Jorge Viana: política do PT e PSDB, a partir de SP, é prejudicial para o Brasil
O engenheiro florestal Jorge Viana, 50, se afasta nesta quarta-feira, 31, da presidência do Conselho de Administração da Helibrás, a maior fabricante de helicóptero da América do Sul, para estar apto a concorrer pela primeira vez a um mandato parlamentar.
Ex-prefeito de Rio Branco e ex-governador do Acre por dois mandatos, Jorge Viana é considerado um candidato imbatível para uma das duas vagas ao Senado no Estado.
Viana é principal protagonista de uma engenharia política que já assegurou ao PT do Acre uma marca histórica: o partido governa o Estado há três mandatos consecutivos e o senador Tião Viana, irmão de Jorge, também já é considerado candidato imbatível ao governo estadual.
Quando tanto poder terá fim?
- Eu não posso fazer previsão de quando terá fim. O que eu posso dizer é que ainda existe uma necessidade muito grande desse trabalho seguir em frente. Esse é um trabalho que tem o dedo, o corpo e o empenho pessoal do presidente Lula. Ele anda aqui no Acre desde 1980. De um jeito ou de outro, ajudou na formação de todos nós.
Viana não esconde o saudosismo quando menciona a aliança do PT com o PSDB, durante seu primeiro mandato, quando o seu vice era o tucano Edson Cadaxo. A aliança se desfez com a saída de Fernando Henrique Cardoso do governo.
O ex-governador acha ruim para o Brasil a política feita a partir do enfrentamento do PT e do PSDB em São Paulo.
- Acho muito prejudicial para o Brasil essa política feita a partir dos interesses de São Paulo, o que contamina a política no plano nacional. Isso é muito forte no PSDB e acontece até em parte no PT.
Leia os principais trechos da entrevista:
BLOG DA AMAZÔNIA - O PT está há três mandatos consecutivos no governo do Acre. O senador Tião Viana, seu irmão, deverá ser o próximo candidato a governador e é considerado imbatível. Caso ele seja reeleito serão 20 anos de PT no governo do Acre. Quando tanto poder terá fim?
JORGE VIANA - O Acre vivia fora da legalidade. O estado de direito era uma figura ausente e foi necessário o empenho de vários instituições, além de um esforço político enorme, para poder vencer uma etapa. Acho que agora é que o Acre está entrando nos trilhos de buscar melhores indicadores sociais e econômicos. A gente está alcançando isso. Eu não posso fazer previsão de quando terá fim. O que eu posso dizer é que ainda existe uma necessidade muito grande desse trabalho seguir em frente. Particularmente, acho muito provável que essa marca histórica, de o PT ter um quarto governo no Acre, se materialize com a candidatura do Tião Viana. Esse é um trabalho que tem o dedo, o corpo e o empenho pessoal do presidente Lula. Ele anda aqui no Acre desde 1980. De um jeito ou de outro, ajudou na formação de todos nós. Acho muito bom que possamos ter mais um mandato para aprofundarmos as mudanças aqui no Acre.
O senhor e o senador Tião Viana e até a presidenciável Marina Silva, do PV, sempre consideraram negativa a disputa entre o PT e o PSDB, em São Paulo, que se estende pelo país.
No Acre, para enfrentar o crime organizado num estado que vivia na ilegalidade e ocupava as páginas policiais da imprensa, tivemos uma aliança singular no Brasil. Ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, com acordo do PT, que aprovou em congresso, e com acordo da direção nacional do PSDB, nós estabelecemos uma aliança que foi muito positiva. Tive como vice-governador Edson Cadaxo e isso foi determinante para que a gente pudesse tirar o Acre da situação em que ele vivia.
O que aconteceu após a saída do presidente FHC?
Acho que o PSDB piorou bastante. Desde então, prevaleceu dentro do PSDB uma hegemonia paulista da qual nós somos vítimas. Imediatamente eles retiraram o PSDB da aliança conosco aqui no Acre e deixamos de ter uma experiência que era singular na política brasileira. Acho muito ruim para o Brasil essa política feita a partir do enfrentamento do PT e do PSDB que ocorre em São Paulo. Mas o PSDB piorou muito nos últimos anos. Basta fazer qualquer pesquisa que para constatar que o PSDB, após ter passado oito anos no governo, tem menos de 10% de preferência da população, quando o PT beira os 30%. É sinal de que muita coisa errada aconteceu. Acho muito prejudicial para o Brasil essa política feita a partir dos interesses de São Paulo, o que contamina a política no plano nacional. Isso é muito forte no PSDB e acontece até em parte no PT.
O senhor acredita que essa relação possa ser alterada?
Acho que hoje não existe ambiente para mudar. É até salutar que haja duas forças políticas como alternativa de poder em disputa. O que não é salutar é quando uma dessas forças está no governo faça alianças que são problemáticas. Isso já ocorreu com o PSDB e também com o PT. Acho que a gente tem que correr urgente para ter reforma política no Brasil. É necessário para que a gente possa ter partidos políticos mais sólidos e para que sejam constituídas alianças mais sólidas, mesmo que para isso PSDB e PT tenham que ficar cada um na sua posição.
Como é ser candidato a uma cadeira no Senado com tanto favoritismo?
O pior que pode ocorrer é alguém que nem é ainda candidato e mesmo que venha a assumir uma candidatura daqui a um mês, partir do pressuposto de que a eleição é fácil ou de que o favoritismo é pleno. Eleição envolve eleitor e eleitor para mim é algo que tem que ser respeitado, o que não é comum no Brasil. Uma das coisas que todo cidadão brasileiro tem e que é só dele é o voto. Vou desprezar qualquer idéia de favoritismo e vou fazer uma campanha como se estivesse sendo a minha primeira. Quero fazer isso de modo que possa me tornar uma referência de honestidade e ética para o Brasil, isto é, com uma candidatura sem esquemas e estruturas materiais que possam afrontar a realidade brasileira.
Nesse sentido, a senadora Marina Silva parece que fará uma candidatura como antigamente, tendo pouco tempo na TV e usando aviões de carreira para se deslocar como candidata à Presidência pelo PV. Como avalia a candidatura dela?
A situação nossa, no Acre, não é nada confortável porque houve a saída da Marina do PT. Foi algo que nos deixou muito tristes. Ela nos ajudou a construir tudo isso. Respeito a opção dela. Ela está tentando dar a contribuição del. Mas nós temos uma relação afetiva com o Lula, que nos deu as melhores oportunidades para mim, para a Marina e pro governo do Acre. Então o senador Tião Viana, o governador Binho Marques e eu vamos fazer o possível para que o projeto do presidente Lula tenha continuidade. Vamos fazer isso a partir de uma disciplina partidária que temos, mas seria falso negar que sinto falta da saída da Marina do PT e do nosso projeto.
Embora o colégio eleitoral do Acre não tenha peso no país, o eleitorado vai preferir Dilma Roussef ou Marina Silva?
Quando existe um candidato local, como Ciro Gomes no Ceará, Marina no Acre ou Dilma, que tem a sorte de ser de dois lugares, o Rio Grande do Sul e Minas Gerais, o candidato local tem uma vantagem enorme. Por acreana e pelo trabalho dela, Marina tem uma vantagem enorme. Vamos fazer o possível para que o projeto do presidente Lula possa ter uma votação expressiva no Acre.
Marina Silva já disse que apóia a candidatura de Tião Viana ao governo do Acre.
Aqui no Acre vai se dar uma coisa inusitada caso Ciro Gomes seja candidato. Teremos Marina, Ciro e Dilma dizendo que nos apóia ao governo. Acabo de fazer uma viagem para Harvard, onde fui convidado a fazer uma palestra sobre o caso político do Acre. é um estado pequeno, com uma população pequeníssima, com um PIB econômico pequeno, mas que dispõe de um PIB político tão diferenciado e influente. Até recentemente, a Marina era ministra do Meio Ambiente e o Tião presidente do Senado. Isso não acontece com outros estados que são mais influentes do ponto de vista econômico ou populacional. Harvard queria saber como isso acontece. Falei que isso é a soma de pelo menos três fatores: dispor de propostas muito interessantes, pessoas interessantes e ambiente político para que essas propostas possam se materializar. O Acre é a terra de Chico Mendes, o maior ambientalista da história. O presidente Lula criou uma relação umbilical com o Acre quando veio aqui chorar nossos mortos e nas horas de maior alegria. Ele também investiu na nossa formação e nos deu as maiores oportunidades políticas.
O Acre vivia muitos problemas…
O eleitor entende a necessidade de um projeto como o que está em curso no Acre, de investimento nas áreas sociais, de infra-estrutura e de consolidação de um modelo econômico de baixo carbono. É necessário que tenha mais esforço e união de todos para que se avance um pouco mais. Quando a gente alcançar um nível mais elevado de cidadania ou de florestania, como nós chamamos, acho que a população compreenderá que estará cumprida uma etapa e vai querer entrar nos detalhes.
Nenhuma chance de que o vice de Dilma Roussef seja alguém do Norte, ligado à Amazônia? Especulava-se o nome de Eduardo Braga, governador do Amazonas. O que acha?
O PT tomou a decisão de priorizar aliança com o PMDB. É uma aliança estratégica para ganhar a eleição e governar.
Eduardo Braga é do PMDB.
Sim, mas aí já entra… O PMDB tem uma dificuldade de criar uma unidade interna. Acho que hoje a pessoa que pode criar esse ambiente de unidade interna é o deputado Michel Temer, que é o próprio presidente do partido. O tema Amazônia está cada vez mais presente na vida das pessoas, nos negócios e também na política. Falei pra Marina que a luta da sustentabilidade a gente já está ganhando. Pode não estar na intensidade que a gente quer, mas ele já está muito presente. Claro que quem quer ser moderno tem que incorporar a sutentabilidade, a temática ambiental. Isso está bem colocado no governo do presidente Lula e será reafirmado no governo da ministra Dilma.
Foto: Odair Leal/Agência Aleac








