Terra Magazine

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Vai lavar teu tcherembó

Altino Machado às 9:52 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

Proponho aos leitores e, com todo respeito, às leitoras, decifrar o seguinte enigma. Os jornais noticiaram que três políticos da base aliada, que comem na mesma panela, querem ser governador do Amazonas. Os três saíram em busca de apoio. Amazonino Mendes (PTB - vixe, vixe!), prefeito de Manaus, procurou o Lula, na maior cara de pau. Omar Aziz (PMN- viiiiiixe!), vice-governador, se agarrou ao seu chefe Eduardo Braga (PMDB-huuugo, rauuul!). Diante desse quadro imprevisível, o ministro Alfredo Nascimento (PR-puts!) convidou o ex-prefeito Serafim Correa (PSB) a ser seu vice.

As respostas dadas aos três concorrentes foram misteriosas. Lula fez um gesto com os quatro dedos de sua mão e, depois de alguns “veja bem”, respondeu assim, na lata:

- Rhesó-rhesó, Amazonino.

O governador Eduardo Braga olhou se havia crianças e damas no recinto (não havia), passou um pouco de vaselina e foi sincero com Omar:

- Chukui indearã.

Já o Serafim, que não come nessa panela, mediu o Cabo Pereira de cima a baixo e, correndo o risco de parecer pornográfico, sinalizou:

- Maã mɨnẽ ató niĩ.

O que cada um deles quis dizer? Por que falaram assim? O que essas respostas têm em comum? Enquanto isso não for esclarecido, ninguém entenderá o quadro político eleitoral do Amazonas. É como a passagem bíblica do Nabucodonosor e do rei Baltazar: precisa de um profeta, que nem Daniel, para decifrar as palavras misteriosas “Mane, Tecel, Fares” escritas na parede. Não sou profeta, mas prometo explicar tudo. Peço apenas um pouco de paciência, porque vou contar, antes, como é que matei a charada. Mas só contarei depois de abrir um parêntese.

(Perdido no beco)

(Meu amigo, o poeta Thiago de Mello, diz que sou disperso, dou muitas voltas para contar uma história, caminho por estradas secundárias, me perco por becos e vielas e demoro a entrar na avenida central. Ele confessa, no entanto, fazer o mesmo, embora em menor grau. Diz que Pablo Neruda o censurava carinhosamente por abandonar o tronco da árvore e desviar pelos galhos: “Hermano, tu te pierdes por las ramas”).

Fecho esse parêntese. Mas abro um segundo (Desço por outro galho para dizer que nessa quinta-feira, fui ao lançamento do livro ‘Melhores Poemas’ de Thiago de Mello, na Saraiva Megastore, no Manauara Shopping. Só não digo que, na ocasião, houve também o lançamento do CD ‘Canta Amazônia’ para não me desviar por um terceiro galho). Fecho e, agora sim, conto que estive em Manaus, durante uma semana, o que me permitiu decifrar as respostas dos três políticos.

O leitor que por acaso frequenta esse espaço dominical não sabe que sou consultor do MEC para a questão de educação indígena. Mas foi por isso que sugeriram meu nome para ministrar aulas de História da Amazônia num projeto pioneiro que a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) está desenvolvendo. Trata-se do Curso de Licenciatura Intercultural em Pedagogia, bancado pela reitora Marilene Correa e coordenado pela professora Graça Barreto. Sua primeira etapa aconteceu em agosto de 2009.

A segunda etapa do Curso começou no dia 11 de janeiro, com vários módulos, entre os quais o de História da Amazônia, organizado e planejado pela professora Dorinethe Bentes, com a contribuição desse locutor que vos fala. Durante uma semana, demos aula para 2615 alunos - 745 deles são indígenas - através do Programa de Vídeo Conferência, atingindo mais de 400 localidades em 52 municípios do Amazonas.

Vai cheirar teu pé

A tecnologia não precisa ser muito sofisticada para que eu fique deslumbrado. Mas é maravilhosa essa possibilidade de um professor dar aulas para milhares de alunos, ao mesmo tempo, a partir de uma Plataforma Tecnológica IP-TV (não me pergunta que diabo é isso, porque não sei responder), levando informações de qualidade para dezenas de salas de aula, com ajuda de imagens, filmes, documentários, clipes, ilustrações, animações e textos, além de acesso ao banco mundial de informações (internet).

A coisa funciona assim. Cada sala está equipada com vários hardwares, através dos quais os alunos acompanham as aulas e realizam as atividades. Você, como professor titular, está palestrando em Manaus. Os alunos estão espalhados em salas de 52 municípios, que contam com a presença de dois professores assistentes, com formação específica, totalizando 104 professores assistentes. Eles acompanham os alunos e articulam o conteúdo com a temática local, orientando a execução dos trabalhos.

Enquanto a gente dava aula, um telão ia registrando em tempo real a reação dos alunos, que redigiam textos com perguntas, observações, dúvidas. Depois da nossa explanação, aparecia no telão as imagens de uma sala em um município. O pessoal vibrava como torcida de futebol e fazia perguntas muito inteligentes, ao vivo, que a gente respondia. Depois outra sala em outro município. E assim por diante. Há muita interação entre os diversos sujeitos do processo.

Oxalá a reitora Marilene Correa consiga ampliar esse projeto que muda o conceito do que é ‘presencial’ e coloca na mesma sala alunos indígenas e não-indígenas, com a valorização de todos os saberes e com uma perspectiva intercultural que favorece a troca de conhecimentos entre culturas diferentes. O curso permite também ampliar os espaços do uso social das línguas indígenas. Sentados ao nosso lado, quatro ou cinco índios resumiam o conteúdo em suas respectivas línguas para melhor compreensão dos alunos indígenas em sala de aula.

Foi ai, na hora da merenda, que descobri o significado das palavras ditas por Lula, Dudu Braga e Serafim aos que lhes pediram apoio. O sateré-mawé Selumiel Michilles Alencar, coordenador da escola indígena, disse o que significava Rhesó-rhesó em sua língua. Os dois Baniwa - Maria do Rosário Martins e Edilson, esse último doutorando em Lingüística pela UnB - esclareceram o que era Chukui indearã, em nheengatu. E João Batista Melo, tariana, traduziu da língua tukano a expressão Maã mɨnẽ ató niĩ.

Todas essas expressões indígenas são a tradução daquilo que os tikuna dizem em sua língua: ye’a'ma na Ũmare ou daquilo que manifestamos em português quando dizemos: - ‘vai te catar’, ‘vai catar coquinho’, ‘vai cheirar teu pé’, ‘vai chupar fiofó de passarinho’. Enfim, os índios citados traduziram para suas línguas aquilo que o amazonense resume em uma expressão: “taqui pra ti”. Foi isso que os três candidatos a candidatos ouviram quando pediram apoio. Falta apenas o eleitor dar pra eles um sonoro taquiprati em língua guarani: “vai lavar teu tcherembó’.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cândido Mendes persegue o tocador de pandeiro

Altino Machado às 11:02 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

- Miguel, tu ainda toca pandeiro?

A pergunta feita pelo Getulhão, frentista de um posto de gasolina em Cascadura, Rio de Janeiro, pegou de surpresa o motorista do Dauphine verde claro, zerinho, que parou ali para abastecer.

Podia ser um dia qualquer, de um mês qualquer, mas o ano, com certeza, era 1960, como indica a marca do carro. O motorista interpelado abriu a porta e, enquanto tentava se lembrar de onde conhecia aquele negão que o chamara pelo nome, disse para ganhar tempo:

- Desculpa! Não ouvi direito!

O frentista abriu um sorriso que mostrava a ausência de vários dentes na “comissão de frente”, encurvou a mão direita na forma de concha e, com as pontas dos dedos abertos, começou a dar chicotadas em uma lata de óleo vazia que trazia na mão esquerda, produzindo diversos timbres e um bom suingue. Seus dedos descontraídos voavam sobre aquele pandeiro improvisado no momento em que repetiu a pergunta:

- Me diz, Miguel, tu ainda toca pandeiro?

O rosto de Miguel se iluminou com aquela batida:

- Louriiiinho! Há quanto tempo!

Os dois se abraçaram, comovidos. ‘Lourinho’ era o apelido do Getulhão, um amigo de infância, no final dos anos 30, lá na parte mais pobre do bairro popular de Engenheiro Leal, Zona Norte do Rio, onde, juntos, tocavam pandeiro. Fazia uns vinte anos que não se viam. Lembraram os velhos tempos, indagaram sobre o destino de outros amigos dispersos, trocaram informações, riram, mataram a saudade. Se, como disse alguém “minha pátria é minha infância”, aquele era um encontro de exilados.

Leite Glória

Getulhão manifestou seu orgulho de ter um amigo doutor. É que daquele grupo, ninguém estudou. O único que continuou respondendo presente à chamada na escola foi o aluno Miguel Lanzellotti Baldez, nascido em 24 de fevereiro de 1930, filho de Coryntho Silveira Baldez, um autodidata que aprendeu o ofício de topógrafo, e de Maria Luiza Carmela Lanzellotti Baldez, uma imigrante italiana, que deixou o meio rural para trabalhar como operária em uma fábrica de calçados.

O pai e a mãe ralaram para que Miguel se formasse em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas do Rio de Janeiro, em 1955. Cinco anos depois, já estava atuando como advogado no Escritório de Luiz Machado Guimarães. Com os honorários recebidos na primeira grande causa, deixou de andar de ônibus. Comprou um carro do ano, que tinha volante de alumínio polido com três raios e motor traseiro.

O Dauphine, primeiro carro de passeio fabricado no Brasil pela Willys-Overland durante a euforia do governo JK, era concorrente do fusquinha. Depois, adquiriu má fama, quando descobriram que capotava facilmente. Por causa de sua suspensão, foi apelidado de ‘aerocapotable’ ou ‘Leite Glória’, o leite em pó instantâneo cujo slogan anunciava: “desmancha sem bater”. Era um carro econômico, popular, de baixo custo.

Mas não foi isso que Getulhão viu, quando terminou de encher o tanque. O que ele viu - e não escondia sua alegria - foi seu amigo de infância, vizinho da mesma rua, agora doutor, que havia estudado por todos eles e se tornara proprietário de conhecimentos e de um carro do ano, bens que poucos brasileiros, na época, podiam ter. Com uma estopa, Getulhão acariciava a carroceria reluzente, contente, como se todo o bairro de Engenheiro Leal, através de Miguel, estivesse pilotando o Dauphine.

- Miguel, tu ainda toca pandeiro?

A retórica da pergunta pressupunha uma afirmação de intimidade, de compartilhamento: se tu tocas pandeiro, eu te conheço, tu me conheces, somos amigos que tocam pandeiro e um deles é bacharel e possui um Dauphine. Chegando em casa, Getulhão era bem capaz de dizer displicentemente à sua mulher: - Lembra do Miguel? A gente tocava pandeiro juntos. Ele agora é doutor. Qualquer dia desses dou uma volta de Dauphine com ele.

O flautista

Mas dentro da pergunta, carregada de símbolos, estavam embutidas várias metáforas. O pandeiro não era um simples pandeiro, tinha outros significados, incluindo o entusiasmo pela vida e o compromisso social. Era como se dissesse: Miguel, tu continuas alegre e musical? Miguel, mesmo motorizado, tu ainda estás do lado de cá? Nessa última, estava implícito um apelo: não deixa de tocar pandeiro, fica com a gente, Miguel!

Miguel ficou alegre, tocando pandeiro vida afora, sem negar as origens. Inconformado com a injustiça social, desde sempre, se engajou nas lutas populares. Com a renúncia do Jânio, em 1961, foi pras ruas lutar pela posse de Jango, ajudando na construção da greve geral. Vinculou-se ao CGT - Comando Geral dos Trabalhadores, e ao sindicato dos portuários.

- Você é comunista, mas ainda não sabe - dizia o velho Coryntho.

Em 1963, Miguel fez concurso público e se tornou Procurador do Estado do Rio de Janeiro. Depois do golpe militar, participou da resistência à ditadura, lutando em várias trincheiras, inclusive na formação de novos advogados. Desde 1967 é professor titular de Direito Processual Civil da Faculdade de Direito Cândido Mendes, cujo dono não sabe tocar pandeiro e, agora, decidiu persegui-lo (leia) por haver denunciado as condições de trabalho na instituição.

A partir de 1982, o pandeiro de Miguel tocou na organização do Núcleo de Regularização de Loteamentos Clandestinos e Irregulares da Procuradoria Geral do Estado, que era uma demanda das comunidades excluídas da cidade do Rio. De lá para cá, continua tocando para os movimentos de luta pela terra, tanto urbanos como rurais, que ele assessora, afinado com palestras, conferências, cursos e textos publicados, entre outros temas, sobre o direito insurgente, a questão agrária e a história da propriedade no Brasil.

Ali, onde tem alguém sofrendo, ali, esse amante da justiça está tocando seu pandeiro, como no Fórum de Luta Pela Vida e Contra a Violência, criado na Baixada Fluminense e cidades serranas, onde o conheci no final dos anos 80, ou no Curso de Direito Social da UERJ, que ele coordenou, junto com o desembargador Sérgio Verani e a psicóloga Esther Arantes.

Numa carona de carro - não era o Dauphine - a Campo Grande (RJ), onde participamos de uma mesa-redonda, Miguel Baldez lembrou essa história. Já faz tempo. Mas ela me tocou. Guardei na memória o essencial e preenchi as lacunas com o tempero da imaginação. Decidi escrevê-la agora, para render homenagem a esse Lanzellotti, primeiro cavaleiro da Távola Redonda, que nessa semana completa 80 anos tocando pandeiro. Ainda.

Esse infatigável tocador de pandeiro se assemelha àquele flautista medieval da canção de Georges Brassens, de origem humilde, cuja música era tão refinada que o rei tentou comprá-lo com títulos de nobreza, emblema, brasão, escudo, honrarias, glória, castelo com fosso e muralha. No final, “o flautista, modesto jogral / disse um sonoro não ao castelo feudal / Agora, nenhum camponês diz / que o flautista traiu sua raiz / E Deus reconhece como filho seu / aquele bardo que não se rendeu”.

Como o bardo, esse Baldez também não se rendeu. Que Deus o abençoe!

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Foto: IAB

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Mais de 10 mil pessoas afetadas por epidemia de dengue no Acre

Altino Machado às 10:35 am
Atendimento no Centro de Saúde Barral y Barral

Atendimento no Centro de Saúde Barral y Barral

Após o sucesso de cinco noites do “Carnaval na Floresta Digital”, com temas cibernéticos no estacionamento do estádio Arena da Floresta, em Rio Branco, o Acre permanece conectado à uma realidade onde a epidemia de dengue tem afetado a população da maioria de seus 22 municípios.

De acordo com a Vigilância Epdemiológica de Rio Branco, a capital, já foram notificados mais de 5 mil casos da doença na cidade apenas em janeiro. As autoridades de saúde trabalham com expectativa de que o número ultrapasse os 10 mil casos,  quando forem somados todos os casos de dengue notificados nas últimas semanas epidemiológicas de fevereiro.

Além da população, várias personalidades do Acre já padeceram com dengue nos últimos meses. O prefeito de Rio Branco, Raimundo Angelim (PT), por exemplo, passou quase duas semanas sem trabalhar por causa da doença.

Outro que ficou fora de combate por causa da dengue foi o jornalista Aníbal Diniz, secretário de Comunicação do governo do Acre e suplente do senador Tião Viana (PT-AC).

O assessor de Comunicação da prefeitura, Oly Duarte, também passou duas semanas com a febre. A dengue não poupou nem mesmo a juíza Taís Khalil, casada com o secretário municipal de Saúde, Pascal Khalil.

No ano passado, em Rio Branco foram notificados quase 20 mil casos de dengue, sendo que mais de 16 mil foram confirmados. Duas pessoas morreram por dengue hemorrágica e uma por dengue com complicação.

Os primeiros casos de dengue foram notificados no Acre há 10 anos. Desde então, entre os meses de outubro e março, os casos se intensificam. Em Rio Branco existem três unidades de pronto-atendimento.

O Centro de Saúde Barral y Barral já atendeu neste ano mais de 50% dos casos da doença. Trata-se de um espaço muito precário, onde são atendidos diariamente mais de 250 pessoas. Os pacientes que são internados fazem fila para ter acesso aos poucos banheiros do centro de saúde.

Os casos mais graves de dengue neste ano envolvem gestantes, crianças e idosos, que são atendidos com prioridade. A situação do Acre é acompanhada pelo Ministério da Saúde, que chegou a repassar R$ 814 mil para o combate à doença, aprimoramento dos isolamentos virais, através da distribuição de kits para triagem das amostras, além de repasse de 350 litros de inseticidas em complementação aos 920 litros já enviados.

Por causa disso, a prefeitura de Rio Branco iniciou na segunda-feira, 15, uma nova etapa no combate ao mosquito da dengue. Ações serão intensificadas com a utilização de 39 fumacês portáteis.

Diferente dos fumacês dos carros, os portáteis vão permitir que os agentes de endemias entrem nos quintais, agindo de forma mais efetiva contra o mosquito aedes aegypti.

- Com os fumacês portáteis vamos atacar os principais focos da dengue, que em sua maioria se encontram nos quintais - disse o secretário Municipal de Saúde, Pascal Khalil.

Dados do Ministério da Saúde revelam que houve aumento de casos de dengue em dez estados brasileiros em relação ao mesmo período do ano anterior. Rondônia, Acre, Amapá, Piauí, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso apresentaram aumento no número de doentes.

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Com tema cibernético, governo do Acre faz carnaval e promete internet grátis no Estado

Altino Machado às 12:21 pm
Lambe-lambe

Governo do Acre faz festa com promessa de internet grátis

Lançado há 20 dias pelo governo do Acre, para possibilitar o acesso gratuito da população à internet banda larga, o programa Floresta Digital até agora se revelou um fiasco por causa de problemas técnicos. Sucesso mesmo é o Carnaval na Floresta Digital, no estacionamento do estádio Arena da Floresta, cujo nome tem como referência o programa que pretende fazer de Rio Branco a primeira capital com cobertura integral de internet grátis no país.

O projeto visual do carnaval do Acre este ano está relacionado ao ambiente virtual da web. Embora não tenha obtido autorização, o governo estadual tem usado fartamente em sua propaganda imagens do MSN, Twitter, Google, Skype, Firefox, Flickr, Facebook e Blogger. Até pierrot e colombina ganharam desenhos cibernéticos.

Leia mais:

Rio Branco será 1ª capital com cobertura integral de internet grátis no país

MPF abre inquérito contra compra de helicóptero de R$ 7,9 milhões no Acre

Próxima ao portão de acesso ao estádio foi montada uma tenda, denominada de Bolha Digital, equipada com computadores, onde os foliões acessam a internet banda larga e podem enviar recados elogiosos à organização do evento ou tirar fotos para publicação no site do governo estadual. Funcionários do governo ajudam na criação de blogs, redes sociais e outras plataformas da web.

- O carnaval de Rio Branco é o melhor da Amazônia e com este tema a gente assume o jeitão pós-moderno do Acre - disse o governador Binho Marques (PT).

Até o helicóptero, modelo Esquilo AS 350 B2, comprado por R$ 7,9 milhões com recursos provenientes de convênio do governo estadual com o Ministério da Justiça, por meio do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), tem sido usado no Carnaval Floresta Digital.

Batizado de Cel. João Donato, o helicóptero tem animado a festa com vôos rasantes sobre a multidão de milhares de foliões. O Ministério Público Federal investiga a possível prática de ilícitos pela empresa Helicópteros do Brasil S.A. (Helibras) no âmbito do processo licitatório (pregão) de compra do helicóptero pelo governo do Acre.

Além disso, foi montada uma delegacia de polícia  no estacionamento do Arena da Floresta. Cerca de 300 homens da Polícia Militar fazem a segurança a partir de 17 pontos de observação. Os policiais estão equipados com quadriciclos, cavalaria, notebooks e veículos como o segways, de duas rodas, ainda pouco conhecido e utilizado no Brasil.

A Polícia Militar informou que 25 pessoas foram presas na noite de sábado, sendo quatro reeducandos, além de menor que estava em regime de internação. Em anos anteriores, a PM chegou a prender 700 pessoas.

- Tudo isso é fruto de uma série de medidas e do policiamento reforçado, que este ano ganhou o reforço do helicóptero João Donato - avalia o coronel Romário Célio, comandante da Polícia Militar do Acre.

A terceira noite do “Carnaval na Floresta Digital” foi marcada pela presença da cantora baiana Fernanda Farani, que vai embalar as noites desta segunda-feira e de terça-feira.

No ano passado, Fernanda Farani participou do quadro Banquinho, do Programa Raul Gil, foi eleita a cantora revelação da Micareta de Feira de Santana, na Bahia, e participou do réveillon de Rio Branco, também organizado pelo governo estadual. Já compôs três músicas no Acre, sendo uma em homenagem ao Estado.

- Foi uma energia inexplicável, coisa de momento. Abençoada. A expectativa pra tocar no carnaval é muito grande. São 60 mil pessoas na pista, de uma empolgação que tem origem nordestina, muito forte.

O governo estadual investiu R$ 30 milhões no programa Floresta Digital, que pretende possibilitar o acesso da população urbana dos 22 municípios do Acre à internet até o final do ano. O governo também começará neste ano a distribuição de 9 mil netbooks aos estudantes do terceiro ano do ensino médio.

Com mais de 150 mil quilômetros quadrados, sendo 98% deles cobertos por mata virgem, o Acre tem 700 mil habitantes. Até agora, o governo do Acre apenas replica na mídia a marchinha “Viva o Carnaval na Floresta Digital”.

Nada de internet grátis. O que existe são pontos precaríssimos de acesso wi-fi em Rio Branco, que já funcionavam a partir de prédio públicos.

Para ter acesso gratuito à internet banda larga prometida pelo governo do Acre, a população terá que comprar antenas. Porém, ainda não está funcionando nenhuma das 32 estações de rádio-base da capital, para as quais serão apontadas as antenas dos usuários.

Apenas o estudo técnico do Floresta Digital, elaborado pela Agência de Comércio e Desenvolvimento dos Estados Unidos, custou US$ 573,8 mil. Apesar de tanto investimento, esqueceram que governo estaria se tornando provedor de acesso à internet. Não existe até agora sequer fone ou central de atendimento para os usuários.

Fotos: Divulgação

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Folia incorpora loucos no carnaval brasileiro

Altino Machado às 12:02 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

Loucos

Se, em francês, loucura é folie, blocos têm verdadeiros foliões

É carnaval. Milhões de brasileiros caem na folia. No Rio de Janeiro, em todos os bairros, pululam centenas de blocos de rua. Um deles é o “Tá Pirando, Pirado, Pirou”, criado na Urca, em 2005, por usuários dos serviços de saúde mental e funcionários do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. No ano passado, recebeu o prêmio “Loucos pela Diversidade” do Ministério da Cultura. Neste ano, desfilou pela Av. Pasteur, com o enredo “Ser maluco é fácil, difícil é ser eu”, animado pela Bateria Batuque de Bamba.

Esse enredo, que nos convida a uma reflexão sobre a identidade e a exclusão do louco, foi proposto por João Batista, um portador de sofrimento psíquico. Ele sentiu na própria pele a violência do isolamento em um hospício e, com base nisso, sentenciou:

- Ser maluco é fácil, basta você ter sua primeira internação no manicômio e o sistema faz o resto.

Concluiu, depois de ser tratado pelos novos serviços instituídos pela Lei da Psiquiatria de 2001:

- Como é difícil ser eu!.  E criou, sem querer, o mote para o enredo.

A lógica manicomial dá muito pano para fantasias e alegorias, com seu tratamento agressivo, camisa-de-força, psicocirurgia e eletroencefalograma duvidoso, que não deixam o eu ser eu. Um dos bonecos gigantes que desfilou no bloco, movido por um folião, tinha o corpo, os braços e as pernas formados por caixas de psicotrópicos.

- Foi comovente ver ex-pacientes de longos anos de internação num macro-hospício participando da evolução da comissão de frente - declarou a psicóloga Rosaura Braz.

O desfile do bloco “Tá pirando” carnavalizou, dessa forma, as idéias de Michel Foucault, que estudou, no seu livro História da Loucura na Idade Clássica, as diferentes formas de tratar os distúrbios mentais nos últimos séculos. O filósofo francês demonstrou que os loucos, que viviam vagando pelas cidades, passaram a ser internados não por razões médicas, mas com objetivo de vigiar, controlar e punir. O hospício, em vez de um lugar de cura, se tornou uma fábrica de loucos.

Toma limonada

O enredo do bloco toca na ferida. Hoje parece absurdo, mas antes muita gente acreditava e outros fingiam crer que a loucura era contagiante, que a doença mental podia ser transmitida através do convívio e que, por isso, o louco -um doente incurável e perigoso- devia ser internado, segregado e excluído da sociedade. Essa idéia foi tão nociva, burra e interesseira quanto a crença em “raças inferiores”. No caso da mulata, o racismo de Lamartine Babo dava um desconto, quando cantava “mas como a cor não pega, mulata, eu quero o teu amor”.

Já com a loucura, que “pega”, não havia atenuantes. O remédio para essa espécie de “lepra mental”, além da discriminação, era o confinamento. Criou-se o “medo do contágio” como uma justificativa ideológica para impedir que os loucos ficassem vagando nos grandes centros urbanos, alterando a ordem. No entanto, nas cidades de pequeno e médio porte, onde o poder político era, felizmente, fraco ou incompetente para organizar a repressão, a idéia não vingou. Foi o caso de Manaus.

Os loucos, alguns de famílias tradicionais, circulavam livremente pelas ruas da capital amazonense, até os anos 50/60, ainda que a convivência com a população nem sempre fosse harmoniosa. Às vezes eram escorraçados pela molecada, mas freqüentemente eram tratados com respeito e conseguiam estabelecer relações solidárias com os moradores dos bairros, que em certa medida embarcavam em suas fantasias.

O mais famoso deles -o Bombalá- foi cantado em prosa e verso por Thiago de Mello, Arthur Engrácio, Aristófanes de Castro e outros. Ele adorava desfilar, vestido com uma calça pega-marreca. Era ele quem abria os desfiles da Polícia Militar, nas festas cívicas, regendo a banda de música da PM, com uma vara na mão, que lhe servia de batuta, gesticulando e marchando com passos marciais e ritmados. De uma família com posses, residia num casarão da Av. Joaquim Nabuco, perto da Praça da Polícia.

Dizem que Bombalá chegou a estudar música. O certo é que quase nunca perdia uma apresentação no coreto da Praça da Polícia, onde a banda da PM sempre contava com a sua batuta de maestro. Cheguei a vê-lo, em minha infância, desfilando à frente do Colégio Estadual do Amazonas, na parada escolar de 7 de setembro, murmurando em forma cadenciada:

- Toma-limonada-pra-cagar-de-madrugada, toma-limonada-pra-cagar-de-madrugada.

Tom Mix

Bombalá é o primeiro de uma longa lista, que tem Carmen Doida, Nega Maluca, Nega Charuta, Neide Pipoca, Tom Mix, Macaxeira, Zé Bundinha, Antônio Doido, Raimundo Mucura, Professor Guilherme, Solaninho, Porca Vadia, Bonitão -primo do governador Álvaro Maia- e tantos outros. É possível mapeá-los bairro a bairro.

Cada um com sua mania. Tom Mix, o xerife, nasceu no velho oeste e entre bravos se criou. Tinha a cara bexiguenta. Nunca casou para não atrapalhar sua missão na terra. Era viciado em filme de bang-bang. Morava numa casa na esquina da Henrique Martins com Rui Barbosa, de propriedade de seu irmão, o coronel Trigueiro, que trabalhava no Palácio do Governo. A vizinhança com os cines Polytheama e Guarani alimentava seu vicio: não perdia uma sessão. Assistia todos os seriados. Pulou para dentro das telas e passou a viver lá, enfrentando índios e bandidos que assaltavam diligências.

Para isso, Tom Mix, já meio coroa, circulava pelo centro de Manaus sempre vestido de cowboy: botas country, calça de brim ajustada, camisa quadriculada com uma estrela no peito, jaqueta de couro, cinto com vistosa fivela, onde estavam penduradas duas cartucheiras com revolver de espoleta e, para completar, um chapéu cor de areia com arame embutido na aba, que ele só retirava para dar bom-dia às donzelas ou quando enfrentava ladrões de gado, montado no cavalo Champion, emprestado do Gene Autry.

Cheira, Macaxeira

A mania de Macaxeira, outro da lista, era organizar a trafegabilidade das vias. Ele era mais que um guarda, era o guardião do trânsito, capaz de identificar os pontos de engarrafamento e de agilizar o fluxo de veículos, que na época incluía até carroças. Com um giz, demarcava seu espaço riscando um círculo no asfalto, em cruzamentos importantes. De lá, apitava, gesticulava, parava ou fazia avançar os carros.

Quando alguém para molestá-lo gritava: “Macaxeira”, ele descia de suas tamancas e dava o troco, rimando: “Pega no meu pau e cheira”.

Foi o que aconteceu com a então jovem Charufe Nasser, minha amiga, multada por ele quando, numa bicicleta, furou o sinal da Monsenhor Coutinho com a Ferreira Pena. Até hoje ela está traumatizada.

Loucura organizada

Há um pouco mais de três anos, Rogelio Casado, coordenador do Programa Estadual de Saúde Mental, começou a recolher depoimentos sobre os loucos de rua, em Manaus, com o objetivo de avaliar como a memória pode contribuir para a inclusão social dos loucos na cultura de nossos tempos. Ele zela pelas lembranças dos loucos como o jornalista Carlos Zamith, com seu Baú Velho, cuida da memória do futebol amazonense: com devoção, com unção.

Vários depoimentos foram publicados no blog Picica administrado por Rogelio Casado, onde podem ser encontrados também registros sobre os avanços e recuos da Reforma Psiquiátrica, notas sobre os preparativos da 4ª. Conferencia Nacional de Saúde Mental, que se realizará em julho e notícias sobre blocos pelo Brasil afora que reúnem médicos, enfermeiros, pacientes, familiares e simpatizantes.

Só no Rio de Janeiro, além do “Tá pirando”, tem o “Loucura Suburbana”, do Instituto Nise da Silveira, que já desfilou dez anos seguidos pelas ruas do Engenho de Dentro, e o “Tremendo nos nervos” do Centro Psiquiátrico (CPRJ), que sai na Praça da Harmonia, no bairro da Saúde. Com seis meses de antecedência, eles começam os preparativos: fazem oficinas, escolhem um tema, estudam o enredo, selecionam o samba e trabalham a produção de fantasias, bonecos e estandarte.

A participação dos pacientes na produção do bloco já faz parte do próprio tratamento, porque ajuda na recuperação, colabora com a inclusão social e, sobretudo, enfrenta o estigma da loucura com coragem e alegria. Se, em francês, loucura é “folie”, então esses blocos incorporam os verdadeiros foliões, cuja alegria, essa sim, é contagiante. O Bombalá, certamente, se vivo, teria gostado de desfilar em algum deles.

P.S.: Agradecemos as informações e as fotos feitas pela psicóloga Rosaura Maria Braz.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Acre: Estado e Município são condenados por uso indevido de imagem

Altino Machado às 5:01 pm
asasas

Juíza Maria Penha Nascimento

A juíza Maria Penha Nascimento, da 1ª Vara da Fazenda Pública, condenou o estado do Acre e o município de Rio Branco por uso indevido de imagem em publicidade oficial elaborada pela CIA de Selva, a agência de propaganda que detém as contas do governo estadual e da prefeitura, ambas administradas pelo PT.

Inédita, a ação de indenização condena cada um dos réus ao pagamento de R$ 6 mil, a ser acrescido de correção monetária pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) e juros de mora de 12% ao ano.

A magistrada julgou procedente o pedido ajuizado por Derdela da Silva Lima (mãe), Melissa da Silva Araújo, Michele da Silva Araújo e Miréa da Silva Araújo (filhas).

Derdela Lima, em 2008, foi abordada em sua residência por servidores do governo do Acre e da prefeitura de Rio Branco, que vistoriavam e fotografavam obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Um deles teria se oferecido para fotografar a família da autora, com a promessa de que, tão logo fosse revelado o filme, entregaria de presente.

Convocadas para participar de reunião na Associação de Moradores do Bairro Palheiral, as requerentes se depararam com sua fotografia estampada em um convite do Governo do Estado do Acre e do Município de Rio Branco.

No convite constava a mensagem a seguir:

“O governador Binho Marques e o prefeito Raimundo Angelim convidam para a Solenidade de Lançamento das Ações Sociais, Saneamento Ambiental, Habitação e Urbanização nas Zonas de Atendimento Prioritário ZAP. Um importante investimento do Governo do Estado e Prefeitura de Rio Branco para levar cidadania aos moradores da região que compreende os bairros Chico Mendes, Palheiral – Igarapé Maternidade, Conquista, Igarapé Fundo e Santa Inês, com apoio do Governo Federal, através do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC.”

Data: 23 de junho de 2008
Horário: 17h00min”

De acordo com os autos, o fato causou gozação por parte dos presentes, revolta, constrangimento, angústia e tristeza às autoras que, em momento algum, autorizaram a divulgação de sua imagem, utilizada em um convite distribuído em toda cidade.

O Estado do Acre e o Município de Rio Branco alegaram que o funcionário foi autorizado pela família a tirar a fotografia, a qual não foi utilizada para fins ilícitos, mas sim informativos e enaltecedores da sociedade.

Mas juíza entendeu que o cerne da questão não é a autorização ou não da fotografia, mas sim se ela foi utilizada para malferir o direito à imagem, o que de fato ocorreu.

Setença

De acordo com a sentença da magistrada, as autoras aparecem em publicidade oficial como pessoas carentes que seriam beneficiárias de obras executadas para levar cidadania a moradores de regiões deficitárias de políticas públicas.

Nesse caso, houve exploração dos aspectos fisionômicos, como também dos atributos sociais das autoras, de modo desautorizada. Além disso, houve ampla divulgação dessa imagem, na medida em que o convite indica como local do evento o Teatro Plácido de Castro, prédio com capacidade para centenas de pessoas - argumenta a juíza.

Maria Penha destaca a importância do caráter pedagógico da decisão.

- A indenização fixada tem a finalidade de reparar o dano à imagem e punir o infrator, servindo a decisão, ademais, como meio de educação para o exercício e o respeito aos direitos, esclarecendo as pessoas sobre a proteção constitucional de sua imagem, notadamente quando violada pelo próprio ente estatal; este, a exemplo das instituições privadas, deve ficar atento para que seus atos não violem a imagem de particulares, protegida, repita-se, constitucionalmente.

A decisão está fundamentada no art. 5º, incisos V, X e XXVIII da Constituição Federal, os quais asseguram que são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.

Carnaval digital

A partir deste ano o governo do Acre passa a correr o risco de enfrentar problema semelhante em decorrência de uso indevido de várias marcas no tema do “Viva o Carnaval na Floresta Digital”.

Imagens de emotions do MSN, Twitter, Google, Skype, Firefox, Flickr, Facebook e Blogger estão sendo usadas pelos organizadores do Carnaval, que será realizado no estacionamento do estádio Arena da Floresta.

Foto: Ascom/TJAC

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

MPF tenta impedir genocídio de comunidade quilombola em Rondônia

Altino Machado às 11:18 am

Na tentativa de retirar a comunidade quilombola de Santo Antônio do Guaporé da situação de indigência, o Ministério Público Federal (MPF) em Rondônia ingressou com ação civil pública com pedido de liminar contra o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), Instituto Nacional de Colonização e Regularização Agrária (Incra) e União.

A comunidade quilombola é certificada pela Fundação Cultural Palmares desde 2004 e tem direitos constitucionais a serem respeitados. Segundo o MPF, além de sofrer restrições do órgão ambiental (ICMBio) a seu desenvolvimento econômico, os quilombolas sofrem com a inexistência de saneamento básico e políticas públicas de saúde e educação.

Leia mais:

Aids e “racismo ambiental” ameaçam quilombolas do Vale do Guaporé

O MPF informou que o processo de titularização fundiária, que tem seus limites questionados pelo ICMbio, está paralisado há dois anos na Câmara de Conciliação da Advocacia-Geral da União (AGU) por conta de controvérsia quanto à dimensão das terras quilombolas.

Enquanto o Incra aponta área de 41,6 mil hectares, o ICMBio entende que apenas 3,4 mil hectares devam ser titularizados em favor da comunidade.

O procurador da República Daniel Fontenele disse que não se pode deixar a comunidade alijada do exercício de sua própria identidade e impossibilitada de alcançar o mínimo existencial que lhe é assegurado pela Constituição.

- Por outro lado, é inconcebível que a dignidade humana se veja contingenciada pela intransigência do próprio Estado. Mais inaceitável, ainda, quando tal intransigência se dá por desacordo entre órgãos públicos - acrescentou.

Para o MPF, assegurar à comunidade quilombola o acesso imediato a políticas públicas essenciais de saúde e educação, energia elétrica, instalação de bens de produção e assessoria técnica, bem como o manejo tradicional dos recursos naturais, é imprescindível para evitar o extermínio da população que vive há mais de 120 anos no Vale do Rio Guaporé.

Pedidos

O MPF pediu à Justiça que impeça o Instituto Chico Mendes de impor qualquer obstáculo ao acesso da comunidade Santo Antônio do Guaporé às políticas públicas e ao manejo tradicional na área atualmente ocupada pelos quilombolas, sob a pena de multa de R$ 10 mil em caso de descumprimento.

Quanto ao Incra, o MPF pediu que proceda, em 30 dias, a titulação fundiária da área incontroversa de 3.495ha em favor da Comunidade Santo Antônio do Guaporé.

O MPF pediu, em relação à União, determinação judicial de prazo razoável para que termine a definição do restante da área quilombola e que viabilize a participação de representantes da comunidade nas discussões que são conduzidas na Câmara de Conciliação da AGU.

Fotos: Divulgação

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Vídeo inédito mostra ave descoberta no Brasil

Altino Machado às 12:40 pm
no Brasil só é encontrado no Acre

Flautim-rufo: no Brasil só é encontrado no Acre

O Blog da Amazônia é o primeiro veículo a registrar em vídeo e fotos, no Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre, em Rio Branco, a captura de um flautim-rufo (Cnipodectes superrufus).

Descrita pela ciência há dois anos, no Brasil a espécie foi encontrada até agora apenas no Acre, onde o ornitólogo Edson Guilherme faz anilhamento dela há mais de 10 anos.

Munida de equipamentos sofisticados, uma equipe norte-americana fracassou recentemente no Acre na tentativa de documentar com exclusividade a captura do flautim-rufo.

Além do Acre, o flautim-rufo é encontrado nas regiões de Puerto Maldonado, no Peru, e de Pando, na Bolívia.

No Brasil, existem apenas três espécimes coletados e taxidermizados, oriundos do Acre, que estão depositados no Museu Emílio Goeldi, em Belém (PA).

Os demais espécimes, capturados em território peruano, estão guardados em museus da Louisiana (EUA) e de Lima (Peru).

Numa área de 100 hectares de capoeira, com auxílio de estudantes do curso de biologia, o ornitólogo tenta saber quanto tempo vive a longo prazo cada espécie. A partir disso, espera desenvolver ações de conservação para as aves que vivem em fragmentos isolados de floresta.

- A probabilidade dessas espécies entrarem em extinção é muito pequena porque o Acre só tem 10% de sua área desmatada e 50% já são áreas protegidas [terras indígenas e unidades de conservação] - afirma.

Edson Guilherme considera o Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre uma área potencialmente turística para atrair milhares de pessoas no mundo que se dedicam à observação de aves.

- Aqui, nós identificamos pelo menos 15 espécies endêmicas da Amazônia Ocidental, ou seja, os amantes de aves que têm interesse em observá-las, encontram um parque dentro da área urbana de Rio Branco, perto dos hotéis. Elas podem observar essas aves que são raras em outros locais, pois temos aqui uma pequena amostra das aves que são endêmicas da Amazônia Sul-Ocidental.

Edson Guilherme ganhou notoriedade no ambiente acadêmico no ano passado ao concluir o doutorado. Após quatro anos de pesquisas, o ornitólogo revelou o registro inédito no Brasil de cinco espécies: o flamingo-da-puna (Phoenicoparrus jamesi), o pica-pau-anão (Picumnus subtilis), o arapaçu-de-tschudi (Xiphorhynchus chunchotambo), o caneleiro (Pachyramphus xanthogenys) e o flautim-rufo (Cnipodectes superrufus).

De acordo com o ornitólogo, o grande número de espécies registradas no Acre corrobora a idéia de que o sudoeste amazônico é, de fato, uma região de alta diversidade avifaunística.

Guilherme registrou 655 espécies de aves nos limites territoriais do Acre. Elas representam mais da metade de todas as espécies de aves registradas na Amazônia.

- Se levarmos em consideração somente as espécies que ocorrem na margem sul do complexo Solimões-Amazonas, a avifauna encontrada no Acre corresponde a 73,6% das espécies registradas para esta região zoogeográfica - assinala.

Espécie foi descrita pela ciência há dois anos

Espécie foi descrita pela ciência há dois anos

A avifauna do Acre é composta principalmente por espécies residentes, além das espécies migratórias e invasoras. A maioria (75,5%) das espécies registradas pela primeira vez para o Acre foi de espécies residentes.

Das 1.882 espécies de aves confirmadas para o Brasil, 22 só foram registradas no Acre, o que indica a grande singularidade da avifauna do Estado. Segundo Edson Guilherme, dentre os Estados da Amazônia brasileira, apenas Roraima teve sua avifauna inventariada recentemente.

Foram registradas 741 espécies em Roraima, que é um número 11,4% maior que o registrado no Acre. Duas causas ao menos podem explicar as diferenças entre a riqueza de espécies detectadas nos dois estados.

- A primeira delas é que Roraima possui uma extensão territorial 32% maior que a do Acre. Já a segunda, e mais importante, é que Roraima abriga um número significativo de fitofisionomias não encontradas no Acre, tais como: florestas secas, florestas montanas, os tepuis e as savanas - analisa o ornitólogo.

Edson Guilherme acredita que a avifauna do Acre poderá sofrer um acréscimo de até 99 espécies no futuro. Somando‐se os registros já confirmados com aqueles não confirmados e os de provável ocorrência, estima‐se que o número total de espécies de aves no Acre deve ficar em torno de 754.

- Se estas predições se confirmarem, o Acre, apesar da sua área reduzida, terá uma das avifaunas mais ricas entre todos os estados brasileiros - conclui o pesquisador.

Flautim-rufo na malhadeira

Flautim-rufo na malhadeira

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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Jovens não têm a menor idéia do horror que foi a ditadura militar no Brasil

Altino Machado às 10:30 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

Quando cheguei, às duas da tarde, ela já estava lá, esperando. Não me conhecia e me olhou, obliquamente, me estudando como se eu fosse um fungo bolorento: quem é esse cara? Não havia viva alma no auditório da Biblioteca Pública, na Rua Barroso, em Manaus, naquele 19 de abril de 1978. Nós dois éramos os palestrantes num evento sem público sobre o Dia do Índio, organizado pelo artista plástico Álvaro Páscoa, da Fundação Cultural do Amazonas. Foi ele quem nos apresentou.

Geny Brelaz de Castro, formada pela Universidade Federal de Pernambuco em Farmácia e Bioquímica, em 1970, é a primeira índia diplomada do Brasil. Estuda fungos, comestíveis uns, venenosos outros, mas também pesquisa parasitas agressores -alguns mortais- que infectam gente, animais e plantas, e apodrecem as árvores. O outro palestrante -esse locutor que vos fala- era, então, professor da Universidade Federal do Amazonas, com uma tese inconclusa de doutorado em Paris sobre história indígena.

- Cadê o público? Quem é que vai sair de casa com esse calor infernal para ouvir falar de índio, numa hora dessas, depois de almoçar jaraqui frito com baião-de-dois? - indaguei apreensivo.

Álvaro Páscoa deu uma baforada no cachimbo e nos tranqüilizou. Já estava tudo agendado com o professor de Educação Moral e Cívica da Escola Técnica Federal, chamado Cauby, um pomposo nome de origem tupi. No horário de sua aula, ele traria os alunos de várias turmas, com controle da lista de presença.

Efetivamente, arrastados compulsoriamente, os alunos lotaram o auditório. Cauby, um sargentão, fechou as portas para ninguém fugir. Não era preciso. Geny falou primeiro e deu um show. Quem a conhece sabe do que estou falando. Ela tem tal domínio de palco e de microfone que bota no chinelo a Hebe Camargo. Cativou os meninos. Falou nas toxinas presentes na farinha que eles haviam acabado de comer, nos hábitos alimentares, nas bebidas indígenas, nas plantas medicinais. Contou histórias. Enfim, lavou a égua.

Especialista em micologia, Geny, que é da nação Munduruku, incorporou a ciência oral milenar do seu povo ao saber escrito aprendido na universidade. Ela sabe tudo sobre fungos. Pesquisou a farmacopéia indígena, os fungos na preparação do tarubá -uma bebida indígena- e os microorganismos em farinhas da Amazônia. Já era naquela época uma pesquisadora respeitada com participação em congressos e artigos publicados no Brasil e no exterior. Foi aplaudidíssima pelo auditório.

Falar depois dela era um desafio. Tentei dar meu recado. Apoiado em documentos, descrevi o desaparecimento de muitos saberes, devido ao massacre das nações indígenas, uma das maiores catástrofes demográficas da história da humanidade. Fui aplaudido ruidosamente. No debate, o professor Cauby quis se exibir para os alunos. Discordou do termo “nação indígena”, que eu havia empregado, considerando-o inapropriado e perigoso.

- Só um traidor da Pátria chama índio de nação - aloprou.

Sua intervenção, aplaudida com assobios e gritos de apoio, me intimidou. Esclareci: quem chamou os índios de “nações” foi o português, não era invenção minha, estava na documentação da época. O termo “nação”tinha, inclusive, significado mais amplo, pois era também usado como coletivo. Recitei versinho cantado pelas crianças lusas:

- Aranha aranhão, sapo sapão, bichos de toda nação.

Fui saudado por uma onda de aplausos. Ai entendi que qualquer discurso seria aplaudido. Foi o que aconteceu no duelo que se seguiu.

Cauby:

- Não existem nações indígenas. Somos todos brasileiros. Quem fala em nações indígenas quer dividir o Brasil, que é uma só nação, uma única pátria - disse Cauby. (Clap, clap)

Eu:

- Conversa fiada. Nação é uma coisa, estado é outra. Comete erro primário quem confunde conceitos tão diferentes. Um estado pode abrigar muitas nações. (Clap, clap).

Cauby:

- Exatamente, é o caso da União Soviética. Só os comunistas pensam assim, porque querem minar os alicerces da Pátria. (Clap, clap).

Eu:

- Tolice. A Suíça é um estado plurinacional. Lá, tem mais nações do que buracos em queijo suíço. A existência de tantas nações não dividiu o estado suíço, não anulou sua natureza capitalista. Ao contrário, fortaleceu. (Clap, clap).

No final de cada intervenção, uma onda de aplausos para o orador da vez. Quem falasse por último, ganhava. A Geny só ali, na moita, calada, observando tudo. Foi aí que Cauby, que havia feito o curso da Escola Superior de Guerra, engrossou o pirão e disparou o tiro de misericórdia, com um - digamos assim - argumento triunfante:

- Hoje, não é só Dia do Índio. É também Dia do Exército Brasileiro e da vitória na primeira Batalha de Guararapes. Você não homenageou o Exército. Você é comunista.

Fiquei gelado. Hoje, parece bobagem, mas naquele contexto era uma denúncia grave. Afinal, um ano antes, de volta do exílio, foi essa acusação que me levou a passar três semanas preso, em Manaus, quando fui encapuzado e maltratado. (Anexo 01) Estávamos em plena ditadura militar, com um governador biônico, Enoch Reis, nomeado pelo general Geisel, que por sua vez também não havia sido escolhido pelo voto popular.

Os jovens de hoje, em sua maioria, não têm a menor idéia do horror que foi a ditadura. Não havia liberdade de expressão e de associação. O povo não podia votar em presidente, governador, prefeito. A censura impedia que as idéias circulassem nos jornais, no teatro, na música, no cinema, nos livros, na sala de aula. Professores, estudantes, jornalistas, artistas, músicos, cineastas e sindicalistas eram presos não pelo que fizeram, mas pelo que disseram ou pensavam e até pelo que achavam que você tinha a intenção de pensar.

Em todas as universidades, havia uma Assessoria Especial de Segurança e Informação (AESI), com delatores pagos com bons salários para dedurar quem expressasse opinião contra a ditadura. Na Universidade do Amazonas, seu chefe era José Melo de Oliveira. Tenho em mãos cópia de dois ofícios circulares assinados por Melo, em 1974, e enviados a todas as faculdades e institutos. Um deles pedia os nomes das pessoas que pretendiam organizar “uma exposição de livros soviéticos”, o outro exigia controle sobre a formatura de alunos e até sobre o discurso do orador da turma.

Depois disso, ele fez carreira na administração publica, foi Secretário de Educação do governador Amazonino Mendes, e ficou conhecido como José Melo Merenda, por causa do desvio de recursos da merenda escolar. Atualmente, é Secretário de Estado do Governo Eduardo Braga (PMDB, vixe, vixe!). (Anexo 02).

Não podemos esquecer, também, que em Manaus, no período de 1975 a 1979, funcionou um centro de formação, que recrutava e treinava agentes especializados em espionagem, infiltração, repressão política e torturas, financiado pela Operação Condor, conforme comprovam documentos encontrados nos arquivos da polícia política paraguaia, abertos ao público pela Justiça de lá (O Globo, domingo, 7/05/2000, pg. 48)

Há quem, hoje, defenda a ditadura militar. Depois de dois artigos contra a tortura publicados aqui nesse espaço, recebi cartas de alguns leitores com um argumento bizarro: a ditadura foi necessária, porque se os comunistas vencessem, eles aboliriam a liberdade de expressão, suprimiriam as eleições, prenderiam seus opositores, torturariam, etc. Ou seja, para impedir a implantação de um hipotético regime totalitário se fez tudo aquilo que supostamente o inimigo faria: prisão, tortura, censura, etc.

Ih, meu espaço está terminando! E a Geny, como foi que ela me salvou? Ah, a Geny foi genial, leitor (a)! Quando o sargentão me emudeceu com aquela acusação, Geny pegou o microfone, piscou um olho discretamente pra mim e fez uma defesa tão delirante quanto à peça de acusação, dando um xeque mate no Cauby:

- Se o palestrante é comunista, então eu também sou comunista e o Comando Militar da Amazônia (CMA) está cheio de comunistas, porque tudo que ele disse aqui, eu ouvi foi da própria boca dos generais, lá dentro do quartel (clap, clap, clap, claps).

Cauby ficou bestificado. Geny tinha autoridade pra falar. Ela havia acabado de receber uma medalha do CMA, por ter descoberto algum fungo lá aquartelado. Depois disso, fez concurso para professora da UFAM, onde foi Chefe do Laboratório de Patologia, ganhou muitas medalhas, inclusive a do Mérito Universitário, foi convidada a palestrar na Índia, na Argentina, na Europa, França e Bahia, se aposentou, mas continua ativa, pesquisando, é feliz e vive para sempre no meu coração: a solidária e generosa Geny.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Agentes penitenciários são presos acusados do assassinato de estuprador

Altino Machado às 12:50 pm

Três agentes penitenciários estão presos em Rio Branco (AC) acusados de envolvimento no assassinato de Magaiver Batista de Souza, de 22 anos, cujo corpo foi encontrado numa cela do presídio de segurança máxima Antonio Amaro Alves, na tarde de 31 de dezembro.

O preso havia confessado ter violentado e assassinado, na noite de Natal, uma enteada de dois anos na comunidade Trincheira, no município de Sena Madureira, a 144 quilômetros da capital. Ameaçado de morte pelos detentos do presídio estadual, Magaiver foi encaminhado para o presídio federal de segurança máxima.

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Após estuprar e matar menina de dois anos, Magaiver gera polêmica

Os agentes Daniel Júlio Ferreira da Mota, Ronney Christian Jerônimo Batista e Arthur de Jesus Nascimento da Silva, do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen), desde então eram investigados pela tortura e assassinato do preso.

De acordo com a polícia, os três agentes penitenciários teriam planejado a violência mediante o uso de cassetete, o que causou lesões cerebrais (traumatismo craniano encefálico) que causaram a morte de Magaiver.

Logo após o crime, baseado em laudo da Polícia Técnica, a direção do Iapen chegou a divulgar uma nota na qual afirmava que o preso havia se enforcado com um lençol. Porém, o atestado de óbito revelou que o estuprador e assassino da criança sofreu traumatismo craniano.

O inquérito ainda não foi relatado, mas as provas foram suficientes para que a juíza Denise Bonfim, da 2ª Vara Criminal de Rio Branco, decretasse as prisões.

- Nós abominamos a tortura. Neste caso, a tortura evoluiu para um óbito, mas o Estado agiu rápido - assinalou o secretário de Drieitos Humanos Henrique Corinto, que acompanhou as investigações da polícia.

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Belo Monte: licenciar, destruir e meter a mão

Altino Machado às 6:25 am

POR OSWALDO SEVÁ

O deputado Carlos Minc (PT), antes de ser ministro do Meio Ambiente, foi Secretário Estadual do mesmo assunto e teve a oportunidade de salvar a Cidade Maravilhosa de se tornar ainda mais um lugar poluído e sujeito a riscos de origem industrial. Mas ignorou as medições dos poluentes atmosféricos que mostravam o ar mais envenenado de todo o país em vários pontos da região metropolitana do Rio de Janeiro; concedeu sem mais delongas as Licenças Ambientais para a Petrobrás e seus sócios construírem, ao lado de dois raros rios ainda limpos que desembocam na Baia de Guanabara, um dos maiores pólos petroquímicos do Mundo, o Comperj. E no lado oposto da cidade, deu licença para a Vale e os alemães da Thyssen Krupp construírem, na beira da Baia de Sepetiba, uma das maiores siderúrgicas do Mundo.

O presidente do Ibama, Messias Franco, homem de confiança dos grandes poluidores de Minas Gerais, onde fez sua brilhante carreira de ambientalista, assumiu o cargo em 2008 para desbloquear as licenças ambientais dos grandes projetos do capital internacional na Amazônia.  Assim fez, dando sinal verde para barrar o maior afluente do rio Amazonas, o rio Madeira, em Rondônia; e agora, em fevereiro de 2010, ambos os iluminados dirigentes abriram oficialmente o caminho para barrar um dos maiores e mais esplêndidos monumentos fluviais do mundo, a Volta Grande do rio Xingu, no Pará, concedendo a Licença Právia para o mal afamado projeto da usina Belo Monte.

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Especialistas questionam estudos e viabilidade da hidrelétrica de Belo Monte

Batalha do Xingu

Aquilo que o ministro esconde e a mídia ajuda, é uma obra que não se compara a nenhuma outra hidrelétrica jamais construída no país, com quatro grandes barragens, duas usinas com turbo-geradores, uma represa no Xingu e cinco pequenas represas em terra firme na região da Rodovia Transamazônica, dezenas de quilômetros de diques para evitar o extravasamento da água represada, mais de 50 mil hectares alagados, outro tanto destruído pelos canteiros de obras, retirada de material rochoso, escavações de largos e longos canais, estradas e outras construções. Mais de 20 mil pessoas serão expulsas de suas moradias, a maioria delas nos bairros de Altamira, cidade que se tornará uma pequena São Paulo, cercada pelo seu próprio esgoto jogado nos vários igarapés que a cruzam antes de desaguar no Xingu, e com inundações cada vez mais destrutivas e putrefatas.

A Licença Prévia (LP) foi concedida à empresa “holding” federal de eletricidade, a Eletrobrás, e os condicionantes exigidos devem ser por ela cumpridos. Só que as empresas que vão de fato construir e operar a usina ainda não são conhecidas, nem mesmo a Eletrobrás será a sócia principal de qualquer consorcio empresarial que venha a ser formado, pois o governo Lula a proibiu de ser majoritária; pode ser até que nem esteja presente na composição acionaria, e que alguma de suas grandes filiais (como Furnas ou Chesf) seja bastante minoritária. Portanto, os capitais privados internacionais ou mesmo de origem nacional que “ganharem” a licitação –pra quem nisso acredita– estão desoneradas de qualquer obrigação ambiental.

No próprio verbete de 11 linhas que informa na LP o escopo da obra licenciada, os iluminados cometeram um ato falho, reconhecendo o que sempre foi escamoteado: que, no trecho abaixo da barragem Pimental, o Xingu terá uma vazão d’água “residual”. E a reafirmação de uma mentira: de que somente dois municípios, Vitoria do Xingu e Brasil Novo, seriam atingidos pelas conseqüências diretas da obra. Negam que os municípios de Senador Porfírio e Anapu, na outra margem da Volta Grande do Xingu, sejam prejudicados.

A licença concedida engloba a) os quatro canteiros de obras das quatro barragens; b) as linhas elétricas de alta voltagem para alimentar esses canteiros; c) as Linhas de Transmissão das duas usinas até as Subestações já existentes da Eletronorte e que permitiriam ligá-las ao sistema brasileiro interligado; d) as jazidas de retirada de rochas, areia e terra para as obras e d) as rodovias de serviço pesado que ligariam os quatro canteiros de obras à Rodovia Transamazônica, que nesse trecho ainda não é hoje asfaltada.

Nas LPs é costume colocar as exigências a serem cumpridas no verso da licença. Nesse caso, o verso tem oito paginas e 40 itens, dos quais seis deles preocupados com os planos para salvar, monitorar e reproduzir as tartarugas, e nenhum deles mencionando as 20 mil pessoas a serem expulsas.

Na exigência nº 32 , o Ibama abre mão de licenciar os alojamentos de trabalhadores, os sistemas de água, esgoto, drenagem e aterros de lixo correspondentes, todas as demais estradas, inclusive as que deveriam ser remanejadas, novos portos necessários para a obra. Esse item cita no meio dessa lista das “sobras” a licenciar,  genericamente,  os “ressentimentos”, que não tem qualquer previsão nem planejamento no Estudo de Impacto Ambiental, nem qualquer compromisso de que os mais de vinte mil cidadãos seriam reassentados.

No item 28, exige-se que o Incra e o Instituto de Terras do Pará se manifestem sobre os “assentamentos a serem atingidos”, ou seja, sobre os colonos que anos antes batalharam e receberam seus lotes e que devem sair. Quem sabe façam com eles o mesmo que estão fazendo as empresas que constroem a usina de Estreito, na divisa do Tocantins com o Maranhão: nada! Que deixem de ser colonos e se virem!

Uma grande novidade é a democracia racial: de tanto os críticos insistirem que milhares de índios moravam na região, fora de Terras Indígenas delimitadas, ou seja, em bairros de Altamira e nas barrancas do Xingu, o Ibama acaba exigindo, no item 19, que sejam feitos programas mitigatórios e compensatórios para essas famílias, “considerando a especificidade da questão indígena, sem no entanto gerar diferenciação de tratamento no âmbito da população da Área diretamente afetada e da Área de Influencia direta”. Ou seja: não ouviram nem consultaram ninguém decentemente, não tem porque fazer com os índios. Não tem compromisso de reassentar ninguém, nem os índios. Todo mundo tem que ser desrespeitado igual e empobrecer igual. Nem o aristocrata pernambucano Gilberto Freyre imaginou tanta igualdade de direitos nessa população miscigenada e pacífica.

Outros itens mirabolantes exigem que seja mantida pela Eletrobrás a qualidade da água nas represas –coisa que raras prefeituras e governos estaduais fazem hoje nos rios, represas e litorais brasileiros- e que seja resolvida de alguma maneira a “transposição das embarcações na barragem Pimental”. Os iluminados supõem naturalmente que as voadeiras de oito a doze passageiros e os pequenos batelões de uma tonelada que ali trafegam atualmente possam ser versáteis a ponto de vencer os pedrais e a vazão “residual” em meio aos pedrais e ilhas abaixo da barragem, depois serem  guinchados gratuitamente por alguma grua e depois navegarem numa grande represa com ondas e ventos fortes, chegando sãos e salvos em Altamira no mesmo dia.

Mas o que certamente algumas ONGs conservacionistas gostaram mesmo nessa LP, está nos itens  24 e 28. O item 24 prevê a criação de três novas Unidades de Conservação Ambiental: uma tipo APA (em geral totalmente fictícia em termos de proteção, pelo Brasil afora) para as tartarugas no trecho seco da Volta Grande, outra “de Preservação permanente” numa área a escolher, que tenha cavernas importantes – cuja existência sempre foi rechaçada no EIA ; e outra, “de Uso sustentável” para conservar o ambiente dos pedrais rio acima até a foz do maior afluente do Xingu, o rio Iriri -exatamente a área prevista para a próxima destruição hidrelétrica, a usina Babaquara, agora chamada “usina Altamira”, para puxar o saco dos políticos e comerciantes da cidade. O item 28 exige a instalação, pela a Eletrobrás, de duas bases de fiscalização ambiental, flutuantes e completamente equipadas. Quem sabe essas bases servirão para fazer o que fazem as lanchas e camionetes adquiridas pelas empresas que estão construindo as obras no rio Madeira, em Rondônia: policiar e intimidar os pobres moradores ribeirinhos que insistem em continuar pescando e plantando mandioca e feijão para comer.

O que o ministro e o presidente do Ibama realmente gostaram foi de anunciar o “preço” da licença, segundo eles, a modesta quantia de R$ 1,5 bilhão, isto é, mais de 10% do valor total de investimento que o governo está anunciando ou menos da metade do que os empresários e estudiosos calculam. Nesse caso, o ministro nem esperou que a Eletrobrás fizesse a conta direitinho e apresentasse o “Valor de Referência (VR) para fins de Compensação Ambiental e as informações necessárias ao cálculo do grau de Impacto (GI) conforme o Decreto 6.848, de 14.05.2009.”

Não sabemos se o Messias do Ibama pretende obter cargos eletivos e precisaria de fundos para a campanha, mas o ministro Minc certamente sim, pois vai se desincompatibilizar ainda esse mês para concorrer. Para mim e todos os que ajudaram o Belo Monte a morrer duas vezes e ainda batalhamos para que o rio Xingu e seus moradores sejam salvos da destruição e da pobreza, e para que  o dinheiro publico seja salvo da maior expropriação já inventada, esse  deputado dos coletes coloridos não merece em 2010 ser eleito nem síndico de prédio na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Oswaldo Sevá é professor no Departamento de Energia e na Pós-Graduação em Antropologia da Unicamp, estudioso de hidrelétricas há 35 anos  e do projeto Belo Monte  há 22 anos.

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Rio Branco será 1ª capital com cobertura integral de internet grátis no país

Altino Machado às 2:15 pm
Governador Binho Marque

Governador Binho Marques: "o Acre não será mais o mesmo"

O governo do Acre lançou na manhã desta quinta-feira, 4, em Rio Branco, o programa Floresta Digital, que possibilitará o acesso da população urbana dos 22 municípios à internet com banda larga até o final do ano. O governo também anunciou que vai começar neste ano a distribuição de 9 mil netbooks aos estudantes do terceiro ano do ensino médio.

Com mais de 150 mil quilômetros quadrados, sendo 98% deles cobertos por mata virgem, o Acre tem 700 mil habitantes. O governo estadual investiu R$ 30 milhões no Floresta Digital, cujo sinal de internet banda larga gratuita alcança inicialmente todo o perímetro urbano da capital. Os demais municípios terão cobertura total a partir de setembro, o que inclui 100 comunidades isoladas da região.

- O máximo que a gente for capaz de imaginar e sonhar será muito pouco diante do que vai acontecer no Acre a partir do Floresta Digital. Nós estamos criando algo confiantes na capacidade da molecada espalhada no Acre inteiro. Estamos consolidando o maior projeto de inclusão digital do país - afirmou o governador Binho Marques (PT).

Para viabilizar o Floresta Digital, o governo estadual estabelceu parceria com a Agência de Comércio e Desenvolvimento dos Estados Unidos (USTDA). O estudo técnico do programa, que custou US$ 573,8 mil, foi financiado integralmente pela agência norte-americana.

- Além de gratuito, o acesso à internet no Acre não sofrerá qualquer tipo de restrição. A única exigência que faremos é um cadastro de todos os usuários do serviço. Investimos R$ 30 milhões, mas, a partir de agora, a cada mês, estaremos economizando R$ 1 milhão - disse o secretário da Fazenda Mâncio Cordeiro.

O objetivo do Floresta Digital é possibilitar acesso à internet com banda larga em qualquer local do estado. A cobertura será de 100% da área, inclusive nas comunidades mais isoladas dos centros urbanos.

- Não há outra experiência desse porte em nenhum lugar do mundo - acrescentou o secretário Mâncio Cordeiro, que coordena a Área de Gestão Pública do Governo do Acre.

A partir de hoje, 100 pontos de Rio Branco estão iluminados com o sinal e as pessoas já estão utilizando seus computadores para acessar a web. Quem não capta o sinal pode adquirir antena direcional para ter acesso ao serviço oferecido pelo governo do Acre.

- A única certeza que tenho é que o Acre não será mais o mesmo a partir do Floresta Digital. Nós precisamos radicalizar no acesso à informação - afirmou Binho Marques.

Os 9 mil netbooks que serão distribuídos aos estudantes do terceiro ano do ensino médio obedecerá a um regime semelhante ao de empréstimo de livros em bibliotecas. No final do curso, o estudante terá que devolver o equipamento.

- Na medida que aumentar a quantidade de alunos, faremos novas licitações para não deixar ninguém sem netbook. Por sugestão do governador, estamos analisando a maneira legal de ampliar o prazo de cessão dos netbooks aos estudantes que forem aprovados no vestibular - disse a secretária Maria Correia, da Educação.

A pouco mais de um metro de uma antena, a reportagem conseguiu ter acesso ao Floresta Digital no Mercado Velho, no centro de Rio Branco, onde foi realizada a solenidade de lançamento. Mas vários usuários, sobretudo do centro, estão reclamando da precariedade do sinal. O governo disse que está fazendo ajustes no sistema de antenas.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Campanha de Marina Silva pode fracassar se omitir a história da presidenciável

Altino Machado às 6:59 am

POR EDILSON MARTINS

Só conhece a profundidade de um buraco quem nele se encontra. Ensina a Lei de Murphy que, conseguindo sair, a probabilidade de cair noutro não pode ser descartada.

As últimas pesquisas eleitorais do DataFolha, realizadas em dezembro último, e na verdade as mais confiáveis, mostraram a candidatura de Marina Silva com 8% de intenção de votos junto ao eleitorado brasileiro.

Digo de fato confiáveis porque esses institutos só revelam pesquisas sinceras três, quatro dias antes das eleições. Quase sempre foi assim. O DataFolha não produz pesquisas encomendadas por partidos, o que não deixa de ser um grande ganho.

O José Serra teve, nessa pesquisa, 37% de intenção de votos, Dilma 23% e Marina Silva, 8%. O Ciro patinou em 13%, mas sua candidatura é mais difícil de ser decifrada do que o último segredo de Fátima.

Até porque o nosso intempestivo Ciro está hospedado numa legenda (PSB) que é parte do latifúndio eleitoral do presidente Lula. Pelo menos é o que parece. Ou assim é, se nos parece.

Ser ou não ser candidato lhe diz respeito, mas não é ele que decide, já que depende dos acordos firmados pelo neto do Arraes com o presidente Lula, por sinal o dono da bola, o dono do campo, e, pensando bem, até mesmo das camisas e chuteiras de quase todos os jogadores desse game da base de sustentação governista.

É preciso não esquecer

Lula surfa numa aprovação de mais de 80% do eleitorado brasileiro, o que não quer dizer que todos sejam seus eleitores. Existe agora a síndrome de Bachelet, a presidenta do Chile, com mais de 80% também de aprovação, e que não conseguiu eleger o seu sucessor. Não custa relembrar: esses números de aprovação já foram alcançados pelo presidente Sarney e, pasmem, de triste memória, até pelo ditador Médici.

Temos agora uma pesquisa recente, saída do forno, do Sensus, entre os dias 25 e 29 de janeiro último.

Serra segue à frente com 33,32%, acompanhado de perto por Dilma, com 27%, Ciro 11,9%, e Marina 6,8%. Esses números, por enquanto, são fotografias, instantâneos, flashes, indicando muito pouco de tendência, que seria outro tipo de pesquisa, mais confiável para os próximos embates.

Pesquisa de intenção de voto é mais volúvel que jura de paixão eterna, ou beijo na face, o chamado selinho, na entrada de baile de dondoca. Falei, falei e não disse nada, diria o Nelson Rodrigues.

O que gostaria de perorar é sobre a candidatura presidencial de Marina Silva. Aventado o seu nome para essa corrida, abandonando um partido no qual construiu sua história, confundindo-se com ele, mas no qual não tinha mais espaço, tornara-se uma estranha no ninho, houve um oh, quase um hurra, ou mesmo um bravo, de certas parcelas da população brasileira.

Os que pensam

País que pensa, o país que não constrói suas lideranças pelas ideologias, viu-se contagiado pelo vírus da esperança. Acreditou, e não fê-lo mal, que surgia algo novo, alguma coisa diferenciada, na paisagem deste ano eleitoral de 2010.

Enfim uma candidata com a cara do país que sonhamos. A cara do Brasil da ética, do Brasil com princípios, do respeito, quase sagrado, à coisa, ao erário.

Uma mulher não só herdeira da herança humana de Chico Mendes, do qual foi amiga próxima, companheira de infortúnios e de derrotas, mas principalmente uma liderança que o país, nos últimos anos, foi descobrindo e aprendendo a respeitar, diga-se mesmo, amar.

O diabo do Maquiável já lembrava que para o príncipe, para o líder, ainda é mais seguro ser temido do que ser amado. Por óbvio o amor é volúvel, passageiro, quase fugidio, quantas vezes. Quem hoje nos beija, amanhã pode nos virar o rosto. O poeta já lembrou que o beijo é a véspera do escarro.

Já o temor é permanente. Esquecemos com rapidez, uma graça, um favor obtido. A ofensa é mais demorada, é preguiçosa, não nos deixa rapidamente.

Enfim, uma luz

Marina surge, não para ganhar uma eleição presidencial, já que esse não é um projeto que se alimente de açodamento. Ninguém é abestado para apostar num milagre desses. Assim nos parece. Ela surge como uma saída, uma luz, vamos usar esse clichê, uma terceira via ente o lulismo e o tucanato. Lulismo porque enfim se compreendeu que não existe PT sem Lula. PT sem Lula é marolinha, queiramos ou não.

A candidatura da Marina Silva nasce lastreada numa certa elite, a elite dos cabeças feitas, dos que lêem jornal, dos que sabem o nome do Presidente da República, dos que odeiam o programa televisivo do Datena? Certamente. Mas no peito dessa elite também bate um coração.

A esperança acalentou, e ainda acalenta, os sonhos de parcela ponderável da população brasileira, principalmente dos que pensam, dos que olham o mundo sem o viés da ideologia, da religiosidade, do fanatismo, que não olham o mundo pelo viés partidário, ou dos interesses pessoais de seu grupo.

Essa gente, diria Dom Helder Câmara, é invisível, é minoria, certamente, mas existe, e vale a pena acreditar em suas utopias. O país justo se constrói também com a contribuição dessa gente, diria ele.

E, no entanto, Marina está patinando em sua performance. Não conseguiu, até hoje, apesar de sua presença nos jornalões, na mídia televisiva, nas rádios, nos blogs mais visitados, de seu currículo, e até mesmo de todas as inserções de seu novo partido ir além da marca dos 10% de intenção de votos. Corre o risco de morrer antes de alcançar a praia.

Há alguma coisa errada nessa história. O que quero dizer é que desconfio conhecer o local, o terreiro, onde o galo está cantando, o porquê de resultado e performances tão pífias. Estou falando de números.

Um partido bizarro

Não vou me deter no saco de gatos que é o Partido Verde. Todos eles são. O Partido Verde presidido pelo Pena em São Paulo, a mala do Sirkys no Rio, um Sarney no Maranhão e até um fazendeiro, fazendeiro de gado, no Amazonas. E fiquemos por aqui para o caldo não entornar.

Dizer que o povo brasileiro é insensível, alienado politicamente, dominado por preconceitos do tipo Rita Lee, manipulado pelo poder econômico, também não vale.

Essa senhora, a paparicada tia Lee, declarou, para quem quisesse ouvir; não votava na Marina porque ela tinha cara de fome. O povo brasileiro, mesmo os satanizados pela exclusão social, é bem melhor que juízos de valor dessa natureza. Coitada da titia Rita.

Sou jornalista, jamais deixarei de sê-lo, imagino, e entre outras enganações, trabalho com marketing político há quase 20 anos. Não é nada, não é nada, não é nada mesmo. Mas ajudei a eleger, dirigindo suas campanhas, políticos do porte de Artur Virgílio, Jorge Viana, Marina Silva, e outros que não quero lembrar, não vou lembrar. Ponto final.

O bicho começa a pegar

A partir do dia 4, portanto a partir de quinta-feira, começa, novamente, a exibição das peças eleitorais do PV. Pelo que foi anunciado, todas as inserções serão destinadas a alavancar as intenções de voto de Marina Silva.

Está sendo dito que Fernando Meireles, que dirigiu o fantástico “Cidade de Deus”, que fez o teaser para viabilizar, e viabilizou, a escolha do Rio como sede das próximas Olimpíadas, participará da edição e formatação dessa campanha. Segundo consta ,já vem participando desde o ano passado.

E, no entanto, vamos repetir novamente, se for algo parecido com o que já foi feito, a candidatura da Marina vai para o beleléu, vai empacar. A tropa de burros, que viabilizou a economia acreana na passagem do século 19 para o século 20, diante de uma ponte estreita, ou sentindo o cheiro de uma surucucu, empacava. E não adiantava segurar o cabo, ameaçar com novas chicotadas.

Não vai sequer repetir o desempenho da agitada, para dizer o mínimo, fundamentalista Heloísa Helena. E olha que a diferença entre elas é abissal. Não é um superlativo, mas vamos supor que seja: o currículo de Marina nada fica a dever a nenhum outro de qualquer político brasileiro vivo. Nem mesmo do Lula, que tem inquestionavelmente uma bela história.

A campanha passada do PV, anunciando a entrada na corrida presidencial de Marina Silva, foi um fiasco. Um fundo verde, certamente para alertar o eleitor que o partido era verde, e já aí nada mais óbvio e redundante, portanto brega, pontuou todas as suas inserções.

TV é entretenimento

E tome perorações de Marina Silva, que cada vez mais produz um discurso rococó, pleno de proselitismo. Ela ficava em on todo o tempo, pontificando sobre questões ambientais, praia por sinal ainda não freqüentada pelas classes C e D.

O palanque eletrônico e o do rádio (o jornal não) é destinado prioritariamente às populações de baixo poder aquisitivo, ao povão, principalmente no horário eleitoral, que quase sempre, fora algumas exceções, é de uma mesmice, bobagem, falta de criatividade de fazer dó.

E lá ficava a Marina, chamando ouvido de escuta, êta linguagem fora do eixo pra esse veículo, com olheiras de fazer inveja à família Adams, voz extremamente bizarra, sem o botox e cirurgias plásticas reparadoras que dominam o sonho de consumo dos políticos atuais, perorando, apontando rumos para o país ameaçado pelas queimadas, desmatamentos, agronegócios, e assim por diante. Só falta denunciar o Avatar como infiltração insidiosa.

As classes A e B, vão para as TVs por assinaturas; o povão não desliga, mas vai trocar um dedo de prosa, aguardando um tempo melhor em seu entretenimento gratuito. TV é um espaço para entretenimento, e não peroração política.

Pode-se dizer tudo do César Maia, e ele certamente merece. Parafuso a menos, abandonou o Rio, que virou um caos, em anos de gestão desastrosa, açodado, mas não se pode negar ser ele craque em leituras de performances eleitorais. Números são com ele mesmo. Ele apontou há tempo o despropósito das peças da Marina Silva na TV.

Briga de foice

No audiovisual, o conteúdo é a imagem. Decorridos dois, três dias, uma semana, ninguém se recorda do que o político falou, mas sim de sua roupa, de seu desempenho, de sua performance. A TV é uma brincadeira entre os ouvidos e os olhos, ganhando sempre, por nocaute, os últimos.

A campanha de Marina, se não resgatar sua história, os deslocamentos cruciais vividos por sua família de seringueiros, retirantes, as grandes diásporas vividas por sua gente, sua belíssima escalada pessoal, vai chover no molhado.

Marina se alfabetiza aos 15 anos, fugindo da selva, da malária, da extração perversa da seringa, chega a senadora da República. Participara antes, juntamente com Chico Mendes e sua gente, dos belíssimos movimentos sociais patrocinados pela Igreja de João XXIII, o padre dos deserdados, põe o país na pauta da consciência ecológica internacional, enfrenta um governo onde todos dizem sim e alguns chegam a beijar-lhe a mão. Marina Silva é emoção, e voto se conquista com emoção.

Essa Marina gongórica, pontuando sobre questões atuais e internacionais, enche de orgulho os ambientalistas, os que falam em reconstruir, redesenhar, reinventar, fazer máscaras de seu rosto, para vender no Carnaval, entre outros modismos.

Ela, em sua simplicidade, terá talvez pernas curtas, numa eleição presidencial, onde o Grande Guia tem com o povo uma conjunção e empatia invejáveis. O PT hoje é um partido profissional, uma máquina de ganhar eleições, uma máquina que veio para ficar.

Marina certamente vai encantar o eleitor antenado, mas voto que é bom, dos excluídos, não terá. O voto dos grotões decide as eleições majoritárias, quase sempre, até porque o país é grande e rico, hoje, mas seu povo ainda não. Talvez saia mais arranhada do que imagina, ela que dispõe, de forma sincera, do melhor e mais honesto projeto de Brasil que tanto aspiramos. E sonhamos.

Marina sem mandato é uma pena, mas nada de grave, posto ter virado uma celebridade, com espaço nos salões do primeiro mundo. Ganhou muitas janelas. Grave é vermos desperdiçar uma das mais alvissareiras notícias que o país teve notícia, nestes últimos anos, onde a mentira e os mensalões foram banalizados, até viraram moeda de troca.

Data vênia, e pedindo desculpas pela forçação de barra, estamos postando (acima) um dos vídeos, que modestamente fizemos, destinado à campanha de reeleição de Marina ao Senado em 2002. No pacote, vai um compacto sobre o Chico (abaixo), também de nossa autoria. Tudo miçangas, coisas passadas de baú velho, mas que até hoje nos orgulha.

O acreano Edilson Martins é jornalista e escritor

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