no Acre. Os municípios com maior incidência de focos neste período foram Rodrigues Alves (49), Sena Madureira (36), Porto Acre (22).

Em 2005, eram 1781 focos de calor em todo o Estado. Os municípios com maior incidência de focos eram Plácido de Castro (405), Acrelândia (243), Senador Guiomard (167), Sena Madureira (134), Rio Branco (129), Tarauacá (125).

Fumaça

O Boletim dos Focos de Calor e Clima do Acre assinala que existe resolução do Conama que define o padrão primário de qualidade do ar como as concentrações de poluentes que ultrapassadas poderão afetar a saúde da população.

A fumaça não deve ultrapassar a concentração média por dia (24hs) de 150 microgramas por metro cúbico de ar, que também não deve ser excedida mais de uma vez por ano.

Segundo o boletim, há um acúmulo de material particulado no oeste do Acre que varia entre 60 e 100 microgramas, na região do Jurua e Taraucá-Envira.  Na região do Alto e Baixo Acre, varia entre 30 e 200 microgramas.

As informações são obtidas a partir do Sistema de Monitoramento de Focos de Calor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Ele detecta focos de calor que tenham pelo menos 30 metros de lado, o que impossibilita a detecção de pontos de queimadas urbanas.

Recomendando pela Comissão de Gestão de Riscos Ambientais, na semana passada o governador Binho Marques (PT) decretou estado de alerta ambiental no Acre diante da possibilidade de desastre decorrente de incêndios em coberturas florestais e queimadas descontroladas.

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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Estiagem, calor e fumaça castigam o Acre

Altino Machado às 4:38 pm
Fumaça toma conta de Rio Branco (AC)

Nuvem gigante de fumaça toma conta de Rio Branco (AC)

Um dia após o governo ter decretado estado de alerta ambiental no Acre, a população de Rio Branco, a capital, continua sendo castigada pela densa nuvem de fumaça que paira sobre a cidade.

O estado de alerta ambiental foi decretado por causa da possibilidade iminente de desastre decorrente de incêndios florestais e queimadas descontroladas na região.

De acordo com dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a região leste do Acre continuará sem chuvas até o próximo domingo.

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A região atravessa o período conhecido como verão amazônico, quando pecuaristas e agricultores tocam fogo em pastagens e florestas a pretexto de melhorar as condições do solo.

A situação no leste do Acre poderá se agravar,  pois está prevista a chegada de uma frente fria no sábado (14), que deverá durar até a segunda-feira (16). Nesse intervalo, a temperatura irá variar entre 24ºC e 12ºC.

De acordo com o Inpe, a frente fria causará diminuição da umidade relativa do ar, que poderá atingir picos mínimos de 30%, entre domingo e segunda-feira.

O próximo final de semana em Rio Branco poderá se tornar crítico por causa da poluição com fumaça.

Os dados do Inpe mostram a existência de uma densa e gigantesca concentração de fumaça derivada de queimadas sobre os departamentos bolivianos de Beni e La Paz.

- Se essa fumaça não se dissipar até a chegada da frente fria, esta irá carrear a nuvem densamente particulada (20 ug/m³) até o leste do Acre - afirma o pesquisador Evandro Ferreira, da Universidade Federal do Acre.

Além da fumaça gerada na Bolívia, sul do Amazonas, Rondônia e Mato Grosso, que é conduzida pelo vento até o Acre, existe a fumaça produzida por queimadas de pastagens e florestas, principalmente na região leste do Estado.

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

AC: risco de desastre faz governo declarar Estado de Alerta Ambiental

Altino Machado às 2:04 pm
Linha do fogo em assentamento no Acre

Linha do fogo em assentamento no Acre na semana passada

O governador Binho Marques (PT) decretou nesta segunda-feira (9) Estado de Alerta Ambiental no Acre em razão de iminente possibilidade de desastre decorrente da incidência de incêndio em coberturas florestais e queimadas descontroladas.

A decisão foi recomenda pela Comissão de Gestão de Riscos Ambientais, que não foi atendida em relação à suspensão das autorizações de queima.

O número de focos de calor registrados entre janeiro e julho de 2010 representa aumento de 123% em relação ao observado em 2008 e 587% em relação a 2009, ainda que menores em relação a 2005, quando a região foi palco de um megaincêndio.

Leia mais:

Inpe: risco de incêndios na Amazônia é crítico

AC: incêndio destrói 500 hectares de floresta nativa em assentamento do Incra

O governo do Acre afirma que a maioria das queimadas descontroladas e dos incêndios florestais são conseqüência de atividades ilegais e não autorizadas. Nos últimos dias houve aumento nas ocorrências de queimadas e a elevação da concentração de fumaça na parte leste do Estado, que se elevou com  as emissões das queimadas nos estados e países fronteiriços.

De acordo com a Comissão de Gestão de Riscos Ambientais do Acre, existe previsão para os próximos meses de maior probabilidade de temperaturas acima da média para todo o Estado, reforçado pela ausência de chuvas neste período da estiagem amazônica.

Também é considerado pela Comissão de Gestão de Riscos Ambientais do Acre a previsão de friagem e ventos fortes para os próximos dias, o que poderá potencializar a diminuição da umidade relativa do ar, deixando as florestas mais suscetíveis a incêndios e ao aumento do risco de fogo no Estado.

Degradação

Dados do sistema de detecção do desmatamento em tempo real do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indicam que 243,74 km² da floresta amazônica sofreram corte raso ou degradação progressiva no último mês de junho.

Desmatamento por Estado:

Acre = 0,69 km²

Amazonas = 24,36 km²

Maranhão = 10,69 km²

Mato Grosso = 36,5 km²

Pará = 160,63 km²

Rondônia = 8,83 km²

Tocantins = 2,04 km²

Total: 243,74 km²

Pontos amarelos de mapa do Inpe mostram a localização dos alertas. Em rosa, as áreas não monitoradas devido à cobertura de nuvens, que foi de 28% em junho:

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domingo, 8 de agosto de 2010

Livra-nos, Senhor, dos Collor, dos Sarney, dos Maluf, dos Roriz, dos Barbalho, dos Quércia, dos Jucá. Amém.

Altino Machado às 11:08 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Oh Senhor, queríamos tanto votar, que em 1984 saímos às ruas no movimento “Diretas Já”, rezando e clamando pela aprovação da Emenda Dante de Oliveira. Lá, nos comícios, enquanto os fartos seios da Fafá de Belém arfavam cantando o Hino Nacional, o nosso peito varonil, bem sintonizado, elevava preces aos céus, implorando que chovessem candidatos em nosso roçado eleitoral. Se fossem muitos, poderíamos escolher o melhor para nos governar.

As nossas súplicas foram ouvidas. Choveu. Mas choveu além da conta. Uma tempestade de candidatos espertalhões, malandros e ruins de rima inundou o país, afogando os eleitores nas urnas, confundindo-os. Oh Senhor, nós pedimos pra chover, mas chover de mansinho, pedimos pra ditadura sair de fininho, pra ver se nascia democracia com a eleição. Mas veja, Senhor, o que está acontecendo em todos os cantos do país.

Alagoas - Elle outra vez? Não, Senhor! Piedade! Clemência! Conquistamos o direito de votar e logo na primeira eleição escolhemos um filhote da ditadura que o pariu, travestido de “caçador de marajás”. Erramos. Corrigimos o erro, derrubando o esquema PC Farias, que recolhia a bufunfa através de ‘contas fantasmas’. Agora, elle volta pelo PTB (vixe) pra governar Alagoas, purificado pelo jingle cujos versos cantam: “É Lula apoiando Collor, é Collor apoiando Dilma pelos mais carentes. E os três pelo bem da gente”. Um escárnio! O PT local conseguiu vetar a rima duvidosa. Elle mudou, mas continuou desafiando com a rima fácil do Egberto Lurian Batista e o jingle ficou assim: “Não adianta, o povo sabe quem tá apoiando quem. O povo tá decidido e vai apoiar também”. Oh Senhor, por que nos castigas assim? Envia-nos, Senhor, o Espírito Santo e junto com ele o motorista Eriberto França para refrescarem a memória do eleitor.

Com elle, vem o candidato ao senado, Renan Calheiros (PMDB, vixe), o do Renangate, o das rádios em nome de “laranjas”; o traficante de influência junto à Schincariol; o usuário de notas fiscais frias em nome de empresas fantasmas; o da montagem de um esquema de desvio de dinheiro público em ministérios comandados pelo PMDB. Não permita, Senhor, que Collor e Renan se reelejam. Chama os cara-pintadas, Senhor, e contrata um poeta que pelo menos rime “quem” e “também” com “homem-de-bem”.

Brasília – Oh, Senhor, a democracia fica ferida com Joaquim Roriz (PSC vixe!), 74 anos, quanto mais velho, mais escândalos: acordo com bicheiro, desvios de verbas, superfaturamento da merenda escolar, cinco inquéritos no STJ, seis notícias crimes, improbidade, falsidade ideológica, crimes contra a fé pública. Governador de Brasília nomeado por Sarney, em 1988, ele foi reeleito três vezes com o voto popular. Nós te suplicamos, Senhor, se for tua vontade punir o eleitor, cegando-o uma vez mais, elege o Roriz, mas retira antes sua cueca e suas meias, deixa-o despido, nu, e tapa o seu fiofó com cimento como se fosse um poço de petróleo no Golfo do México, para que ele não tenha nenhum buraco onde esconder o caixa dois. Faz o mesmo, Senhor, com Agaciel Maia (PTC, vixe), candidato a deputado distrital.

Maranhão – Oh Senhor, quanto mais rezo, mais assombração me aparece. Lá vem, outra vez, Roseana Sarney (PMDB, vixe), filha do atraso e do coronelismo, das 15 mil marmitas, de R$ 1.340.000,00 não-declarados, acusada em escândalo de corrupção com a empresa Lunus Participações da qual é sócia, de peculato, de estelionato e de formação de quadrilha com Jorge Murad. O processo foi arquivado e ela recebeu apoios para se “purificar”, denuncia Flávio Dino (PCdoB/MA): “O dono do Maranhão, o dono do mar, agora acha que é o dono da Dilma”. José Sarney (vixe) legou a capitania hereditária pra sua filha, da mesma forma que o deputado ficha-suja Fufuca Dantas (PMDB/MA, vixe) cedeu seu lugar ao filho de 21 anos, o André Fufuca, conhecido como Fufuquinha. Eles se multiplicam como cobra de sete cabeças. Oh Senhor, nem que Lula peça de joelhos, nem que a Dilma tussa, não permita que eleitores votem em fufuquinhas. Que votem em Flávio Dino, Senhor! Desculpa, Senhor, eu pedir a toda hora pra chegar o inverno, desculpa eu pedir pra acabar com o inferno, que sempre queimou o meu Maranhão, o estado mais saqueado da Federação.

Pará – Oh, Senhor, procura, está lá, no Arquivo do Banco Central, na estante 05, prateleira 01, caixa 1876, o processo número 9200047419, que tem 2.509 páginas em nove volumes. Lá Jader Barbalho (PMDB, vixe, vixe) é acusado de ter desviado R$ 10 milhões do Banpará. O Conde de Abacatal, o homem do desvio de R$ 16,7 milhões da Sudam, acusado de “ladrão” pelo seu colega Toninho Malvadeza, está de volta como candidato ao Senado, com seus braços que já foram algemados, com suas mãos que já foram beijadas e com sua curriola que rima Barbalho com o quê mesmo? Oh, Senhor, será que tu não entendes quando rezo em português? Then, I will ask you, my Lord, fuck Jeider Barbeilho and his gang. Faz isso, Senhor, em nome da saúde pública.

Roraima – Lembra-te, Senhor, os “gafanhotos” comeram a folha de pagamento do Estado de Roraima e sugaram suas últimas energias, desviando mais de R$ 230 milhões dos cofres públicos. Agora, estão de volta os três mosqueteiros inimigos dos índios: Neudo Campos, José de Anchieta e Romero Jucá (ex-PSDB, atual PMDB, futuro PT?), esse último fiel líder do governo FHC e agora líder fidelíssimo do Governo Lula no Senado, acusado de ter oferecido sete fazendas inexistentes como garantia para um financiamento do Banco da Amazônia, entre outras denúncias, incluindo desvio de R$ 4,9 milhões destinados à coleta de lixo em 18 bairros da capital roraimense na gestão da prefeita Teresa Jucá. Senhor, não deixa que o eleitor roraimense sofra de amnésia.

Outros Estados – Olha, Senhor, pra qualquer lado que a gente se vire, lá está a fina flor da malandragem. É Anthony Garotinho (RJ), André Puccinelli (MS), Iris Rezende (GO). Em São Paulo, Maluf – o Maluf, Senhor, ele mesmo, o Paulo Salim - e o Quércia, o que quebrou o Banespa. São tantos por todo o Brasil, a maior parte deles – os mais espertos – com “ficha limpa”, porque sequer deixam rastros e tem mais advogados do que eleitores. No Amazonas, fica a perplexidade do leitor H. Romeu Pinto: o que fazer?

Os vices – Oh, Senhor, será que vice tem de ser podre? Esse paspalhão Antônio Pedro de Siqueira Indio da Costa (DEM – vixe, vixe), tão jovem, mas já engatinhando vorazmente nas suas primeiras trapaças. E o Michel Miguel Elias Temer Lulia, o mordomo de vampiro, acusado de depredar e grilar área de reserva ambiental e de recorrer a grileiros e a servidores do governo de Goiás para obter títulos de propriedade fraudados?

Foi para isso, Senhor, que lutamos tanto? Para escolher entre o pior e o “menos pior”? Oh, Senhor, não mate nossas esperanças. Precisamos crer na democracia e na política, uma arte tão nobre, que não devia ser assim enlameada. Tende piedade de nós, Senhor, da nossa desinformação que nos leva a votar contra nossos interesses históricos, que nos impede de identificar quem são nossos aliados e quem são nossos inimigos, que nos transforma em eleitor ficha-suja. Tende piedade de nossos formadores de opinião que não encontram o caminho pra abrir os olhos dos demais e, às vezes, sequer os próprios olhos.

Ajuda-nos, Senhor, a mobilizar nossas forças para conquistar uma reforma política com mudanças na legislação sobre as eleições e o financiamento das campanhas. Precisamos aperfeiçoar a democracia, elegendo representantes comprometidos com a causa pública, inclusive candidatos da oposição, limpos, vigilantes e críticos, porque nenhum sistema democrático sobrevive sem oposição sadia. Embora definitivamente não saibamos rezar, nós te suplicamos, Senhor, não consinta que o capital ético deste País seja dilapidado. Livra-nos, Senhor, dos Collor, dos Sarney, dos Maluf, dos Roriz, dos Barbalho, dos Quércia, dos Jucá. Amém.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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