Terra Magazine

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Acre concilia conflito entre desenvolvimento econômico e conservação da floresta amazônica

Altino Machado às 10:02 am

POR HILDEGARD WILLER

Três horas dura o vôo de Brasília a Rio Branco no extremo noroeste brasileiro, no meio da selva amazônica. A cidade de Rio Branco tem cerca de 350 mil habitantes e é a capital do Estado do Acre, que apenas chega à população de 680 mil. Pouca gente dos centros urbanos de São Paulo ou Rio de Janeiro chega até aqui. Entretanto, o Acre tem um lugar garantido na recente história brasileira. Aqui, na fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia, se originou o movimento ambiental brasileiro.

Fui no início dos anos 80 do século passado. O seringueiro Chico Mendes não se cansou de protestar contra a colonização irregular e a depredação da selva amazônica por parte de pecuaristas e madeireiros, que acabaria também com as seringueiras. Chico Mendes pagou por seu compromisso com a selva amazônica com sua vida. Em 22 de dezembro de 1988 Chico Mendes foi assassinado por um criador de gado. Sua morte destapou inicialmente uma preocupação internacional pela selva amazônica.

Chico Mendes segue onipresente no Acre, 22 anos mais tarde. Uma reserva de seringueiras leva seu nome e sua estátua adorna a Praça dos Povos da Floresta. O seringueiro ascendeu ao posto de herói popular em uma Rio Branco onde o boom econômico se percebe por todos os lados. Carros novos enchem as ruas recém-asfaltadas; dois novos parques ecológicos embelezam a imagem da cidade; novas bibliotecas e praças públicas que estão conectadas via rede sem fio gratuita para todos os cidadãos. Crianças e jovens passeiam com seus uniformes escolares depois da aula, quase não se vêem mendigos. Só poucos acreanos vivem hoje em dia do látex. A tradição antiga de tirar o látex foi transportada ao museu da cidade, onde jovens guias mostram a turistas como se produzia, então, a borracha, a bola de látex.

O boom econômico tem nome e sobrenome: Brasília e Lula. “90% do nosso orçamento são transferências de Brasília”, diz o jornalista acreano Altino Machado. Com seu pacote nacional de aceleração do crescimento econômico, o Estado está onipresente: controi colégios, praças públicas, avenidas, parques. Não deve assustar frente ao grande investimento estatal que os acreanos elogiem a seus representantes estatais: primeiro o presidente Lula, depois o governador Binho Marques e seu prefeito. Os três servidores pertencem ao Partido dos Trabalhadores (PT), o partido brasileiro com mais bases e estruturas em todo o país.

O senador Tião Viana, também do PT e irmão do ex-governador petista Jorge Viana, acaba de regressar de Washington, onde apresentou a selva acreana a investidores interessados em comprar créditos de carbono e certificados REDD, o novo mecanismo do mercado para proteger as florestas. “A economia acreana na mira da economia mundial”, titula grandiosamente o jornal local “Página 20″. Como todo o Brasil, também o Estado do Acre está vivendo seu momento de euforia do crescimento nacional. Crescimento econômico pode ter tido antes também. Mas, desde que Lula está no governo, as pessoas sabem que o crescimento chega até embaixo.

E tudo isso de maneira sustentável, pelo menos no Acre: as madeiras talhadas recebem a certificação internacional, o desmatamento baixou “como em nenhum outro estado federal”, explica orgulhosamente o guardião de um novo parque ecológico municipal. Não só o orgulho pelo crescimento, também o discurso da sustentabilidade chegou até embaixo. Até o controle da natalidade se faz de maneira sustentável: para agregar valor ao látex, em Xapari foi construída uma nova fábrica de preservativos que deve prover aos postos de saúde de todo o país. O investidor? O estado brasileiro, claro.

Quem não fala das maravilhas do Estado brasileiro é quase um estraga-festas. Como o jornalista Altino Machado, o único jornalista acreano independente, como se autodenomina. Graças ao estado onipresente como investidor e benfeitor, os jornais, rádios e canais de televisão dependem da publicidade estatal. Altino Machado, um experiente jornalista de 47 anos de idade, publica em seu blog notas que poderiam manchar a imagem de um estado do Acre que parece sustentável. Ele conta que acabam de reabrir uma fábrica de etanol, ou que há concessões petroleiras sendo preparadas ou que os povos indígenas estão ameaçados pela estrada interoceânica.

Altino Machado lamenta que já não resta quase nada dos movimentos sociais outrora tão vivos. A maioria foi cooptada pelo PT e seu governo. A maioria das pessoas parece contente com isso. Não é o caso de Machado, um ex-militante do PT que se sente um pouco incômodo vendo os fantasmas que ele mesmo ajudou a chamar: “Não lutei por tanto tempo para outro tipo de política, só para ver renascer o desenvolvimentismo dos militares do passado”, se indigna ele.

A luta entre o desenvolvimento moderno e a sustentabilidade ecológica tem sido decidida ultimamente claramente em favor do desenvolvimento. O fato de que depois de 20 anos foi possível aprovar megaprojetos como as hidrelétricas de Belo Monte (com 11.000 megawatts, cinco vezes maior que a tão questionada hidrelétrica Inambari, no Peru) ou a do Rio Madeira, sem que houvesse maior protesto público, são um claro indicador de que as preocupações ecológicas não gozam de boa conjuntura no Brasil atual.

Se não houvesse outra ambientalista oriunda do pequeno estado do Acre. Uma que, como Chico Mendes, vem de muito baixo, mas que segue muito viva e é conhecida mundialmente. Marina Silva, de 52 anos, filha de seringueiros, educada por freiras católicas em Rio Branco, primeiro vereadora municipal, depois senadora e ministra do Meio Ambiente do governo de Lula. Durante muitos anos, Marina Silva foi companheira de estrada de Lula. Até que jogou a toalha e renunciou ao seu cargo de ministra do Meio Ambiente. Agora ela é candidata presidencial pelo Partido Verde do Brasil. Até agora, os meios não lhe dão muita chance de ser eleita, já que sua rival e ex-colega no gabinete de Lula, Dilma Rousseff, goza do respaldo do patriarca Lula. Entretanto, Altino Machado espera contra toda esperança: “Quando Marina se apresentou para ser vereadora no Acre, ninguém lhe deu chance, uma mulher, pobre, negra, ambientalista. Mesmo assim ela conseguiu. Igual pode conseguir agora.”

O Acre é um estado marginal dentro do Brasil. Ainda. Até pouco anos atrás, a fronteira Bolívia-Brasil-Peru foi terra de ninguém. Foi. As mudanças são velozes. Novas estradas abrem a selva amazônica e possibilitam a conexão leste-oeste dentro do subcontinente americano. Dentro de poucos anos, o Acre aspira a ser um ponto importante no novo eixo geopolítico entre Brasília e Pequim. A soja e os metais brasileiros cruzarão os Andes pela inter-oceânica para depois serem embarcados até a China em um porto no Pacífico. Por outro lado, virão produtos chineses para serem levados pelos Andes e passar pelo Acre para serem vendidos nos mercados de São Paulo e Rio de Janeiro.

A estrada até a fronteira peruana já está asfaltada. A viagem em um ônibus ultramoderno passa por uma fazenda de gado atrás de outra. A paisagem ao longo da inter-oceânica para muito mais de terra cultura que a paisagem de uma selva intacta. Logo depois de passar a fronteira peruana, a Amazônia moderna chega ao seu fim. O ônibus para ante o rio Madre de Dios. Um pilar de ponte solitário no meio do rio indica que o sonho do desenvolvimento amazônico ficou incompleto.

Depois de oito horas no ônibus com ar condicionado, os passageiros descem para respirar o ar pesado e úmido, os pés tocam no solo barroso. Crianças aparecem do nada para vender balas e Inka cola. Os passageiros são chamados para pegar suas malas, equilibrá-las sobre uma tábua improvisada como velha canoa. O motorista arranca o motor, um antigo, que deve ter sido reparado mil vezes segundo a fumaça que emana e que ainda não viu nenhum certificado de saúde ambiental. Três jovens empurram com seus pés descalços a canoa para que se desprenda da ribeira e, de repente, o Amazonas volta a ser o que sempre foi em nossa fantasia: um rio marrom imparável e perene, onde o ar e a via se estancam e onde tanto os erros como as bendições do mundo moderno ficam muito, muito longe.

Hildegard Willer é jornalista alemã; tradução de Ana Carolina Moreno

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domingo, 25 de abril de 2010

Avisa que estão matando o Mindu, em Manaus (AM)

Altino Machado às 10:50 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Quinta feira, 22 de abril. Oito horas da manhã. Toca o telefone. Atendo. Ligação interurbana. É de Manaus. A voz de alguém que não conheço geme, angustiada, do outro lado da linha, pedindo socorro:

- Estou agorinha presenciando um assassinato daqui da janela da minha casa, no Parque Dez!! Eu, minha mulher e minha netinha!!!

Alarmado, aconselho que chamem a polícia. Justifico minha omissão:

- Moro no Rio de Janeiro. Não posso fazer nada.

- Pode sim! Pode escrever. Escreve. Avisa que estão matando o Mindu. Denuncia o crime. Dá o nome dos bandidos - segredou a voz, num cochicho, como se temesse ser ouvida.

Depois, continuou descrevendo, lance por lance, o que via através da janela indiscreta. Narrativa tensa, cheia de suspense, como num filme de Hitchcock. Transcrevo o que ouvi, na esperança de que os criminosos sejam identificados e punidos. Duvido, no entanto, que a violência contra desconhecidos, hoje tão banalizada no Brasil, possa comover alguém.

Afinal, quem é que está preocupado em saber se um tal de Mindu está morrendo num bairro de Manaus? Azar o dele! Se a vítima fosse uma celebridade, vivesse na Islândia, se chamasse Eyjafjallajoekull e cuspisse fogo, vapor e fumaça preta, zoneando assim o tráfego aéreo, o mundo inteiro se agitaria. Mas Mindu, o inofensivo? Quem é Mindu no jogo do bicho? Ninguém sabe.

Parque Zero

Ninguém, vírgula! Os manauaras sabem. Conhecemos o Mindu, o maior igarapé da área urbana de Manaus. Ele nasce numa floresta próximo ao Jardim Botânico Municipal e atravessa toda a zona leste da cidade, num trajeto de mais de 20 quilômetros, correndo por um leito pedregoso. Vai se juntando a outros igarapés até desaguar no Rio Negro. Durante décadas, abrigou muitas espécies diferentes de pássaros, insetos, mamíferos, répteis, tartarugas e plantas e deu água fresca aos abundantes buritizais que, em troca, lhe proporcionavam sombra.

Sombra e água fresca: o Mindu era isso. Era quase um paraíso. Em uma de suas margens, terminava a cidade, em outra começava a floresta. De um lado, o bicho urbanóide. De outro, o bicho do mato. Foi ali, naquela região de fronteira, que suas águas foram canalizadas, em 1938, para formar uma piscina natural. O balneário, onde aos domingos as famílias faziam piquenique, foi batizado como ‘Parque Dez de Novembro’.

Hoje, poucos sabem as razões do nome. Era uma homenagem à data do golpe. Um ano antes, 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas fechou o Congresso Nacional, suprimiu as liberdades democráticas, instaurou censura férrea e prendeu e torturou os opositores. Dessa forma, o interventor no Amazonas, Álvaro Maia, puxava o saco do criador do Estado Novo.

Durante algum tempo, o Parque Dez e a boate Acapulco foram os últimos bastiões urbanos. Dali, saía uma estradinha de terra, carroçável, conhecida como V-8 (atual Efigênio Sales), acompanhando o sentido do igarapé, ao longo do qual se situavam pequenas chácaras transformadas em balneários ou ‘banhos’, como a gente chamava. Havia, entre tantos outros, o ‘Pecos Bill’, o ‘Tucunaré’ e ‘As Pedreiras’, da dona Dirce Ramos, viúva rica, que o repassou aos padres redentoristas.

Suas águas, onde meu irmão de dois anos morreu afogado, eram límpidas, cristalinas e potáveis. Mas depois do golpe militar de 1964, a censura impediu criticas ao modelo econômico dominante, que se lixava para o meio ambiente. Foi quando a Companhia Habitacional do Amazonas (COHABAM) construiu com recursos federais o conjunto residencial Castelo Branco - nome dado em homenagem ao marechal ditador. Manaus tinha, então, uns 300 mil habitantes. Aí começou a lenta agonia do Mindu.

Se o Mindu falasse

De lá para cá, a cidade cresceu. A mata foi devastada. Dezenas de novos bairros surgiram sem uma política ambiental e de saneamento básico. As residências passaram a despejar seus dejetos no leito do igarapé, transformando-o num fétido esgoto a céu aberto. A feira do bairro Amazonino Mendes joga nele todo seu lixo. A criação, em 1992, do Parque Municipal do Mindu, como área de interesse ecológico, foi uma tentativa de preservar o último refúgio verde do bairro. Mas o Mindu, “um rio que passou em minha vida”, já estava ferido de morte.

Para tentar salvá-lo, o então prefeito de Manaus Serafim Correa (PSB) aprovou, em 2007, o Projeto de Revitalização do Mindu, com a criação de estações de tratamento de esgoto e de um corredor ecológico. O objetivo era, de um lado, evitar que as suas nascentes fossem ocupadas, e de outro, transformar em área de lazer o espaço do parque. Pouco antes de sair da Prefeitura, garantiu, em 2008, um contrato de 128 milhões de reais, para realizar a obra pelo PAC- Plano de Aceleração do Crescimento.

No entanto, o atual prefeito de Manaus, Amazonino Mendes (PTB - vixe, vixe!) engavetou o corredor ecológico e decidiu substituí-lo pela construção de uma pista às margens do Mindu, seguindo o exemplo da Marginal do Tietê, em São Paulo. O Ministério Público Federal entrou com ação na Justiça, tentando recuperar o projeto original e, com ele, uma sobrevida para o Mindu. Até hoje, ninguém sabe o destino dos recursos, porque “desde que assumiu, Amazonino não divulga os gastos da Prefeitura”.

De qualquer forma, o crime que o leitor viu, de sua janela, ao lado da esposa e da netinha, quando se celebrava o Dia Mundial da Terra, dá a dimensão de que a estupidez humana não tem limites. Ele viu tratores, caminhões e caçambas trafegando pelas ciclovias, pelos gramados e pelo calçadão, que agora servem de lixeira para entulhos das obras, com muita sujeira, lama, poeira e lixo. Parece uma praça de guerra. Tudo em nome da especulação imobiliária e do lucro rápido.

Com 66 anos, aposentado, a testemunha do crime não se conforma com a agressão ao Parque, onde podia passear antes com a neta. Ele fotografou o processo criminoso: são mais de duzentas fotos nos últimos anos. O Mindu, hoje, como Itabira, é apenas um retrato na parede. Mas como dói! Nós e nossos filhos pagaremos caro por esse crime, se o poeta Thiago de Mello tiver razão, quando diz que não é só quem brinca com fogo que se queima. Quem polui a água, acaba se afogando no lodo, na cinza e na merda.

Mindu´u em língua guarani, significa mastigar, comer devagar, ruminar. O Mindu, em sua agonia, está ruminando. O quê? A reposta é dada pelo poema abaixo de Javier Heraud (1942-1963), o poeta-guerrilheiro peruano, que morreu aos vinte anos, baleado numa balsa no rio Madre de Dios, afluente do Beni, que deságua no nosso rio Madeira. Dois anos antes de morrer, aos 18 anos, publicou seu primeiro livro - El rio. Reproduzo aqui para os leitores um pequeno trecho do poema.

El rio

1
Yo soy un río,
voy bajando por
las piedras anchas,
voy bajando por
las rocas duras,
por el sendero
dibujado por el viento.
Hay arboles a mi
alrededor sombreados
por la lluvia.
Yo soy un río,
bajo cada vez más
furiosamente,
mas violentamente
bajo
cada vez que un
puente me refleja
en sus arcos.

2
Yo soy un río
un río
un río
cristalino en la
mañana.
A veces soy
tierno y bondadoso. Me
deslizo suavemente
por los valles fértiles,
doy de beber miles de veces
al ganado, a la gente dócil.
Los niños se me acercan de
día,
y de noche trémulos amantes
apoyan sus ojos en los míos,
y hunden sus brazos
en la oscura claridad
de mis aguas fantasmales.

3
Yo soy el río.
Pero a veces soy
bravo
y
fuerte,
pero a veces
no respeto ni la
vida ni la
muerte.
Bajo por las
atropelladas cascadas,
bajo con furia y con
rencor,
golpeo contra las
piedras mas y mas,
las hago una
a una pedazos
interminables.

4
Los animales
huyen,
huyen huyendo
cuando me desbordo
por los campos,
cuando siembro de
piedras pequeñas las
laderas,
cuando
inundo
las casas y los pastos
cuando
inundo
las puertas y sus
corazones,
los cuerpos y
sus
corazones.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti . Foto: Milon/Divulgação

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terça-feira, 20 de abril de 2010

Protesto contra leilão de Belo Monte ameaça bloquear Transamazônica

Altino Machado às 8:15 am
Belo Monte

Ativistas do Greenpeace formaram monte de esterco em Brasília

Movimentos sociais e indígenas promovem nesta terça-feira, dia 20, mobilizações contra a hidrelétrica de Belo Monte e o modelo energético do governo brasileiro em oito estados e no Distrito Federal.

A mobilização ocorre independente da decisão do Tribunal Regional Federal sobre a liminar expedida nesta segunda-feira, dia 19, pelo juiz federal Antonio Carlos Almeida Campelo, da Subseção de Altamira, que cancelou novamente o leilão da hidrelétrica de Belo Monte.

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O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) realiza atos em Fortaleza, Florianópolis, Porto Alegre, Porto Velho, Belo Horizonte e Belém, além de Campina Grande, na Paraíba, e em Altamira, no Pará.

Atingidos por barragens de Tocantins e Goiás estarão mobilizados em Brasília, onde o protesto contará com a participação do Movimento Xingu Vivo para Sempre e do movimento indígena. No Pará, indígenas e agricultures também promovem atos de protesto contra o leilão.

Nesta manhã, em Brasília, ativistas do Greenpeace despejaram três toneladas de esterco na frente da entrada principal do prédio da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Sobre o morro formado de estrume, os ativistas colocaram duas placas, com as mensagens: “Belo Monte de… problemas” e outra, mais explícita: “Belo Monte de merda”.

Agenda das mobilizacões

- Em Altamira, cerca de 150 indígenas ocupam o local onde está sendo planejado o canteiro de obras da usina e montam um acampamento por tempo indeterminado;

- Cerca de 150 agricultores devem bloquear a Transamazonica entre Altamira e Belo Monte;

- Em Belém, o Comitê Metropolitano Xingu Vivo Para Sempre promove ato público com concentração no terminal de ônibus da UFPA, com início previsto para as 9 horas.

- Em Brasília, a marcha dos movimentos sociais sai da Catedral Metropolitana de Brasília as 7h30 e segue para o prédio da Aneel, onde está prevista a realização do leilão de Belo Monte.

Foto: Greenpeace/Divulgação

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domingo, 18 de abril de 2010

Revisar Lei da Anistia deixaria claro que somos contra o crime hediondo da tortura no Brasil

Altino Machado às 12:54 pm

POR JOSÉ BESSA FREIRE

A gente não sabe se chora ou se ri com as declarações ameaçadoras feitas por dois generais octogenários que hoje, na reserva, vestem pijama e usam dentadura, mas já pertenceram ao alto escalão da ditadura militar brasileira (1964-1985), quando tinham dentes bem afiados. A velhice arrancou-lhes os dentes do siso, mas conservou-lhes a vontade de morder. Entrevistados recentemente pelo jornalista Geneton Moraes para a Globo News, eles desembainharam a espada e feriram de morte a memória nacional.

Um deles, o general Leônidas Pires Gonçalves, 89 anos, foi chefe do DOI-CODI do Rio de Janeiro, comandante militar da Amazônia e ministro do Exército do Governo Sarney. O outro, o general Newton Cruz, 85 anos, chefiou o SNI (Serviço Nacional de Informações), e comandou a repressão às manifestações realizadas em Brasília na época do movimento ‘Diretas Já’.

Com o dedão de proctologista sempre em riste, o general Leônidas nos ofereceu essa pérola:

- Não tivemos exilados no Brasil. Tivemos fugitivos. A palavra ‘exilado’ não serve para eles. Exilado é alguém que recebe um documento do governo exigindo que se afaste. Tal documento nunca houve. A minha sugestão é: fugitivos

O general alega que ninguém foi obrigado a sair do país, e a prova disso é que não existe qualquer papel com o carimbo: “Vai-te embora”, assinado: “Ditadura”, com firma reconhecida. Então, quem saiu, o fez por livre e espontânea vontade. Ele insinua que quem saiu é covarde e fujão, ao contrário dele, que é macho pacas. Dessa forma, o general, que nunca cantarolou “O bêbado e a equilibrista”, debochou do “choro das Marias e Clarisses” e de “tanta gente que partiu num rabo de foguete”.

Exilado ou fujão?

A bravata do general coloca duas questões: uma de forma e outra de conteúdo. Formalista, o ex-chefe do Doi-Codi confunde cinto com bunda e cipó com jerimum. Para ele, todo bebê não registrado em cartório é non nato. É isso aí: não nascido. A criança pode chorar e berrar, mamar, molhar as fraldas: não nasceu. As lágrimas e os berros não constituem prova cabal de sua existência. A única prova aceitável é uma certidão afirmando que ela existe. Da mesma forma que, sem papel, exilados não existem, só fugitivos.

Enquanto o general, dedão em riste, nos chamava de fujões, eu ouvia a voz bêbada da cantora Vanusa entoando “verás que um filho teu não foge à lu-uta!”. Acontece - e aqui vem a segunda questão - que quem foge, foge de alguém ou de alguma coisa. Nós, exilados, fugimos de quê?

Da repressão e da tortura? Ora, o Diário Oficial não publicou portaria nomeando torturadores, portanto, eles não existiram. Houve apenas “pequenos excessos”, como justifica o general Leônidas:

- Guerra é guerra. Guerra não tem nada de bonito - só a vitória. E nós tivemos. A vitória foi nossa. As torturas lamentavelmente aconteceram, mas para ser uma mancha ela foi aumentada. Hoje todo mundo diz que foi torturado pra receber a bolsa-ditadura.

O general Leônidas, fanfarrão que não sabe nem ganhar porque tripudia sobre os vencidos, coloca em dúvida até o assassinato na prisão do jornalista Wladimir Herzog:

- Eu não tenho convicção que Herzog tenha sido morto. Porque sei o que é uma pessoa assustada e não preparada (…). Nitidamente, Herzog não era preparado para isso. Às vezes, estive pensando, um homem não preparado e assustado faz qualquer coisa, até se mata. Até se mata.

Deixando de lado esse insulto à memória - um escárnio - cabe perguntar: quem matou dona Lyda Monteiro, secretária da OAB, vítima dos atentados à bomba contra alvos civis que aterrorizaram o Rio de Janeiro em 1980-1981? Na época, o governo militar culpou os radicais de esquerda, negando aquilo que logo ficou provado e hoje o general Newton Cruz confessa: militares radicais da ativa promoveram atentados para impedir o processo de abertura política em andamento.

O ataque frustrado ao Riocentro - Deus castiga! - matou um dos terroristas, quando uma das bombas explodiu no colo do sargento Guilherme, dentro do carro do capitão Wilson Machado. Com os olhos esbugalhados durante toda a entrevista, Newton Cruz confessou que tinha prévio conhecimento de que alguns militares preparavam o atentado e - esse é um dado novo - que ele próprio transmitiu ao seu superior general Octávio Medeiros. O entrevistado contou ainda que ele, por conta própria, impediu novo atentado que havia sido preparado por militares do Doi-Codi do Rio.

Tortura e anistia

Um terceiro militar, não entrevistado, mostrou o lado íntegro das Forças Armadas. Trata-se do major brigadeiro Rui Moreira Lima, 91 anos, piloto de combate da esquadrilha verde da Força Aérea Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial, quando executou 94 missões. Ele é um dos três heróis brasileiros da guerra que combateu o nazi-fascismo. Nesta segunda-feira (12/04), o nonagenário general protocolou no STF um pedido para que a lei de Anistia não beneficie os crimes de tortura.

Na petição assinada, o brigadeiro Lima, que também preside a Associação Democrática e Nacionalista de Militares (ADNAM), diz com extrema lucidez: “A anistia não pode significar que atos de terror cometidos pelo Estado através de seus agentes e que ensejaram verdadeiros crimes contra a humanidade não possam ser revistos”.

Nas próximas semanas, o STF decidirá sobre essa questão. De qualquer forma, o brigadeiro mostrou, corajosamente, qual é o discurso que representa a Pátria Mãe Gentil, protetora, que nos faz sentir filhos deste solo. Esse sim é um herói que continua honrando a farda que veste. Fez com o discurso aquilo que já havia feito com os aviões de caça: lutar pela liberdade.

A Lei de Anistia aprovada há trinta anos pelo Congresso Nacional concede o perdão a quem cometeu crimes políticos entre 1961 e 1979. O que é um crime político? O STF já decidiu que crimes políticos são os delitos praticados contra a ordem estabelecida com finalidade ideológica. Ou seja, os militares que pegaram em armas e deram um golpe em 1964 estão anistiados, bem como os militantes de esquerda que combateram a ditadura com armas na mão. No entanto, os delitos praticados pelos torturadores nos porões da ditadura não se enquadram nessa situação.

Não se trata de buscar vingança ou revanche, como sinaliza o jurista Dalmo Dallari, mas de dizer claramente que o Brasil é contra o crime hediondo da tortura. A identificação e julgamento dos torturadores é uma demonstração de que historicamente “a sociedade brasileira jamais compactuou com as práticas de um regime que limitou criminosamente a oposição e a liberdade de expressão, mesmo que tais práticas não possam mais ser punidas pela prescrição”.

Se o general Leônidas conhece algum espertalhão sem escrúpulo que se aproveitou da chamada bolsa-ditadura tem o dever de denunciá-lo, prestando um serviço à memória da nação. Aliás, a apuração dos crimes de tortura colocaria isso em pratos limpos.

De qualquer forma, esse suposto fato não apaga o crime dos torturadores que, pagos pelo contribuinte, atuavam fora da legalidade da própria ditadura. Só para não pensar que estou legislando em causa própria, aproveito para informar que, embora tenha legalmente direito, não requeri o que o general está chamando de “bolsa ditadura”.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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sexta-feira, 16 de abril de 2010

PF prende chefão colombiano do narcotráfico

Altino Machado às 12:06 pm

A Polícia Federal acaba de prender o colombiano Néstor Ramón Caro Chaparro, 42, também conhecido como “Felipe” ou “El Duro”.

Considerado um dos quatro chefões do narcotráfico colombiano, “El Duro” foi preso no bairro de Copacabana, no Rio. Ele estava há cinco anos no Brasil.

- Para nós esta é a prisão do ano - disse uma fonte da PF ao Blog da Amazônia.

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“El Duro” contaria com proteção de autoridades colombianas e se imaginava que estivesse na Venezuela. Os EUA oferecem recompensa de US$ 5 milhões pela captura do narcotraficante.

O coronel Juan Carlos Castañeda Villamizar, adido militar da Colômbia no Brasil, é um dos quatro militares colombianos flagrados em vídeo, de 2004, quando compareceram ao casamento  do narcotraficante.

- Por causa disso, o adido militar junto ao governo brasileiro está sendo transferido de nosso país - acrescentou a fonte da PF.

O vídeo foi encontrado há dois meses numa das propriedades do narcotraficante. Um dos militares disse ter sido convidado pelo chefão.

De acordo com o diário El Tiempo, a Corte do Distrito Leste de Nova Iorque teria evidências de que “El Duro” traficava e lavava dinheiro da máfia desde 1998, quando começou a coordenador as remessas de cocaína do Brasil para os EUA.

Existe no Supremo Tribunal Federal um pedido de extradição do governo norte-americano contra o narcotraficante.

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Índio isolado é assassinado e corpo desaparece no Acre

Altino Machado às 3:59 pm

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) pediu ao superintendente da Polícia Federal no Acre, José  Carlos Chalmers Calazane, informações sobre o desfecho de um inquérito que apurava o assassinato de um indígena em situação de isolamento, ocorrido há 10 anos, no igarapé D’ouro, no Alto Rio Tarauacá.

Um grupo de trabalhadores invadiu uma área ocupada por indígenas ainda sem contato com a sociedade nacional para retirar madeira para Auton Dourado de Farias, que era vereador no município de Jordão.

Os trabalhadores foram surpreendidos pela presença de três índios isolados e, por reação, um dos indígenas foi assassinado. Acionada pela Fundação Nacional do Índio (Funai), a PF se deslocou até o local e comprovou que o indígena havia sido morto por arma de fogo.

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O corpo do índio isolado foi encaminhado para Rio Branco  e instaurado inquérito no qual aparecia como suspeito José Lourenço da Silva, o Trubada.

- Deste ponto em diante, as informações são cada vez mais imprecisas e chegam a apresentar contradições - assinala Lindomar Padilha, coordenador do Cimi no Acre.

Antônio Luiz Batista de Macedo, servidor da Funai, acompanhou os procedimentos adotados à época. Procurado pelo Cimi, Macedo pouco soube explicar.

- Ele nos informou apenas que o corpo foi encaminhado para o Instituto Médico Legal, em Rio Branco, e que desde então não teria obtido mais informações sobre o caso e nem ao menos sabe dizer para onde o corpo do índio isolado foi levado - acrescentou Padilha.

O Cimi encaminhou à PF cópias de reportagens e relatos na tentativa de facilitar o entendimento do caso, sobretudo o grau de comoção entre os indigenistas após o crime.

- Queremos as informações para que o poder público possa dar os encaminhamentos necessários e a Funai possa assumir devidamente as suas atribuições e responsabilidades no caso - argumenta o Cimi.

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Belo Monte é o maior roubo já articulado pelos honoráveis bandidos

Altino Machado às 1:34 am

POR OSWALDO SEVÁ

O projeto da mega usina hidrelétrica é bem chamado de “Belo Monstro” pela garotada de Altamira (PA), pelos ribeirinhos índios e não índios do Xingu paraense, e por alguns de nós adultos brancos ainda combatentes da ditadura e da destruição movida pelo capital.

E vai se confirmando o que eu escrevo há anos: mentira em cima de mentira, um dia pode desabar. Goebbels, o propagandista nazista,  dizia que a mentira sempre repetida torna-se verdade, mas nem sempre ele acerta.

Nesta quarta-feira, 14, começou a circular a notícia de que, mais uma vez, o juiz federal de Altamira, no Pará, Antonio Carlos Campelo, havia acolhido a liminar de uma Ação Civil Pública movida por procuradores da República, e determinado a suspensão da Licença Prévia Ambiental do projeto Belo Monte (concedida pelo Ibama, em fevereiro) e o cancelamento do leilão da eletricidade futura da hipotética usina, marcado para 20 de abril pela Aneel, aquela que merece o nome de Agência dos Negócios da Energia Elétrica.

Segundo o noticiário na mesma data, além de suspender a licença prévia e cancelar o leilão, o juiz ordenou que o Ibama se abstenha de emitir nova licença, que a Aneel se abstenha de fazer novo edital e que sejam notificados o BNDES e as empresas Norberto Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Vale do Rio Doce, J. Malucelli Seguradora, Fator Seguradora e a UBF Seguros.

Diz o juiz que a notificação é para que tomem ciência de que, enquanto não for julgado o mérito da presente demanda, poderão responder por crime ambiental. As empresas também ficam sujeitas à mesma multa arbitrada contra a Aneel e o Ibama em caso de descumprimento da decisão: R$ 1 milhão, a ser revertido para os povos indígenas afetados.

É apenas questão de dias para que essa decisão judicial seja revertida pelos advogados do executivo barrageiro lulista-sarneysista a serviço do capital hidrelétrico transnacional.

Como num verdadeiro trem fantasma de parque de diversão, a cada curva uma surpresa. Nem sempre as informações usadas por um foram percebidas ou utilizadas pelos outros. É o caso da matéria do grande jornalista paraense Lúcio Flavio Pinto, intitulada “Belo Monte: lago cresceu”, publicada na edição 462 de seu Jornal Pessoal, nesta primeira quinzena de abril de 2010:

“No EIA RIMA, a área do reservatório sofre uma ligeira correção para 515 km quadrados. Mas no edital de licitação da obra, marcado para o dia 22 ( ou dia 20?) houve um reajuste ainda mais acentuado, para 668 km2. A evolução, a parir da primeira versão do novo projeto, já passou de 50%. Embora em valores absolutos a diferença não seja tão expressiva, o percentual é alto demais para que a dança de números transcorra sem explicações. E até mesmo sem cobranças já que os opositores do projeto não parecem ter observado a mutação. ”

Meu recado para quem anda articulando mais uma Ação Civil Pública a qual, corre o risco de, como as demais, apenas “fazer as coisas menos mal feitas”: eis um bom motivo para enquadrar o crime de falsidade ideológica, já que a Licença Prévia diz um numero e o edital diz outro, e ambos foram paridos pelo mesmo poder. A não ser que se decida que a agência de negócios elétricos não faz parte de nenhum poder.

Bem, do jeito que vai, acabará sendo como a obra de Jirau no rio Madeira, onde, depois de obtidas a Licença Prévia e a Licença de Instalação, as transnacionais barrageiras mudaram o eixo de barramento quase 10 quilômetros rio abaixo, o que provocará o alagamento de terras e a expulsão de moradores nunca previstos nem estudados no EIA.

Ou então, vai dar chabu. Salvo engano excepcional, do qual me redimirei se preciso, as pistas que levam ao chabu geral são:

1. O investimento seria da ordem de R$ 30 bilhões, mas o governo insiste com valores de 18, 19, 22 bilhões, nessa faixa. Ninguém sabe de fato o custo dos canais imensos concretados (500 metros de largura, 20 metros de profundidade) nem das dezenas de diques laterais que formariam as cinco represinhas dos igarapés afluentes da margem esquerda do Xingu no interior da Volta Grande.

A colunista Miriam Leitão repercutiu isso no dia 10, logo após a desistência das duas maiores empreiteiras em participar do leilão:

“Sobre Belo Monte, recaem muitas dúvidas. De toda ordem: financeira, ambiental, de engenharia. Isso é que está assustando investidores. - Há um canal gigantesco que precisa ser feito, cujo estudo nunca foi feito adequadamente. Não se sabe se esse terreno é 90% pedra e 10% terra, ou o contrário. O custo do canal vai depender da natureza desse terreno - diz Mario Veiga, presidente da PSR”.

2. Como nenhum grande banco privado quis entrar no maior roubo já articulado pelos honoráveis bandidos, o governo obriga o BNDES a bancar, sem que os técnicos do banco tenham analisado detalhadamente se dá ou não retorno. O governo pressiona agora a Petros, o Funcef e a Previ - fundos de pensão dos petroleiros e dos bancários, há anos sendo dirigidos pela aristocracia cutista, para colocarem a grana, ou melhor, a pensão futura dos trabalhadores e de suas viúvas, sem o devido respaldo de analise de retorno. Enquanto isso, quase todas as grandes empresas seguradoras ficam só olhando, e as concorrentes do leilão exigem que o Tesouro Nacional securitize o risco. Nem Al Capone faria tão bem.

Quando até a Miriam Leitão publica no Globo.com artigo intitulado “Na lei ou na marra”, é porque o “Belo Monstro” também virou pauta da imprensa da campanha serrista. Segundo a colunista:

“Em Belo Monte, se prepara para fazer concessões maiores para atrair investidores a qualquer preço e iniciar a obra em qualquer contexto jurídico, passando por cima de quaisquer dúvidas ambientais. Isso porque, como disse o presidente: “Belo Monte será construída”. Talvez seja mesmo, mas antes será preciso cumprir a lei. Na marra, não será possível.”

3. O risco geotécnico. Esse é o grande segredo, que em 2009 alguns deixaram escapar e que agora parece ter motivado de fato a desistencia da Odebrecht e da Camargo Correa, que soa incompreensível sob qualquer outro ângulo. A Camargo, com o seu escritório CNEC, está insuflando os projetos no Xingu desde a década de 1970, quando, entre otras cositas, contribuía para a repressão sobre os opositores da ditadura. Mas é o corpo técnico que melhor conhece o projeto e os locais onde seria construído.

Se o risco geotécnico for o motivo, há razões: o piso da Volta Grande é a transição entre o terreno cristalino do planalto central e o terreno aluvionar da planície amazônica, tem trechos de terreno cárstico (com carbonatos de cálcio, frágil, furado, cavernoso), as lajes por onde o riozão se espalha, e, às vezes, mergulha por debaixo, mostram fraturas rochosas longas, profundas, em forma de mosaico, que são visíveis na morfologia da Volta Grande, e talvez sejam bem mais graves por baixo da camada visível.

4. E claro, lá estão de olho os kaiapó, alguns milhares, que sobreviveram aos massacres seculares, vieram desde o Triângulo Mineiro e o sul de Goiás, para o Mato Grosso e o sul do Pará, e agora não tem mais para onde ir. Conhecem os brancos melhor do que nós mesmos. Eles vão guerrear até morrer.

5. “Last but not least”, estão no ar as campanhas do James Avatar Cameron, do cantor Sting e de varias ongs barulhentas, incluindo os aliados do bispo de Altamira, dom Erwin Krautler e parte da sua igreja aqui e na Europa. Esse pessoal já monitora os fatos e estrila como nunca dantes ocorreu.

Os demais argumentos dissidentes (pouca energia do rio para tanta potência instalada, mais de 20 mil atingidos sem reassentamento, graves perdas ambientais, audiencias publicadas manipuladas e sob repressão fardada) são justos e importantes, mas não o suficiente para fazer o projeto naufragar.

Fica a incógnita se a candidatura Dilma naufraga junto ou não. Por enquanto, a aliança petista-sarneysista, da qual Belo Monstro virou emblema, está somente fazendo água, levando susto a cada curva.

Oswaldo Sevá é professor no Departamento de Energia e na Pós-Graduação em Antropologia da Unicamp, além de organizador do livro coletivo “Tenotã Mõ. Alertas sobre as conseqüências dos projetos  hidrelétricos no rio Xingu, Pará, Brasil”.

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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Coordenador da Funai está preso no Acre

Altino Machado às 8:27 am

O Coordenador Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) no Acre, Djalma Rodrigues Porto, está preso na penitenciária federal de Rio Branco. Havia contra ele um mandado de prisão temporária e busca e apreensão, decretado pela Justiça Federal de Mato Grosso, por envolvimento num esquema de desvio de verbas da Fundação Nacional de Saúde.

Djalma Rodrigues Porto trabalhava em Cuiabá (MT) até ser enviado para o Acre pela direção da Funai, em meados do ano passado, como Administrador Substituto, com a missão de moralizar a administração do órgão local.

Ele e outros 16 servidores públicos, bem como empresários, empreiteiros de obras públicas e representantes de ONGs, estão sendo acusados de muitos crimes contra os cofres públicos, dentre os quais, formação de quadrilha, estelionato, fraudes em licitações, apropriação indébita, lavagem de dinheiro, peculato, corrupção ativa e passiva e ainda prevaricação.

A Polícia Federal cumpriu na semana passada 31 dos 35 mandados de prisão temporária contra a suposta quadrilha que onerou os cofres públicos em R$ 51 milhões, sendo que o valor pode chegar a R$ 200 milhões. Valdebran Padilha, acusado de envolvimento na compra de um dossiê contra políticos tucanos na eleição de 2006, está entre os presos.

A maior parte dos recursos desviados destinavam-se a programas de saúde nas aldeias indígenas, saúde da família, serviço de atendimento móvel de urgência e unidades municipais de saúde no Mato Grosso.

Djalma Rodrigues Porto é acusado de participar de um esquema bem articulado de desvio de recursos públicos, com a finalidade de “obter vantagens financeiras, direcionando licitações e executando contratos com custos superiores aos praticados no mercado”, além de “pagamento por serviços não realizados”.

De acordo com informações divulgadas pela Operação Hygeia, da PF, o esquema das fraudes, comandado por um “corpo intelectual” supostamente articulado pelo deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT), consistia também na contratação de empresas a preços superfaturados e em obras inconclusas.

Outros esquemas envolviam a contratação de ONGs para prestação de serviços com valores superfaturados e pagamento de altos salários a funcionários fantasmas.

Receoso de ficar preso até o fim do processo, Djalma Porto apresentou-se à PF no sábado, 10, após passar uma semana sumido do trabalho, onde se apresentava como “interventor da Funai no Acre” e “nome de confiança de seu presidente”.

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domingo, 11 de abril de 2010

Avião da TAM emperra em buraco na pista do aeroporto de Rio Branco

Altino Machado às 4:15 pm

O avião que faria o vôo 3775, da TAM, de Rio Branco (AC) para Brasília (DF), está “atolado” na pista do Aeroporto Plácido de Castro, na capital do Acre.

Os passageiros tiveram que desembarcar após a tentativa fracassada da Infraero de retirar o avião com uso de um trator.

Leia mais:

Anac ameaça fechar aeroporto de Rio Branco por causa de buracos

Infraero tapará buracos para evitar a interdição do aeroporto de Rio Branco

- É uma vergonha essa situação. Temos apelado em vão para que a Infraero resolva os problemas na pista do aeroporto de Rio Branco. Imagina se o Acre tivesse sido escolhido para ser uma das sub-sedes da Copa - disse o deputado federal Gladson Cameli (PP-AC).

Os passageiros tiveram que retirar as bagagens de mão, mas ainda não foram informados se o vôo será realizado. Homens do Corpo de Bombeiros, caminhões e tratores permanecem em operação na pista.

- O comandante avisou que o avião teria “atolado” por causa da temperatura elevada da pista. Não tem cabimento porque a temperatura em Rio Branco baixou nos últimos dias por causa de uma frente fria no sudeste - comentou o empresário Décio Melo da Costa.

Passageiros durante o desembarque

Passageiros durante o desembarque

Fotos: Gladson Cameli

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Índios: namoro etnodigital no ciber território

Altino Machado às 8:49 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

Deitado na rede de fibra de tucum, cada um dos dois se embalava, sozinho, nas noites quentes de Rondônia. Já sonhavam um com outro? Quem sabe? O certo é que nunca tinham se visto. Estavam separados por rios e florestas, numa distância de 350 quilômetros. Ele morava em Cacoal, ela em Alta Floresta do Oeste. Até que recentemente, com o apoio da filha, ela o adicionou como amigo no Orkut e eles, então, se conheceram virtualmente. Foi aí que deitaram e rolaram, dessa vez juntos, no fundo de outra rede: a net.

Durante um ano, trocaram mensagens que atravessaram o ciberespaço, permitindo que afinassem o violino.

- No começo era só amizade, depois ele quis mais - ela contou ao jornalista Marcos Lock.

Segredos e confidências eram cochichados pelas pontas dos dedos. O relacionamento evoluiu para conversas frequentes através do MSN Messenger. Os papos foram revelando afinidades e construindo cumplicidades. Pa-papinho vai, pa-papinho vem, quando caíram em si, já estavam namorando. Por enquanto, virtualmente.

Aí deu vontade de um contato pessoal face to face. Marcaram um encontro. Em abril do ano passado, Tori, que é índia Tupari, saiu de sua aldeia, na Terra Indígena Rio Branco, e foi visitar em Cacoal o índio Gasodá, que pertence ao povo Paiter Suruí. Não deu outra. Os dois se casaram no início do ano, num evento que foi registrado pela Folha de Rondônia: “Namoro pela web leva casal indígena rondoniense ao altar” (25/03/2010).

A maloca digital

O namoro e casamento de Gasodá e Tori é apenas uma das tantas consequências da crescente atuação dos índios no ciberespaço, que marca a apropriação por eles das tecnologias digitais. Nos últimos anos, os índios criaram sites, blogs, portais, comunidades virtuais, facebooks, fotologs, onde trocam experiências e informações e publicam textos, fotos, desenhos, notícias, músicas, vídeos.

No Brasil, índios de diferentes línguas e etnias foram estimulados a usar a internet por organizações governamentais e não governamentais. Embora a situação ainda seja bastante precária, inúmeras das 2.698 escolas indígenas existentes nas aldeias, frequentadas por mais de duzentos mil alunos, foram dotadas de computadores. Ali onde isso não foi possível, os computadores dos postos de saúde da Funasa foram disponibilizados dentro dos Pontos de Cultura no Programa Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão.

Essa situação permitiu que logo surgissem, em 2001, os primeiros sites indígenas, segundo Eliete Pereira, do Centro de Pesquisa Atopos, da ECA/USP, que andou mapeando a presença indígena na net, ainda bastante irregular. Ela encontrou três tipos de sites: os sites de organizações indígenas, os sites de etnias e os sites pessoais.

Os primeiros são mantidos na rede por organizações com abrangência local, regional ou nacional e estão associados à luta por direitos pela terra, pela educação bilíngue, pela saúde, constituindo-se em ferramentas de reivindicação política. É o caso, por exemplo, do portal da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, ou o da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.

Já os sites de etnias são criados para dar maior visibilidade étnica frente à sociedade nacional e internacional e para mostrar a arte de cada grupo, a produção do artesanato, os padrões gráficos, as narrativas, a língua. É o caso dos Baniwa, do Rio Negro (AM), ou dos Ashaninka, do Acre e de tantos outros, que participaram, em 2005, do I Seminário Rede Povos da Floresta, realizado no Rio de Janeiro, para discutir o acesso deles à tecnologia da informação e a conexão à internet.

O terceiro tipo são os sites pessoais e individuais, que utilizam a internet de forma inovadora, como o do escritor Daniel Munduruku, que apresenta os seus livros e dialoga com leitores, ou o da escritora Eliane Potiguara. Os índios que participam dos cursos de formação de professores indígenas ou de cursos universitários aprendem a lidar com o computador, trocam informações via e-mails, orkut, msn, skype. Eles estão agora lutando para demarcar um novo tipo de território no ciberespaço.

O ciber território

Nesses territórios, os usuários indígenas da internet divulgam noticias sobre seus problemas, articulam redes de apoio e acabam sendo mediadores de conflitos indígenas junto aos canais e veículos tradicionais de informação e às próprias instituições governamentais. Essa nova prática tem permitido alguns grupos a fiscalizar com maior empenho a gestão pública dos recursos destinados às populações indígenas e a denunciar as violações aos direitos constitucionais dos índios.

Foi no ciber território que Gasodá e Tori se conheceram. Eles vivenciaram experiências diferentes com a internet. Para Gasodá, que tem mais de 650 amigos no Orkut, a rede ajuda a fazer amizades e a “quebrar o gelo” entre pessoas desconhecidas:

- Eu conheço muita gente através da internet, porque conversamos sobre assuntos indígenas pelo MSN. E quando a gente se encontra pela primeira vez, parece que já se conhece há muito tempo e aí é só chegar e cumprimentar: “Ah, você é que é o fulano, dá um abraço”. É como se fosse uma amizade antiga.

Já Tori vive numa aldeia onde os jovens e adultos “não conhecem muito a internet”, mas quando se fala em computadores, eles ficam muito animados, têm vontade de saber mais.

- Quando vão à cidade, eles vão e ficam olhando, não chegam a tocar, eles têm receio de tocar e quebrar.

Yakuy Tupinambá, integrante do Projeto Índios Online, diz que a internet está promovendo a abertura de horizontes, o que contraria o pensamento daqueles interessados em manter os índios amordaçados.

- A internet trouxe-nos novos significados, sem que isso implique no abandono das nossas tradições. Conectar-se ao mundo através da internet é ter direito a ter um rosto, e fazer ouvir nossa voz, abrindo uma janela para o mundo – completa Yakuy.

Os índios confirmaram essa posição em junho de 2005, durante a Conferência Regional da America Latina e Caribe sobre Sociedade da Informação. Nesse evento, eles aprovaram a Declaração Indígena do Rio de Janeiro, onde afirmam que estão preparados para o inevitável encontro entre os conhecimentos tradicionais e a modernidade, “caminho a ser percorrido para nossa sobrevivência física e cultural, que nos assegura direitos de acesso aos novos conhecimentos e à informação”.

A caixa da língua

A presença indígena na internet contribuiu para o surgimento de algumas questões relacionadas ao uso da língua e à afirmação da identidade. Se Gasodá, por exemplo, enviasse suas mensagens em língua Paiter Surui, um idioma da família linguística Mondé, provavelmente não haveria namoro e casamento, porque a língua de Tori – o Tupari - pertence à outra família linguística e eles não se entenderiam.

Por isso, quando índios de línguas diferentes se comunicam, usam o português, aliás, uma deliciosa variedade do português escrito, que pode ser apreciada, por exemplo, na comunidade colaborativa de aprendizagem Arco Digital, onde mais de 100 índios de diferentes etnias interagem, com programação diária de vários chats temáticos. Eles brincam com a língua, sem medo de errar e sem censura, detonando regras normativas de ortografia, de pontuação e de sintaxe, como estão fazendo na internet os jovens nativos de qualquer língua.

Essa é uma das características da comunicação mediada pelo computador, que deu origem a uma língua denominada de netspeak pelo linguista irlandês David Crystal. Ele observa que os e-mails, por exemplo, têm sido chamados de “fala escrita”, de ‘cruzamento entre conversa e carta’ porque misturam a escrita com a fala.

- No geral, o netspeak é mais compreendido como uma linguagem escrita que foi empurrada em direção à fala do que uma linguagem falada que foi escrita.

Talvez por isso, os índios, que pertencem a sociedades ágrafas, com forte tradição oral, se sintam atraídos por esse novo campo do discurso, no qual se desenvolvem com muita agilidade, porque nele reencontram a aldeia cibernética, marcada por traços da oralidade e pela comunicação através de imagens.

Essa aldeia cria também um novo espaço social para o uso das línguas indígenas. No curso que ministro para professores guarani no Paraná, eles aproveitam as horas vagas para ocupar o laboratório de informática, e lá se comunicam por e-mail com outros índios da mesma etnia em língua guarani. Os guarani do Rio de Janeiro, por isso, denominaram o computador de ayvu ryru, que significa, “caixa de guardar a língua”.

Aqueles que aceitam as contínuas mudanças na sua própria cultura, mas acham que as culturas indígenas devem permanecer congeladas para serem “autênticas”, acreditam ingenuamente que o uso da internet pelos índios compromete a identidade étnica.

Os índios, no entanto, aprenderam a conviver com esse processo contínuo de tensão entre o tradicional e o novo. Eles estão permanentemente recriando a tradição, introduzindo novos sentidos e novos símbolos. E é claro, não deixam de ser índios, ou então os brasileiros, que usam a internet, ferramenta que não é tecnologia nacional, deixariam também de ser brasileiros.

P.S. 1: Quem quiser saber mais sobre o tema, vale a pena ler Eliete da Silva Pereira: “Nos meandros da presença étnica indígena na rede indígena” In: DI FELICE, M. (org) Do público para as redes – a comunicação digital e a novas formas de participação social. São Caetano do Sul: Editora Difusão, 2008, pp. 287-333.

P.S. 2: Agradeço a interlocução com a mestranda Renata Daflon, do Programa de Pós-
Graduação em Memória Social da UNIRIO, que desenvolve pesquisa sobre “Memória Criativa na Blogsfera: contribuições para pensar o ‘patrimônio em rede’”, orientada pela doutora Vera Dodebei.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Foto: Folha de Rondônia

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

MPF aponta “falhas graves” e pede anulação da licença de Belo Monte

Altino Machado às 12:23 pm

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizará nesta quinta-feira, 8, ação civil pública na Justiça Federal de Altamira (PA), pedindo a anulação da licença prévia da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, concedida pelo Ibama. Os procuradores da República que analisaram o empreendimento apontam afronta à Constituição, às leis ambientais e às resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente entre os oito problemas encontrados no licenciamento até agora.

O MPF também quer o cancelamento do leilão marcado para o próximo dia 20, porque o governo desobedeceu uma das exigências do Conama para licitação de usinas hidrelétricas. O projeto só pode ir a leilão depois que for emitida licença de instalação, nunca apenas com licença prévia. É o que diz a resolução nº 06/1987, claramente desobedecida pela urgência de vender Belo Monte ainda em 2010.

Os pedidos para a Justiça incluem também uma proibição para o Ibama, para que qualquer nova licença só seja concedida se corrigidos todos os vícios e dúvidas apontados no processo de licenciamento.

O MPF irá, ainda, notificar oito pessoas jurídicas potencialmente interessadas no empreendimento a respeito dos termos da ação, para que evitem cooperar com os danos e ilegalidades descritos, porque podem ser considerados co-responsáveis. Entre os notificados, o BNDES e as três maiores empreiteiras do país.

O MPF descobriu, analisando o material do Ibama, que os próprios técnicos do governo deixaram claro, em vários documentos, seu desconforto com a falta de dados científicos que garantissem a segurança ambiental do projeto. A pressa em conceder a licença atropelou não só ritos legais e princípios democráticos, mas atentou contra o postulado da precaução, essencial para evitar desastres ambientais.

Dentre as principais dúvidas está o respeito à biodiversidade e à sobrevivência da população da chamada Volta Grande do Xingu, um trecho de 100 quilômetros do rio que vai ser desviado para produzir energia na barragem. Uma das principais questões do licenciamento de Belo Monte diz respeito à quantidade de água que vai ser liberada para “irrigar” esse trecho, batizado pela Eletrobrás de Trecho de Vazão Reduzida.

- O Ibama fala em testar um hidrograma com essa quantidade de água, mas o meio-ambiente e a vida da população do Xingu não tem como depender de testes. Se não há certeza científica sobre o projeto, ele não deve ser levado adiante. Isso é um princípio ambiental do qual a sociedade não pode abrir mão - diz o procurador da República Cláudio Terre do Amaral, de Altamira, um dos responsáveis pela análise.

Irregularidades encontradas até agora pelo MPF

1 – É a primeira vez que um empreendimento afeta diretamente terra indígena, aproveita recurso hídrico de terras indígenas e a Constituição exige, no artigo 176, que esse tipo de aproveitamento só poderá ser autorizado pelo poder público após edição de leis ordinárias regulamentando a questão, o que não existe no ordenamento jurídico brasileiro.

2 – A equipe de técnicos que fez o licenciamento consignou em um dos documentos públicos: “Não foi feita análise das contribuições das audiências públicas”. A Constituição Federal determina que o Brasil, enquanto estado democrático de direito, deve garantir a participação popular. E no caso de um licenciamento, essa participação não pode ser meramente formal. Fazer audiência pública e ignorar o que o público disse é contrário aos princípios democráticos. No caso específico de Belo Monte, ignorar a sociedade é ainda mais lamentável porque, pela primeira vez, cientistas de várias instituições se reuniram para analisar o projeto e contribuir com o licenciamento, mas não foram considerados devidamente.

3 – Princípio da precaução: na dúvida sobre impactos graves, o empreendimento não pode ser executado. Belo Monte deixou dúvidas quanto ao hidrograma previsto para os 100 km da volta grande que serão afetados pelo desvio do rio. A Eletrobrás propôs inicialmente uma vazão que seria de até 4000 m3/s em um ano, e de 8000 m3/s no ano seguinte. O Ibama condenou esse hidrograma. Mas tampouco têm certeza sobre o hidrograma que propôs, qual seja, de 8000 m3/s em todos os anos. O Ibama fala em “testar” essa vazão durante seis anos e depois avaliar os impactos. Não é possível fazer “testes” desse tipo quando se trata de questão ambiental, ou se tem certeza do que vai acontecer ou o projeto não pode ir para frente.

4 – Qualidade da água: outra incerteza que fica evidente na análise dos técnicos do Ibama é sobre a qualidade da água se a usina for construída. Em vários pontos, os responsáveis pelo licenciamento se dizem preocupados com projeções de toxicidade para humanos e peixes. Falam em “impacto de grande magnitude possivelmente irreversível”. Em parecer do dia 27/01 (quatro dias antes da licença ser concedida), especialistas da Universidade de Brasília recomendaram que se aguardasse mais tempo antes de qualquer decisão sobre o empreendimento, para que novas análises sobre o tema pudessem ser feitas. Os próprios analistas do Ibama, em 29/01, portanto dois dias antes da emissão da licença, reconheceram a falta de dados e disseram que o tema estava pendente. Mesmo assim, a licença foi concedida e a questão entrou como condicionante.

5 – Obrigação de avaliar medidas mitigadores. Uma vez identificados os impactos negativos, o governo só pode liberar um empreendimento se analisar as medidas propostas pelo empreendedor para mitigar ou compensar esses impactos. Resolução do Conama especificamente determina isso. No caso de Belo Monte, as medidas de compensação não foram apresentadas antes da licença prévia. Se, por exemplo, as barragens começarem a formar poças no leito do rio e a população de mosquitos se proliferar, ninguém tem um plano para evitar o aumento dos casos de malária.

6 – Trecho de Vazão Reduzida. O MPF analisou dados da Agência Nacional das Águas que demonstram que são inconciliáveis os interesses econômicos/energéticos e ambientais. O rio Xingu, em 35 anos analisados, só alcançou 22 mil m3/s de volume em 6% dos dias. Se são necessários 14 mil m3/s para produzir energia e, pelo menos, 8 mil m3/s para manter a vida nos 100 km do trecho de vazão reduzida, fica evidente que a usina vai impor uma escolha absurda: ou se sacrifica a Volta Grande ou se sacrifica a geração de energia.

7 – Desobediência à resolução nº 006/1987 do Conselho Nacional do Meio Ambiente. A resolução do Conama é auto-explicativa. Leilão, só depois da Licença de Instalação. O governo não esperou e agora poderá ser obrigado pela Justiça a cumprir a regra do jogo.

8 – Necessidade de reedição da Declaração de Reserva de Disponibilidade Hídrica. A Agência Nacional das Águas tem que “conceder” a água necessária para a geração de energia, porque se trata de um bem público. A ANA deu a concessão antes da licença prévia e, portanto, esse documento não prevê o hidrograma que foi alterado pelos técnicos. Seria necessária uma nova concessão da Ana, com as mudanças previstas pelo Ibama.

Lista de quem pode ser notificado judicialmente da tramitação da ação e que poderá ser responsabilizado por dano ambiental:

Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)

Construtora Norberto Odebrecht S.A.

Construções e Comércio Camargo Corrêa S/A

Andrade Gutierrez S/A

Companhia Vale do Rio Doce

J. Malucelli Seguradora S/A

Fator Seguradora S/A

UBF Seguros S/A

Com informações da Assessoria de Comunicação da Procuradoria da República no Pará.

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terça-feira, 6 de abril de 2010

Daime: um psicoativo que não pode ser reprimido

Altino Machado às 7:10 am

POR MATTHEW MEYER

Recentemente, a mídia brasileira tem criado, novamente, um espetáculo de pânico moral centrado na ayahuasca. Dezenas de reportagens apareceram nos jornais e na internet nos dias seguintes ao assassinato do cartunista Glauco Villas Boas e seu filho Raoni no mês passado, em São Paulo. Respeitoso num primeiro momento, o tom das matérias piorou rapidamente quando o assassino foi identificado como freqüentador do centro de Daime que Glauco comandava. Aproveitando a publicação este ano de normas para o uso religioso da ayahuasca pelo Conselho Nacional das Drogas, algumas fontes sugeriram que a postura oficial foi tolerante demais, e que está na hora de proibir o tal “chá alucinógeno” por ser uma droga perigosa à saúde pública.

Outras fontes fizeram o argumento de modo disfarçado, perguntando “ayahuasca é droga?” De um ponto de vista farmacológico, a ayahuasca é sim “uma droga”, ou seja, é um agente psicoativo. Mas essa resposta esclarece muito pouco se a nossa intenção é entender o sentido da ayahuasca no contexto de uma determinada prática, ou até para entender se seu uso representa grande ameaça à saúde pública que não pode ser tolerado. Pelo contrário, dentro do debate público, pensar a ayahuasca como uma droga tem ocultado o que tem de mais importante no mundo ayahuasqueiro brasileiro.

Acontece que o conceito senso-comum de “droga” faz um grande fetichismo de processos sociais, que acabam sendo imaginados como propriedades das substâncias em si. O presumido descaso dos produtores da substância para com o seu consumidor; o zelo com que o vendedor procura novos clientes para viciar na droga; o prazer individual que o consumidor busca nela; a decadência de relações familiares e a falta de desempenho no trabalho, devido ao foco exclusivo no consumo de drogas - são todas essas imagens negativas que, embora sejam concretizadas em alguns casos, nem por isso deixam de ser apenas possíveis configurações sociais. Mesmo assim, na crendice popular, as drogas já têm o poder de criar essas situações pela própria natureza maléfica.

Comportamento moral

Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo (AC)

Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo (AC)

É uma visão basicamente protestante, na qual o sentido das drogas se resume na busca ilícita pelo prazer, ou, pelo outro lado, na tentativa imoral de fugir do legado de sofrimento que nos vem de Adão e Eva pela desobediência às ordens divinas. Essa busca é ainda mais condenável porque as drogas geram simulacros da graça divina através de uma ação material e não espiritual: são “paraísos artificiais” que acabam, na sabedoria popular, sendo infernos terrestres. Na economia consumista, as drogas também funcionam como uma espécie de bode expiatório, reforçando a ilusão, pela criação de uma categoria de bens onde reina a compulsão, que o consumo lícito pode ser um meio de realizar a liberdade.

O Daime, na maneira que vem sendo usado no Acre desde a década de 20 do século passado, tem pouco a ver com isso tudo. As pessoas doentes e rebatidas que chegavam dos seringais moribundas à casa do Mestre Irineu Serra procuravam sua saúde e dignidade, e achavam nele não apenas um grande curador, mas também um exemplo de cidadão brasileiro. O Mestre Irineu Serra tinha um pé em dois mundos, o da floresta e o da cidade, e fez da sua vida uma grande obra de mediação entre os dois, criando o que arrisco chamar de uma florestania avante la lettre. Ele ajudava, assim, as pessoas vindas da floresta a se adequarem à nova vida nos arredores de Rio Branco depois da grande crise da borracha, e depois da Segunda Guerra Mundial. Com sua ligação com a Rainha da Floresta, abriu um caminho para se fincar raízes naquelas terras longínquas; com sua inserção na política do Acre, através da sua participação no Exército e de suas amizades com políticos, ele ajudou seu povo a reivindicar seus direitos e a se sentirem relacionados com a sociedade mais ampla.

No centro original criado por Mestre Irineu Serra, o feitio de Daime tem um papel constitutivo na formação da congregação como grupo social. Os homens que fazem Daime são os mais “firmados” na Doutrina do Mestre Irineu, os que detêm a máxima confiança da liderança do centro. Fazer Daime é muito sério, pois visa consagrar a missão que o Mestre Irineu Serra recebeu da Rainha da Floresta. O processo comemora vários aspectos da iniciação do Mestre Irineu Serra, inclusive respeitando a fase lunar, o jejum sexual e a restrição de comida. Além de usarem técnicas que buscam mais a lealdade com o que “o Mestre deixou” do que a eficiência, a intenção é fator importante no feitio. Daime feito com intenções boas é capaz de propiciar louvor ao divino em prol da humanidade; Daime feito por quem não cumpriu seus deveres de abstinência, por quem não prestou atenção ou desprezou seus irmãos, não terá bom resultado. Igualmente, quem toma Daime procura firmar suas boas intenções e tem a expectativa de prestar contas por seu comportamento moral.

“Fitolatria” para curar os cristãos

Bailado no centro original de Irineu Serra, no Acre

Hinário no centro original, fundado no Acre por Mestre Irineu Serra

Tenho tentado destacar aqui como o Daime no Acre é ligado à história e como seu uso se diferencia das drogas: é uma prática de produção local para consumo próprio; liga as pessoas que o fazem com elas que o tomam, por laços de respeito, amor fraterno e muitas vezes pelo parentesco; e prima pela correção moral de cada indivíduo, segundo valores geralmente cristãos que se harmonizam com os da sociedade mais ampla.

Alguns dos meus amigos no Acre pensam que os problemas começaram nos anos 70 quando os “ripes” descontextualizaram o Daime, botando-o na mala e levando-o para o Sul do país, num paralelo invertido à agressão dos “paulistas” que na mesma década compraram uma boa parte do Estado. Realmente dá pano para manga, pois o Daime foi para o Sul e além levado por pessoas da contracultura e ficou associado por eles com a “maconha”, símbolo central da contracultura mundial do baby boom. O esquema de produção e distribuição mudou, e o Daime ficou sujeito a forças do mercado como escassez e transporte. Em alguns lugares, as abstinências e o seguimento das fases da lua caíram em desuso, e as marretas de madeira usadas para triturar o cipó jagube foram substituídas por máquinas.

Essa mudança de contexto aponta uma re-significação do Daime que, de uma perspectiva antropológica, faz uma diferença. Tentar inserir um entendimento processual das drogas no discurso público, porém, dificilmente procede. Como me disse certa vez um homem da Polícia Federal em Rio Branco sobre o Daime, simplesmente, “sabemos que é uma droga, mas não podemos reprimir.” Assim discordo um pouco da idéia que os “paulistas” macularam o Daime, pois a história do Mestre Irineu Serra também começa com uma re-significação da ayahuasca, de fenômeno caboclo a um remédio da floresta “para curar os cristãos”. E é essa mediação entre o que o saudoso Océlio de Medeiros chamou de “fitolatria”, quando defendia o Alto Santo contra a Polícia Federal, em 1974, e a convicção protestante da separação radical entre o mundo espiritual e o material, que dificilmente o público aprende a aceitar.

Matthew Meyer é norte-americano e doutorando em Antropologia Social na Universidade da Virgínia

Fotos: Altino Machado

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domingo, 4 de abril de 2010

Judas no Brasil

Altino Machado às 8:30 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

Eu, Judas Iscariotes, / de Jesus sou o traíra,
Afiando os meus chicotes / como quem pedras atira.
Quem quiser que dê pinotes / e censure a minha lira.
Aqui deixo o testamento / como palavras ao vento.

O Lula já disse um dia / que quem a Cristo traiu
Com ele se aliaria / pra governar o Brasil.
Pra atender a freguesia / não serei nada sutil.
Vou abrir meu inventário / aqui no Monte Calvário.

Pro Papa Bento alemão / dou água de igarapé
Pra lavar o chulezão / dos padres da Santa Sé.
Se pedófilo tem perdão / e Boff e gay só pontapé,
Então santo serei eu / como meu xará Tadeu.

Deixo pro Barak Obama / o exército talibã.
Afeganistão me chama / mando canhões pro Irã:
a Hillary em pijama / Mônica Lewinsky em divã.
Oh my God / why do you sempre me phode?

Pro Lula eu nada lego / o ‘Cara’ é que me legou.
Do Filho do Brasil herdo / o modo como beijou
e como cravou o prego / na cruz do trabalhador.
Cadê, onde está, quem viu? / O programa do PT sumiu.

Nessa quaresma de araque / em que traí o Galileu,
Deixo à senhora do PAC / muito aliado fariseu:
O PMDB e sua claque / primeiro-eu, depois-o-meu.
Dilma com quem andas / que eu te direi quem és.

Um desafio impossível / deixo pra Dilma Rousseff:
Chegar bem perto do nível / do bom Ibope do chefe.
Com Michel Temer visível /tudo não passa de blefe.
Tempo será de mico-có / homem em pé de um olho só.

Ao vampiro José Serra / que também não fica atrás,
Deixo um cabo-de-guerra / pra puxar com Satanás.
O DEMo aqui na terra / só quer cargos federais.
Serra no audiovisual / é que nem coveiro em funeral.

Deixo pra fé da Marina: / Darwin, Eva e Adão feliz
Tem gente que abomina / sua aliança com Sirkis,
Mas aprecia a menina / que quer mudar esse país.
Verde que te quero verde / verde vento, verdes ramas.

Aos que têm a ficha-suja / com processo em tribunal
Trinta moedas de gruja / deixo em aval comercial.
Caixa dois da dita-cuja / no processo eleitoral.
Sarney, Collor e Barbalho, esse trio é do carvalho.

Pro Renan e sua canalha / trinta moedas na maleta
Pro Jucá, uma cangalha,/ Pro Sarney, uma gorjeta,
Pro Arruda, uma mortalha / Pro Ciro, uma escopeta
Suplicy? fogo de palha / Pro Gilmar, uma gaveta.

Se o mensalão do DEM comprar / panetone que não comi
Deixo pro Arruda usar / aquilo que adquiri:
A corda pra se enforcar /a mesma com que morri.
Que Deus nos acuda-da-da / Nos livre do Zé Arruda-da-da

Pra que Dudu não confunda/ coisa pública e privada,
Um suplente que desbunda / com dona Sandra calada,
Deixo chapa vagabunda / pra enganar a cabocada.
Os fantasmas no Solimões / Já lhe renderam milhões.

Os meses de governança/ deixo para o Lobo Mau.
Omar vai encher a pança / está cercado de lalau.
Hoje vai haver festança / pra fazer muito mingau.
Vinde a mim as criancinhas / delas é o reino dos céus.

Pro Negão Amazonino / e seu amigo Siqueira,
Deixo-lhes rico cassino / pra encher a algibeira,
Um terreno clandestino / e enorme buraqueira.
Cotia Risonha pia / quando seu fiofó assovia.

Deus te dê, Cabo Pereira / aquilo que deu ao bode:
Uma tripa cangaceira / catinga, barba e bigode.
Eu pergunto de bobeira / tu responde se tu pode:
Cadê o diabo do expresso? Ninguém sabe, réu confesso.

Ao candidato Serafim / com patente de general,
Um reles cabo está afim / de curvar-lhe a cervical,
Deixo-lhe todo meu latim / contra o convite imoral.
Onde berra touro no grito, não berra bode e cabrito

Deixo aos Irmãos Coragem / que são bem babaquara
Um bilhete de viagem / lá pra Puraquequara.
Se houver boa arbitragem / provarão da lei a vara
Quem já puraquequarou / bebeu açaí, ficou.

Deixo pro ex-deputado / pistola e microfone
jatobá amarelado / e uma foto dos Nardoni.
Já tá tudo calculado / bota a boca no trombone.
Aleluia, aleluia, peixe no prato farinha na cuia.

Pro Berinho, meu amigo / de quem sou fiel leitor,
Deixo um léxico bem rico / pro dicionário do autor,
Obra rara de penico / é pra bico de doutor.
Pico pico maçarico, quem te deu tamanho bico?

Do espólio que me sobra / pra todos eles eu deixo
Muito óleo de peroba / pra passar na cara e queixo
E azeitar tanta manobra / sempre mudando de eixo.
Eles são do balacobaco / farinha do mesmo saco.

Agora volto ao meu lar / me junto ao capiroto,
no encontro do meu par / cheiro a lama do esgoto.
Do Brasil posso contar / as façanhas do Canhoto.
Oh cobras do caminho / afastem que vou passar.

P.S.: Esse testamento é dedicado à memória dos donos da rima: Heyrton, parceiro em tantos versos e Edilson, filho da dona Pequenina, seresteiro do bairro de Aparecida, em Manaus (AM). Agradeço a interlocução do Mauro Biba e do Zé Se-rindo.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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sábado, 3 de abril de 2010

Punição a padres pedófilos não pode servir de álibi para atacar Igreja

Altino Machado às 1:22 pm

POR MOISÉS DINIZ

A minha adolescência e parte da minha juventude, eu passei dentro de uma congregação religiosa. Os dias mais substantivos da minha vida. E o que tem a ver a minha adolescência religiosa com “as boas intenções de que o inferno está cheio”?

Apesar de abraçar uma fé, uma visão de mundo que não se testa, imaterial, intangível, pós-morte e espiritual, os nossos dias eram integrais, fecundos e ocupados por muita leitura e suor nas hortas e nas quadras de futebol.

Isso significa dizer que, enquanto a gente buscava ver a face secreta de Deus, na sua infinita espiritualidade, nós tínhamos que enfrentar problemas humanos, concretos e cotidianos.

Os pequeninos e terríveis piuns nas hortas, o sol escaldante, o frio nos banhos das 5 horas da madrugada e ainda enfrentávamos uma sexualidade reprimida em pleno vigor juvenil.

Ainda lembro que, uma vez por semana, substituíamos o leite por chá de capim santo (Cymbopogon citratus) no jantar, com pão, farofa de ovos e verdura colhida de nossa própria horta.

Nossos superiores diziam que era um ato de desprendimento material, vinculado ao nosso futuro voto de pobreza que, junto com a castidade e a obediência, nos tornavam verdadeiros discípulos de Jesus.

Mas tarde, meio como desencanto, descobri que aquele chá servia para refluir nossos instintos sexuais, com as suas propriedades febrífugas, sudoríficas, analgésicas, calmantes, antidepressivas, diuréticas e expectorantes. Um excelente chá para acalmar o fogo da juventude.

Quando leio agora os horrores praticados por sacerdotes na Europa e nos Estados Unidos, eu fico consternado e lembro daquele tempo em que, para controlar a nossa sexualidade, era preciso beber chá de capim santo como se fosse um suplício.

Da vasta literatura que tive acesso, ainda lembro das biografias de veneráveis e santos da Igreja que venciam os dias e as noites com seus instrumentos de autoflagelo, de martirização do corpo.

Eles sonhavam em se aproximar da perfeição espiritual de Jesus, capaz de enfrentar as dores inimagináveis da cruz, instrumento de suplício que deu origem ao cristianismo.

Asssim, os religiosos buscavam formas diversas de combater e abater a sua sexualidade. Somente quem viveu aquela experiência, como uma passagem secreta entre o inferno e o céu, pode julgar o que se passa de dor, de desejo, de culpa e de aflição dentro dos muros dos mosteiros e dos conventos.

O que esses padres fizeram com aquelas crianças é tão hediondo que nenhuma punição terrena os alcançará. Como eles devotaram as suas vidas na busca pela salvação, a maior dor que eles sentirão será o fogo eterno da perdição no mais profundo dos infernos.

Então, eles sentirão a dor daquelas crianças, o seu desespero e a sua aflição infantil. Será o momento desses vermes de vestes brancas perceberem o sofrimento daquelas crianças surdas e mudas, daqueles meninos órfãos.

Eu que vivi aqueles anos dentro de uma casa religiosa, sei que esses padres nunca mais terão paz, os vivos e os mortos. A sua consciência os acordará nas madrugadas para ouvir o choro silencioso daquelas crianças. Eles não verão o rosto de Deus.

De parte da sociedade, das forças vivas do mundo laico, cabe exigir cadeia para esses padres. Que todo novo seminarista saiba, depois dessas punições da justiça dos homens, que nenhum crime de pedofilia ficará impune dentro dos mosteiros e dos conventos.

Quanto à Igreja em si, caberá discutir questões internas milenares, como o celibato e o controle social das atividades religiosas. Há verdadeiros tabus nessas questões e somente a Igreja será capaz de vencê-los.

Em 1123, foi declarada a nulidade de casamentos de padres. Mulheres, animais fêmeas, adolescentes belos e até instrumentos musicais foram proibidos nos mosteiros, a fim de diminuir a tentação aos religiosos.

Há opiniões para todos os gostos sobre a influência do celibato na consecução desses crimes de pedofilia. O que se destaca é a quantidade de casos cometidos por padres celibatários e o tempo em que esses crimes ficaram acobertados.

Quanto ao celibato, não entraremos no mérito do debate, por sua profundidade e suas ditas razões teológicas. Ficaremos na questão da ‘cultura do silêncio’ que envolve esses crimes.

A Igreja não pode continuar escondendo crimes contra crianças e achando que ela mesma será capaz de punir os seus padres pedófilos. Já provou que não é capaz, que padece nas mãos do corporativismo santo e do silêncio dos muros religiosos.

A sociedade precisa ter instrumentos de controle da atividade religiosa, porque a busca de Deus se dá através do corpo humano e de seus instrumentos físicos. Enquanto esses padres falavam o nome de Deus na homilia, eles abusavam de crianças nos fundos da sacristia.

O que a sociedade não pode e nem deve controlar é a profissão de fé das nossas igrejas. Esse é o sentimento que se reflete nas centenas de artigos e ensaios que brotam da indignação de cristãos e não cristãos.

Eles exigem um posicionamento mais explícito do Papa Bento XVI e dos seus cardeais. Eles precisam deixar claro que, além das punições aos padres pedófilos, a Igreja não permitirá mais esses crimes silenciosos dentro de seus muros sacrossantos. Esse é o clamor que se ouve nas redações dos jornais, nas escolas e universidades e nos grupos que formam opinião.

Mas, também ouvimos um clamor menor, não menos importante ou sólido. Não aceitaremos que os crimes desses padres pedófilos sejam usados para julgar a Igreja.

As conquistas milenares da Igreja Católica aqui no Ocidente não podem ser destruídas junto com esses crimes. Os padres pedófilos devem ser punidos e segregados do nosso convívio e os milhares de padres e religiosos, que não têm nada a ver com essa lama, devem ser respeitados e apoiados na sua fé e na sua opção de vida.

Milhões de crianças pobres e doentes, pelo mundo afora, foram protegidas, alimentadas, educadas e salvas por esses homens e essas mulheres, nos seus mosteiros, nas suas escolas e nos seus conventos. Eles dedicaram as suas vidas consagradas à vida frágil e pequenina do seu semelhante.

Mulheres pobres, mulheres prostituídas, povos indígenas segregados, ciganos, sem-terras e sem-tetos, sem-empregos e moradia, sem-nada. Todos esses homens e essas mulheres tiveram a proteção dos missionários, de padres, irmãos e freiras, na sua apostólica dedicação.

Por isso não cabe nenhuma malandragem jornalística ou política de misturar essas mulheres e esses homens santos, na sua vida pessoal e apostólica, com esses padres pedófilos. Esses últimos não representam a Igreja.

Quanto ao Papa Bento XVI, em que pese a sua concepção conservadora de mundo, ele é responsável por padres e bispos de todos os matizes ideológicos, daqueles que defendem ditaduras e donos de terras àqueles que são assassinados por defender os mais pobres, os sem-teto da Terra.

Ele representa o homem na sua beleza e na sua perversão. Representa cardeais comprometidos com o que há de mais sórdido na condição humana e o que há de mais atrasado e mais indigno no mundo da política e das finanças.

Mas, nunca é demais lembrar, que Bento XVI também representa milhões de homens e mulheres que acreditam na imortalidade da alma e que professam uma fé inquebrantável, capaz de realizar imensos sacrifícios para mantê-la viva e esperançosa.

Não considero plausível e nem correto do ponto de vista da ética atacar a Igreja nesse momento de dificuldades em que ela se encontra. Fica meio parecido com a hiena, que ri na sua animalidade, enquanto destroça os pedaços apodrecidos do animal putrefato.

Como se, ao redor, não tivesse vida sadia e abundante, ar fresco e rosas, além daquele odor e daquela cena dantesca. A Igreja permanecerá pelos séculos dos séculos, apesar desses vermes que devoraram crianças.

Acredito que Bento XVI saberá, nesse instante difícil para a sua Igreja, ser mais padre do que político. Creio que ele saberá distinguir o que é sadia exigência da sociedade, clamando punição aos padres pedófilos, e o que seja malandragem de quem quer golpear a Igreja e a sua história.

O velho Papa saberá que os cristãos e os seus amigos estão, aqui fora, apreensivos e solidários, exigindo que se separe o joio do trigo, mas que não se jogue o lixo para dentro dos muros. Porque “de boas intenções o inferno está cheio”.

Moisés Diniz é autor do livro O Santo de Deu e deputado estadual pelo PCdoB do Acre

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Voando vai a cotovia

Altino Machado às 8:28 am

THIAGO DE MELLO

Jornalista e cronista Armando Nogueira

Jornalista e cronista Armando Nogueira

Voando contente vai sobre a floresta
meu coração de criança. Sabe a festa
esta viagem que dura mais de um dia
pela água e pelo céu. Mais andaria
só para ouvir de novo a fala mansa
de certo amigo. A vida vale a pena.

( Para o Armando
No céu, voando, 1990)

Valeu. Vinte anos depois
atravesso o céu de novo
preciso tanto estar junto
do amigo que deu beleza
e ventura à minha vida,
à dele tão parecida,
que as duas se amalgamavam
pelo sal das diferenças.

Só que desta vez não vamos
nos dar o abraço ritual
com os versos do Bandeira.

Eu lhe dizia:

- Alô, cotovia,
por onde andaste, que tanata
saudade me deixaste?

Ele sempre respondia:

- Andei onde deu o vento,
onde foi meu pensamento.
- Muito contas, cotovia!
E que otras terras distantes
visitaste, dize ao triste ?

Desta vez, tanto eu queria!,
Armando não me responde.
Não vou ouvir a sua suave
fala de sabedoria.
Só vou ver,
pela derradeira vez,
o meu amigo dormindo.

Sei que voando vai distante,
muito distante
a querida cotovia.

Thiago de Mello, 84, é poeta amazonense

Foto: Rudy Trindade/ Agif/Gazeta Press

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