Terra Magazine

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Índios protestam contra o projeto de Ratinho explorar madeira no Acre

Altino Machado às 10:12 am
Carlos Massa, o Ratinho, investindo no desenvolvimento acreano

Índios e ribeirinhos de sete aldeias da etnia yawanawá ameaçam fechar a partir desta quinta-feira (1) a BR-364, que liga a capital Rio Branco ao interior do Acre, em protesto contra a relação do governo estadual com a empresa Radan Administração e Participação Ltda., que tem como sócio majoritário o apresentador de TV Carlos Massa, o Ratinho.

A Radan obteve licenciamento para exploração madeireira em 150 mil hectares na Floresta Estadual do Mogno, na margem esquerda da BR-364. O plano de negócio é de conhecimento do governo estadual. O plano de manejo florestal já foi analisado e aprovado pelo governo federal. Está previsto a instalação de uma indústria de beneficiamento de madeira na região.

Duas organizações do povo yawanawá entregaram na semana passada uma carta ao governador Binho Marques (PT) na qual criticam duramente a relação do Estado com a empresa de Ratinho. De acordo com os índios, está chegando ao final o terceiro mandato da coligação Frente Popular do Acre e o governo pouco ou quase nada de significativo tem feito para ajudar concretamente as comunidades indígenas.

Leia mais:

Ratinho vai explorar madeira em 150 mil ha de floresta nativa do Acre

- Alem disso, estamos nos sentindo ameaçado com o projeto madeireiro do Ratinho no entorno de nossa terra indígena, que, junto com a pavimentação da BR-364, vai afetar direta e indiretamente todo o nosso povo Yawanawá. Ficamos ainda mais preocupados com o apoio efetivo que o “Governo da Floresta” vem dando para implementar e consolidar um projeto madeireiro dessa magnitude nas vizinhanças de nosso território - afirma a carta.

Os índios argumentam que têm o direito inalienável como primeiros habitantes das terras banhadas pelo rio Gregório, mas se sentem desrespeitados pelo projeto de exploração de madeira ao redor de seu território.

- O que mais nos revoltou foi ver o Ratinho dizendo na televisão que é amigo do governo, que comprou e pagou a terra e que nós estamos apenas querendo dificultar o desenvolvimento do Acre e a vida dele como empresário. Não vamos permitir que nos atropelem. Nós vamos obstruir a ponte sobre o Rio Gregório juntamente com nossos amigos não índios que foram retirados da área do projeto do Ratinho - disse ao Blog da Amazônia o líder indígena Joaquim Tashka Yawanawá.

Os índios dizem que o projeto vem sendo realizado sem nenhum tipo de consulta prévia e informada às suas comunidades, que não conhecem e nem foram informados sobre os estudos de impacto ambiental que a exploração madeireira da empresa de Ratinho acarretará sobre as “nossas florestas, o nosso rio e as nossas comunidades.”

- Nesse sentido, exigimos que sejam realizados os estudos de impacto ambiental sobre essa exploração madeireira na região do rio Gregório, que nos informem de que forma esta atividade predatória irá afetar diretamente ou indiretamente nossas comunidades.

Os yawanawa também querem ter acesso ao documento de licença ambiental que permite a exploração de madeira no Gregório e tomar conhecimento dos estudos e levantamentos realizados pelo governo do Acre sobre viabilidade econômica, social e ambiental do projeto madeireiro.

- Pela mesma razão, gostaríamos de saber os motivos pelos quais o projeto de REED Sky, WWF e Governo do Estado fora direcionado apenas para [os municípios de] Feijó e Manoel Urbano, justamente o trecho da BR-364 escassamente povoado, que está sendo asfaltado agora pelo seu governo.

De acordo com a carta dos yawanawá, a Fundação Nacional do Índio não realizou o pagamento das indenizações das benfeitorias dos antigos moradores brancos da Terra  Indígena do Rio Gregório.

- Nossa terra foi demarcada há mais de dois anos e, no entanto, até hoje nossos velhos amigos não receberam nenhuma indenização. Isso é injusto e ilegal com aqueles moradores que se retiraram de nossa terra mesmo antes da demarcação física de nossa terra, sem nenhum conflito e confusão, apenas por respeito e consideração com o nosso povo e as nossas comunidades.

Blogs que citam este Post

domingo, 27 de junho de 2010

Te mando um passarinho, dentro de uma cestinha

Altino Machado às 10:09 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Na região do Rio Negro, no Amazonas, as mulheres acordam bem cedinho e vão pra roça buscar mandioca pra fazer o beiju nosso de cada dia. No caminho, às vezes, encontram um boêmio que está voltando da farra, requebrando seu rabo comprido, peludo e enfeitado. É o quatipuru, um mamífero roedor, primo-irmão do caxinguelê, que passa a noite toda na esbórnia. Ele tem hábitos noturnos. Gosta das baladas da náite.

Depois de cada noitada de orgia, o quatipuru, cansado, passa o dia inteirinho dormindo. Por isso, ficou com fama de dorminhoco, a tal ponto que quando morre uma pessoa, logo que o corpo apodrece, a alma do dito cujo, que vai dormir o sono eterno, sobe ao céu em forma de quatipuru. Ele é, indiscutivelmente, o dono do sono. Era a ele que as mulheres da Amazônia se dirigiam, quando embalavam seus filhos na rede, cantando uma canção de ninar em nheengatu – a língua geral dos amazonenses – na qual pediam:

“Acutipuru ipurú nerupecê / Cimitanga-miri uquerê uaruma.”

A tradução ao português dessa canção de ninar foi feita pelo cônego Francisco Bernardino de Souza, que em 1873 publicou um livro com a letra, mas não nos deixou nenhuma partitura com a representação da música. As mães que embalavam seus filhos pediam mais ou menos isso:

“Acutipuru, me empresta o teu sono, que eu quero fazer meu filho dormir.”

Pára-tudo

Escrevo sobre o quatipuru, porque na hora do jogo Brasil x Portugal fiquei falando sobre ele, mas meu pensamento estava na África do Sul. É que naquele momento, eu dava uma conferência na Biblioteca Nacional de Bogotá, contando histórias sobre o quatipuru, passarinhos, borboletas e outros bichos. Podes crer, bicho! Não vi o jogo.

Na hora do jogo, eu conversava num enorme auditório com cerca de 800 bibliotecários e bibliotecárias provenientes de todas as regiões da Colômbia, que participavam do II Congresso Nacional de Bibliotecas. O evento foi encerrado na sexta-feira com meu papo sobre o livro “Te mandei um passarinho”, que ainda não foi publicado, e que recolhe textos e ilustrações de índios de mais de 30 etnias. Os autores são, portanto, somente índios escritores e artistas plásticos, mas quem organizou o livro fomos nós, apaixonados por essa literatura: Nietta Monte, Ira Maciel, Nubia Melhem e eu.

O título do livro nós pedimos emprestado a José Vieira Couto de Magalhães, um mineiro rico, filho de fazendeiros, que foi presidente da Província do Pará (1864-1865), onde aprendeu a falar o Nheengatu, língua ainda amplamente disseminada naquela época por toda a Amazônia. Escreveu “O Selvagem”, que foi traduzido e editado em várias línguas: francês, inglês, alemão e italiano.

Couto de Magalhães recolheu a literatura oral indígena na Amazônia e no Mato Grosso. Um dia, viajando pelo rio a bordo de uma embarcação a vapor, ele descansava no passadiço e ficou ouvindo a conversa dos tripulantes do barco. Entre eles havia um índio Kadiwéu, apelidado de “Pára-tudo”, que era um puta contador de histórias.

- Foi esta a primeira vez que minha atenção foi despertada para os mitos nacionais, escreveu Couto de Magalhães, que aprendeu o Nheengatu só para poder entender essas histórias. Depois, no Tocantins, encontrou o cacique Anambé, que lhe contou o mito de Ceiuci – “uma espécie de fada indígena, uma velha gulosa que vivia perseguida pela fome”. Registrou ainda uma canção recolhida no Pará em 1865, quando ainda era cantada com muita frequência. Trata-se de um texto bilíngue português-nheengatu, no qual ambas línguas convivem sem o predomínio de uma sobre a outra.

“Te mandei um passarinho / Patuá miri pupé / pintandinho de amarelo / iporanga ne iaué.”

Na época, como no Amazonas todo mundo falava português e nheengatu, todo mundo entendia a letra. Mas agora nós estamos apresentando o livro para neo-leitores, pessoas recém-alfabetizadas em programas de Educação de Jovens e Adultos, que não conhecem a língua geral. Portanto, nesse contexto, numa publicação destinada a circular no Brasil, era necessário traduzir ao português os versos escritos em nheengatu, o que fizemos recorrendo à versão de autoria não identificada, que ficou assim:

“Te mandei um passarinho / dentro de uma gaiolinha / pintadinho de amarelo / e bonito como você.”

Gaiola ou cesto?

O tradutor anônimo, que usou “gaiolinha” como equivalente a “patuá mirim”, parece ter entendido que a forma mais apropriada de presentear alguém com um passarinho era aprisioná-lo dentro de uma gaiola para evitar sua fuga. Afinal, a cultura regional urbana naturalizou a gaiola como o lugar de pássaros que vivem em espaços domésticos.

No entanto, não é o que os índios guarani pensam e praticam. Essa tradução, submetida a um teste de recepção com professores bilíngues guarani do Curso de Formação Docente de vários estados do Sul e Sudeste do Brasil, que são meus alunos, causou entre eles uma visível sensação de desconforto. A discussão se deu em torno do verso “dentro de uma gaiolinha”, particularmente com relação à palavra “gaiolinha”. A reação foi unânime. Eles rejeitaram essa tradução.

Um professor guarani sintetizou o pensamento de todos:

- Está errado. O que é que os leitores vão pensar de nós? Que somos malvados e aprisionamos pássaros? Nós não fazemos isso.

O grupo analisou o texto, viu que se tratava de uma “tradução”, entendeu que o original está escrito em Língua Geral da Amazônia, cuja base é o tupinambá antigo – língua aparentada ao guarani - mas propôs outra palavra para traduzir essa expressão:

– Por que não colocamos o passarinho numa cestinha?

Aceitamos a proposta. Colocamos o passarinho na cestinha, embora conscientes de que o guarani é outra língua, diferente do nheengatu, e de que os índios proponentes desconhecem a região amazônica, lugar de produção dos versos. Conferimos no Stradelli, um italiano que fez um dicionário Português x Nheengatu, Nheengatu x Português (1929) e ele confirma que “patauá” significa efetivamente “cestinha”. A versão final do livro proposto ao MEC foi, então, modificada, e ficou assim:

“Te mandei um passarinho / dentro de uma cestinha / pintadinho de amarelo e bonito como você.”

O responsável pela coleta, Couto de Magalhães, maravilhado com as histórias “originais e belas” dos índios, fala delas como um “verdadeiro colar de pedras finas, tanto pelo espírito e animação do enredo, como pelo laconismo, sobriedade das cenas e clareza”.  Ele não hesita em situá-las dentro do quadro da literatura universal, dizendo que elas estão no mesmo nível que as fábulas de Esopo, Fedro e La Fontaine.

Os moradores de Soure, no Pará, também ficaram maravilhados. Fomos lá, em 2008, fazer um teste de recepção do livro, a convite da minha amiga, a pajé Zeneida Lima, que organiza a Jornada Cultural da Ilha do Marajó. Apresentei os versos em nheengatu coletados por dois naturalistas alemães Spix e Martius, em março de 1820, no rio Urariuá, afluente do Madeira, que dizem:

“Nitio xá potar cunhang/ Setuma sacai wáa/ Curumú ce mama-mamane/ Baia sacai majaué/ Nitio xá potar cunhang/ Sakiva-açu/ Curumú monto-montoque/ Tiririca-tyva majaué.

Os participantes da Jornada Cultural se divertiram com a tradução ao português:

“Não gosto de mulher / de perna muito fina / Porque pode me enroscar / como cobra viperina. Não gosto de mulher / de cabelo alongado / Porque pode me cortar / como tiririca no roçado.”

Um negão, porém, protestou:

- Desculpa, professor, com todo respeito, mas comigo não tem disso não. Traço mulher de perna fina, de perna grossa, de cabelo alongado e até careca. Esse cara que fez essa poesia devia ser boiola.

É isso aí, leitor. Tentei dar o meu recado aos colombianos. Parece que gostaram de ouvir essas histórias, porque queriam comprar o livro até hoje não editado pelo MEC. De qualquer forma, daqui de um hotel em Bogotá, de onde escrevo esse artigo, te mando também um passarinho, dentro de uma cestinha, esperando que a seleção brasileira, no próximo jogo, consiga enfiar vários gols na cestinha do time adversário.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Foto: Altino Machado

Blogs que citam este Post

domingo, 20 de junho de 2010

Escritores indígenas ensinam no Rio que livro não é caixão para cadáver da letra morta

Altino Machado às 10:36 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Quem eram aqueles trinta e três índios e índias que nessa terça-feira, em plena Copa do Mundo, dia do jogo do Brasil contra a Coréia do Norte, desciam as ladeiras de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, caminhando sobre os paralelepípedos e os trilhos do bonde? Todos vestiam camisa verde-amarela, o que levou os moradores do bairro a acharem, galvãobuenamente, que se tratava de torcida étnica organizada que ia ver a partida no telão da praça. Mas não era.

Embora todos torçam, com maior ou menor paixão, pela seleção brasileira, naquele momento o jogo era outro. Na realidade, aqueles índios e índias, representantes de trinta etnias, saídos de diversos recantos do Brasil, iam para a abertura do 12º Salão do Livro para Crianças e Jovens, que aconteceu no Rio de 15 a 18 de junho. Estavam hospedados em Santa Tereza e a camisa verde-amarela que trajavam era uma espécie de uniforme da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil (FNLIJ).

Eles e elas fazem parte de uma nova tribo que está surgindo no Brasil – a tribo dos escritores indígenas, cuja importância pode ser avaliada com uma simples consulta ao Pequeno Catálogo Literário de Obras de Autores Indígenas publicado pelo NEARIN – Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas. São centenas de livros bem ilustrados, com histórias maravilhosas. Quando entrou em contato com algumas delas, na década de 1920, o escritor Raul Bopp registrou assim seu encantamento:

- Foi uma revelação. Eu não havia lido nada mais delicioso. Era um idioma novo. A linguagem tinha, às vezes, uma grandiosidade bíblica. No seu mundo, as árvores falavam. O sol andava de um lado para outro. Os filhos do trovão levavam, de vez em quando, o verão para o outro lado do rio.

Os ossos do som

Quem quis saborear essas histórias, não viu a Sérvia derrotar a Alemanha, nessa sexta-feira, na Copa do Mundo. Na hora do jogo, os escritores indígenas encontraram com um público seleto de leitores, num auditório do Centro de Ação da Cidadania, na zona portuária do Rio. Era a abertura do 7º Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, organizado dentro do 12º Salão do Livro pelo Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (INBRAPI). O tema era “Palavra da Cidade, Palavra da Floresta – Literatura Indígena em Contexto Urbano”.

Compareceram escritores, poetas, artistas plásticos, músicos, líderes e educadores indígenas que estão se destacando no cenário literário nacional. Estavam lá, entre outros, Manoel Moura, Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Marcos Terena, Cristino Wapichana, Ely Macuxi, Olívio Jekupé, Vilmara Baré, Edson Kayapó, Darlene Taukane, Rosi Whaikon, que animaram rodas de conversa e mesas-redondas em torno das memórias da floresta, da escola indígena, do uso da escrita e da língua portuguesa.

- Primeiro, nós pensamos. Só depois é que falamos ou escrevemos. A palavra, que carrega sabedoria, organiza o pensamento, por isso tem muito poder, muita força. A palavra cura mágoa, tristeza, saudade, raiva e, se duvidar, até dor de cabeça. A palavra do índio, o primeiro narrador desse país, tem que ser ouvida. É palavra boa, que ameniza, que conforta, diferente das palavras sujas – como a de alguns políticos.

Dessa forma, Manoel Fernandes Moura abriu a mesa da tarde – A Escrita e a História. Líder histórico do movimento indígena, o tukano Manoel Moura está cada dia mais sábio, com o verbo sempre em brasa. Grande narrador, sua fala deixa claro que o livro não é um caixão que guarda o cadáver da letra morta, como se a letra fosse o osso do som. Ele defende não uma “escrita funerária”, mas uma escrita viva, livre como um pássaro voando, que devolve a palavra ao universo da oralidade.

Durante o almoço, numa mesa com Marcos Terena, Ely Macuxi e Daniel Munduruku, lembrei da importância para a literatura indígena dos tupinólogos do século XIX, que recolheram narrativas em língua Nheengatu. Trocamos figurinhas. Foi, então que Moura nos contou algumas histórias do jabuti, atualizando as versões de Couto de Magalhães. A voz modulada era interrompida por risinhos sacanas do narrador. Vamos lá.

Maquiavel de casco

O Jabuti foi beber água no rio e encontrou o Jacaré de boca aberta que lhe disse:

- Eu vou te comer.

- Por que tanta maldade, seu Jacaré?

- Por que estou com fome e sou mais forte.

- Sua fome, eu respeito. Mas duvido que seja mais forte – desafiou o Jabuti, propondo um ‘cabo-de-guerra’ para decidir seu destino. Ele, Jabuti, puxaria a ponta de um cipó da terra firme, enquanto o Jacaré puxaria de dentro d’água a outra ponta. Quem conseguisse arrastar o outro ganhava. Assim, ou ficava livre ou seria comido.

O Jacaré riu da pretensão e topou. “O otário se ferrou” – pensou, saboreando antecipadamente o sarapatel que iria comer. O Jabuti foi buscar o cipó no meio do mato, onde encontrou a Onça que veio com o mesmo papo: eu vou te comer, estou com fome, sou mais forte, tenho o Gilmar Mendes que é meu e o boi não lambe. E o Jabuti: não é assim não dona Onça, tem que provar, o Ayres Brito está vivo. Aí, propôs um ‘cabo-de-guerra’. A Onça aceitou. Ele, Jabuti, puxava o cipó do rio. A Onça, da terra.

O Jabuti deixou, então, uma ponta do cipó com a Onça, em terra firme. Levou a outra para o Jacaré na água e escafedeu-se, saindo de fininho, deixando os dois brigando. Moral da história: quando teus inimigos são mais fortes do que tu, joga um contra o outro, em vez de bater de frente contra eles.

Se ouvisse a versão do Manoel Moura, Maquiavel se deliciaria. Couto de Magalhães concluiu que através dessas narrativas os índios da Amazônia ensinam profundas lições de vida. Para ele, a literatura indígena reflete alto grau de civilização, porque só um povo altamente civilizado mostra que a inteligência vence a força: um animal feio, fraco, lento, como o jabuti, ganha do jacaré, da onça, da anta, do veado.

Moura contou ainda a história do jabuti com a anta, mas não tenho mais espaço para reproduzi-la aqui. Essa história mostra que o caminho para se conseguir justiça é ter paciência, saber esperar; a inteligência vence a truculência; a força do direito vale mais do que o direito da força.

Rapaz, esse Moura é mesmo danado! Pois não é que ele curou minha dor de cabeça! Deixo aqui para ele e para todos os escritores indígenas – os jabutis da literatura brasileira – os votos de sucesso nessa cruzada civilizatória.

P.S.: Nesse domingo, na hora do jogo do Brasil, estarei dentro de um avião, levando as histórias indígenas para um congresso em Bogotá, convidado pela Biblioteca Nacional da Colômbia.

P.S.: José Saramago, que nos deixou, foi também, ao seu modo, um jabuti da língua portuguesa, porque sua escrita está emprenhada de sabedoria oral.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Foto: Divulgação

Blogs que citam este Post

domingo, 13 de junho de 2010

Aldo Rabelo é o carrasco da floresta, diz Curupira

Altino Machado às 7:18 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

- O deputado Aldo Rebelo me agrediu, bateu no meu corpo com um porrete, rasgou minha camisa, tentou me eliminar a mando da senadora Kátia Abreu! Há testemunhas. Estou registrando a queixa. Ele vai pagar caro por essa agressão, vai perder a eleição.

Quem fez essa denúncia grave, em entrevista exclusiva à coluna Taquiprati do Diário do Amazonas, foi o jurista Curupira Ramos, sentado sobre um jabuti que lhe servia de banco, em sua casa no meio do mato, com as pernas cruzadas, os pés virados para trás, o cabelo vermelho, os dentes verdes, as orelhas enormes e o corpo tão peludo quanto o do seu sobrinho Tony Ramos (a genética é impressionante, não falha nunca!).

Taquiprati (TQPT) - Doutor Curupira, o senhor existe de verdade?

Curupira (C) - Lógico! Se eu não existisse, não poderia ser agredido. Essa pergunta é impertinente, você deve fazê-la ao Aldo Rebelo. Aliás, minha existência é reconhecida pelo projeto de lei federal nº 2.762 que cria o Dia do Saci - o único que Aldo apresentou em 2003, como líder do governo. Ora, se até o meu primo, que tem uma perna só…

TQPT - Desculpe, Excelência, é que dizem que vós sois uma invenção do homem.

C - (arregalando os olhos negros) E daí? O Código Penal também é uma invenção do homem para organizar a sociedade! Só porque foi inventado não têm vida? Claro que tem! Aliás, existe justamente porque foi criado. As pessoas acreditam no Código Penal e pautam seu comportamento em função dele. Tudo aquilo que o ser humano cria, passa a existir. A alegria e a tristeza também não têm forma física, mas existem porque a gente pensa nelas. Os homens pensam em mim. Sou pensado, logo existo.

TQPT - O que é que Vossa Excelência faz, afinal, na vida?

C - Sou legislador e, ao mesmo tempo, guardião da mata. Crio leis de proteção ao meio ambiente. Defendo a vida e a floresta. Protejo as árvores, os animais, os rios da ação predatória e burra. O fundamento filosófico de nossa legislação é que a natureza existe para todos nós, devemos retirar dela exclusivamente aquilo que é necessário para nossa sobrevivência. Devemos repor o que tiramos. Se não for assim, a espécie humana desaparece. Por isso, criei um código que, como a Constituição dos EUA, não é escrito, são leis que fazem parte do direito consuetudinário. Castigo e puno os predadores que cometem crime ambiental.

TQPT - Punir como? O Meritíssimo tem poder de polícia? Pode exemplificar?

C - Perfeitamente! Minhas leis são codificadas em narrativas. O código escrito tem artigos e parágrafos. O código oral tem histórias e exemplos. Quem entendeu isso muito bem foi Couto de Magalhães, um advogado mineiro. Quando ele assumiu a presidência do Pará, em 1865, compilou a legislação oral, recolhendo centenas de histórias na língua nheengatu, contadas por índios e cabocos. Numa delas, um caçador índio mata uma veada recém-parida. Quando chega perto do corpo inerte, descobre que é o cadáver de sua própria mãe. Esse encantamento foi obra de Anhanga. Essa é a pena para quem não respeita o período de procriação e amamentação dos animais: mata a própria mãe. Os povos da floresta acreditam nisso como os povos urbanos crêem no Código Penal. E é porque acreditam que preservaram a diversidade da vida.

TQPT - Mas o deputado Aldo Rebelo não sabia disso tudo, quando nessa quarta-feira, 9 de junho, na Comissão Especial da Câmara, terminou a leitura do seu parecer para mudar o Código florestal brasileiro?

C - Não quero ofender, mas aqui pra nós, muito em off, o Aldo é meio obtuso, bronco, parece que comeu coquinho de tucumã. Seu parecer de 270 páginas demonstra profunda ignorância sobre a história e a as culturas amazônicas. Afirma que “índios e caboclos, depois de lutar contra o meio inóspito, ainda vivem como viviam seus antepassados há centenas ou milhares de anos, dominados pelas forças da natureza, perambulando nus ou seminus, abrigados em choças insalubres”… (pg.21) Quá-qua-ra-qua-quá! Nenhum pesquisador no mundo assina embaixo de tal bobagem.

TQPT - Doutor Curupira, o meritíssimo já encontrou com o Aldo lá na floresta? Porque se ele fala tanto, é porque deve ter andado por lá.

C - O Aldo é um urbanóide, nunca colocou o pé na floresta. Por isso, acha que a mata é hostil. É hostil lá pra ele e pras negas dele, não para os povos que fizeram da floresta sua morada. Aldo fala em ‘choças insalubres’, mas o arquiteto Severiano Porto elogia a construção de malocas, confessa que aprendeu arquitetura com os índios. Aldo desconsidera mudanças e revoluções ocorridas nas sociedades amazônicas, registradas pelos arqueólogos. Ignora a arte, a música, a literatura, os conhecimentos na área de botânica, zoologia, astronomia, medicina, produzidos pelos índios. Nem suspeita que os índios criaram um código florestal oral. Ele afirma que “a conquista da Amazônia se deu com a expedição de Pedro Teixeira (1637-1639)”, como se a história começasse com os portugueses. Ignora que a Amazônia foi ‘conquistada’ pelos índios, que 5.000 a.C já desenvolviam agricultura sofisticada, com a domesticação da mandioca e de outras plantas.

TQPT - Embora desconheça a floresta, Aldo diz que leu dezenas de livros sobre o tema…

C - Conversa fiada! Não leu, meu filho! O Aldo não lê nem o programa do PCdoB! Certifique-se você mesmo lendo o relatório que ele aprontou. Aprontou mesmo. A proposta do Aldo ignora os estudos feitos pelas universidades e centros de pesquisa. E ainda por cima se assessora mal. Em vez de chamar quem manja do assunto, foi procurar uma advogada, a Samanta Piñeda, que é consultora jurídica da bancada ruralista. Pagou R$ 10 mil com dinheiro nosso pra ela escrever aquela lengalenga enfadonha.

TQPT - Não entendo. O que é que o deputado ganha com isso?

C - Ganha a simpatia e o apoio dos ruralistas, do agronegócio. De acordo com a página na internet da ONG Transparência, a campanha de Aldo para as eleições de 2006 recebeu R$ 300 mil da Caemi-Mineração e Metalúrgica, R$ 50 mil da Bolsa de Mercadorias e Futuros, R$ 50 mil da Votorantim Celulose e Papel e por ai vai.

TQPT - Em que consiste, afinal, o projeto do deputado?

C - O projetodesmonta toda a legislação que protege a floresta: suspende multas de crimes ambientais, anistia desmatadores, reduz as áreas de preservação permanente (APPs) permitindo a realização de atividades econômicas dentro delas, dispensa a reserva legal em propriedades menores, incentiva a exploração de várzeas e topos de morro, dá autonomia para cada Estado legislar sobre meio ambiente, permite que os municípios passem a autorizar o desmatamento. É claramente um pedido de penico aos ruralistas, não está preocupado com os interesses nacionais, mas com interesses particulares de quem quer o lucro imediato.

TQPT - Se for aprovado, o projeto do Aldo prejudica todo mundo, até mesmo os descendentes dos ruralistas.

C - É o que estou dizendo há alguns milênios. Lembra o que aconteceu em Santa Catarina? Lá, o Governo reduziu as margens de mata ciliar ao longo dos rios e todo mundo viu a tragédia ocasionada pelas últimas chuvas. Se o projeto for aprovado, vai provocar impactos ambientais irreversíveis e a emissão de 25 bilhões a 31 bilhões de toneladas de gás carbônico só na Amazônia, segundo os especialistas. É preciso protestar. No Rio de Janeiro, nessa semana, já houve uma primeira manifestação de rua, com a participação de duzentos ativistas e lideranças de organizações ambientalistas. Nos outros países existem também curupiras. Eles vão boicotar o produto brasileiro em decorrência do desmatamento que o Código vai permitir.

TQPT - Excelência, me diga, o Aldo não é deputado do PCdoB, um partido que sempre defendeu, em tese, os fracos, a floresta…

C - (dando um assovio agudo e assustador) - Meu filho, o relatório do Aldo é uma afronta à sociedade e ao patrimônio ambiental do Brasil. Com isso, Aldo fere a respeitabilidade da bancada de um partido histórico nas lutas populares. Vai tirar votos de mulheres maravilhosas do PCdoB: Vanessa Graziottin (AM), Perpétua (AC), Jandira Feghalli (RJ), Alice Portugal (BA), Jô Moraes (MG), Manuela (RS). Aldo está se comportando como um agente infiltrado da bancada ruralista no PCdoB. Ele já passou para o outro lado, falta apenas formalizar sua filiação ao DEM (vixe, vixe!), onde é o lugar das idéias interesseiras que ele defende. Aldo Rebelo é o anti-curupira, o carrasco da floresta.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Foto: Curupira representado pelo ator Erick Krominski em ensaio fotográfico do Estúdio Wayne

Blogs que citam este Post

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Obra nenhuma da engenharia humana pode ser construída no Encontro das Águas

Altino Machado às 11:31 am

POR THIAGO DE MELLO

Quem chega a Manaus vai logo querendo saber onde é que ele fica. Quer ver logo o lugar já célebre, onde as águas barrentas do So-Li-Mões e as retintas do Ne-gro se encontram, se abraçam, gostam demais de ficar ali unidas, de margem a margem, não sabem viver sem a outra. Mas nada de muita intimidade. Não se misturam. O sábio Jari Botelho, querido meu de infância, dizia que os dois são é pávulos já demais. Assim explicava o fenômeno mágico da mão da Natureza.

Quando veio me ver aqui na floresta, que é dele também, o querido Gabriel Garcia Marquez, escritor colombiano, prêmio Nobel de Literatura, com o seu “Cem Anos de Solidão”, pediu para parar o barco quando passamos pelo Encontro das Águas. Enquanto sua mulher, a linda Mercedes, tirava fotos, ele fascinado só fazia dizer:

-Es um asombro!

O poeta peruano Arturo Corcuera, hijo de la selva, quando veio para o evento “A Poesia de Se Encontra na floresta”, em Manaus, maravilhado com o que via, fez um comentário que não esqueço:

-El nuestro Solimoens quiere entrar, tu rio Negro no le permite, él lo acarícia y sigue solo, transformado em el Amazonas.

Ernesto Cardenal, autor do genial “Cântico Cósmico”, que já três vezes veio passar temporada em Barreirinha (AM), sempre ia para a proa do barco quando nos aproximávamos da boca do Solimões. E me chamava:

–Vamos al encuentro del Encuentro!

E o seu deslumbramento está gravado em comovidos versos do seu poema Manaus Ressuscitada.

Dona Clotilde Pinheiro, diretora do Grupo Escolar José Paranaguá, onde fiz feliz o meu curso primário, escreveu uma quadra, que não é lá essas maravilhas, mas que recordo contente toda vez que contemplo demorado a beleza deste milagre da Natureza:

“Um lindo encanto  te espera
lá no encontro das águas:
só divisá-lo já faz
esquecer todas as mágoas.”

Já o poeta cearense Quintino Cunha, quando cruzou os olhos com as duas águas pávulas, estava enamorado de Maria, para quem foi logo escrevendo o poema que celebrizou o Encontro:

“Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este
É o Rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê  bem como este contra aquele investe.
Como as saudades com as recordações.
Se estes dois rios fossemos, Maria,
Todas as vezes que os encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti de nós que nos amamos!!…”

Pois não é que tem muito amazonense e até brasileiros lá das bandas do Sul, que pouco estão ligando para a beleza do fabuloso Encontro?  É gente do governo acelerado, da indústria que refresca, da empreita audaciosa. Até das estranjas.

Estão querendo fazer (e vão acabar fazendo, se um valor mais alto não se levantar, bradando contra a ganância dos impiedosos) um porto portentoso,  de tecnologia de índole humilhadora, bem no lugar onde reina, encantado,  o famoso fenômeno que nem dona Ciência explica de uma vez por todas.

Os profissionais do desenvolvimento desumano sustentam, até rindo, que o Encontro das Águas fica lá bem longe. Do outro lado do rio, o turbilhão dos navios não lhe vai fazer dano algum. Que tudo está sendo muito bem calculado, com a perícia enganosa dos poderosos .

Os que só sonham com riqueza, dizem que paisagem não dá lucro, alma do capitalismo. Que turista tem muito mais coisa bonita para ver na floresta. Dinheiro vai correr solto, mais caudaloso do que a maravilha das águas Haja caixas numeradas e bem remuneradas.

Mas, devagar com o andor, perdão, com o guindaste, porque pode emperrar. Também tem muita gente boa, em tanto canto do mundo onde a notícia da agressão começou a chegar,  que não está gostando nada desse porto, ali naquele pedaço tão lindo chamado das Lages.

Gente fina, de alta cultura, achando que não é próprio da decência e fere a inteligância esse tombamento feito pela direção estadual do órgão criado para proteger o patrimônio nacional, que se restringiu ao espaço fluvial da dança dos dois rios.

Ai, os tempos mudam, as alturas dos homens também. Vivos estivessem Rodrigo Melo Franco de Andrade, Lucio Costa, Manuel Bandeira, Joaquim Cardozo, fundadores do IPHAN, sabedorias e dignidades profundas como as águas do Negro, tombariam contentes  todo o entorno do Encontro, de margem a margem, barrancos adentro.

Obra nenhuma da engenharia humana ali pode ser construída, que magoe a alma daquela criação feliz da Natureza amazônica.

Empresário filho ingrato da floresta, diz rindo que paisagem tem já  demais, está mas é sobrando. Os donos do projeto alardeiam que a Vale pode tudo, para a Vale tudo vale. Trata-se da  gigantesca Vale do Rio Doce, que deixou de ser nacional.

Pois a história da esperança humana ensina que o povo pode e vale mais. Que sagrado deve ser o amor à Natureza. Grandes são os poderes da aurora, cuja luz  adverte que é por essa e por outras que a Terra está se vingando das ruindades que andam fazendo com ela.

Eu, que não tenho lá essas grandes luzes, só advirto que todo cuidado é pouco, não convém ofender muito as águas. Com a vida delas não se brinca, não. Com fogo até que se pode brincar, porque se apaga. Mas com água não se brinca, não, porque ela alaga e, de repente, afoga.

Thiago de Mello é poeta amazonense

Foto: Altino Machado/Terra Magazine

Blogs que citam este Post

terça-feira, 8 de junho de 2010

MPF denuncia pecuarista por corrupção ativa no AC

Altino Machado às 12:46 pm

O pecuarista Tárcio Juliano de Souza foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) do Acre por ter oferecido propina no valor de R$ 15 mil a um fiscal do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Segundo o MPF, o dinheiro seria para evitar novos autos de infração que seriam lavrados contra o pecuarista, que já havia sido multado pelo mesmo fiscal em mais de R$ 190 mil.

Após a oferta da propina, o fiscal multou novamente o pecuarista em mais de R$ 2 milhões. O fiscal chegou a ser denunciado pelo pecuarista por corrupção passiva.

As multas aplicadas ao pecuarista decorrem da destruição de mata virgem e floresta nativa, entre queimadas e corte raso, que atingiram área equivalente a mais de 1,7 mil campos de futebol.

Souza admitiu o crime por ter ofertado a propina, mas não conseguiu comprovar que o fiscal havia aceitado o dinheiro.

De acordo com o MPF, ficou comprovado que o cheque jamais chegou a ser descontado na rede bancária.

A atitude do pecuarista rendeu a ele a denúncia pelo crime de denunciação caluniosa.

Blogs que citam este Post

AC: pai é condenado por morte de filha de 2 anos

Altino Machado às 7:35 am
choro no julgamento

David Coutinho: mais um jovem no presidio

O dependente químico David de Araújo Coutinho, de 21 anos, foi condenado pelo Tribunal do Júri da Comarca de Rio Branco (AC) a 27 anos de prisão por ter causado com mordidas e espancamento a morte da própria filha, Nathálly Vitória, de dois anos, em março do ano passado.

Morador da periferia, antes do crime David Coutinho havia havia consumido pasta de cocaína com a mãe dele, Criselda Rodrigues de Araújo, 47, e com a mulher, Terezinha da Silva Souza, 26.

Irritado com o choro da criança, mantida sob seus cuidados, a agressividade do pai causou hemorragia intra-craniana, que concorreu para o falecimento da filha. Ela ainda resistiu durante três dias na Unidade de Terapia Intensiva do Pronto Socorro de Rio Branco.

O réu, que compareceu ao julgamento de bermuda, foi acusado pelo Ministério Público de homicídio qualificado, por motivo fútil, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. A defesa alegou que o acusado agiu sob  efeito de entorpecentes, tese que foi desconsiderada pelos jurados.

David Coutinho chorou compulsivamente ao ouvir a sentença proferida pelo juiz Gustavo Sirena e foi reconduzido ao presídio. A defesa anunciou que vai recorrer da sentença.

A mãe da criança é acusada no processo de ter facilitado a morte da filha, pois deixava a filha na companhia do pai, mesmo sabendo das agressões dele contra a vítima. O julgamento da mãe deve ocorrer no próximo mês.

“Nós prendemos mesmo”

O Acre é o estado com a maior taxa de encarceramento no país (496 presos para cada 100 mil habitantes), seguido de Rondônia (465) e Mato Grosso do Sul (459), de acordo com estudo estatístico divulgado em fevereiro pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O estudo indica ainda que a população carcerária do Acre é de 3.426, sendo 33% de presos provisórios.

A maioria dos presos do Acre é formada por jovens que se envolveram em crimes decorrentes do consumo ou tráfico de cocaína, um problema social que permanece sendo ignorado pelas autoridades de Estado que faz fronteira com o Peru e a Bolívia.

A população carcerária da capital é de 2.794 detentos, segundo a Vara de Execuções Penais de Rio Branco.

- O Acre tem quase 90% de elucidação de homicídios. Nenhum estado brasileiro tem uma marca como essa. Basta ver que o Acre é o número um em população carcerária. Nenhum crime fica impune. Nós prendemos mesmo - declarou o governador Binho Marques (PT) no dia do julgamento de David Coutinho.

Atualização às 14h05: De acordo com a Assessoria de Comunicação do Tribunal de Justiça do Acre, ao contrário do que havia sido informado, a vítima tinha dois meses e vinte e cinco dias e não dois anos de idade.

Blogs que citam este Post

domingo, 6 de junho de 2010

Governo do Acre nega defensor público para Hildebrando Pascoal

Altino Machado às 10:20 pm

Preocupado em evitar impactos negativos em ano eleitoral, o governador do Acre, Binho Marques (PT), orientou a Defensoria Pública do Estado (DPE) a desautorizar o defensor público Valdir Perazzo de atuar nos processos que envolvem o ex-deputado federal e coronel da Polícia Militar, Hildebrando Pascoal, que liderava o “esquadrão da morte” e ficou conhecido nacionalmente como “homem da motosserra”.

Condenado pela Justiça Federal e Justiça do Acre em oito processos, Pascoal cumpre penas que chegam a 106 anos de prisão. Perazzo argumentava na Justiça que o ex-deputado já cumpriu 11 anos de prisão e faz jus à progressão do regime prisional fechado a ele imposto. Porém,  o Defensor Público Geral do Estado, Dión Nóbrega Leal, anunciou que os defensores públicos estão desautorizados a atuar a favor de quem não preenche critérios legais estabelecidos pelo órgão.

A ação do governo reforça de modo enviesado a tese levantada pelo próprio Hildebrando Pascoal de que é um preso político no Acre. O ex-deputado está preso desde 1999 sob a acusação de participar de vários crimes. Em segundo grau, aguarda o julgamento de dois recursos. Em um deles, pede a redução da pena aplicada no julgamento do “caso Baiano”, fixada em 18 anos de prisão.

Leia mais:

Lei permite uso de verba pública para defesa de gestores acusados de corrupção

Hildebrando se considera preso político

Existem, ainda, dois processos aguardando julgamento: o do seqüestro e cárcere privado de Clesrisnar Alves, que se encontra em fase de instrução na Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Rio Branco, e o que envolve o assassinato de José Hugo, ocorrido no Piauí, que deverá ser objeto de análise durante o mutirão carcerário a ser realizado naquele Estado.

O anúncio da decisão da DPE ocorreu um dia após a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça não conhecer o pedido de habeas corpus protocolado pelo defensor público em favor de Hildebrando Pascoal.

Dos seis processos que tramitam na Vara de Execuções Penais de Rio Branco contra Hildebrando Pascoal, somente um deles se refere à execução provisória de pena. De acordo com Perazzo, o ex-deputado encontra-se com a saúde debilitada, existem dúvidas sobre possíveis benefícios que porventura devam ser concedidos e os delitos a ele atribuídos foram cometidos antes da vigência da Lei 11.464/2007, que dispõe sobre os crimes hediondos.

Perazzo sustentava no habeas corpus que a pena máxima no Brasil é de 30 anos, e, via de consequência, se cumpridos 11 anos de prisão, o direito de progressão de regime fechado para o semiaberto está caracterizado.

- O limite de 30 anos é o parâmetro a ser perseguido para concessão de benefícios - assinala Perazzo.

O defensor público requereu, em caráter liminar, que fosse determinada a unificação das penas, com base no art. 75, § 1.°, do Código Penal, para verificação da existência dos requisitos para a progressão da pena.

- Ele tem direito à progressão do regime prisional para o semi-aberto, pois já cumpriu mais da metade do necessário - acrescentou.

Mas os desembargadores evitaram o mérito e não conheceram do habeas corpus porque entenderam que a questão deve ser debatida na Vara das Execuções Penais. A Procuradoria Geral de Justiça entendeu de forma semelhante, que o assunto deva ser analisado naquela instância.

No Acre, em tese, o cidadão deve ter renda familiar de até quatro salários mínimos para que possa receber o atendimento gratuito de defensores públicos.

Casos irregulares

Defensor público Valdir Perazzo

Porém, a questão é polêmica e não envolve apenas Hildebrando Pascoal, que recebe como ex-coronel R$ 4 mil para o pagamento de pensões alimentícias. No último julgamento, por causa do “crime da motosserra”, Pascoal foi defendido por advogado indicado pela OAB-Acre, cujos honorários serão cobrados do Estado.

O governo do Acre e sua DPE mencionaram apenas o caso envolvendo Hildebrando Pascoal, mas existe a situação da defensora pública Maria Auxiliadora Queiroga de Almeida. Ela foi condenada a três anos e seis meses de prisão em regime semi-aberto, em decisão unânime dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Acre.

Maria Queiroga foi denunciada pelo Ministério Público do Acre pela prática de crime contra a administração (corrupção passiva) por receber vantagem indevida para defender um cidadão em um processo judicial, apesar de haver sido designada pelo Estado para tal finalidade. Ela recebe R$ 16 mil, mas tem contado com defensor público nos processos que responde na Justiça.

No ano passado, o defensor público Gerson Boaventura de Souza foi designado pela DPE e conseguiu a absolvição do dentista e tenente da Polícia Militar Pedro Pascoal, irmão de Hildebrando, que era réu no processo do “crime da motosserra”. O tenente possui caminhonete de luxo e vários imóveis, entre os quais, fazenda, casa e prédio de quatro andares numa das avenidas mais movimentadas e valorizadas de Rio Branco.

Outro caso famoso envolve o poeta e professor Antonio Manoel Camelo Rodrigues, fundador e ex-dirigente do PT no Acre, que apelou da condenação de 34 anos por estupro, exploração sexual e pedofilia. Dion Nóbrega Leal, que foi nomeado recentemente para chefiar a DPE, atuava neste ano na defesa de  Antonio Manoel.

O governo do Acre conseguiu aprovar no ano passado uma lei que disponibiliza procuradores do Estado para a defesa de gestores e ex-gestores públicos que sejam acusados em ações penais, civis e de improbidade administrativa. A lei possibilita a contratação de escritórios particulares de advocacia, engenharia, peritos, entre outros, tudo às custas dos cofres públicos.

Ampla defesa

No âmbito da DPE a situação tem causado mal-estar. O Blog da Amazônia teve acesso a uma mensagem enviada por Valdir Perazzo para o e-mail dos demais defensores públicos, para esclarecer o que ele denomina “caso Hildebrando Pascoal”.

Perazzo adicionou cópias de documentos para provar que a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça oficiou a DPE para que fosse nomeado defensor público. No verso da intimação, o ex-deputado escreveu de próprio punho, declaração de que queria ser defendido por Perazzo. Consultado pela direção se aceitava patrocinar a defesa, aceitou, e fez-se a portaria nº 454/2010.

Em outra portaria (360/2010), foram nomeados para defender Maria Queiroga os defensores públicos Dion Nóbrega Leal e Rogério Carvalho Pacheco. Para isso, Queiroga alegou doença e que sua condição econômica não permite pagar as custas processuais e honorários advocatícios, necessitando da assistência judiciária gratuita.

- Dra. Queiroga, como sabido de todos, no seu nível, recebe subsídios brutos de R$ 16.000,00 (dezesseis) mil reais. Hildebrando recebe como ex-coronel, R$ 4.000,00 (quatro) mil reais. Alguma censura a fazer aos colegas? Nenhuma! Merecem, da minha parte, apenas elogios. O direito a ampla defesa é uma garantia constitucional. O Crime é diferente do Cível - escreveu Perazzo aos colegas.

Procurado pela reportagem, Dion Nóbrega Leal disse que já abriu procedimento para identificar na DPE os casos de pessoas que recebem indevidamente assistência judiciária gratuita.

Blogs que citam este Post

José Melo, o Dadá da Jaca da política amazonense

Altino Machado às 10:38 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

No bairro de Aparecida, em Manaus, o apelido é uma instituição. Lá, ninguém tem nome. Só apelido, que é sempre cortante como um bisturi. Perguntem quem é dona Darcicleide, mãe do Thomáz Augusto, ninguém sabe; mas dona Dadá, a mãe do Fon-Fon, todo mundo conhece. Conhecia. Ela morava na Rua Coronel Salgado, na beira de uma enorme cratera, chamada de “Covão”, depois aterrada e, hoje, ocupada, às terças-feiras, pela feirinha livre. Sua casa ficava nos fundos do terreno baldio que, no mês de setembro, abrigava o Bingo da Quermesse da Paróquia.

No final dos anos 50, quando os padres redentoristas construíram a igreja, a casa foi demolida. Mas antes disso, durante anos, dona Dadá, que era viúva, manteve no quintal um pequeno pomar doméstico, com várias árvores frutíferas, entre as quais se destacava uma jaqueira, enorme e troncuda, que dava umas senhoras jacas, respeitáveis, de até dez quilos, com bagos carnosos, doces, de cheiro forte e inebriante. Era a famosa jaca-mole-manteiga, anunciada no pregão do seu Messias pelas ruas da cidade.

Quando chegava o fim do ano, a jaqueira ficava coalhada com dezenas de jacas. Dona Dadá aproveitava tudo. Cortava a fruta - e aí a gente sentia o perfume em todos os becos do bairro. Selecionava os bagos, retirando aquela camada grudenta. Com a polpa, preparava um doce tão delicioso, mas tão delicioso que nem militante do PSOL botaria defeito. Do caroço assado, fazia castanha saborosa. Das folhas, remédio caseiro: um xarope expectorante bastante eficaz. Tosse, pelo menos, o Fon-Fon nunca teve.

Por essa razão, dona Dadá ganhou um - digamos assim - sobrenome: Dadá da Jaca. Na Aparecida, apelido é tão importante que tem até sobrenome. Em conseqüência, Fon-Fon herdou o da mãe e ficou conhecido, para sempre, como Fon-Fon da Jaca.

Fon-Fon da Jaca

Dadá? Tudo bem! Fon-Fon? Vá lá que seja! Afinal, ele tinha o lábio ligeiramente leporino. Mas “da Jaca”? Sabe-se lá por qual razão a família implicou com esse “sobrenome”. A jaqueira dava sombra, dava fruto, dava alimento, dava compota, dava remédio, mas dona Dadá também dava - comentavam as más línguas, infernizando a vida do Fon-Fon. A maledicência não tinha limites. Diziam que Fon-Fon era assim, amarelão empombado, porque seu Osvaldo - o Merisvaldo, caseiro dos padres - comeu muito a jaca da senhora sua mãe e costumava consolar a viúva nas noites chuvosas de Manaus.

Foi justamente num daqueles temporais amazônicos que uma jaca pesadona despencou, na madrugada, fazendo um rombo no telhado de zinco, caindo em cima da cama da Dona Dadá onde - dizem, dizem, eu não sei - Merisvaldo sonhava que comia compota de jaca. Esse foi o pretexto de dona Dadá pra se livrar do apelido que tanto desgosto lhe causava. Mandou o Merisvaldo derrubar a jaqueira, achando que assim resolveria três problemas: o do telhado, o do apelido e o de sua reputação. Com a jaqueira cortada, acreditava que o “da Jaca” seria extirpado de sua identidade e voltaria a ser simplesmente Dadá.

Mas o homem põe e Deus diz: “põe”. Merisvaldo botou. Botou no toco. Levou vários dias para derrubar a jaqueira, que tinha mais de vinte metros. Cortou na base, deixando apenas a parte inferior do tronco, de um metro mais ou menos. Dona Dadá se arrependeu, porque com aquele toco assim exposto, os seus vizinhos passaram a identificá-la como Dadá do Toco do Merisvaldo. A emenda foi pior do que o soneto.

Antes que o apelido se consolidasse e seu filho fosse chamado de Fon-Fon do Toco do Merisvaldo, dona Dadá pediu, por amor de Deus, que arrancassem aquele mondrongo. As raízes estavam tão profundamente enterradas, que o caseiro pediu ajuda do Rodolfinho, o sacristão. Depois de quinze dias, o toco foi extraído, deixando um enorme buraco. A canalha do bairro não duvidou em mudar o codinome pra Dadá do Buraco.

- Tapa o buraco - implorou ela ao Merisvaldo.

Com seus dentes de jacaré expostos, ele trouxe carradas de entulho de umas reformas lá na Fábrica de Cerveja XPTO e fechou tudo direitinho. Os vizinhos, então, que nunca aceitaram a derrubada da jaqueira, passaram a chamá-la de Dadá do Buraco Tapado. Ela não podia nem freqüentar a banca de tacacá da dona Alvina, que gritavam seu apelido, deixando saudades dos tempos em que era apenas Dadá da Jaca.

Carequinha querido

Por que me lembrei disso? A memória é caprichosa, tem lá suas armadilhas, permitindo associações inimagináveis. Nesse feriado, quando vi a procissão na TV, a imagem da dona Dadá ficou bubuiando em minha cabeça. Juro que cheguei até sentir o cheiro da jaca. E isso porque na festa de Corpus Christi, durante muitos anos, era ela que colocava velas e flores no altar da igreja de Aparecida, enfeitava o tabernáculo e puxava o hino com sua voz gasguita: “Criaturas todas, a Jesus saudemos / Deus sacramentado / vinde e adoremos”.

Dai recordei poema de Bertold Brecht. Um prisioneiro socialista com uma faca riscou letras enormes na parede da cela: VIVA LENIN! Guardas viram e mandaram um pintor apagar aquilo. Com um pincel o cara cobriu letra por letra com cal, o que destacou ainda mais as palavras. Aí mandaram um segundo pintor, que cobriu tudo com tinta escura, mas horas depois, quando secou, as letras teimosas apareceram em relevo. Chamaram então um pedreiro que, com uma talhadeira, cavou letra por letra, deixando gravada a inscrição invencível. “Agora, derrubem a parede” - disse o preso socialista.

O poema, hoje, ficaria ainda melhor se Brecht tivesse usado a palavra “Liberdade” no lugar de “Lenin”. Mas olha só como a memória faz suas piruetas, permitindo que José Melo entre nessa história como Pilatos no Credo.

É que me enviaram pela internet o recorte de um jornal de Humaitá (AM) dizendo que José Melo, ex-secretario do Eduardo Braga (PMDB - vixe, vixe!) estava sendo disputado para ser candidato a vice-governador na chapa de todos os prováveis candidatos. “Ele é o carequinha mais querido do Amazonas”, bajulava o jornal.

Ora, uma consulta ao Diário Oficial da União (p.124, 11/04/2002) mostra que houve desvio dos recursos da merenda escolar e que os recibos apresentados pelo Carequinha, referente à entrega de ovos para as escolas, em 1995, quando ele era secretário de educação, “apresentam fortes indícios de falsificação”. Por isso, José Melo ficou conhecido em todo o Amazonas como José Melo Merenda.

Ele, que na época da ditadura, trabalhou para a AESI e o SNI, agora está querendo derrubar a jaqueira, arrancar o toco, tapar o buraco e, se preciso, derrubar a parede para que esqueçam que ele é o José Melo Merenda. Inutilmente. A gente carrega a memória e a história da gente no próprio corpo, na nossa identidade. Cada tentativa de esconder, revela ainda mais. Eis o que eu queria dizer: José Melo Merenda é, sem dúvida alguma, a Dadá da Jaca da política amazonense.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol