Terra Magazine

segunda-feira, 29 de março de 2010

Jorge Viana: política do PT e PSDB, a partir de SP, é prejudicial para o Brasil

Altino Machado às 1:20 pm
Jorge Viana, ex-governador do Acre

Jorge Viana, ex-governador: São Paulo contamina a política nacional

O engenheiro florestal Jorge Viana, 50, se afasta nesta quarta-feira, 31, da presidência do Conselho de Administração da Helibrás, a maior fabricante de helicóptero da América do Sul, para estar apto a concorrer pela primeira vez a um mandato parlamentar.

Ex-prefeito de Rio Branco e ex-governador do Acre por dois mandatos, Jorge Viana é considerado um candidato imbatível para uma das duas vagas ao Senado no Estado.

Viana é principal protagonista de uma engenharia política que já assegurou ao PT do Acre uma marca histórica: o partido governa o Estado há três mandatos consecutivos e o senador Tião Viana, irmão de Jorge, também já é considerado candidato imbatível ao governo estadual.

Quando tanto poder terá fim?

- Eu não posso fazer previsão de quando terá fim. O que eu posso dizer é que ainda existe uma necessidade muito grande desse trabalho seguir em frente. Esse é um trabalho que tem o dedo, o corpo e o empenho pessoal do presidente Lula. Ele anda aqui no Acre desde 1980. De um jeito ou de outro, ajudou na formação de todos nós.

Viana não esconde o saudosismo quando menciona a aliança do PT com o PSDB, durante seu primeiro mandato, quando o seu vice era o tucano Edson Cadaxo. A aliança se desfez com a saída de Fernando Henrique Cardoso do governo.

O ex-governador acha ruim para o Brasil a política feita a partir do enfrentamento do PT e do PSDB em São Paulo.

- Acho muito prejudicial para o Brasil essa política feita a partir dos interesses de São Paulo, o que contamina a política no plano nacional. Isso é muito forte no PSDB e acontece até em parte no PT.

Leia os principais trechos da entrevista:

BLOG DA AMAZÔNIA - O PT está há três mandatos consecutivos no governo do Acre. O senador Tião Viana, seu irmão, deverá ser o próximo candidato a governador e é considerado imbatível. Caso ele seja reeleito serão 20 anos de PT no governo do Acre. Quando tanto poder terá fim?
JORGE VIANA
- O Acre vivia fora da legalidade. O estado de direito era uma figura ausente e foi necessário o empenho de vários instituições, além de um esforço político enorme, para poder vencer uma etapa. Acho que agora é que o Acre está entrando nos trilhos de buscar melhores indicadores sociais e econômicos. A gente está alcançando isso. Eu não posso fazer previsão de quando terá fim. O que eu posso dizer é que ainda existe uma necessidade muito grande desse trabalho seguir em frente. Particularmente, acho muito provável que essa marca histórica, de o PT ter um quarto governo no Acre, se materialize com a candidatura do Tião Viana. Esse é um trabalho que tem o dedo, o corpo e o empenho pessoal do presidente Lula. Ele anda aqui no Acre desde 1980. De um jeito ou de outro, ajudou na formação de todos nós. Acho muito bom que possamos ter mais um mandato para aprofundarmos as mudanças aqui no Acre.

O senhor e o senador Tião Viana e até a presidenciável Marina Silva, do PV, sempre consideraram negativa a disputa entre o PT e o PSDB, em São Paulo, que se estende pelo país.
No Acre, para enfrentar o crime organizado num estado que vivia na ilegalidade e ocupava as páginas policiais da imprensa, tivemos uma aliança singular no Brasil. Ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, com acordo do PT, que aprovou em congresso, e com acordo da direção nacional do PSDB, nós estabelecemos uma aliança que foi muito positiva. Tive como vice-governador Edson Cadaxo e isso foi determinante para que a gente pudesse tirar o Acre da situação em que ele vivia.

O que aconteceu após a saída do presidente FHC?
Acho que o PSDB piorou bastante. Desde então, prevaleceu dentro do PSDB uma hegemonia paulista da qual nós somos vítimas. Imediatamente eles retiraram o PSDB da aliança conosco aqui no Acre e deixamos de ter uma experiência que era singular na política brasileira. Acho muito ruim para o Brasil essa política feita a partir do enfrentamento do PT e do PSDB que ocorre em São Paulo. Mas o PSDB piorou muito nos últimos anos. Basta fazer qualquer pesquisa que para constatar que o PSDB, após ter passado oito anos no governo, tem menos de 10% de preferência da população, quando o PT beira os 30%. É sinal de que muita coisa errada aconteceu. Acho muito prejudicial para o Brasil essa política feita a partir dos interesses de São Paulo, o que contamina a política no plano nacional. Isso é muito forte no PSDB e acontece até em parte no PT.

O senhor acredita que essa relação possa ser alterada?
Acho que hoje não existe ambiente para mudar. É até salutar que haja duas forças políticas como alternativa de poder em disputa. O que não é salutar é quando uma dessas forças está no governo faça alianças que são problemáticas. Isso já ocorreu com o PSDB e também com o PT. Acho que a gente tem que correr urgente para ter reforma política no Brasil. É necessário para que a gente possa ter partidos políticos mais sólidos e para que sejam constituídas alianças mais sólidas, mesmo que para isso PSDB e PT tenham que ficar cada um na sua posição.

Como é ser candidato a uma cadeira no Senado com tanto favoritismo?
O pior que pode ocorrer é alguém que nem é ainda candidato e mesmo que venha a assumir uma candidatura daqui a um mês, partir do pressuposto de que a eleição é fácil ou de que o favoritismo é pleno. Eleição envolve eleitor e eleitor para mim é algo que tem que ser respeitado, o que não é comum no Brasil. Uma das coisas que todo cidadão brasileiro tem e que é só dele é o voto. Vou desprezar qualquer idéia de favoritismo e vou fazer uma campanha como se estivesse sendo a minha primeira. Quero fazer isso de modo que possa me tornar uma referência de honestidade e ética para o Brasil, isto é, com uma candidatura sem esquemas e estruturas materiais que possam afrontar a realidade brasileira.

Nesse sentido, a senadora Marina Silva parece que fará uma candidatura como antigamente, tendo pouco tempo na TV e usando aviões de carreira para se deslocar como candidata à Presidência pelo PV. Como avalia a candidatura dela?
A situação nossa, no Acre, não é nada confortável porque houve a saída da Marina do PT. Foi algo que nos deixou muito tristes. Ela nos ajudou a construir tudo isso. Respeito a opção dela. Ela está tentando dar a contribuição del. Mas nós temos uma relação afetiva com o Lula, que nos deu as melhores oportunidades para mim, para a Marina e pro governo do Acre. Então o senador Tião Viana, o governador Binho Marques e eu vamos fazer o possível para que o projeto do presidente Lula tenha continuidade. Vamos fazer isso a partir de uma disciplina partidária que temos, mas seria falso negar que sinto falta da saída da Marina do PT e do nosso projeto.

Embora o colégio eleitoral do Acre não tenha peso no país, o eleitorado vai preferir Dilma Roussef ou Marina Silva?
Quando existe um candidato local, como Ciro Gomes no Ceará, Marina no Acre ou Dilma, que tem a sorte de ser de dois lugares, o Rio Grande do Sul e Minas Gerais, o candidato local tem uma vantagem enorme. Por acreana e pelo trabalho dela, Marina tem uma vantagem enorme. Vamos fazer o possível para que o projeto do presidente Lula possa ter uma votação expressiva no Acre.

Marina Silva já disse que apóia a candidatura de Tião Viana ao governo do Acre.
Aqui no Acre vai se dar uma coisa inusitada caso Ciro Gomes seja candidato. Teremos Marina, Ciro e Dilma dizendo que nos apóia ao governo. Acabo de fazer uma viagem para Harvard, onde fui convidado a fazer uma palestra sobre o caso político do Acre. é um estado pequeno, com uma população pequeníssima, com um PIB econômico pequeno, mas que dispõe de um PIB político tão diferenciado e influente. Até recentemente, a Marina era ministra do Meio Ambiente e o Tião presidente do Senado. Isso não acontece com outros estados que são mais influentes do ponto de vista econômico ou populacional. Harvard queria saber como isso acontece. Falei que isso é a soma de pelo menos três fatores: dispor de propostas muito interessantes, pessoas interessantes e ambiente político para que essas propostas possam se materializar. O Acre é a terra de Chico Mendes, o maior ambientalista da história. O presidente Lula criou uma relação umbilical com o Acre quando veio aqui chorar nossos mortos e nas horas de maior alegria. Ele também investiu na nossa formação e nos deu as maiores oportunidades políticas.

O Acre vivia muitos problemas…
O eleitor entende a necessidade de um projeto como o que está em curso no Acre, de investimento nas áreas sociais, de infra-estrutura e de consolidação de um modelo econômico de baixo carbono. É necessário que tenha mais esforço e união de todos para que se avance um pouco mais. Quando a gente alcançar um nível mais elevado de cidadania ou de florestania, como nós chamamos, acho que a população compreenderá que estará cumprida uma etapa e vai querer entrar nos detalhes.

Nenhuma chance de que o vice de Dilma Roussef seja alguém do Norte,  ligado à Amazônia? Especulava-se o nome de Eduardo Braga, governador do Amazonas. O que acha?
O PT tomou a decisão de priorizar aliança com o PMDB. É uma aliança estratégica para ganhar a eleição e governar.

Eduardo Braga é do PMDB.
Sim, mas aí já entra… O PMDB tem uma dificuldade de criar uma unidade interna. Acho que hoje a pessoa que pode criar esse ambiente de unidade interna é o deputado Michel Temer, que é o próprio presidente do partido. O tema Amazônia está cada vez mais presente na vida das pessoas, nos negócios e também na política. Falei pra Marina que a luta da sustentabilidade a gente já está ganhando. Pode não estar na intensidade que a gente quer, mas  ele já está muito presente. Claro que quem quer ser moderno tem que incorporar a sutentabilidade, a temática ambiental. Isso está bem colocado no governo do presidente Lula e será reafirmado no governo da ministra Dilma.

Foto: Odair Leal/Agência Aleac

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domingo, 28 de março de 2010

Lembrança dos crimes da ditadura militar: fazei isso em memória delas

Altino Machado às 7:55 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

São mulheres de diferentes cidades do Brasil. Algumas amamentavam. Outras, grávidas, pariram na prisão ou, com a violência sofrida, abortaram. Não mereciam o inferno pelo qual passaram, ainda que fossem bandidas e pistoleiras. Não eram. Eram estudantes, professoras, jornalistas, médicas, assistentes sociais, bancárias, donas de casa. Quase todas militantes, inconformadas com a ditadura militar que em 1964 derrubou o presidente eleito. Foram presas, torturadas, violentadas. Muitas morreram ou desapareceram lutando para que hoje nós vivêssemos numa democracia.

As histórias de 45 dessas mulheres mortas ou desaparecidas estão contadas no livro “Luta, Substantivo Feminino”, lançado quinta-feira passada, na PUC de São Paulo, na presença de mais de 500 pessoas. O livro contém ainda o testemunho de 27 sobreviventes e muitas fotos. Se um poste ouvir os depoimentos dilacerantes delas, o poste vai chorar diante da covardia dos seus algozes. Dá vergonha viver num mundo que não foi capaz de impedir crimes hediondos contra mulheres indefesas, cometidos por agentes do Estado pagos com o dinheiro do contribuinte.

Rose Nogueira - jornalista, presa em 1969, em São Paulo, onde vive hoje. “Sobe depressa, Miss Brasil’, dizia o torturador enquanto me empurrava e beliscava minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os ‘40 dias’ do parto. Riram mais ainda quando ele veio para cima de mim e abriu meu vestido. Segurei os seios, o leite escorreu. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele (delegado Fleury) ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco. O torturador zombava: ‘Esse leitinho o nenê não vai ter mais’”.

Izabel Fávero - professora, presa em 1970, em Nova Aurora (PR). Hoje, vive no Recife, onde é docente universitária: “Eu, meu companheiro e os pais dele fomos torturados a noite toda ali, um na frente do outro. Era muito choque elétrico. Fomos literalmente saqueados. Levaram tudo o que tínhamos: as economias do meu sogro, a roupa de cama e até o meu enxoval. No dia seguinte, eu e meu companheiro fomos torturados pelo capitão Júlio Cerdá Mendes e pelo tenente Mário Expedito Ostrovski. Foi pau de arara, choques elétricos, jogo de empurrar e ameaças de estupro. Eu estava grávida de dois meses, e eles estavam sabendo. No quinto dia, depois de muito choque, pau de arara, ameaça de estupro e insultos, eu abortei. Quando melhorei, voltaram a me torturar”.

Hecilda Fontelles Veiga - estudante de Ciências Sociais, presa em 1971, em Brasília. Hoje, vive em Belém, onde é professora da Universidade Federal do Pará. “Quando fui presa, minha barriga de cinco meses de gravidez já estava bem visível. Fui levada à delegacia da Polícia Federal, onde, diante da minha recusa em dar informações a respeito de meu marido, Paulo Fontelles, comecei a ouvir, sob socos e pontapés: ‘Filho dessa raça não deve nascer’. (…) me colocaram na cadeira do dragão, bateram em meu rosto, pescoço, pernas, e fui submetida à ‘tortura cientifica’. Da cadeira em que sentávamos saíam uns fios, que subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios. As sensações que aquilo provocava eram indescritíveis: calor, frio, asfixia. Aí, levaram-me ao hospital da Guarnição de Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo. Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e fez o corte sem anestesia”.

Yara Spadini - assistente social presa em 1971, em São Paulo. Hoje, vive na mesma cidade, onde é professora aposentada da PUC. “Era muita gente em volta de mim. Um deles me deu pontapés e disse: ‘Você, com essa cara de filha de Maria, é uma filha da puta’. E me dava chutes. Depois, me levaram para a sala de tortura. Aí, começaram a me dar choques direto da tomada no tornozelo. Eram choques seguidos no mesmo lugar”.

Inês Etienne Romeu - bancária, presa em São Paulo, em 1971. Hoje, vive em Belo Horizonte. “Fui conduzida para uma casa em Petrópolis. O dr. Roberto, um dos mais brutais torturadores, arrastou-me pelo chão, segurando-me pelos cabelos. Depois, tentou me estrangular e só me largou quando perdi os sentidos. Esbofetearam-me e deram-me pancadas na cabeça. Fui espancada várias vezes e levava choques elétricos na cabeça, nos pés, nas mãos e nos seios. O ‘Márcio’ invadia minha cela para ‘examinar’ meu ânus e verificar se o ‘Camarão’ havia praticado sodomia comigo. Esse mesmo ‘Márcio’ obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante esse período fui estuprada duas vezes pelo ‘Camarão’ e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros”.

Ignez Maria Raminger - estudante de Medicina Veterinária presa em 1970, em Porto Alegre, onde trabalha atualmente como técnica da Secretaria de Saúde. “Fui levada para o Dops, onde me submeteram a torturas como cadeira do dragão e pau de arara. Davam choques em várias partes do corpo, inclusive nos genitais. De violência sexual, só não houve cópula, mas metiam os dedos na minha vagina, enfiavam cassetete no ânus. Isso, além das obscenidades que falavam. Havia muita humilhação. E eu fui muito torturada, juntamente com o Gustavo [Buarque Schiller], porque descobriram que era meu companheiro”.

Dilea Frate - estudante de Jornalismo presa em 1975, em São Paulo. Hoje, vive no Rio de Janeiro, onde é jornalista e escritora. “Dois homens entraram em casa e me sequestraram, juntamente com meu marido, o jornalista Paulo Markun. No DOI-Codi de São Paulo, levei choques nas mãos, nos pés e nas orelhas, alguns tapas e socos. Num determinado momento, eles extrapolaram e, rindo, puseram fogo nos meus cabelos, que passavam da cintura”.

Cecília Coimbra - estudante de Psicologia presa em 1970, no Rio. Hoje, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais e professora de Psicologia da Universidade Federal Fluminense: “Os guardas que me levavam, frequentemente encapuzada, percebiam minha fragilidade e constantemente praticavam vários abusos sexuais contra mim. Os choques elétricos no meu corpo nu e molhado eram cada vez mais intensos. Me senti desintegrar: a bexiga e os esfíncteres sem nenhum controle. ‘Isso não pode estar acontecendo: é um pesadelo… Eu não estou aqui…’, pensei. Vi meus três irmãos no DOI-Codi/RJ. Sem nenhuma militância política, foram sequestrados em suas casas, presos e torturados”.

Maria Amélia de Almeida Teles - professora de educação artística presa em 1972, em São Paulo. Hoje é diretora da União de Mulheres de São Paulo. “Fomos levados diretamente para a Oban. Eu vi que quem comandava a operação do alto da escada era o coronel Ustra. Subi dois degraus e disse: ‘Isso que vocês estão fazendo é um absurdo’. Ele disse: ‘Foda-se, sua terrorista’, e bateu no meu rosto. Eu rolei no pátio. Aí, fui agarrada e arrastada para dentro. Me amarraram na cadeira do dragão, nua, e me deram choque no ânus, na vagina, no umbigo, no seio, na boca, no ouvido. Fiquei nessa cadeira, nua, e os caras se esfregavam em mim, se masturbavam em cima de mim. Mas com certeza a pior tortura foi ver meus filhos entrando na sala quando eu estava na cadeira do dragão. Eu estava nua, toda urinada por conta dos choques”.

São muitos os depoimentos, que nos deixam envergonhados, indignados, estarrecidos, duvidando da natureza humana, especialmente porque sabemos que não foi uma aberração, um desvio de conduta de alguns indivíduos criminosos, mas uma política de Estado, que estimulou a tortura, a ponto de garantir a não punição a seus autores, com a concordância e a conivência de muita gente boa “em nome da conciliação nacional”.

No lançamento do livro na PUC, a enfermeira Áurea Moretti, torturada em 1969, pediu a palavra para dizer que a anistia foi inócua, porque ela cumpriu pena de mais de quatro anos de cadeia, mas seus torturadores nem sequer foram processados pelos crimes que cometeram: “Uma vez eu vi um deles na rua, estava de óculos escuros e olhava o mundo por cima. Eu estava com minha filha e tremi”.

Os fantasmas que ainda assombram nossa história recente precisam ser exorcizados, como uma garantia de que nunca mais possam ser ressuscitados - escreve a ministra Nilcea Freire, ex-reitora da UERJ, na apresentação do livro, que para ela significa o “reconhecimento do papel feminino fundamental nas lutas de resistência à ditadura”.

Este é o terceiro livro da série “Direito à Memória e à Verdade”, editado pela Secretaria de Direitos Humanos (SEDH) em parceria com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. O primeiro tratou de 40 afrodescendentes que morreram na luta contra o regime militar. O segundo contou a “História dos meninos e meninas marcados pela ditadura”. Eles podem ser baixados no site da SEDH.

O golpe militar de 1964 que envelhece, mas não morre, completa 46 anos nos próximos dias. Essa é uma ocasião oportuna para lançar o livro em todas as capitais brasileiras. No Amazonas, as duas reitoras - Marilene Correa da UEA e Márcia Perales da UFAM - podiam muito bem organizar o evento em Manaus e convidar a sua colega Nilcea Freire para abri-lo. Afinal, preservar a memória é um dos deveres da universidade. As novas gerações precisam saber o que aconteceu.

A lembrança de crimes tão monstruosos contra a maternidade, contra a mulher, contra a dignidade feminina, contra a vida, é dolorosa também para quem escreve e para quem lê. É como o sacrifício da missa para quem nele crê. A gente tem de lembrar diariamente para não ser condenado a repeti-lo: fazei isso em memória delas.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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segunda-feira, 22 de março de 2010

Santo Daime: mídia deturpa e agride história da única religião genuinamente brasileira

Altino Machado às 6:44 am

POR MOISÉS DINIZ

A revista Veja acaba de publicar uma sensacionalista reportagem sobre o assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas, 53, e de seu filho Raoni, 25. Na reportagem, sem nenhuma base material, a revista acusa o criminoso Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, 24, Cadu, de ter ingerido ayahuasca, levando-o a cometer o crime.

De forma irresponsável e leviana, a revista acusa o uso da ayahuasca como causa do crime e passa a agredir a história dos três líderes que, aqui no Acre, fundaram religiões amazônicas, de raízes indígenas: o mestre Raimundo Irineu Serra, o mestre Daniel Pereira de Matos e mestre Gabriel.

Na tentativa de dar base científica à reportagem, a revista Veja produz um Frankenstein de intolerância religiosa, de desinformação e de preconceito com religiões amazônicas e indígenas. Em nenhum momento cita um estudo científico, com suas fontes e suas provas acadêmicas.

Quando cita a Associação Brasileira de Psiquiatria, não apresenta nenhum especialista, nenhuma fonte demonstrativa ou qualquer prova do que escreve na reportagem. Apenas apresenta a caricatura de um “bacana” com transtorno psíquico, esquizofrênico, que fumava maconha, e que tinha uma mãe e uma tia-avó também esquizofrênicas.

Não apresenta outros casos semelhantes pelo Brasil afora. São mais de 200 centros, entre União do Vegetal e Santo Daime, com mais de 30 mil seguidores. Por que o caso Glauco deveria servir de regra para uma religião que já completou mais de meio século sem um único caso de violência ou morte entre aqueles que a praticam?

Aqui no Acre, entre as igrejas do Alto Santo, Barquinha e União do Vegetal, são milhares de seguidores gozando de elevada qualidade de vida, respeitados socialmente e livres das pragas do alcoolismo e do consumo de drogas.

Aqui no Acre, entre os seguidores do Santo Daime, da UDV e da Barquinha, há juízes e promotores, jornalistas renomados, deputados e prefeitos, médicos e economistas, empresários, professores de universidades, delegados, policiais, membros de academias e de instituições laicas e respeitadas.

Homens e mulheres que estudam, acessam as bibliotecas e estão informados sobre os avanços da ciência, as curvas da economia e da política e as reportagens fantasiosas, levianas, preconceituosas, anticientíficas e mentirosas de Veja.

Milhares de jovens escaparam das grades dos presídios e até da morte porque abraçaram a religião dos entes mágicos da floresta, das ancestrais aldeias indígenas e da fraternidade de viver como irmãos nos dias de louvor, sob a simplicidade de seus hinos e do consumo ritualístico da ayahuasca.

Não há um único caso de agressão física, de violência, de distúrbio ou de morte entre os seguidores da UDV, do Santo Daime ou da Barquinha, em mais de meio século de religião, entre milhares de seguidores.

A revista Veja deturpou tudo: a história e a resistência dos líderes religiosos, o papel espiritual e social que cumpre as igrejas ayahuasqueiras, a origem indígena milenar e a longa tradição de vida saudável de seus membros. A revista Veja só não esqueceu daquilo que está lhe ficando peculiar: escrever com preconceito e leviandade. Veja sequer respeitou a história.

A ayahuasca serviu como base para o estabelecimento de diferentes tradições espirituais por comunidades indígenas nos países amazônicos desde tempos imemoriais. Os povos indígenas utilizaram a ayahuasca como um elo imaterial com o divino que estava entre as árvores, os lagos silenciosos, os igarapés. É que, para eles, a natureza possuía alma e vontade própria.

Povos indígenas do Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia e Equador, há quatro mil anos, utilizam a ayahuasca em seus rituais sagrados, como o padre usa o vinho sacramental na Eucaristia e os indígenas bebem o peyote nas cerimônias sincréticas da Igreja Nativa Americana.

O uso ritualístico da ayahuasca é bem mais antigo que o consumo do saquê ou Ki, bebida sagrada do Xintoísmo, usada a partir de 300 a.C, feito do arroz e fermentado pela saliva feminina, sendo cuspida pelas jovens virgens em tachos.

As origens do uso da ayahuasca nos países amazônicos remontam à Pré-história. Há evidências arqueológicas através de potes e desenhos que nos levam a afirmar que o uso da ayahuasca ocorra desde 2 mil a.C.

A utilização da ayahuasca pelo homem branco é uma acolhida da espiritualidade das florestas tropicais, um banho de rio milenar e sentimental do tempo em que os povos amazônicos viviam em fraternidade econômica e religiosa.

Os ataques ao uso ritualístico-religioso da ayahuasca, como bebida sacramental, nos autoriza a afirmar que podem estar nascendo interesses menos inocentes e mais poderosos do que uma simples preocupação acadêmica com a utilização de substâncias psicoativas.

Nunca é bom esquecer que a ayahuasca é uma substância natural exclusiva das florestas tropicais dos países amazônicos e pode alimentar interesses econômicos relacionados a patentes e elevar a cobiça sobre a nossa inestimável biodiversidade.

Não custa nada ficar alerta para essa esquizofrenia da grande mídia em atacar o uso ritualístico-religioso da ayahuasca. É mais fácil roubar um pão numa padaria do que uma hóstia no altar, mesmo que os dois sejam feitos do mesmo trigo. Por que tanto interesse em dessacralizar o uso da ayahuasca?

A ayahuasca é uma combinação química simples e ao mesmo tempo complexa, que envolve um cipó e um arbusto endêmicos do imenso continente amazônico. Simples porque a sua primitiva química material da floresta é realizada por homens comuns, do pajé ao ayahuasqueiro dos templos amazônicos.

Complexa porque envolve a elevação de indicadores psico-sociais de qualidade de vida e ajuda a atingir estados ampliados de consciência dos usuários. Isso por si só já alça a ayahuasca a um patamar superior no plano do controle científico dessas duas ervas milenares.

Assim, a ayahuasca ganha contornos políticos por envolver recursos florísticos de inestimável valor psico-social e espiritual. Os seus usuários consideram o “vinho das almas” como um instrumento físico-espiritual que favorece a limpeza interior, a introspecção, o autoconhecimento e a meditação.

Utilizar ayahuasca aqui na Amazônia é beber do próprio poço de nossa ancestralidade e da magia que representa a nossa milenar resistência. Aqui na floresta, protegidos pelos entes fortes de nossa religião animista e natural, nossos ancestrais não precisaram “miscigenar” sua fé.

Não foi necessário fazer como os negros escravos, que deram nomes de santos católicos aos seus deuses africanos. Nossos ancestrais indígenas não precisaram batizar Iemanjá de Nossa Senhora ou Oxossi de São Sebastião para se protegerem da fé unilateral do dono da terra e das almas.

É que entre nós a terra era de todos e o único dono era o senhor da chuva, do orvalho e do sol. A beleza coletiva dos recursos naturais era compartilhada por toda a aldeia, do curumim ao sábio ancião.

A ayahuasca era a essência espiritual dessa convivência material fraterna e universal entre as árvores carinhosas, os riachos irmãos, os pássaros cantores, os peixes, as larvas, os insetos, as flores. A ayahuasca ancestral era o elo entre a terra e o espírito.

Se não fosse uma erva espiritual e mágica, trazida pelas mãos milenares dos povos indígenas amazônicos, ela não teria resistido ao tempo. Por isso é natural que a ayahuasca atraia cada vez mais o homem branco, esmagado pelo destrutivo modo de vida urbano, elitista, ocidental, capitalista.

A ayahuasca não é um chá que se consome como se bebe um líquido ácido qualquer. O seu uso é espiritual e envolve aqueles que o utilizam na mais límpida tradição de amar o próximo e reencontrar os valores que perdemos na caminhada do planeta que se dividiu em castas, cores, fronteiras e etnias.

Não entrarei no debate acadêmico sobre o uso de substâncias psicoativas por parte das religiões milenares, das eras pré-colombianas aos templos dos tempos atuais. Não tenho competência para debater os pontos de vista da medicina, da psicologia ou da etnofarmacologia. Ficarei apenas com os resultados do uso milenar da ayahuasca pelos povos indígenas.

A milenar história amazônica não registra casos de morte ou de seqüelas à saúde dos povos indígena por terem utilizado a ayahuasca. Nenhum índio, nesses séculos de consumo da ayahuasca, deu entrada no hospital dos brancos ou foi curado pelos pajés.

A ayahuasca não é “taliban”, seus usuários não constituem nenhuma seita, eles não são fanáticos, não há um único caso de morte ou de castigo físico que tenha sido resultado do seu consumo ritualístico.

O uso ritualístico da ayahuasca não provoca transes místicos ou de possessão. Ela não age no organismo como a antiga bebida hindu, denominada soma, que se divinizou por afastar o sofrimento, embriagando e elevando as forças vitais.

Depois de 4 mil anos de uso sagrado e ritualístico da ayahuasca, os estudiosos da civilização ocidental erguem argumentos anêmicos e endêmicos de uma sociedade que tem medo do “contato” aberto do homem com a natureza. É que eles têm medo da relação amorosa entre o indivíduo e a natureza com os seus elementos poderosos e coletivos.

Os sábios e avançados incas utilizaram a ayahuasca para consolidar-se como povo, como nação e para ajudar no florescimento da cultura, da matemática, da agricultura e da astronomia. Não é qualquer planta ou cipó que faz um povo, uma história milenar, uma religião.

Só não puderam utilizar a sagrada ayahuasca para produzir metálicos fuzis, pois se assim fosse, não teriam sido dizimados pelos invasores espanhóis. Pizarro não consumiu o “cipó dos mortos”, por isso dizimou tantos guerreiros, mulheres índias, donzelas, pajés, curumins.

A ayahuasca resistiu, venceu os invasores e as suas crenças unilaterais, atravessou os séculos, os milênios, unificou as milenares gerações indígenas e suavizou a dor “civilizaria” das eras pós-colombianas.

A ayahuasca é a religião da terra para o céu, da matéria eterna e natural para o infinito do sonho humano, a religião natural. Uma verdadeira e única religião do Brasil, aliás, uma colossal e genuína religião amazônica e indígena.

Encerro esse ensaio com um relato da experiência física de quem fez uso ritualístico-religioso da ayahuasca:

Lembro de tudo nitidamente. Eu via seres de luz carregando lixo da floresta para dentro de uma caminhonete. Muitos seres e muito lixo. Então perguntei para um deles:

- O que é isso?

Um dos seres me respondeu:

- São as suas máscaras, você não pode ver ainda.

Moisés Diniz é autor do livro O Santo de Deus e deputado estadual pelo PCdoB do Acre. Clique aqui e leia os manifestos (de março de 2006) sobre ayahuasca, de autoria do Centro Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo e do Centro Espírita e Culto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz, os mais tradicionais do Acre.

Foto: Altino Machado

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domingo, 21 de março de 2010

Um amazonense precisa ir à Holanda para conhecer um jornal de Manaus

Altino Machado às 10:03 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

Quem foi Tércio Miranda? Levanta a mão aí quem sabe! Não é nome de rua, de praça, de monumento, de hospital, não é ensinado nas escolas, e nem aparece na mídia. Caiu no esquecimento? Na lembrança oficial sim, mas não na memória subterrânea de alguns lutadores, onde sempre permanece, mesmo nesses tempos bicudos. “A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”, escreveu Milan Kundera.

Tércio Miranda, já falecido, foi um tipógrafo anarquista, que viveu em Manaus no período da borracha. Quem quiser conhecê-lo melhor e lutar contra o poder e o esquecimento, compareça no próximo dia 29, às 16 hs, na Casa do Trabalhador, Rua Marcílio Dias, onde Miranda vai receber uma homenagem póstuma durante o lançamento da edição especial comemorativa dos 96 anos de “A Lucta Social”, jornal que criou em 1914.

Naquela época, a velha ortografia colocava um “c” no meio da luta e escrevia com “ph” palavras que hoje são grafadas com “f”, como pharmácia. Dessa forma, quem falava frases com a boca cheia de farofa feita de farinha espalhava “ph” pra tudo que é lado. Uma brincadeira infantil consistia em pedir ao colega que repetisse “a mamãe é rica porque pode”, esticando os dois lados da boca com o polegar e o indicador.

Foi assim, esticando os dois lados da boca, que “A Lucta Social” abriu o bocão contra os “phoderosos” que “phodiam” tudo: reduzir salários, demitir, aumentar a jornada de trabalho, não pagar horas extras, num momento dramático em que as plantações de borracha no Ceilão e na Malásia faziam a economia do Amazonas mergulhar numa crise profunda. Os arigós e os cabocos abandonavam os seringais e vagavam pelas ruas de Manaus, pedindo esmolas. Solidário, ao lado deles, estava Tércio Miranda.

Cadê a lucta?

Encontrei alguns exemplares desse jornal lá em Amsterdã, na Holanda, no Instituto de História Social (IISG), onde estive em maio de 1972, em companhia do historiador Victor Leonardi, ambos realizando pesquisas para o curso de pós-graduação que seguíamos na França. Quando voltei do exílio, trazia escondido uma cópia xerox de um exemplar com o carimbo: Internationaal Instituut voor Sociales Geschiedenis (IISG) - Amsterdam, que foi usada, em 1979, para editar o jornal do PT local.

Parece surrealista: um amazonense precisa ir à Holanda para conhecer um jornal de Manaus. É que na década de 1960, o IISG, preocupado com a queima de arquivos pelas ditaduras militares, percorreu países da América Latina, comprando documentação histórica de organizações, partidos, sindicatos e particulares. Formou, assim, rico acervo que está guardado num antigo armazém de cacau na zona portuária de Amsterdã, contando a história das lutas, das greves, das condições de trabalho.

Lá está o valente “A Lucta Social”, que traz sob o título a frase: “orgam operário livre”. Ele serviu de referência ao jornal mensal do PT no Amazonas que editamos em 1979. Com linguagem panfletária, sem prejuízo da informação, denunciamos a demissão de trabalhadores no Distrito Industrial, que haviam reclamado da comida podre servida no almoço. Não vou repetir o que aparece em artigos que estão no site Taquiprati: “Cadê a Lucta Social” (21/05/ 2006) e “A Lucta Social: 70 anos depois” (20/07/1984).

O dado novo digno de registro é que o jornal foi recriado pela quarta vez, agora em versão eletrônica (Luctasocial.blogspot.com) por Élson de Melo, “um operário lascado” - como ele se apresenta - da primeira geração do Distrito Industrial, “talvez o único operário remanescente da Diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos, eleito pela Chapa Puxirum, em 1983, que não virou empresário, nem está lotado em cargo público na máquina estatal do governo Lula, Eduardo ou Amazonino”.

Convivi com Elson na época da oposição sindical. Militamos juntos no PT. Tércio Miranda diria, seguramente, que o jornal por ele fundado está agora em boas mãos. A versão eletrônica explica que Elson “aceitou o desafio de retomar a ideia gloriosa de Tércio Miranda (primeira fase), Nicoláo Imentel (segunda fase) e Ribamar Bessa (terceira fase), todos editores do jornal A Lucta Social”.

Quem somos

Li o blog, que atualiza questões vitais para a população amazonense. Discute o meio ambiente, recolhe a polêmica sobre a barragem de Belo Monte e reproduz as informações proporcionadas pelo movimento SOS Encontro das Águas. Informa sobre a Semana do Ecossocialismo, teoriza sobre a economia solidária, não deixa de fora nem temas como a poesia de Ferreira Gullar, a falta d’água em Manaus, o sistema de transporte coletivo conhecido como “estresso”, a situação dos camelôs e até as futricas e brigas internas dentro do PSOL, em reunião num porão da Rua Luiz Antony.

“Não é apenas o desafio de veicular uma nova fase do jornal que nos inquieta. O que nos leva a reeditar A Lucta Social é a falta de perspectiva na qual o Movimento Operário da Zona Franca de Manaus está mergulhado desde os grandes Movimentos Grevistas de 1985, 1986 e 1990. Principalmente quando constatamos que as atuais direções dos principais Sindicatos estão recheadas de burocratas e vendilhões dos direitos e esperanças dos trabalhadores” - escreve Elson no editorial.

Ele explica que “a nova fase do jornal A Lucta Social tem por princípio articular o movimento operário a partir do seu local de trabalho, visa orientar grupos de trabalhadores dentro de um programa de formação política e sindical voltado para o projeto estratégico do proletariado - o Socialismo - isso é, dar forma ao sonho dos criadores do jornal. Nosso objetivo é formar grupos de lutadores comprometidos com a história de transformação social”.

Os amargurados e desiludidos, que não veem mais possibilidade de mudar o mundo, acham que a luta, com “c” ou sem “c”, é coisa do passado, e que o socialismo é algo anacrônico. No entanto, a iniciativa de reeditar A Lucta Social é louvável em todos os sentidos, porque abre uma brecha de esperança e nos ajuda a saber quem, afinal, somos.

Fernand Braudel, historiador francês que não cessou de lutar, realizou pesquisas sobre o mar Mediterrâneo. Ele viveu mais de três anos no Brasil, no final da década de 1930, participando da organização da USP. Disse, com muita sabedoria: “A condição de ser é ter sido”. Cadê A Lucta Social? Está aqui, para nos dizer quem fomos e saber o que somos. A lucta continua.

P.S.:  Impossibilitado de aceitar o convite para o evento na Casa do Trabalhador por residir em outra cidade, me sentirei representado com a presença de dois historiadores da Universidade Federal do Amazonas, Maria Luiza Ugarte Pinheiro e Luiz Balkar Sá Peixoto Pinheiro, organizadores do livro Imprensa Operária no Amazonas.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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quinta-feira, 18 de março de 2010

Survival denuncia à ONU “situação estarrecera” dos guarani no Brasil

Altino Machado às 9:55 am

Relatório da organização Survival International, enviado à ONU, afirma que a situação da etnia guarani, no Mato Grosso do Sul, é uma das piores entre todos os povos indígenas nas Américas. Os guarani perdem suas terras ancestrais para o cultivo da cana-de-açúcar, soja e chá, a criação de gado e programas de assentamento do governo.

A publicação do relatório coincide com o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, no próximo 21 de março.

Segundo a Survival International, os guarani sofrem altíssimos índices de suicídio, desnutrição, detenção injusta e alcoolismo, além de serem alvos regulares de pistoleiros contratados por fazendeiros que se apoderaram de suas terras.

- A recusa em reconhecer os direitos dos guarani a suas terras é a principal causa dessa situação explosiva na qual se encontram os índios - afirma o relatório.

Ele adverte que a crescente demanda por etanol como alternativa à gasolina fará com que os guarani percam mais terras, agravando ainda mais a situação.

O Mato Grosso do Sul é um dos estados mais ricos do país, mas muitos guarani vivem em extrema pobreza. Alguns ocupam tendas na beira de estradas muito movimentadas, outros vivem em “reservas” superpopuladas, onde são dependentes de ajuda do governo.

Após visita ao Brasil em novembro de 2009, a comissária para Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, relatou que, em sua maioria, os povos indígenas do Brasil não estão sendo beneficiados pelo impressionante progresso econômico do país.

- Em vez disso, são dominados pela discriminação e indiferença, acossados de suas terras e obrigados a se envolver com trabalho forçado.

Uma comunidade guarani que vive na beira da estrada, onde três de seus líderes foram assassinados por pistoleiros, declarou:

- O atraso excessivo fere nossa paciência, acaba devagar com a nossa vida, nos expõe ao genocídio.

O diretor da Survival, Stephen Corry, afirmou que o relatório expõe a situação estarrecedora na qual se encontram os guarani.

- É responsabilidade legal e moral do governo brasileiro assegurar que os abusos de direitos humanos e a discriminação racial sofridos pelos guarani cessem. Caso o governo não aja com rapidez e eficiência, mais índios guarani sofrerão e morrerão - disse Corry.

Alguns dados

1. Violência: os guarani sofrem violentos ataques e muitos líderes já foram assassinados. 42 índios da etnia foram mortos no Mato Grosso do Sul em 2008 em função de conflitos internos e externos.

2. Suicídio: o índice de suicídio entre os guarani é um dos mais altos no mundo. Mais de 625 guarani cometeram suicídio desde 1981 (quase 1.5% da população guarani) e, em 2005, o índice de suicídio entre os índios dessa etnia foi 19 vezes mais alto do que o índice nacional. Crianças Guarani de apenas nove anos de idade já terminaram com suas próprias vidas.

3. Desnutrição e saúde debilitada: muitos guarani sofrem de desnutrição, tendo a taxa de mortalidade infantil desse povo indígena atingido mais que o dobro da média nacional. Sua expectativa de vida é bastante reduzida: mais de 20 anos abaixo da média nacional.

4. Detenção injusta: os guarani são freqüentemente detidos injustamente, com pouco ou nenhum acesso a aconselhamento legal e intérpretes. Eles cumprem ‘penas desproporcionalmente duras por ofensas leves’.

5. Exploração de trabalho manual: muitos guarani são forçados a trabalhar no corte de cana-de-açúcar para usinas produtoras de etanol, que atualmente ocupam suas terras. Os índios recebem remuneração baixíssima e são submetidos a condições de trabalho sub-humanas.

Foto: CIMI/Divulgação

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Por causa de mudança no fuso horário, eleitor do Acre terá duas urnas para votar em outubro

Altino Machado às 9:01 am

Os eleitores do Acre terão que votar em duas urnas no próximo dia 3 de outubro. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Ayres Britto, e o presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Acre , desembargador Arquilau Melo, já estabeleceram entendimento em relação ao referendo popular que será realizado sobre a mudança do fuso horário do Acre.

Ficou definido que primeiramente o eleitor acreano votará em uma urna eletrônica para escolher seus candidatos a deputado estadual, deputado federal, dois senadores, governador e presidente da República.

Em seguida, o eleitor votará em outra urna eletrônica para responder à pergunta: “Você é a favor da recente alteração do horário legal promovida no seu Estado?”

A utilização de duas urnas eletrônicas é considerara pela Justiça Eleitoral medida que facilitará o voto do eleitor, além de garantir maior segurança ao sistema de votação.

Leia mais:

Senado aprova referendo para fuso horário do Acre

Arthur Virgílio desiste do projeto de hora única no Brasil pedido pela Globo

Tião Viana quer hora legal no Brasil unificada pela hora da Amazônia

A Justiça Eleitoral realizará audiências públicas para formação de comitês extra-partidários contra e a favor da mudança do fuso horário. Os comitês disporão de espaço gratuito na mídia para que possam fazer suas respectivas campanhas.

- A participação dos comitês se dará fora do horário eleitoral gratuito, mas será cumprida a paridade de tempo exigida  pelo Decreto Legislativo - afirmou Arquilau Melo.

Mudança

O senador Tião Viana (PT-AC), pré-candidato ao governo do Acre, é o autor da Lei 11.662, sancionada em maio de 2008 pelo presidente Lula, que reduziu de duas para uma hora a diferença do fuso horário do Acre em relação à Brasília. Realizada sem consulta à população, gerou insatisfação em decorrência dos transtornos causados no cotidiano das pessoas.

Em novembro do ano passado, o Senado aprovou um Decreto Legislativo, de autoria do deputado Flaviano Melo (PMDB-AC), que dispõe sobre a realização do referendo para que o eleitor acreano decida se quer ou não que o horário oficial do Acre permaneça com uma hora de diferença em relação ao de Brasília.

O movimento político para alterar o fuso horário na região Norte começou após e entrada em vigor dos dispositivos da Portaria 1.220/07, do Ministério da Justiça, que determinam que as emissoras de TV adaptem suas transmissões aos diferentes fusos horários vigentes no país em função da classificação indicativa dos programas.

As emissoras de TV radicalizaram a ofensiva contra a medida, prevista no Estatuto da Criança e Adolescente e na Constituição Federal.

As emissoras de TV tiveram que alterar a grade da programação nos estados da Região Norte e Centro-Oeste, que possuem fuso horário diverso do adotado em Brasília, “atrasando” seus programas em uma hora. Elas alegam que a gravação dos programas tem um custo insuportável.

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terça-feira, 16 de março de 2010

Candidata à reeleição no PA, governadora Ana Julia diz: “Não vejo problema em ter aliança com Jader”

Altino Machado às 1:31 pm
Governadora do Pará, Ana Júlia Carepa

Governadora do Pará, Ana Júlia Carepa

A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT), que concorrerá à reeleição, não costuma medir elogios à senadora Marina Silva , pré-candidata do PV à Presidência. Assim como no Acre, onde o PV apoiará o senador Tião Viana (PT-AC) ao governo estadual, no Pará está quase tudo acertado para que o partido formalize apoio à reeleição da governadora.

- Tenho imenso respeito, mas imenso respeito mesmo, pela Marina. Tenho uma amizade pessoal com ela, o que ajuda muito também, independente de meu partido ter ou não candidato. É obvio que vou votar na candidata do meu partido, mas nunca ouvirão eu falar mal da Marina.

Ana Júlia disse que, embora possa ter alguma divergência com a presidenciável Marina Silva, acima disso está o seu “imenso respeito” à contribuição dela à sustentabilidade ambiental do país.

- Desconhecer essa história seria um absurdo. Isso jamais vai acontecer de minha parte - acrescentou.

Mas a governadora do Pará apoiará e votará mesmo é na correligionária Dilma Roussef, com o argumento de que a atual ministra da Casa Civil reúne condições para dar continuidade ao governo do presidente Lula. Ana Júlia Carepa prefere enxergar os pontos fortes da candidata petista, mas arrisca apontar uma vulnerabilidade:

- Diria que o ponto fraco dela é o fato de ser ainda um nome pouco conhecido.

A governadora do Pará disputará a reeleição com apoio do deputado Jader Barbalho (PMDB-PA), famoso como protagonista de escândalos nacionais.

- Eu lido com isso com muita tranqüilidade. Não vou discutir a moral do meu eleitor. Não vejo problema em ter aliança com Jader Barbalho. O deputado é uma liderança reconhecida no Pará.

Leia os melhores trechos da entrevista:

Sou seguidor de seu Twitter e vejo que a sua agenda está cada dia mais intensa. Isso  já é em decorrência de sua pré-candidatura à reeleição ao governo do Pará?
Na verdade o Twitter deu maior visibilidade para as coisas. Ele nos possibilita essa vantagem de estar fazendo e anunciando. É verdade que minha agenda está bem mais intensa neste ano. Por causa da crise, muita coisa só ficou pronta agora e, claro, estamos tendo que inaugurar. Estou preparando o Pará pro futuro. Dispus-me a fazer um governo que não fosse apenas melhor que os outros, mas um governo de transformação, especialmente de transformação de modelo de desenvolvimento. Aliás, a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento pro Pará foi tema de meu primeiro discurso quando senadora. É isto que estou pondo em prática: agregação de valor dos nossos recursos naturais, fazer nossa agro-indústria, verticalizar nossa política agrícola e de produção mineral. Em vez de exportar ferro gusa pra China, transformá-lo em aço aqui mesmo, gerando empregos no Estado. Também temos enfrentando um problema histórico, que é o da regularização ambiental e fundiária, detalhamento do Zoneamento Ecológico-Econômico, que já fizemos de duas regiões, e agora tramita na Assembléia Legislativa, após audiências públicas. Nós estamos destravando as possibilidades para empreendimentos sustentáveis no Pará.

Lideranças do PV dão como certo que o partido vai apoiar sua candidatura à reeleição…
Eu vejo isso com muita simpatia. O PV está na base de nosso governo com muita identidade. O PV, que defende a sustentabilidade, sabe do meu esforço, do trabalho que estamos fazendo para fazer a regularização fundiária no Pará. Nós temos que saber separar o joio do trigo. Aqui, na Amazônia, tem muita gente que vem ocupar a região e que não é bandida. É gente que quer trabalhar e é meu dever ocupar essas pessoas, fazer com que elas possam entrar na legalidade. Não adianta eu fechar um monte de empreendimentos. O PV é um partido que tem essa percepção. A ausência de regularização fundiária na Amazônia é a melhor amiga de grileiros ou dos crimes ambientais porque não se tem como identificar quem é quem.

Sendo assim, durante a campanha a senhora poderá ter em seu palanque a senadora Marina Silva, presidenciável do PV, apoiando a sua candidatura à reeleição?
Eu acho bom. Tenho imenso respeito, mas imenso respeito mesmo, pela Marina. Tenho uma amizade pessoal com ela, o que ajuda muito também, independente de meu partido ter ou não candidato. É obvio que vou votar na candidata do meu partido, mas nunca ouvirão eu falar mal da Marina.

Por que?
Por causa desse respeito que tenho por ela. Mesmo que eu possa ter alguma divergência, acima de tudo está o meu imenso respeito à contribuição dela à sustentabilidade ambiental deste país. Desconhecer essa história seria um absurdo. Isso jamais vai acontecer de minha parte.

Além disso, agiram no Pará em parceria quando ela era ministra do Meio Ambiente, não?
Muitas e muitas vezes. O PV está conosco porque tem identidade com os ideais de nosso governo. Tem conhecimento de que estamos regularizando mais de 1,8 milhão de hectares, beneficiando centenas de comunidades.

O que destacaria mais como contribuição de Marina Silva ao se lançar candidata à Presidência?
A Marina vai evidenciar mais claramente essa discussão sobre sustentabilidade, que não deve ser apenas da Amazônia. Uma das coisas que estamos querendo que aconteça, que a própria seccional da Ordem dos Advogados está cobrando, é que o Ministério Público, por exemplo, cobre regularização ambiental não apenas do Pará, mas das demais regiões brasileiras. Do contrário, parece que cobranças relativas ao meio ambiente só devem envolver quem vive na Amazônia. Os demais podem viver na ilegalidade, podem desrespeitar a lei? Não pode ser assim. Isso demanda que o Ministério Público tenha apenas um discurso e não dois, isto é, deixe de ter um discurso pro Pará e outro para os demais Estados brasileiros. Outros biomas precisam ser respeitados também. Não aceitamos que seja diferente.

Recentemente, o governador do Acre, Binho Marques, também petista, disse que alterar o Código Florestal é um risco e representa retrocesso às políticas de desenvolvimento sustentável do Acre. O que a senhora pensa a respeito?
Acho que precisamos aperfeiçoar o Código Florestal Brasileiro, sim. A realidade do Acre é completamente distinta da realidade do Pará. Não quero entrar em detalhes sobre o que dever ser reformado ou não. Como nós vamos manter um Código Florestal antigo como o nosso? Ele precisa mesmo ser aperfeiçoado. Do contrário, nós não vamos ter mecanismos de proteção das florestas. E a floresta que está ocupada? Não estou falando de uma ocupação qualquer, mas de ocupações que têm 40 anos ou mais. Temos que regulamentar isso. Nós estamos fomentando o reflorescimento no Pará com nosso programa de 1 bilhão de árvores. E uma das formas de incentivar o reflorestamemto é com a recuperação da área de reserva legal. Permitimos num primeiro momento o plantio de espécies exóticas, nativas, frutíferas e que se possa fazer o manejo sustentável. Essa é uma forma de se incentivar a regularização, a recomposição, de forma economicamente produtiva. Se não fizermos isso, você acha que as pessoas vão recompor sem ganhar nada? É preciso entender que temos que dar uma solução para que as pessoas possam viver melhor. Esse é o rumo da vida.

Existem muitas multinacionais que exploram  há dezenas de anos os recursos naturais do Pará. O que a senhora tem feito para elevar os dividendos dessa exploração em benefício da população?
Isso tanto me preocupa que estou fazendo um grande esforço para agregar valor na exploração de nossos recursos naturais. No leilão da usina de Belo Monte nós conseguimos incluir, diferente do que aconteceu no Madeira, que no mínimo 20% da produção de energia seja destinada aos produtores porque a bauxita está saindo de Juruti para outros países e outros estados da federação para ser transformada em alumínio. Se é transformada em alumínio em outros locais, que haja energia para que ela seja transformada aqui, gerando emprego no Pará. Nós estamos implantando um novo modelo de desenvolvimento.

A senhora escreveu no seu microblog que a hidrelétrica de Belo Monte é um exemplo de que é possível um grande empreendimento com sustentabilidade social e ambiental. Apesar disso, existem muitas críticas de organizações do movimento social por conta dos impactos da obra.
Algumas organizações precisam se reciclar e informar melhor. Algumas pessoas se apegam a alguns dogmas. Outra briga que estamos tendo é em relação à reforma tributária. No ano passado, pedi ardorosamente que ela fosse votada. Ela está prevendo que uma parte do ICMS seja cobrada de quem produz energia elétrica. Então o Pará ganha com isso porque é produtor de energia elétrica. Queremos também ganhar na produção. É uma das poucas coisas que se cobra no destino. Quase tudo hoje é cobrado na origem. Acho que São Paulo, um dos estados mais industrializados, ganha a maior parte do ICMS do país. Por que quando se trata de energia elétrica não é assim? Temos que mudar isso no Congresso Nacional.

A senhora falou de Marina Silva, pré-candidata à Presidência pelo PV. Como avalia a outra pré-candita Dilma Roussef, do PT?
Não tenho dúvida de que a ministra Dilma, pelo fato de estar no governo Lula, reúne todas as condições necessárias para dar continuidade ao que faz o presidente Lula.

Enxerga na candidata dela alguma vulnerabilidade?
Todos nós temos fragilidade e pontos fortes. Não procuro ver as fragilidades. Procuro ressaltar os pontos fortes, pois acho que isso ela tem muito: conhecimento do país, das políticas públicas que estão sendo realizadas, compromisso com a sustentabilidade. Mas diria que o ponto fraco dela é o fato de ser ainda um nome pouco conhecido.

Última pergunta: o seu maior cabo eleitoral no Pará é o deputado Jader Barbalho, do PMDB, famoso como protagonistas de escândalos nacionais. Como a senhora avalia questionamentos em relação ao apoio dele?
Eu lido com isso com muita tranqüilidade. Não vou discutir a moral do meu eleitor. Não vejo problema em ter aliança com Jader Barbalho. O deputado é uma liderança reconhecida no Pará. Foi o deputado federal mais votado no Pará, com mais de 300 mil votos, foi governador duas vezes e é presidente de um partido político. Eu negocio com partido político. Portanto, não vejo nenhum tipo de problema. Eu quero fazer aliança com o PMDB, que é um partido forte. Precisamos entender que nem o PMDB nem o PT consegue ter a representatividade total da política brasileira. Cada um tem uma fatia do eleitorado.

Foto: David Alves/Ag Pa

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domingo, 14 de março de 2010

Dicionário do Berinho: a derrota do pensamento no Amazonas

Altino Machado às 11:33 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

O escritor irlandês Oscar Wilde escreveu e publicou uma crítica literária impiedosa de um livro que ele não leu como, depois, confessou. Questionado sobre a legitimidade de tal julgamento, ironizou:

- Nunca leio os livros que critico, para não me deixar influenciar.

Não segui o seu conselho. Li de cabo a rabo o “Dicionário de Turismo”, de Robério Braga, sempiterno Secretário de Estado da Cultura, Turismo e Desporto do Amazonas. Dessa forma, peço desculpas ao leitor se perdi a objetividade e me deixei fascinar pelas pérolas que lá encontrei.

Os comentários que vou fazer aqui estão, portanto, contaminados por esse fascínio. Quem me vendeu o peixe foi Elson Farias, um poeta dos bons, que escreveu a orelha do dicionário e nos garante que ele pode ser útil aos turistas, agências de viagem e profissionais do setor:

- Tenho certeza de que este é um livro escrito para servir - concluiu o poeta.  Acreditei. Comprei um exemplar.

O livro, editado em São Paulo, foi impresso em Erechim (RS), financiado pela Fundação Lourenço Braga, de Manaus que, por acaso, pertence à família do autor. Para testá-lo, imaginei como poderia ser usado por um turista gaúcho que quer conhecer a Amazônia e que pegou lá na gráfica de sua cidade um exemplar dessa obra-prima de Robério Braga – o Berinho.

A primeira indecisão do Gauchão é na compra das passagens. Consulta, então, o dicionário do Berinho e lá, na letra “B” (pg. 46) encontra duas definições geniais, que vou colocar entre aspas para não pensarem que estou plagiando criação alheia.

“Bilhete de Ida – Aquele que cobre apenas uma direção”.

“Bilhete de ida-e-volta – aquele que cobre a viagem de ida-e-volta”.

O Gauchão vacila, não crê no que seus olhos leem: “Será que entendi bem?”. Tira a dúvida com outro verbete na letra “I”, onde Berinho insiste:

“Ida-e-volta – viagem em que o passageiro retorna, pelo mesmo itinerário, ao ponto de partida” (p.144).

O Gauchão fica confuso, porque deseja voltar de Manaus a Porto Alegre por outra rota, via Alto Solimões, onde pretende ver as obras fantasmas do governador Dudu Braga. Mas, nesse caso, a viagem é de ida-e-volta ou só de ida? Na letra “V”, Berinho, que está obcecado com idas e voltas, liquida de vez o assunto:

“Viagem – Deslocamento de uma pessoa para localidade diversa de sua residência. Viagem de ida-e-volta, que pode ser realizada: a) de um ponto a outro com a volta pela mesma rota; b) com a volta por uma rota diferente” (p.235).

Barbaridade, tchê! O Gauchão, que podia muito bem se confundir, achando que o bilhete de ida-e-volta podia ser só de ida, fica devidamente esclarecido com a sacação do Berinho. Suspira aliviado, mas logo enfrenta outro problema: “como é que transporto minhas roupas?” – ele se pergunta, angustiado. Corre ao dicionário e lá encontra a resposta:

“Mala – Do francês Malle. Caixa de madeira, lona, plástico ou fibra, usada para transporte de roupa e utensílios de viagem” (p.186). (Nada é dito sobre “mala sem alça”, talvez porque o autor não gosta de aparecer e evita personalizar com dados autobiográficos).

Com as malas arrumadas, Gauchão quer saber para onde deve ir com sua bagagem. Graças a Deus, Berinho, com aquela lucidez que lhe é peculiar, previu tudo e dá a dica:

“Aeroporto – Local ou aeródromo que possui instalações e serviços públicos permanentes para o funcionamento regular do tráfego aéreo, com embarque e desembarque de passageiros e de carga. Local constituído de uma ou mais pistas de aterragem” (p.14).

Consciente de seu destino, louco para “aterrar” logo em Manaus, Gauchão ruma ao aeroporto, onde enfrenta novo dilema: “Como carrego minha mala?”. Ah, seus problemas acabaram! Berinho é gerente das Organizações Tabajara. O gaúcho conferiu na letra “C”:

“Carrinho de bagagem – Pequeno carro, de arame de aço inoxidável, destinado ao transporte, pelo passageiro, de bagagem pessoal nos aeroportos e estações ferroviárias” (pg.62).

Quem diria, hein? A genialidade dessa obra-prima da lexicografia amazonense está no detalhe: não é qualquer arame, é de aço, não é qualquer aço, é inoxidável. Graças às dicas do Berinho, Gauchão, empurrando seu carrinho, se pergunta o que vai fazer no fim de semana. Busca ajuda e encontra a seguinte joia na letra “F”:

“Fim de semana – período semanal que abrange normalmente o sábado e o domingo, e que possui, em turismo, expressão especial pela possibilidade que oferece para viagens de curta duração a tarifas reduzidas” (pg.118).

Gauchão capta a profundidade da coisa. O fim de semana do Berinho é, normalmente, sábado e domingo. NORMALMENTE! Quem acha a definição esdrúxula é porque desconhece que o fim de semana no Congresso Nacional abrange também segunda e terça-feira e, na Bahia, todos os dias da semana.

Gauchão decide, então, passar um fim de semana normal em Itacoatiara. Aluga um carro. Quer encher o tanque. Abre o “Berinho”, buscando a solução. Encontra:

“Bomba de gasolina – metonímia usada para denominar um conjunto de instalações destinadas a prover veículos motorizados de combustível, lubrificantes e afins (ing) – Gas station”.(pg. 48).

O turista gaúcho pergunta a um taxista amazonense se tem alguma metonímia por perto. O cara respondeu: “Fudereteu! Eu pensava que sabia o que era uma bomba de gasolina, mas agora deixei de saber”. Aqui faço uma crítica construtiva, é claro: se a próxima edição for ilustrada, com foto de um posto, o dicionário será mais útil ainda.

Finalmente, nosso Gauchão, que está com uma caganeira de um tacacá mal digerido, encontra um posto. Procura desesperadamente o verbete WC ou banheiro, mas o dicionário não registra nenhum dos dois. Coitado, para se aliviar, ele corre pra trás de uma moita num terreno baldio e obra. Depois, no sufoco, usa as páginas arrancadas da obra do Berinho, comprovando uma vez mais sua utilidade.

As más línguas dizem que o conteúdo do livro é “para encher linguiça”. Berinho abre, por exemplo, na letra V o verbete “Vozes de Animais”, nos ensinando que “a abelha zumbra, a andorinha gazea, o camelo blatera, a onça esturra, o peru gruguleja e o burro azurra”, etc.etc (pg. 246). Em que isso pode servir ao turista? Confesso minha ignorância. Talvez o poeta Elson Farias, que avalizou a obra, possa nos dizer numa próxima edição, aumentando a orelha do livro, como uma homenagem ao azurrante autor.

Diante desse monumento lexicográfico, não faltarão invejosos para dizer que o dicionário do Berinho, com suas ululantes obviedades, representa a derrota do pensamento no Amazonas. Ledo engano! O autor da obra é membro da Academia Amazonense de Letras e tem o aval absolutamente desinteressado de um poeta de renome. Além disso, é coerente na sua adesão ao poder, adotando a máxima: “Hay gobierno? Soy a favor”.

Com fidelidade canina, Berinho serviu a todos os governos na ditadura militar. Foi filiado à Arena, ao PFL, ao DEM, ao PTB, pertence agora à base aliada, e se o PSOL tomar o poder, ele pedirá sua carteirinha do partido. Com esse livro, a Secretaria de Cultura (Berinho) fez um baita investimento cultural, repassando recursos para a Fundação Lourenço Braga (Berinho). Mas valeu a pena. O turista tem, assim, uma tomografia da intelligentzia local oficial. Afinal, seu autor foi presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas.

O que seria do turista sem esse dicionário? Não saberia sequer distinguir um bilhete de ida de outro de ida-e-volta. O preço do livro é salgado - 42 reais – mas compensa. É verdade que sua compra causou um rombo nas minhas combalidas finanças. Já que o adquiri não para usufruto pessoal, mas por razões profissionais, estou pedindo ressarcimento ao Cirilo e ao Batará, donos do Diário do Amazonas. É possível que alguns leitores dessa desinteressada resenha queiram comprar o dicionário, assim solicito ao Berinho uma comissão de 10%  pela propaganda desinteressada. É razoável.

P.S.: O Dicionário omite na letra Z o verbete “ZECA, de Zeca Nascimento, que nesse sábado completou 55 anos de idade, abençoado por todos os orixás, por Santa Edwiges – virgem e mártir - e por Santa Chachá, nem uma coisa, nem outra, padroeira dos glutões, dos amantes da vida e dos que cultivam a amizade”. Os parabéns da coluna a ele que doou 15 mil metros quadrados a dezenas de família da Comunidade Santa Edwiges em Manaus.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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quinta-feira, 11 de março de 2010

Juca Ferreira foi escalado por Dilma Rousseff para atacar Marina Silva, diz Alfredo Sirkis

Altino Machado às 5:23 pm

O vereador e presidente do PV (Partido Verde) no Rio de Janeiro, Alfredo Sirkis, criticou as declarações do ministro da Cultura, Juca Ferreira, feitas após seu pedido de suspensão partidária nesta quarta-feira, 10.

- Juca Ferreira foi escalado por Dilma Rousseff para atacar Marina Silva e assim permanecer no ministério. Para O Globo ele disse que não queria “dormir ministro e acordar na oposição”. Foi quase honesto. Para ser completamente honesto deveria ter dito que não queria dormir ministro e acordar não-ministro. Sua decisão de romper com o PV e atacar Marina foi para poder dormir ministro, acordar ministro e poder sonhar que continuará acordando ministro até o final de 2014.

Sirkis assinalou que os ministros Juca Ferreira e Dilma Rousseff (Casa Civil), pré-candidata à Presidência pelo PT, já estão aliados ao senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e ao deputado Jáder Barbalho (PMDB-PA).

- Eles têm o apoio dos grandes bancos e do agronegócio e nós, a candidatura da Marina Silva, que é o PV sozinho, é que é direita e eles são esquerda? Parece piada.

Para o vereador do PV é “curiosa” a acusação de que Marina Silva e o PV são “direita”.

-É muita cara de pau. Eles, já no primeiro turno, estão na cama com Jader Barbalho, Renan Calheiros, e outros expoentes das oligarquias coronelistas mais tradicionais, que certamente agora merecerão aquele diploma “de esquerda”, que só o PT pode conferir.

O ex-guerrilheiro considera “absolutamente surrealistas” as declarações do ministro Juca Ferreira.

- Não estamos fazendo aliança com ninguém para a Presidência, mas estamos sendo  acusados pelo PT, que está aliado ao PP e ao PMDB, de estarmos aliados de direita. Quem está aliado de direita são eles e não nós.

Na avaliação de Sirkis, a história do ministro foi lançada na mídia nos últimos dois dias para tentar desviar o foco da “vergonhosa omissão da Dilma, ex-presa política diante das declarações infelizes do presidente em comparando os presos políticos cubanos com os bandidos de São Paulo.”

- Decidiram requentar o caso Juca para desviar o foco. Uma vergonha se desolidarizar de quem luta por liberdades democráticas, em qualquer país do mundo, para fazer agrados a um regime policialesco e opressivo, uma gerontocracia de partido único e pensamento único.

Sirkis disse que o PV tem candidato próprio no Rio, o deputado Fernando Gabeira, que recebeu o apoio do PSDB, PPS e DEM por falta de alternativa deles.

- Vamos ter candidato próprio em Minas e em São Paulo. No Rio e em Minas o PT vai apoiar o PMDB e em São Paulo querem o Ciro. Já no Acre apoiamos o PT e no Pará provavelmente também. A questão regional é confusa mesmo, mas dizer que está rompendo conosco porque estamos com “a direita” e eles não é absolutamente surrealista da parte de Juca.

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quarta-feira, 10 de março de 2010

Onze policiais vão a júri no Acre por assassinato

Altino Machado às 9:27 am

O Conselho de Sentença da Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Rio Branco (AC) se reunirá nesta quinta-feira, 11, para julgar 11 policiais civis acusados de assassinar, com 13 disparos de armas de fogo, Francisco da Silva Teixeira, mais conhecido como “Esquilo”.

O crime ocorreu no dia 13 de novembro de 1993, no bairro Nova Estação, em Rio Branco. À época, o caso teve grande repercussão. A vítima, suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas, foi assassinada durante uma operação policial.

Os policiais civis se autodenominavam “paquitos”, em alusão às paquitas do programa da apresentadora Xuxa. Eles costumavam agir com muita violência e frequentemente eram destaque na imprensa local.

Pelo menos dois “paquitos” estiveram presos por envolvimento com o esquadrão da morte que era liderado no Acre pelo ex-deputado Hildebrando Pascoal. A sessão de julgamento será presidida pelo juiz Gustavo Sirena.

O processo que apurava o crime foi arquivado em 1997 e reaberto dois anos depois por determinação do juiz Marco Antonio Nunes, então titular da Vara do Tribunal do Júri.

Os acusados são os agentes da Polícia Civil Antonio Marcos da Silveira Lima (”Marcão”), Francisco Barroso de Souza (”Barroso”), Carlos Rodrigues de Mendonça (”Mendonça”), Eraldo Marinho Rodrigues, Francisco Furtado de Araujo (”Pereca”), Regimildo Mauro da Silva Moura (”Papagaio”), Carlos Gomes da Silva (”Lampião”), Aidano Nogueira de Barros, José Moreira da Silva (”Xapuri”), Amarildo Leite da Rocha (”Amarildo Mão-Pelada”) e o delegado Eremildon Luis de Souza.

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terça-feira, 9 de março de 2010

Homem é condenado no AC por lesão corporal durante “ritual satânico”

Altino Machado às 3:59 pm

Um homem que comandou ritual de magia no município de Feijó foi condenado pela Justiça do Acre a cinco anos e meio de prisão pelos crimes de lesão corporal grave e curandeirismo. O juiz Manoel Pedroga negou ao réu o direito de recorrer em liberdade.

Ao saber que o filho da vítima bebia, o pretenso curandeiro Antonio José da Silva Pereira se ofereceu para fazer um “trabalho” para que ele deixasse de ingerir bebida alcoólica.

Pereira pediu que a vítima acendesse uma vela, colocou um papel em sua mão e, em seguida, perfume em cima do papel. Ao atear fogo, o réu ainda teria afirmad que tinha força para que não queimasse, o que não aconteceu.

O réu confirmou em juízo que causou lesões corporais na vítima, por fogo, mas alegou que não se lembrava dos fatos porque estava bêbado.

A mulher do acusado também confirmou que ele “jogou” perfume na mão da vítima e ateou fogo. Também declarou que ela e as filhas já apanharam dele.

A vítima declarou que o réu não a ajudou a apagar o fogo, que lhe causou ferimentos graves. Ela permaneceu por mais de um mês impossibilitada de exercer suas atividades.

- A culpabilidade do agente foi grave, poderia ter agido de modo diferente e não o fez. A conduta social lhe é desfavorável, eis que se trata de pessoa que bebe bastante. A personalidade do acusado mostra-se normal. Os motivos são reprováveis, eis que estaria em ritual satânico. As circunstâncias lhe são desfavoráveis, eis que feriu a vítima com fogo, e as conseqüências permanecem, eis que a vítima ficou com cicatrizes na mão e ainda toda vez que vai lavar roupa, a mão incha - assinala na sentença o juiz Manoel Pedroga.

Foto: TJ/Divulgação

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domingo, 7 de março de 2010

“Cotia Risonha” fatura R$ 8,5 milhões no Amazonas

Altino Machado às 12:50 pm

POR JOSÉ BESSA FREIRE

Cotia Risonha

José Raphael Siqueira Filho, o "Cotia Risonha", intimida repórter

O juiz aposentado do Tribunal de Justiça do Amazonas, José Raphael Siqueira Filho, carrega, desde sua infância, o apelido de Cotia Risonha. O “risonha” é um enigma. Mas cotia, todo mundo sabe por quê. É que seu colega na escola primária, o Nininho, gostava de se divertir, pedindo-lhe:

- Siqueirinha, repete: paca, tatu, cotia não!

Siqueirinha sempre se confundia e reproduzia a frase inteira. Nem desconfiava que em Epitácio “p” soa. Por isso, todo mundo passou a chamá-lo de Cotia. O apelido colou. Tem tudo a ver com ele. A cotia é um mamífero e ainda por cima roedor, ou seja, gosta de mamar e de roer o que encontra pela frente. Tem as pernas finas, os olhos arregalados e as unhas afiadas e cortantes. Apesar da aparente leseira pra certas coisas, é um animal esperto, que vive fuçando o chão, buscando vorazmente o que comer.

Tudo bem! Está explicada a origem e justificada a propriedade do substantivo “cotia”. E o qualificativo “risonha”, de onde veio? Em que momento foi acrescentado? De quem, afinal, a Cotia Risonha está rindo? Essas perguntas podem ser respondidas, analisando a amizade do Siqueirinha com Nininho.

Os dois cresceram unha-e-carne, mamando e roendo. Nininho, menino inocente que saiu de Eirunepé para fazer a primeira comunhão na capital, assumiu várias vezes a Prefeitura e o Governo do Estado, com o nome de Amazonino Mendes (PTB, vixe, vixe!). Siqueirinha se tornou juiz, pronunciou algumas sentenças polêmicas e se aposentou. Mas a amizade continuou.

Coisa bonita, a amizade! Para onde vai, Amazonino leva Siqueirinha, indicando-o para diversos cargos, como a presidência da Companhia Energética (CEAM), a presidência do Detran, a Superintendência da Companhia do Estado do Amazonas (CIAMA). Dizem que até o cargo de cônsul honorário da Coréia no Amazonas, exercido por Siqueirinha, foi indicação do amigo. Na atual administração, ele ocupa presidência do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte Urbano (IMTT).

Casca de tucumã

Não é uma amizade qualquer, ela está cimentada por interesses comuns e cumplicidades, como conta o combativo vereador Marcelo Ramos (PSB). O ‘Cotia Risonha’ “é o tipo de amigo daqueles que descasca tucumã, que tira o caroço da pupunha e entrega a partida de dominó só para agradar. Também, intimida jornalistas, agride pessoas ou faz qualquer outro trabalho sujo que Amazonino precise”.

Um desses trabalhos ocorreu recentemente. O sorriso de Siqueirinha ganhou contornos enigmáticos de Mona Lisa, quando em julho de 2009 o prefeito Amazonino aumentou inexplicavelmente em 12,5%, a passagem de ônibus em Manaus, que era de R$ 2,00 e subiu para R$2,25. O protesto dos usuários e a proximidade das eleições levaram Amazonino a reduzir, nove meses depois, o aumento para R$2,10.

O prefeito, todo farofeiro, todo bacabeiro, deu, então, uma entrevista coletiva, mas em vez de dizer que estava corrigindo o aumento da passagem, anunciou que estava baixando o seu preço. Parece até a Gol, que em seus vôos está cobrando agora dos passageiros R$10,00 por um sanduíche e R$3,00 por um cafezinho e anunciou cinicamente:

“Viajar agora tem um sabor especial. A Gol não pára de inovar. E para deixar a sua viagem ainda mais gostosa, está oferecendo uma novidade em alguns de seus vôos domésticos: a venda de sanduíches e bebidas. É um novo conceito que a Gol disponibiliza aos passageiros no Brasil”.

Amazonino também não pára de oferecer novidades aos usuários de ônibus, “para deixar a viagem mais gostosa”. Na entrevista em que explicou seu “novo conceito” de tarifas estava ladeado pelo ‘Cotia Risonha’ e pela secretária municipal de Comunicação Social, Celes Calpúrnia Borges Melo, que sem qualquer pudor orientavam os jornalistas: “pergunta isso, pergunta aquilo”. Foi aí que a jovem repórter do Diário do Amazonas, Vanessa Brito, decidiu perguntar o que está na garganta de todos:

- Quais os critérios para determinar o preço da passagem? Se o prefeito reconhece hoje que o aumento dado em julho do ano passado foi exorbitante, as empresas vão devolver aos usuários de ônibus o que cobrou indevidamente?

A reação da intrépida trupe foi surpreendente. Amazonino suava como se estivesse em uma sauna. O Cotia deixou de sorrir e fuzilou com os olhos a repórter. Tentou impedir que ela se manifestasse. Seu olhar, juro, mete medo. Chamou Celes Calpúrnia e ordenou:

- Anota o nome dela.

Calpúrnia - que vergonha! - respondeu:

- Ela é do Diário.

Foi tudo gravado e pode ser acessado no YouTube.

Vanessa, a jovem repórter, encostou o Cotia na parede dizendo “tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”. É uma esperança de que o jornalismo no Amazonas não será chapa branca.

Siqueirinha ficou com dor de dente, como naquela música que as crianças cantavam: “A cotia está com dor de dente, e é de tanto, tanto, comer doce quente”.

Fioforum cotiae

O amigo Amazonino, no entanto, fez voltar o sorriso do Cotia, segundo denúncia publicada em O Globo (04/03/2010) e pelo Estado de São Paulo, intitulada: “Indenização milionária em Manaus. Desapropriação rende R$6,5 milhões a secretário municipal”. A matéria informa que “o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes (PTB) assinou ontem um acordo extrajudicial que permite o pagamento de R$6.577.166,07 ao juiz aposentado Raphael Siqueira, que é secretário municipal e exerce o cargo de presidente do IMTT”.

A notícia está incompleta porque não diz, numa linguagem que um ex-juiz entende, que “hic culum cotiae sibilare”, isto é, aqui é que o fiofó da cotia começa a assoviar. O vereador Marcelo Ramos fez suas contas e descobriu que numa só jogada entre amigos, o Cotia Risonha embolsou muito mais. Foram R$ 8,5 milhões pagos com dinheiro público, “a título de indenização por um terreno que em momento algum prova que é seu”.

Amanhã, Marcelo Ramos, que é advogado, entra com Ação Popular para solicitar que a dupla Amazonino e Siqueirinha sejam condenados a devolver todo o dinheiro público que embolsaram. Amazonino, em novembro do ano passado, foi cassado pela juíza Maria Eunice, em primeira instância, sob a acusação de comprar votos.

Por quem os sinos dobram? A Cotia Risonha ri de quem? De nós, leitores, que somos otários e estamos repassando para os bolsos de dois espertalhões recursos públicos que deviam ser usados para melhorar os serviços de saúde, educação e transporte. Agora, é rezar para que saia vitoriosa a Ação Popular contra essa operação escandalosa que clama aos céus e pede a Deus vingança.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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sexta-feira, 5 de março de 2010

Marina se reúne com militares no Rio; PV quer revisão da defesa nacional

Altino Machado às 11:59 am

A senadora Marina Silva (PV-AC), pré-candidata à Presidência da República, se reunirá no  domingo, 7, com militares da ativa e da reserva, no Museu do Exército e Forte de Copacabana, no Rio, para um debate sobre defesa nacional e sustentabilidade.

O PV defende nova doutrina de defesa nacional e preparação das Forças Armadas para novos tipos de ameaças ao país. Segundo o partido, existem três ameaças que implicam em revisão da doutrina, elaboração de estratégia, preparação e adequação de novos meios.

- As ameaças são o aquecimento global e seus efeitos sobre o Brasil; conflitos em países vizinhos e defesa das fronteiras, espaço aéreo e mar territorial e quebra no monopólio das Forças Armadas sobre o armamento de guerra, controle territorial e insurgência local - disse o vereador e presidente do PV no Rio de Janeiro, Alfredo Sirkis.

O encontro com os militares é avaliado pelo PV como uma oportunidade para Marina Silva começar a aparecer como alguém capaz de se tornar a Comandante em Chefe das Forças Armadas.

O diretor do Museu Histórico do Exército e Comandante do Forte de Copacabana, coronel de artilharia Edson Silva de Oliveira, é filiado ao PV e será candidato a deputado federal.

- Quando o coronel se filiou ao partido, em agosto do ano passado, achei muito bacana. A iniciativa dele é manifestação de um segmento militar representativo dentro das Forças Armadas - acrescentou Sirkis.

De acordo com o vereador, a aproximação do PV com os militares começou quando o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) era candidato a prefeito do Rio e visitou o Clube Militar.

- O fato de a gente ter participado da guerrilha urbana é um problema na cabeça dos militares, mas eles valorizam o fato de a gente não ter a postura política de revanche contra eles, como tem uma parte da esquerda - assinalou Sirkis.

Quem tradicionalmente defende os militares no Rio de Janeiro é o deputado Jair Bolsonaro (PP), classificado por Sirkis como de extrema-direita.

- Conheço Bolsonaro e ele como pessoa é melhor do que o discurso que assume, que é muito ruim.  Já o coronel Edson Oliveira, defende a sustentabilidade para um novo modelo econômico, além de ética na vida pública.

O ex-guerrilheiro disse que o PT têm errado quando, na ânsia de recuperar para Dilma Roussef uma auréola militante de esquerda, reabre as polarizações de 35 anos atrás.

- A gente não pode transformar o que aconteceu há 40 em abscesso na nossa relação com os militares. Quando se parte pro diálogo identificamos muitas convergência. Os militares acham que a Marina Silva representa genuinamente o Brasil.

Para Sirkis, conflitos passados de nossa história servem de lição e de inspiração para evitar que erros se repitam.

- Estão reavivando artificialmente, por motivações políticas, de forma a fazer do passado obstáculo para que possamos enfrentar os futuros desafios, que se colocam para a defesa do Brasil.

Foto: Altino Machado/Terra Magazine

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Opinião de Dirceu sobre Marina não resiste a confronto de biografias

Altino Machado às 2:50 am

POR JOÃO TEZZA

Senadora Marina Silva durante homenagem do PT

Senadora durante homenagem do PT, no Acre, em maio de 2008

A candidatura da senadora Marina Silva à Presidência da República efervesceu a política brasileira. Como sempre, no Brasil o assunto alagou jornais e esquinas com opiniões de todo calibre, desde grossas opiniões de   bons analistas políticos até as finas -ou não- ironias de palpiteiros de botequim.

Chamou-me a atenção a entrevista de José Dirceu, informando na grande imprensa que a candidatura de Dilma Roussef já seria vitoriosa porque tem o apoio do presidente Lula. Esse, segundo o entrevistado, o diferencial em favor de Dilma contra todas as outras candidaturas, no próximo pleito à Presidência.

Como curioso em política, pensei à primeira vista que, de fato, isso inviabilizaria qualquer candidatura no Brasil de hoje. A popularidade de Lula é imbatível e está aí, escancaradamente, ditando regras e comportamentos que não são contestados nem por Barack Obama. Este não disse que nosso presidente é “o cara”?

Sem saber inclusive de minha existência, José Dirceu, com toda sua experiência e carreira política, frustrou meu infantil sonho de, um dia, ser velho conhecido, com todos os meus grandes defeitos, de um presidente da República.

Tomado de súbita depressão (também infantil) comecei a por a culpa, pela  minha  decepção, na Marina Silva. Por que Marina  foi brigar com o Lula e com o Zé Dirceu? Se fosse mais “política” poderia ter ajeitado as coisas e teria o apoio, senão do Lula, pelo menos do Zé Dirceu.

Agora fica aí com sua candidatura inviabilizada por absoluta falta de apoio político. E eu, depois de ler a dita entrevista, quase chorei como qualquer criança que tem o sonho desfeito.

Daí, acordei do sonho e me lembrei da primeira eleição da Marina, em 1986, para a Assembléia Legislativa do Acre. Por mera coincidência, disputei naquele ano a minha primeira e única eleição.

Sem santinho

Com um terço dos votos de Marina, me elegi deputado estadual pelo PFL, partido que, junto com mais três ou quatro gatos pingados, fundamos para fugir da “oposição à ditadura” do PMDB e não nos filiarmos aos caudatários da Arena. Fui líder de mim mesmo porque, excluído de qualquer comissão da Assembléia, fui o único deputado eleito do PFL naquela legislatura.

Como iniciante em política, zebra eleita fiquei, desde então, convencido que não entendo nada de política. Por isso nunca mais me candidatei.

Naquela eleição, entre todos os candidatos, a mais votada foi a Marina. Durante a campanha, eu imaginava que Marina seria a mais votada porque quando fazia o corpo a corpo nas ruas, de quatro pessoas, duas iam votar na Marina.

Para divulgar sua candidatura, Marina não dispunha nem de “santinho”. Acho que a única foto que Marina tinha era da carteira de identidade. Papéis rotos traziam rabiscados o numero da Marina começando com o 13 do PT. O que me surpreendia é que eu pensava que só eu conhecia a Marina.

Eu a conhecera quando ela, como estudante de História, na Universidade Federal do Acre, se interessava, já naquele tempo, junto com Josué Fernandes, Binho Marques e outros alunos, pela opinião jurídica do João Maia a respeito da “posse” de seringueiros  e da “propriedade” dos seringalistas ou seus sucessores, os “paulistas”.

Advogado dos fazendeiros

Para saber da situação jurídica da propriedade no Acre, segundo aqueles estudantes curiosos, fora das ordens emanadas pelos militares e asseclas do Incra, nada melhor que entrevistar o João Tezza, conhecido como “advogado dos fazendeiros”. Nas ditaduras, a verdade  pertence ao governo. Como o Incra (Estado) falava que todas as terras do Acre eram griladas, nada a contestar.

No Incra quem dava as cartas eram os militares. Diretamente aumentavam os proventos da caserna através de cargos em comissão exercidos por “juristas”, quase sempre, “infiltrados” no MDB. O coração desses “juristas” sempre se filiava ao “paraíso” terrestre da igualdade. Só o pragmatismo da sobrevivência os ligava à Arena e aos cargos que desempenhavam com “muita competência”.

Voltando à Marina: foi  uma das mais votadas nas eleições à Assembléia Legislativa do Acre de 1986, mas não se elegeu. A legenda do PT teve um desempenho pífio e nossa Assembléia Constituinte ficou sem nenhum deputado do partido. Na verdade o PT não existia.

Vem as eleições de 1988 e Marina sai candidata a vereadora em Rio Branco. Mais de uma centena de candidatos, já com vários partidos e coligações e, ainda sem “santinho” ou cartazes, Marina obteve cerca de 10% do colégio eleitoral. Repito sem medo de errar: a Marina se elegeu vereadora com cerca de 10% dos votos válidos. Nunca conferi, mas fica o repto aos pesquisadores.

Duvido que na história eleitoral brasileira um vereador tenha conseguido, em uma eleição, 10% dos votos válidos. Dois anos na vereança e foi a mais votada da Assembléia Legislativa na eleição de 1990. Em 1994, para o Senado, no Acre o que se disputava era a segunda vaga.

A primeira, sem sombra de dúvidas, já pertencia ao senador Nabor Jr., velho cacique e encarnação viva e pessoal do PMDB fisiológico. Deputado estadual, federal e governador, Nabor sempre fez seus sucessores e era, politicamente, o próprio Acre no Senado.

Pois bem, Marina ainda sem santinho, agora já com o documento de um mandato completo na Assembléia, desempenho parlamentar fantástico, derrotou Nabor Jr., que tinha a seu favor a nomeação, nas últimas décadas, de todos os cargos no governo federal, estadual e municipais.

Sob o comando do PMDB, ungido pelo seu caciquismo, Nabor Jr. compôs, dentre todos os cargos do Estado, um Tribunal de Contas, novinho, de porteira fechada, com tudo, da construção física e compra de equipamentos ao preenchimento dos cargos, do presidente ao servente.

Disseram que Marina no Senado desapareceria como ocorrera, sempre, com todos os outros “líderes” locais. No Senado, o Acre só foi famoso, antes de Marina, quando assassinaram em plenário Kairala José Kairala, que, cumprindo uma curta suplência, tirava fotografia para mostrar no Estado de origem, que chegara lá.

Moral sem retoques

Sobre o desempenho no Senado, como senadora do PT, em seu primeiro mandato, só vou dizer o seguinte: enquanto o PT  comandava no Brasil o “Fora FHC”,  Marina carregava o jovem Jorge Viana pela mão para falar, no Planalto ou no Alvorada, com Fernando Henrique Cardoso, então presidente da República. E não eram audiências secretas ou “reservadas” como comum, entre políticos, para tratar de assuntos proibidos para menores de 5 a 100 anos de idade.

Tanto Marina como FHC, notava-se pela mídia, tinham muito orgulho dessas reuniões. Com certeza foi dessas reuniões que saíram os recursos para que Jorge Viana pudesse mudar, para melhor e para sempre, a história administrativa e política do Estado do Acre.

Uma coisa posso garantir: Marina não foi com Jorge falar com Fernando Henrique para pedir verba para o MST, este, sob o comando, exclusivo, do PT. Vide o  senador Suplicy e sua ex-senhora em qualquer movimento ligado a invasão ou seqüestro. Se tivessem ido para tal fim, com certeza FHC, político hábil, teria negociado com eles para não invadirem sua produtiva fazendola em Minas. Como no período das inúmeras reuniões entre FHC e Marina, o MST invadiu e depredou a fazenda de Fernando Henrique Cardoso diversas vezes, o assunto “verbas  para o  MST”, nunca deve ter estado em pauta.

Eleito Lula pela segunda vez, Marina, com Jorge Viana, arrastaram à terceira vaga (a segunda era de Tião Viana em eleições de um terço do senado), o Geraldo Mesquita Jr. cujo o maior mérito pessoal era ser herdeiro pessoal de um medíocre ex-governador, de trágica e triste memória, nomeado durante a  ditadura. Em todas as eleições que o então novel senador havia disputado anteriormente ficara na rabagésima suplência, sem nunca ter  exercido cargo eleitoral.

Marina então, em seu segundo mandato no Senado, assume como unanimidade nacional, o Ministério do Meio Ambiente. Aí, todo mundo conhece a história. Saiu do PT e entrou no PV. Sem ser candidata já tem 8% dos votos. Continua sem “santinho”, mas sua imagem, principalmente a moral, sem retoques, está na cabeça de todo brasileiro.

Finalizando com o Zé Dirceu: é só comparar as biografias, de Marina e a outra, para saber que certos apoios, são  dispensáveis. Principalmente pela biografia e carreira política de cada candidato.

João Tezza é catarinense e advogado desde 1968

Foto: Altino Machado/Terra Magazine

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quinta-feira, 4 de março de 2010

Empresários presos por fraude de R$ 15 milhões contra a Receita Federal

Altino Machado às 2:23 pm

Os empresários paraenses Valmo Raimundo Maia Cardoso e Augusto César Campos Mendes estão presos na Superintendência da Polícia Federal, em Belém (PA), acusados de fraudar a Receita Federal em R$ 15 milhões. Ambos são sócios da empresa Serasse Comércio e Serviços de Assessoria Empresarial.

O dois empresários foram capturados na sexta-feira, 27 de fevereiro, depois que a Justiça Federal decretou a prisão preventiva a pedido do Ministério Público Federal. Além deles, outros 22 empresários foram denunciados pela procuradora da República Maria Clara Barros Noleto à Justiça pelo crime de falsidade ideológica.

Caso condenados, poderão pegar até oito anos de prisão por falsidade ideológica. Os que estão presos já tiveram um pedido de revogação da preventiva negado pelo juiz Rubens Rollo.

Valmo Cardoso e Augusto Mendes lideravam o esquema em que eram ofertados créditos a empresários com deságio de 40% a 50%, tornando a negociação aparentemente atrativa.

Cheques pré-datados, automóveis de luxo e dinheiro em espécie foram utilizados na contratação desse serviço irregular. Mas o créditos eram na verdade inexistentes para fins de compensação tributária.

A atuação dos negociadores de créditos inexistentes já vinha sendo combatida pela Receita Federal há três anos. Contudo, a audácia do grupo vinha resistindo, chegando a atingir potencial lesivo de grandes proporções aos cofres públicos, o que demandou uma atuação coordenada entre as diversas equipes tributárias e de fiscalização da Receita Federal em Belém.

Desmontando o esquema, o Fisco estima arrecadar cerca de R$ 15 milhões em tributos. O combate ao comércio de créditos podres foi batizado pela Receita de operação Cupim, porque os créditos oferecidos pelos fraudadores pareciam bons, mas eram podres, como a madeira quando atacada por cupins.

Foram 168 transações desse tipo. Para enganar a Receita, Walmo Cardoso e Augusto Mendes diziam que a Serasse havia comprado as empresas endividadas. A Operação Cupim conseguiu comprovar que na verdade Cardoso e Mendes criaram um mercado negro de comercialização de créditos.

A maioria dos acusados (entre eles os donos da Serasse) reside no Pará, mas também há empresários residentes em Pernambuco e Minas Gerais.

- Os prejuízos aos cofres públicos são claros. Houve a regularização das empresas compradoras desses créditos, com a obtenção de Certidões Negativas de Débitos, postergação do recolhimento de tributos federais e até mesmo com a prescrição e decadência dos tributos - diz a procuradora da República no texto da denúncia.

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