Terra Magazine

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Florestania hippie

Altino Machado às 7:21 am

POR MOISÉS DINIZ

A florestania hippie enxerga a cidade como o inferno de Dante e sonha acolher na floresta os seus ex-cidadãos. Uma visão romântica e inviável, pois a florestania real, que vai sendo testada no Acre, olha o homem e a floresta como entes inteiros.

A florestania que se desenvolve no Acre, de forma inédita, está sendo capaz de aumentar o PIB e a renda per capita sem destruir o patrimônio natural, de construir espaços urbanos bonitos sem poluir os rios, de erguer obras vistosas sem acossar os animais da floresta, os pássaros, de levantar grandes pontes e até de cobrir o solo com asfalto sem comprometer o futuro, sem agredir o verde que sempre foi o dono do lugar.

Aqui no Acre, essa menina completou 11 anos e pouco tem se falado sobre ela. É preciso analisar esse tempo pré-adolescente e descobrir o que de sol ela trouxe e o que de noite ela não conseguiu levar ao amanhecer. Mais gente precisa discutir os seus rumos e até o que significa florestania.

Quando defendemos a florestania como um conceito que pode interferir na vida das pessoas, nós acreditamos que seu campo de ação não deve ficar restrito à floresta. Ela deve vencer os cipoais, cruzar os varadouros e emergir dos seus lagos encantados e sombrios.

A florestania é o homem vivendo a plenitude de seus direitos civis e sociais na floresta. Durante um século, o tempo de nossa existência como acreanos, fomos preconceituosos com a floresta, interditamos a sua beleza e cultuamos o concreto e as bugigangas culturais européias.

Aqui fomos tão longe no embrutecimento de nossa memória e no extermínio de nossas raízes que, somente em 1970, o estado do Acre reconheceu oficialmente a existência de povos indígenas em seu território.

Chegamos ao ridículo de construir nossas moradias de costas para o rio, como se ele e suas águas, seus peixes e seus encantos nos envergonhassem. Travamos a nossa língua e escondemos a sintaxe cabocla da floresta profunda. Anulamos as nossas origens.

Ocorre que aqui tudo é floresta. Somos apenas 22 clareiras no meio da imensa floresta de árvores, animais, lagos, insetos, peixes, pássaros e larvas. Em nenhum lugar urbano do Acre andamos mais de 20 km para encontrar a floresta.

Estamos tão próximos da floresta que, muitas vezes, nos comportamos como os animais ou os insetos que estão no seu interior. Quantas vezes nos comportamos como a cotia, a roubar a mandioca dos roçados próximos ou como as formigas que erguem o barro coletivo e a solidariedade.

Somos um imenso oceano de árvores e toda beleza natural que brota no seu entorno, um jardim de Éden, apesar dos piuns e das muriçocas. De Mâncio Lima a Assis Brasil são 153 mil km* de florestas profundas, a proteger 21 pequenas cidades e a capital que, juntas, mal ultrapassam o meio milhão de habitantes.

Assim, devemos olhar a florestania como um conceito integral, que proporcione vida digna ao acreano na moradia, no alimento, no vestuário, na escola, no transporte, na cultura, no lazer e no hospital, quando adoecer.

Aqui reconhecemos que esse conceito, transformado em política de governo, evitou a morte de milhares de hectares de floresta, sustou a matança de milhares de espécies vivas e evitou a descarga de milhares de toneladas de carbono. Aonde foi possível ergueu belos espaços urbanos de lazer e de cultura e suavizou a paisagem com amplas e belas avenidas. Ergueu escolas aprazíveis e modernos hospitais.

Mas, não atingiu ainda o coração privado. O transporte coletivo ainda é de tirar a paciência de qualquer um que o use e as nossas construções não levam em conta uma arquitetura verde e o clima chuvoso da Amazônia.

Não tem explicação nossos prédios não permitirem abrir as janelas durante as chuvas, que são constantes durante 8 meses do ano, o que reduziria o custo da energia elétrica e combateria o aquecimento global.

A nossa arquitetura amazônica deve ser verde, capaz de aproveitar as correntes frias do ar da chuva e permitir formas mais modernas e futuristas de aproveitamento da luz do sol.

Não podemos pensar numa sociedade sustentável se os lugares aonde as pessoas vivem, trabalham e estudam não forem erguidos sob os paradigmas de uma arquitetura verde, sustentável.

Se fomos capazes de criar um conceito inédito e de torná-lo política de governo, devemos usar da mesma engenharia criativa para constituir uma arquitetura verde e um transporte coletivo que seja modelo para o Brasil.

Além dos prédios e dos ônibus, como símbolos da sustentabilidade coletiva e do avanço das condições materiais, precisamos levar a florestania aos corações humanamente partidos, às almas contrariadas e aos lugares mais defeituosos da condição humana.

Aonde houver um acreano doente, seja no corpo, seja na alma, precisamos alcançá-lo, erguer a sua auto-estima e entregar-lhe a esperança de um abraço irmão. Do contrário, será como se estivéssemos a erguer praças e esquecendo das crianças que não conseguem brincar ou sentar nos seus bancos.

A florestania deve atingir toda a condição humana, iluminar todos os espaços, fortalecer todos os laços, anistiar o contraditório e sepultar o preconceito contra a floresta e os homens pobres. Ela precisa unir a floresta aos espaços e entes urbanos.

A florestania que defendemos é completa, é florestal, é urbana, é moderna, é humanista, é fraterna e tem no homem amazônico a sua grande aposta. Por isso, ela precisa estar cada vez mais perto do povo, acolher mais o contraditório e ouvir mais a academia, as aldeias, a intelectualidade e as ruas.

Moisés Diniz é professor e deputado estadual pelo PCdoB do Acre

Foto: Altino Machado/Terra Magazine

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3 Comentários »

  1. É muito bom sabermos que existe um lugar assim. A Amazônia de todos nós tem que ser mantida em pé. Este paraiso que nos foi legado por Deus, tem mais valor em pé do que derrubado. Tenho certeza que em pouco tempo, tal florestania será disseminada e supervalorizada, principalmente pelo mundo desenvolvido, cujas florestas não existem mais. Ter áreas verdes como a nossa e realmente protegidas através de uma consciência popular, será o meior trunfo de uma grande nação. Parabéns, e que Deus os proteja e ilumine a todos nós!

    Comentário por José Francisco Eloi — terça-feira, 29 de dezembro de 2009 @ 10:16 am

  2. Certamente, serão os simples a herdar a nova terra - não deixem contaminar essa idéia/semente por oportunistas.

    Contem com os ativistas do sul pelo bem de Gaia.

    vocês estão no mapa do futuro - essa região será preservada pelas águas na mudança da crosta; breve; muito mais breve do que a maioria imagina.

    Comentário por americo canhoto — terça-feira, 29 de dezembro de 2009 @ 11:22 am

  3. Gostaria de dizer palavras sucintas mediante os dois lados que o artigo proporciona, mas não consigo.
    Vou tentar ser a voz de muitos que gostaria de dirigir a palavra ao Sr. Deputado e Professor Moises Diniz.

    Sr. Deputado, vivo como Vossa Senhoria a alegria do crescimento deste estado nestes últimos 11 anos. Fico bem por ter participado desta revolução com meu voto, sou um grande defensor dos governos em questão contra os ataques daqueles que só vêem o lado negativo, mesmo eles existindo.

    Fazer discurso da tribuna de um parlamento com a ajuda de assessores é muito confortável, sentar na frente do computador, ter tempo para escrever grandes monólogos escolhendo cada palavrinha a ser dita também é fácil.

    Nestes anos de crescimento, como de fato é uma realidade o povo acreditou e fez investimento. Esses investimentos que digo, contraíram-se dívidas por acreditar justamente em promessas. Falo do povo da área rural, os que dependem de bons ramais para escoar seus produtos oriundos da agricultura e micro pecuário.

    Sr. Deputado, nessa linha do “desenvolvimento” tanto o governo federal como o estadual promoveram financiamentos para as pessoas que são produtores rurais, mas estes financiamentos apesar de serem convidativos pelos baixos juros um dia terão que serem pagos, e, justamente em tempos de melhor produção é justamente épocas de período chuvoso que nós denominamos “inverno”. E o Sr. finca o pé no barro para ver se os tais estão escoando suas produções regularmente? O Sr. tem conhecimento que quando a chuva é forte os ramais ficam intrafegáveis e o carro coletor do leite que os leva para o laticínio não entra e a produção do pequeno produtor é jogado fora? O Sr. sabia que os colonos em plena época de melhor produção de suas culturas os vêem apodrecendo na terra.

    Sr. Deputado, é costumes dos poderes executivos e legislativos só darem a devida atenção quando se torna o caos, nunca se vê projetos que antecede os problemas vindouros. È inconcebível esperar criar cratera nos ramais para depois ir remedia-lo justamente em épocas de chuvas, dadonde fica impossível executar serviços que preste. - São sempre paliativos - Por que Vossas Senhorias que tem por obrigação criar leis e projetos não incluem no orçamento do estado verba com antecedência? Por que não começar os devidos reparos nos fatídicos ramais em tempos de estiagem que pode ser feito algo que preste e digno aos senhores do campo?

    Uma última pergunta que acho peculiar: Qual é mesmo a função da SEATER, alem de pagar generosos salários a seus funcionários? Por que eles não fazem uma sincronia com o poder executivo dos municípios e estado, levando as informações que se fazem necessários em favor do “pessoá” da área rural?

    Comentário por Simei — terça-feira, 29 de dezembro de 2009 @ 12:36 pm

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