Terra Magazine

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Juiz do Acre expede por e-mail alvará de soltura em favor de devedor de pensão alimentícia

Altino Machado às 5:08 pm
Trecho do despacho

Trecho do despacho

O juiz Edinaldo Muniz dos Santos, titular da Vara Criminal de Plácido de Castro, a 90 quilômetros de Rio Branco, a capital do Acre, e que responde pela comarca de Acrelândia, expediu por e-mail alvará de soltura em favor de devedor de pensão alimentícia.

No dia 24 de dezembro, o magistrado estava no plantão e recebeu, por e-mail, requerimento do advogado Wilpido Hilário de Souza Júnior para expedição de alvará de soltura de um cliente devedor de pensão alimentícia.

Leia mais:

Justiça do Acre usa torpedo de celular para proferir sentença e expedir alvará de soltura

O devedor de Acrelândia havia sido preso em Rio Branco, mas imediatamente pagou quase a totalidade do débito. Também por e-mail, o juiz determinou a imediata soltura do devedor.

- Se não fosse o uso da tecnologia atualmente disponível, o réu teria que passar o Natal longe da família, em uma cela em Rio Branco - explicou Edinaldo Muniz.

O Judiciário do Acre tem se utilizado de diversos recursos tecnológicos -gravação de audiências com áudio e vídeo, celular e, agora, e-mail- para distribuir Justiça de maneira mais dinâmica, rápida e eficiente.

Em setembro, o mesmo juiz usou um torpedo de celular para proferir uma sentença e expedir ouro alvará de soltura.

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Florestania hippie

Altino Machado às 7:21 am

POR MOISÉS DINIZ

A florestania hippie enxerga a cidade como o inferno de Dante e sonha acolher na floresta os seus ex-cidadãos. Uma visão romântica e inviável, pois a florestania real, que vai sendo testada no Acre, olha o homem e a floresta como entes inteiros.

A florestania que se desenvolve no Acre, de forma inédita, está sendo capaz de aumentar o PIB e a renda per capita sem destruir o patrimônio natural, de construir espaços urbanos bonitos sem poluir os rios, de erguer obras vistosas sem acossar os animais da floresta, os pássaros, de levantar grandes pontes e até de cobrir o solo com asfalto sem comprometer o futuro, sem agredir o verde que sempre foi o dono do lugar.

Aqui no Acre, essa menina completou 11 anos e pouco tem se falado sobre ela. É preciso analisar esse tempo pré-adolescente e descobrir o que de sol ela trouxe e o que de noite ela não conseguiu levar ao amanhecer. Mais gente precisa discutir os seus rumos e até o que significa florestania.

Quando defendemos a florestania como um conceito que pode interferir na vida das pessoas, nós acreditamos que seu campo de ação não deve ficar restrito à floresta. Ela deve vencer os cipoais, cruzar os varadouros e emergir dos seus lagos encantados e sombrios.

A florestania é o homem vivendo a plenitude de seus direitos civis e sociais na floresta. Durante um século, o tempo de nossa existência como acreanos, fomos preconceituosos com a floresta, interditamos a sua beleza e cultuamos o concreto e as bugigangas culturais européias.

Aqui fomos tão longe no embrutecimento de nossa memória e no extermínio de nossas raízes que, somente em 1970, o estado do Acre reconheceu oficialmente a existência de povos indígenas em seu território.

Chegamos ao ridículo de construir nossas moradias de costas para o rio, como se ele e suas águas, seus peixes e seus encantos nos envergonhassem. Travamos a nossa língua e escondemos a sintaxe cabocla da floresta profunda. Anulamos as nossas origens.

Ocorre que aqui tudo é floresta. Somos apenas 22 clareiras no meio da imensa floresta de árvores, animais, lagos, insetos, peixes, pássaros e larvas. Em nenhum lugar urbano do Acre andamos mais de 20 km para encontrar a floresta.

Estamos tão próximos da floresta que, muitas vezes, nos comportamos como os animais ou os insetos que estão no seu interior. Quantas vezes nos comportamos como a cotia, a roubar a mandioca dos roçados próximos ou como as formigas que erguem o barro coletivo e a solidariedade.

Somos um imenso oceano de árvores e toda beleza natural que brota no seu entorno, um jardim de Éden, apesar dos piuns e das muriçocas. De Mâncio Lima a Assis Brasil são 153 mil km* de florestas profundas, a proteger 21 pequenas cidades e a capital que, juntas, mal ultrapassam o meio milhão de habitantes.

Assim, devemos olhar a florestania como um conceito integral, que proporcione vida digna ao acreano na moradia, no alimento, no vestuário, na escola, no transporte, na cultura, no lazer e no hospital, quando adoecer.

Aqui reconhecemos que esse conceito, transformado em política de governo, evitou a morte de milhares de hectares de floresta, sustou a matança de milhares de espécies vivas e evitou a descarga de milhares de toneladas de carbono. Aonde foi possível ergueu belos espaços urbanos de lazer e de cultura e suavizou a paisagem com amplas e belas avenidas. Ergueu escolas aprazíveis e modernos hospitais.

Mas, não atingiu ainda o coração privado. O transporte coletivo ainda é de tirar a paciência de qualquer um que o use e as nossas construções não levam em conta uma arquitetura verde e o clima chuvoso da Amazônia.

Não tem explicação nossos prédios não permitirem abrir as janelas durante as chuvas, que são constantes durante 8 meses do ano, o que reduziria o custo da energia elétrica e combateria o aquecimento global.

A nossa arquitetura amazônica deve ser verde, capaz de aproveitar as correntes frias do ar da chuva e permitir formas mais modernas e futuristas de aproveitamento da luz do sol.

Não podemos pensar numa sociedade sustentável se os lugares aonde as pessoas vivem, trabalham e estudam não forem erguidos sob os paradigmas de uma arquitetura verde, sustentável.

Se fomos capazes de criar um conceito inédito e de torná-lo política de governo, devemos usar da mesma engenharia criativa para constituir uma arquitetura verde e um transporte coletivo que seja modelo para o Brasil.

Além dos prédios e dos ônibus, como símbolos da sustentabilidade coletiva e do avanço das condições materiais, precisamos levar a florestania aos corações humanamente partidos, às almas contrariadas e aos lugares mais defeituosos da condição humana.

Aonde houver um acreano doente, seja no corpo, seja na alma, precisamos alcançá-lo, erguer a sua auto-estima e entregar-lhe a esperança de um abraço irmão. Do contrário, será como se estivéssemos a erguer praças e esquecendo das crianças que não conseguem brincar ou sentar nos seus bancos.

A florestania deve atingir toda a condição humana, iluminar todos os espaços, fortalecer todos os laços, anistiar o contraditório e sepultar o preconceito contra a floresta e os homens pobres. Ela precisa unir a floresta aos espaços e entes urbanos.

A florestania que defendemos é completa, é florestal, é urbana, é moderna, é humanista, é fraterna e tem no homem amazônico a sua grande aposta. Por isso, ela precisa estar cada vez mais perto do povo, acolher mais o contraditório e ouvir mais a academia, as aldeias, a intelectualidade e as ruas.

Moisés Diniz é professor e deputado estadual pelo PCdoB do Acre

Foto: Altino Machado/Terra Magazine

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domingo, 27 de dezembro de 2009

O revólver do Quidoca

Altino Machado às 6:11 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Quando ele nasceu, em 3 de outubro de 1935, o rio Branco estava transbordando. Boa Vista era, então, uma Macondo, com seus três mil e pouco habitantes e uma fila de casas alegres cercadas de água por todos os lados. A cheia havia atingido seu pico. A mata ciliar estava toda alagada. Os igapós, encharcados de vida. Os bosques, úmidos. Mas foi exatamente nesse dia que as águas pararam de subir e o rio começou, lentamente, a baixar.

Filho da enchente que agonizava e da vazante que iniciava, o menino, meio anfíbio, perambulou na sua infância por rios, igarapés, furos e varadouros, em companhia do avô, com quem aprendeu a pilotar canoa e a ler os segredos da floresta. Com ele, pescava de arco e flecha, fazia armadilhas, coletava açaí, tucumã, buriti e pupunha naquelas terras que faziam parte do Estado do Amazonas.

Sua identidade entrou em crise em 1943. É que Boa Vista, desmembrada do Amazonas, se tornou nesse ano a capital do recém-criado Território Federal do Rio Branco. Aos oito anos, ele quis saber se ainda era amazonense ou se já era rio-branquense.

- Você é filho da floresta, do lavrado e do rio - sentenciou o avô, mascando tabaco de corda.

Muitos anos depois, com o golpe militar de 1964, preso no Quartel do 27º BC, em Manaus, ele haveria de recordar aquela tarde remota, em que seu avô lhe dera de presente de aniversário um revólver de espoleta, com uma estrela desenhada na coronha, dizendo-lhe:

- Nunca esqueça: você é um caboco de luta.

Como num filme, imagens, e sons se sucediam em suas lembranças, acionando ainda a memória olfativa: o avô, o cheiro de pólvora e tabaco, o chiado do rabo quente…

Rabo quente

O revólver - uma novidade em Boa Vista - viera acompanhado de coldre, cartucheira vermelha e farta munição: uns rolinhos de papel cor de rosa com resíduos de pólvora concentrada em mancha marrom escura.

Quando o gatilho disparava, a fita com as espoletas produziam um estampido seco, deixando no ar uma pequena nuvem de fumaça com olor de enxofre. Parecia “peido de velha”.

Cavalgando seu potro tordilho pelo corredor da casa -tololoc, tololoc- ele passou o 3 de outubro de 1943 disparando incansavelmente contra nazistas alemães e fascistas italianos, cujos crimes eram transmitidos por um receptor de rádio americano de seis válvulas, contrabandeado da Venezuela por seu avô, e que era chamado de “rabo quente”, por causa do aquecimento do cabo de alimentação que o ligava a uma bateria.

Foi graças ao “rabo quente” que ele conheceu a 2ª Guerra Mundial -uma estupidez dos países ditos civilizados, que matou 40 milhões de pessoas. A rádio, com chiado parecido à tosse de fumante do velho Santino, anunciava batalhas: o Exército Vermelho resiste em Moscou, os alemães se rendem em Stalingrado, a Luftwaffe bombardeia Londres, seus pára-quedistas ocupam Roma, o 5º exército americano invade Nápoles.

No fim daquela jornada de intensos combates, o guerreiro, obrigado pela tia, foi repousar. Quando acordou, o revólver havia desaparecido. Inconsolável, buscou-o pelos quatros cantos do mundo. Na “estrebaria”, onde deixara seu potro tordilho, encontrou apenas o cabo de uma vassoura. Desconfiou que os alemães, aproveitando o sono, roubaram-lhe o encantamento, o cavalo e a arma, ingredientes sem os quais não era possível lutar pela liberdade. Odiou ainda mais o nazi-fascismo.

Durante três meses, ficou ligado no “rabo quente”, para ver se o roubo do revólver era noticiado. A rádio transmitia tudo: tanques blindados franceses na Córsega, Exército Russo em Kiev na ofensiva de inverno, força aérea britânica lançando 350 bombas de duas toneladas em meia hora, navio de guerra britânico afundando submarino alemão. Sobre o roubo de sua arma, necas de pitibiribas. O silêncio era revelador.

Revelador de quê? Eis que, no dia de natal, o mistério se desfez. Ao som de “Noite Feliz”, Papai Noel lhe trouxe um revólver de espoleta. Não era outro revólver. Era o seu, aquele com as marcas que ele próprio fizera na coronha.

Acontece que sua tia, indubitavelmente aliada ao nazi-fascismo, por economia de guerra escondera o presente de aniversário para transformá-lo em troféu natalino. Desencantado, ele se fez adulto e rejeitou o esbulho. Atirou a arma no fundo do igarapé Jararaca, imitando o gesto teatral do general Rommel às margens do rio Vístula.

Time de tucumã

O avô tentou compensar o prejuízo. Entrou com ele no mato e selecionou diferentes tipos dos melhores tucumãs. Serrou cada caroço, ralou, raspou, retirou o miolo do coco, lixou, pintou, engraxou, encerou, poliu e fez um time de botão, que embarcou pra Manaus, pra onde se mudou de mala e cuia logo depois da guerra. Lá viviam seus primos Rodolfo e Freida Bittencourt, hoje professores universitários.

Foi com o time do Vasco da Gama -o Expresso da Vitória- que ele estreou no campeonato organizado pelo Demasi, no porão de uma casa na esquina da Epaminondas com a Dez de Julho. Jogou com o time completo: Barboza, Augusto e Rafaneli, Eli, Danilo e Jorge, Chico, Maneca, Ademir, Ipojucan e Friaça. No banco de reserva: Tesourinha, Noca e Lelé. Os jogos eram irradiados, com cobertura de “O Jornal”.

Barboza, uma caixa de fósforos cheia de chumbo, fechava o gol. Os dois beques pesadões eram feitos de tucumã-açu. As casquetinhas de tucumã-piririca se deslocavam agilmente no ataque, com a ajuda de um pente de osso comprado no Mercadão. O Vasco só perdeu para o time do Moisés, da Bandeira Branca, empatando com o do Tonico, filho do Domingos Sapateiro. Foi vice-campeão.

Quando se mudou para Curitiba, em 1954, Euclides Coelho de Souza -o Quidoca- deixou seu time de caroço de tucumã aos cuidados de Félix Valois e do Júlio Martins. Grande agitador e membro do Partido Comunista, ele participou da luta estudantil, das greves, das passeatas, do movimento cultural, do CPC da UNE, do teatro político, até que veio o golpe militar de 1964. Escondeu-se em Roraima. Lá foi preso e levado para Manaus. Tudo isso, ele lembrou anos depois quando estava preso no Quartel do 27º BC.

Perseguidos pela ditadura militar, Euclides e sua mulher Adair foram condenados a quatro anos de prisão, se exilaram, estudaram no Teatro Kuklo de Moscou, percorreram vários países da América Latina, a Europa e o Japão, encantando milhares de crianças com as peças montadas pelo Teatro de Bonecos Dadá. Este locutor que vos fala teve o privilégio de conviver e trabalhar com os dois, no exílio, com quem muito aprendeu, inclusive a compartilhar o frango nosso de cada dia.

Hoje, aos 74 anos, Euclides, o maior titiriteiro da América Latina, brinca com bonecos no seu teatro em Curitiba, usando-os como arma de divertimento, de arte e de reflexão. Com entusiasmo e fervor de menino, ele leva idéias, alegria, riso, beleza e magia a um público cativo. Agora, quer reaver seu time de caroço de tucumã, uma relíquia dos anos 1950 e, através da coluna, pede ao advogado e ex-deputado Felix Valois que devolva o time no estado em que estiver.

Devolve, Valois! Quem sabe, dessa forma o Quidoca não recupera também um pedaço da infância perdida?

P.S.: Ao vereador Marcelo Ramos, sugiro que proponha a concessão do título de cidadão honorário de Manaus a Euclides Coelho de Souza, esse filho da floresta, do lavrado e do rio, caboco de luta que não esqueceu as palavras do avô e dedicou sua vida ao combate pela justiça social e pela liberdade. Na cerimônia de entrega, o Teatro Dadá pode muito bem se apresentar no plenário da Câmara. Crianças e adultos vão adorar.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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sábado, 26 de dezembro de 2009

Um crime que, por sua natureza, pode apenas ser controlado no mundo

Altino Machado às 9:15 am

POR LUIZ CRAVO DÓREA

Em 1994 o Brasil recebeu a Certificação de Erradicação da Poliomielite. Foi o coroamento de uma eficaz política de saúde pública de controle e erradicação baseada na vacinação em massa contra uma doença que, desde o início do século XX, causava incapacidade física em milhares de crianças. Mesmo com críticas, até de Albert Sabin, pai da famosa vacina, o programa foi em frente com apoio da mídia e de líderes da sociedade civil, de modo que hoje em dia ele é considerado modelo para outros países.

O tráfico de drogas é outra doença, segundo a concepção popular. Desse modo, muitas pessoas gostariam que desaparecesse do mapa e, por isso, sempre reclamam por resultados mais positivos da polícia, principalmente quando ocorrem fatos como a derrubada do helicóptero da Polícia Militar carioca por traficantes do Morro dos Macacos. Nesse episódio, houve quem criticasse a Polícia Federal pela suposta negligência no seu dever constitucional de controlar as fronteiras nacionais, por onde sabidamente entram as armas e as drogas comercializadas pelos criminosos.

A PF não usa como escudo os altos índices de aprovação de sua atuação para ignorar críticas. Como qualquer instituição em regime democrático, podemos sim corrigir nossas estratégias visando melhorá-las. Mas na questão de combate às drogas a partir do controle de fronteiras, torna-se necessário fazer alguns esclarecimentos que nem sempre acompanham as opiniões veiculadas nos grandes meios de comunicação.

Tomemos como exemplo a cocaína, droga mais consumida no país depois da maconha. Não se concebe que alguém procure infectar-se com o vírus da poliomielite. No caso da cocaína, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Droga e o Crime (UNODC), o seu comércio é alimentado pela demanda de 870 mil brasileiros entre 12 e 64 anos. Além da decisão individual enfrentamos uma questão geopolítica. Temos 8.062 Km de fronteira com a Colômbia, Peru, e Bolívia, justamente os três países que produzem cocaína no mundo.

Amazônia Legal

Também há que se considerar que extensos trechos da nossa zona de fronteira estão localizados em florestas, áreas indígenas ou locais acessíveis somente por aviões ou barcos, sendo que por este meio somente em determinadas épocas do ano em face do pouco volume de água de muitos rios e igarapés da Amazônia Legal.

Para se ter uma idéia, somente a fronteira com a Bolívia, de onde vem a maior parte da cocaína consumida por aqui, prolonga-se por 3.423 Km, exatos 282 Km mais extensa do que a problemática fronteira dos Estados Unidos com o México.

Os Estados Unidos, apesar de investirem os maiores montantes do mundo em repressão ao narcotráfico e contar com 76 agências federais de alto nível, como FBI, DEA, CIA, US Marshals, ATF, Border Patrol e Secret Service, ainda não encontraram um modelo perfeito de redução da oferta e do consumo interno. Nesse aspecto, assemelham-se a todas as demais nações do planeta, ricas ou não.

Nesse passo, além dos princípios éticos e legais, nossas estratégias antidrogas não devem chocar-se contra princípios da política exterior brasileira de aumentar a integração regional por meio da facilitação e crescimento da circulação de pessoas e mercadorias, da cooperação técnica e científica entre os países, e até da liberdade de trabalho em um futuro próximo. Por isso é que afastamos qualquer idéia de construção de barreiras físicas com os vizinhos associados do Mercosul.

Para potencializar os resultados a PF investe na integração dos sistemas de inteligência das mais de 100 unidades distribuídas pelo país, no treinamento constante de seus policiais, em programas de melhoria da qualidade da prova dos autos, em novas tecnologias, como o primeiro dos 14 Veículos Aéreos Não Tripulados (VANT) recentemente adquiridos e principalmente em parcerias externas e internas.

Recentemente assinamos acordo de cooperação com o Peru, evento ocorrido em Manaus, nos mesmos termos dos que já foram firmados este ano com o Paraguai e com a Bolívia. Dentre outras ações estão previstas operações ostensivas e de inteligência conjuntas, de erradicação de cultivos ilícitos, intercâmbio de informações e capacitação dos policiais estrangeiros pela Academia Nacional de Polícia, em Brasília/DF.

Infra-estrutura

No âmbito interno, unimos forças com a Receita Federal e com os Correios para combater o tráfico marítimo e postal. Para isso, as equipes contam com cães e modernos equipamentos de detecção, tal como o espectrômetro de massa. Também, temos presença ativa em 10 aeroportos internacionais brasileiros. Vale destacar que das 20 interceptações de aeronaves nacionais e estrangeiras realizadas em 2009, juntamente com a Força Aérea Brasileira, resultaram em 1,6 tonelada de cocaína e 7 aeronaves apreendidas que irão a leilão. O sucesso dessa parceria nos anima a propor projetos arrojados com a Marinha e o Exército Brasileiro em 2010.

Podemos fazer muito mais. Não achamos suficiente que a PF, nos últimos três anos, tenha indiciado mais de 14 mil pessoas, nacionais e estrangeiros, por envolvimento com o narcotráfico, muitas do quilate do colombiano Juan Carlos Ramírez Abadía, vulgo Chupeta, então um dos narcotraficantes mais procurados no mundo. Também não achamos suficiente que em 2009 tenhamos alcançado a marca recorde de mais de 21 toneladas de cocaína e derivados apreendidos.

O Acre, por exemplo, com 1,5 tonelada, não somente mais que dobrou as apreensões registradas em 2008 como percentualmente foi a unidade da Federação que mais se destacou em 2009. Tal volume global da PF representa cerca de 25% das 80 ton que o UNODC estima que circulam pelo país, metade para consumo e a outra com destino aos Estados Unidos, África e países europeus.

A PF enxerga o combate às drogas como uma prioridade, da mesma forma que o combate à pólio, simbolizado pelo simpático Zé Gotinha, representou para as autoridades de saúde. Não encaramos como uma guerra fracassada, como repetem alguns, porque simplesmente não se elimina um crime que, por sua natureza, só pode ser controlado ou administrado, da mesma forma que a corrupção, a sonegação fiscal, a pedofilia, exploração da prostituição e os crimes ambientais.

Em que pese a tragédia do helicóptero e o luto das famílias dos nossos colegas mortos, o Rio de Janeiro, por meio da pacificação de seis comunidades antes dominadas pelo narcotráfico e da expansão para mais 48 locais do projeto denominado Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), confirma que o rumo da redução da oferta nos Estados não depende exclusivamente do trabalho nas fronteiras, tampouco de instituições como a Polícia Federal. Uma polícia profissional e protetora, acompanhada de projetos de saúde, educação, esporte, lazer, cultura, bem-estar social, geração de emprego e renda e infra-estrutura, fazem a diferença e dão resultado.

Luiz Cravo Dórea, 42, é Coordenador-Geral de Polícia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Expedição confirma presença de índios isolados perto de hidrelétrica em RO

Altino Machado às 7:02 am

Membro da expedição indica retirada de mel

Uma expedição que percorreu a Estação Ecológica Mujica Nava, em Porto Velho (RO), constatou vestígios da presença de índios isolados  numa faixa entre 10 e 30 quilômetros do canteiro de obras da usina hidrelétrica de Jirau.

Realizada entre os dias 26 de novembro e 10 de dezembro, a expedição também encontrou dois garimpeiros que avistaram oito indígenas na margem da estrada de um garimpo. Os depoimentos deles foram gravados em áudio e vídeo.

Os garimpeiros transitavam de moto quando avistaram os índios na margem da mata. Os índios estavam a uma distância de aproximadamente 80 metros. Assustados, os garimperiso aceleraram a moto. Os indígenas, também assustados, entraram na mata.

Os garimpeiros estacionaram a moto mais à frente do local onde os índios entraram na floresta. Quando olharam para trás viram que os índios haviam retornado à beira da estrada e os observavam.

Alguns índios estavam nus e outros usavam roupas velhas e rasgadas. Outros integrantes do grupo estavam calçados com chinelos coloridos de pares diferentes. Alguns deles usavam chapéus de palha tradicionais. Um homem portava uma espécie de borduna e outro um arco e flechas.

- Os garimpeiros e os índios estavam assustados com esse encontro, tendo os indígenas fugido às pressas para a floresta - assinala o relatório,  que contou com a participação de equipes da Fundação Nacional do Índio (Funai), Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), Centro de Trabalho Indigenista (CTI), Monte Sinai e Associação de Defesa Etno-Ambiental Kanindé.

Nas cabeceiras do igarapé Queixada, foram encontrados arbustos e folhas de babaçu quebrados manualmente, além de duas retiradas de mel nas árvores, com o formato tradicional feito por indígenas.

Também foi encontrada uma área pequena, de aproximadamente um hectare, que parecia ser um desmatamento recente, podendo ser uma roça de índios, na divisa dos estados de Rondônia e Amazonas.

Num tabocal na nascente do igarapé Tuchaua foram localizados mais arbustos quebrados e torcidos por indígenas. Numa fazenda localizada no interior do Parque Nacional Mapinguari também foram encontrados vestígios da ocupação indígena.

De acordo com o relatório, é provável que o local tradicional de ocupação desses indígenas seja a região que envolve a Estação Ecológica Serra dos Três Irmãos/Mujica Nava, Parque Nacional do Mapinguari, numa faixa que varia de 10 a 30 km da hidrelétrica de Jirau.

O relatório observa que as explosões efetuadas na construção da hidrelétrica está afugentando os índios daquela região para o garimpo da Macisa, onde foram avistados, com circulação freqüente de malária e hepatites.

O relatório recomenda que o grupo indígena seja monitorado para evitar que seja atingido por doenças ou dizimado em confrontos com brancos. Também recomenda a realização de expedições periódicas para localizar a área de ocupação e propor interdição do território indígena.

- Estamos comemorando a existência desses indícios. A gente já consegue saber oficialmente que existem pelo menos oito pessoas e podemos localizar geograficamente onde elas estão. Percebe-se que estão assustados com as explosões, que afugentam a caça. É uma realidade grave - afirma Telma Monteiro, da Associação de Defesa Etno-Ambiental Kanindé.

Isolados no Maranhão

A Funai confirmou nesta semana a existência de indígenas isolados na Terra Indígena Araribóia, no Maranhão. Uma expedição encontrou vestígios recentes próximos a lagoa Samaúma.

Desde a década de 1980 a Funai tem conhecimento do grupo, mas há algum tempo não encontrava provas tão concretas da permanência dos indígenas na região. O grupo isolado é, provavelmente, pertencente ao povo Awa Guajá e pode chegar ao total de 60 pessoas.

Nas trilhas abertas pelos isolados, além dos rastros de pegadas, a equipe da Funai constatou o intenso processo de devastação da mata. A exploração de madeira no interior da Terra Indígena é um problema histórico. Há mais de 20 anos os madeireiros retiram, principalmente, cedro, sapucaia, copaíba e cerejeira.

Fotos: Leonardo Cruz/Kanindé

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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Glenn Switkes, um guerreiro amazônico

Altino Machado às 6:36 am

POR GERHARD DILGER

O Glenn já está em paz.

Na madrugada desta segunda-feira, à 1h30, o norte-americano Glenn Switkes morreu em São Paulo, de um câncer nos pulmões. Glenn, 58, era cineasta e diretor do programa Amazônia da ONG International Rivers.

Em 1983, Glenn foi co-produtor do documentário “The Four Corners - A National Sacrifice Area?”, sobre a mineração de urânio e carvão assim como a extração de óleo de rochas betuminosas, em áreas dos indígenas Hopi e Navajo.

Neste trabalho premiado, Glenn Switkes já mostrou o compromisso que marcaria sua vida: ele era um aliado incondicional das comunidades ameaçadas pelo modelo de crescimento predador que está acabando com nosso planeta.

Com Monti Aguirre, ele fez o documentário “Amazonia: Voices From the Rainforest” (1991), considerado pelo Washington Post como uma “advertência global sutil”.

- Permite que muitas vozes sejam ouvidas, não somente os explorados e os exploradores mas, com mais sutileza e maior eloqüência, a floresta amazônica em si - assinalou o jornal.

Este filme foi apoiado pela Rainforest Action Network, para a qual Glenn coordenou a campanha contra a exploração de petróleo na Amazônia Ocidental, antes de entrar na International Rivers, em 1994.

Na sua primeira luta no Brasil, Glenn se dedicou a articular a resistência contra a hidrovia Paraguai-Paraná. Sua base de trabalho foi a Chapada dos Guimarães onde ele morava com a esposa Selma.

Desde estão, trabalhava incansavelmente contra a construção de barragens na Amazônia e Patagônia Chilena, pesquisando, articulando e mobilizando apoio para as comunidades atingidas.

Em 2002, nasceu o filho Gabriel.

Imune às vaidades comuns no circuito das ONGs ou do jornalismo, Glenn continuava organizando e educando, com muita determinação e paciência.

Com clareza, analisou as contradições da política energética do governo Lula.

As suas grandes batalhas dos últimos anos eram a favor dos rios Madeira e Xingu, afluentes do Amazonas ameaçados pelas megabarragens de Jirau e Santo Antônio e Belo Monte.

Também alertou sobre a série de hidrelétricas planejadas no rio Tapajós.

Como os Kayapó que admirava, Glenn era um guerreiro amazônico. Bem consciente da correlação de forças adversas nas lutas que estava travando junto a seus companheiros e companheiras, ele renovava as energias no seu lar paulistano, com Selma e Gabo, no campo, em Minas, na música e na culinária.

No seu blog, Glenn mostrava o seu humor ácido. Ou doce, quando imaginou Bob Dylan tocando “Watching the River Flow” numa aldeia indígena no beira do rio Xingu.

Glenn, quanta falta você está fazendo!

O jornalista alemão Gerhard Dilger é correspondente na América do Sul do diário berlinense “taz, die tageszeitung”.

Fotos: Gerhard Dilger e Altino Machado

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domingo, 20 de dezembro de 2009

Dudu e Big Black: dois estadistas na COP-15

Altino Machado às 9:45 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Égua! Essa eu não entendi! Não entendi mesmo! Alô, alô, Amazonas! Alô, alô, Manaus! Por favor, alguém aí pode me explicar o que o prefeito Amazonino Mendes (PTB, vixe, vixe!), conhecido como Big Black, e o governador Eduardo Braga (PMDB, vixe, vixe!) - o Dudu - foram fazer em Copenhague? Quem pagou a passagem deles? O que a cidade e o Estado ganharam com esse evento?

Olha só! A ONU convocou líderes mundiais de 193 países para participarem da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP-15). Durante onze dias, delegações formadas por ministros, técnicos e ambientalistas discutiram o aquecimento global e seus efeitos devastadores: chuvas torrenciais, inundações, secas, tufões, furacões, derretimento de geleiras, elevação dos oceanos e todo tipo de desastre ambiental.

Aí, Big Black e Dudu Braga, convertidos subitamente em ambientalistas, viajaram para a Dinamarca. Por acaso, eles são líderes mundiais? Contribuíram para a luta em defesa do meio ambiente? O que é que eles entendem de clima? Como é que se intrujaram na Conferência?

Busquei respostas a essas intrigantes perguntas em jornais internacionais - New York Times, Washington Post, Le Monde, The Guardian e até no Folkebladet, diário da Dinamarca. Nenhum deles sequer registra o nome de Amazonino ou do Dudu. Consultei jornais brasileiros de circulação nacional: necas de pitibiribas! Nem no blog do Altino Machado havia qualquer menção aos dois.

Minto. Dudu pelo menos ainda aparece em foto da Agência Estado, com aquele risinho de puxa-saco, numa mesa ao redor de Lula, Dilma, Minc, e da governadora do Pará. É impressionante: as pessoas que tiram foto, ao lado de poderosos, ficam com cara de égua e com um sorriso subserviente, vocês repararam?

A presença do Big Black, no entanto, foi olimpicamente ignorada pela mídia. Será que ele foi mesmo a Copenhague? Vai ver, bacabeiro como é, inventou essa viagem pra poder ir pescar em algum lago de Urucurituba, enquanto seu vice, Carlos Souza, acusado de associação com traficantes, era preso no dia mesmo da abertura da Conferência. Pobre Manaus! O prefeito se pica e seu vice é preso!

Caboclitude negada

Depois de intensa busca, encontrei a única pista da passagem de Amazonino por Copenhague: uma foto publicada no portal da Prefeitura de Manaus. Ele aparece descaboclizado, vestido com terno azul, exibindo aquela elegância e refinamento que lhe é peculiar. Um cachecol xadrez, em torno do pescoço, não deixa dúvidas de que está nevando lá fora, e de que o Big Black tenta disfarçar sua caboclitude - como diria Álvaro Maia - concorrendo com os coletes multicoloridos do ministro Minc.

Comprovada a ida a Copenhague, dois mistérios persistem: quem é que o Big Black está representando e qual o seu cacife ambientalista? As respostas estão no press-release da prefeitura. A legenda da foto não deixa por menos, apresentando-o como um grande estadista: “Prefeito Amazonino Mendes representa a América Latina e o Caribe na COP-15″.

É isso mesmo que você leu. O texto da Prefeitura de Manaus, cheio de prosopopéia, dá detalhes, informando que ele foi escolhido “por indicação da organização Cidades e Governos Locais Unidos (CGLU)”. Enquanto Lula - coitado! - fala apenas em nome do Brasil, Big Black representa um continente inteiro e, de quebra, o Caribe. Seu olhar “sonhador”, na foto, não deixa qualquer dúvida. É mole?

A rainha Margareth II, no entanto, por não ler o Portal da Prefeitura, cometeu gafe. Não convidou Big Black e Dudu para o jantar oferecido aos líderes mundiais no Palácio Christiansborg. Os dois acabaram ficando de fora também de uma das sessões, porque a organização da COP-15 expediu 45 mil credenciais, quando a capacidade do Bella Center, palco das reuniões, era para 15 mil pessoas.

Enquanto Lula fazia reunião bilateral com Obama, Big Black não conseguiu bilateralizar sequer com o Dudu, ambos realizando reuniões unilaterais, cada um consigo mesmo. Não adiantou o Big Black, que já era uma celebridade municipal, ser escolhido líder mundial pelo CGLU.

Aliás, que diabo é CGLU? Passagens e diárias do Big Black foram pagas pelo CGLU ou por nós, contribuintes? As requisições de combustível encontradas pela Polícia Federal em um posto de gasolina de Manaus interferiram na eleição do líder da América Latina e do Caribe? O que esse líder foi fazer, afinal, na Dinamarca?

Emissão de gases

Essa foi justamente a pergunta feita ao Big Black pelo Portal da Prefeitura de Manaus:

- Qual o seu papel em Copenhague?

Ele deu uma resposta que é uma pérola, um primor de raciocínio cartesiano. Vejam só:

- O meu papel é o da presença de quem está num grupo. De quem faz o esforço de ser ouvido pela primeira vez e está na luta para criar oportunidades e alcançar objetivos.

Grupo? Ele não explicita qual. O da motosserra? A que grupo pertence quem sempre pregou o desmatamento indiscriminado e, na campanha para governador, em 1986, trocou motosserras por votos, distribuindo mais de 2 mil delas para a cabocada do interior esquartejar a natureza? Hoje, quando se fala em motosserra, Amazonino é mais lembrado ainda do que Hidelbrando Pascoal, preso por serrar suas vítimas.

E o Dudu, a que grupo pertence? Na sua declaração de bens, feita por força da legislação na eleição de 2006, ele informa ao Tribunal Eleitoral um investimento agropecuário de cerca de mil cabeças de gado no estado do Acre. Agora, posa de ambientalista, ele que destruiu a floresta com pata de boi e de vaca.

Criar oportunidades e alcançar objetivos - diz Amazonino de forma estrategicamente vaga. Ora, nisso o governador Arruda, de Brasília, é exemplar. Ou seja, Amazonino não disse - com o perdão da palavra - porra nenhuma. Mas se revela de corpo e alma quando declara:

- Nosso objetivo é reivindicar os financiamentos na aplicação do REDD (Redução das Emissões de gases por Desmatamento e Degradação).

Ah, aí sim o Big Black velho de guerra mostra seu olfato para a grana. Com o cálculo de US$ 5 bilhões para combater o desmatamento, Big Black e Dudu se apresentam como dois curupiras vorazes, de olho na bufunfa que pode vir de fora.

Curupira? Big Black e Dudu não têm em suas histórias de vida nada, absolutamente nada, em defesa do meio ambiente. Não entendem bulhufas de ecologia. Acham que se combate o aquecimento global ligando ao mesmo tempo todos os ventiladores de Manaus.

Seus parceiros juram que eles não são capazes de reduzir nem mesmo as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento da sala onde jogam dominó, sobretudo depois de ingerir Luftal ou comer baião-de-dois, jaraqui frito e muita cebola.

P.S.:Para a vovó Nakamura, que colhe hoje mais um abacaxi no pomar de sua existência, toda a ternura da coluna.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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sábado, 19 de dezembro de 2009

Vovó de 100 anos realiza com sucesso salto de paraquedas em Macapá

Altino Machado às 2:46 pm

Dona Aida Gemaque Mendes, a Vó Iaiá, de 100 anos, saltou de paraquedas pela primeira vez na vida nesta tarde, em Macapá (AP).

Presa pelo equipamento de segurança junto ao corpo do instrutor paraense Pedro Paulo, o salto de Vó Iaiá se deu a 8 mil pés, o equivalente a 3 mil metros de altitude.

A decolagem do avião aconteceu às 12h30 e o salto exatamente às 13 horas. Vó Iaiá teve queda livre de 9 segundos e navegou durante 10 minutos até atingir o ponto de chegada no Aeroporto Internacional de Macapá.

Leia mais:

Entrevista com Vó Iaiá

- Obrigada meu Deus. É bom demais. Eu dirigi o paraquedas - disse Vó Iaiá ao pisar no solo e começar a receber auxilio para tirar o equipamento.

Ela veio conversando com o instrutor e no meio da navegação chegou a assumir o controle do paraquedas.

- Com a observância do instrutor, fez dois movimentos clássicos do paraquedismo, isto é, 45 graus à esquerda e 45 graus à direita - relatou Almeida Júnior, do Clube de Paraquedismo Latitude Zero.

A decolagem demorou quase quatro horas porque uma filha do piloto, de 29 anos, cometeu suicídio. Os organizadores do salto de Vó Iaiá demoraram para encontrar o piloto substituto.

Foto: Alcinéa Cavalcante/Reprodução

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Motivos que evitaram um novo acordo global na COP-15, em Copenhague

Altino Machado às 9:14 am

POR NELSON TEMBRA

Não seria preciso ser esotérico para prever o fiasco da COP-15 nas negociações para um novo acordo climático, diante da resistência de países ricos e desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos, e ao analisarmos os resultados práticos não obtidos após uma longa série de reuniões climáticas infrutíferas se realizando ao longo de quase quatro décadas.

Aliás, a COP-15 é apenas a última de uma série que teve início com a 1ª Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente em Estocolmo, na Suécia, em 1972. Depois, vieram a Eco-92, no Rio de Janeiro, em 1992, a COP-1 na Alemanha, em 1995, a COP-2 na Suíça, em 1996, e finalmente, em 1997, na cidade de Quioto, no Japão, foi realizada a terceira Conferência das Partes (COP-3), que a essa altura do campeonato já deve estar no necrotério.

A realização dessas reuniões sugere que teria havido um aumento significativo da consciência ambiental nos últimos anos, no entanto, não inspirou mudança de comportamento. Os países “desenvolvidos” ainda resistem em alterar seus hábitos de crescimento econômico, sobretudo quando isso traz reflexos diretos em seus bolsos. Falar em desenvolvimento social, então, nem pensar, e dizer que o planeta não tem mais o que crescer, muito menos.

Isso tudo poderia reforçar a tese levantada por Peter Joseph em “Zeitgeist, O Filme”, lançado online livremente, via Google Vídeo, em Junho de 2007, onde são apresentadas teorias de conspiração relacionadas ao cristianismo, aos ataques de 11 de setembro e ao Banco Central dos Estados Unidos.

Na terceira parte do filme, por exemplo, focaliza-se o sistema bancário mundial, que estaria nas mãos de uma elite de famílias burguesas, que deteriam o verdadeiro poder sobre todos os países a eles associados e na conspiração, para obter um domínio mundial total, eles já teriam modelado toda a mídia e cometido diversos crimes, muitos deles apenas “encenações para fins ocultos”.

O Banco Central dos Estados Unidos teria sido criado para roubar toda a riqueza. Como exemplo, é demonstrado o lucro obtido pelos bancos durante a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra do Vietnã, do Iraque, do Afeganistão e até a futura invasão à Venezuela para a obtenção de petróleo e o comércio de material bélico.

Estariam secretamente criando um governo unificado, exércitos, moedas e poder unificados, que serviriam apenas aos interesses dessa elite. O aspecto mais impressionante disso tudo é que tais mudanças seriam aceitas pelo próprio povo naturalmente e pacificamente, pois ele estaria sendo completamente manipulado pela mídia.

Em outubro do ano passado foi lançado um segundo filme, continuação do primeiro, chamado “Zeitgeist Addendum”, onde se trata da globalização e manipulação do homem pelas grandes corporações e instituições financeiras.

Esse segundo filme parte da premissa que todo o nosso sistema financeiro mundial foi criado e é mantido para que se perpetuem as diferenças sociais, para que os mesmos detentores da produção de moedas em fábricas se mantenham sempre no controle das finanças mundiais.

Ao longo da história, muitos presidentes latino-americanos foram dados como ditadores ou comunistas, sendo depostos e até mesmo mortos para que novos governos fossem formados e o mundo ficasse livre do “medo” e de “déspotas como estes”.

Na verdade, os governos norte-americanos, durante anos, influíram e insistem em continuar influindo em governos de outros países, principalmente nos da “América Latrina”, para que eles não adotem políticas econômicas e sociais que prejudiquem os interesses econômicos das grandes empresas e das poderosas corporações norte-americanas.

E é exatamente nesse sistema monetário que está a base de nosso mundo violento, com as profundas diferenças sociais existentes. E é justamente por esses motivos que devemos sempre divulgar a informação, para que isso tudo não se perpetue em subjugação. Não me importa que me chamem de idiota, mas fico verdadeiramente furioso quando pensam que sou.

Nelson Tembra é agrônomo e consultor ambiental

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Vovó de 100 anos saltará de paraquedas em Macapá

Altino Machado às 1:00 am
Vovo

Vó Iaiá: Agora, na velhice, estou jovem para tudo

Dona Aida Gemaque Mendes completou 100 anos de vida no dia 20 de novembro, mas vai mesmo comemorar a longevidade nas alturas, pertinho de Deus, em queda livre.

Vó Iaiá, como é mais conhecida, vai saltar de paraquedas pela primeira vez na vida, no sábado, 19, em Macapá (AP).

Ela quer o nome no Guinness Book (O livro dos recordes) como a mulher mais velha do mundo a saltar de paraquedas.

O título pertence a dona Encarnação Olivas que, em 1992, aos 82 anos, fez um salto histórico no aeroporto de Marília (SP).

A proeza de Vó Iaiá vem sendo organizada pelo Clube de Paraquedismo do Amapá. Nesta sexta-feira, ela voltará a ser submetida a novos exames sobre seu estado de saúde física e mental.

De acordo com Claudio Cavalcanti, do Clube de Paraquedismo do Amapá, o salto acontecerá a uma altitude entre 3 e 4 mil pés, na modalidade salto duplo.

Vó Iaiá ficará presa pelo equipamento de segurança junto ao corpo do instrutor paraense Pedro Paulo, que acumula experiência em mais de 6,5 mil saltos.

A aventura começou quando Josivaldo dos Santos, o Vavá, neto de Vó Iaiá, perguntou se ela teria coragem de saltar de paraquedas.

- Como tenho minha vozinha de 100 anos, dei a idéia para meus amigos do Clube de Parquedismo. Eles adoraram e ela aceitou prontamente o desafio. “Eu to dentro, vamos lá”, foi o que ela disse quando perguntei se queria saltar. E nós vamos conquistar esse recorde mundial. Ela não usa óculos, faz natação, caminha, joga futebol, toma uma cervejinha e dança pra caramba. Minha vozinha é uma pessoa admirável mesmo - afirma Vavá.

Vó Iaiá tem recebido instruções

Recebendo instruções de salto

Vó Iaiá conversou com o Blog da Amazônia por telefone na tarde de quinta-feira, após a sesta e o açaí habituais. Segue a entrevista:

Blog da Amazônia - A senhora me permite uma pergunta muito indelicada?
Aida Mendes - Claro que sim.

A senhora é doida?
[Risos]. Não, não. Eu sou firme e forte, com fé em Deus.

Quando a senhora decidiu saltar de paraquedas aos 100 anos?
Eu vinha chegando em casa nem sei de onde, aí meu neto perguntou assim: “Vovó a senhora tem medo de saltar de paraquedas?” Eu disse que não. Ele perguntou novamente: “A senhora quer saltar de paraquedas?” Eu respondi na hora: quero. Foi assim que surgiu a idéia. Vai dar tudo certo. Lá em cima, estarei mais próxima de Deus.

E sua saúde?

Boa, graças a Deus.

Algum segredo para estar bem de saúde aos 100 anos e ainda ter coragem de saltar de paraquedas?
Trabalho. Trabalhei muito na minha mocidade. Agora, na velhice, estou jovem para tudo.

Ao decidir saltar a senhora quer transmitir alguma mensagem ou é apenas uma satisfação pessoal?
É apenas uma satisfação pessoal. Não quero passar mensagem pra ninguém com isso.

A senhora usa óculos?
Não, não uso. Ainda consigo passar a linha no fundo da agulha. Sou protegida de Santa Luzia.

Como sua família tem reagido à decisão de saltar de paraquedas?
Estão todos me dando parabéns.

No sábado, quando for saltar, o que espera que aconteça?
Eu quero muita felicidade. Muita saúde e felicidade para nós todos.

Este parece um ano muito marcante em sua vida. Fez 100 anos e praticamente vai comemorar saltando de paraquedas.
É isso mesmo. Completei 100 anos agora, no dia 20 de novembro. Tenho certeza de que minha família toda estará lá comigo para me apoiar.

A senhora se considera uma mulher muito corajosa?
Sim, me considero. Sempre fui assim, graças a Deus. Se eu disser uma coisa o senhor acredita?

Sim, acredito.
Criei dois filhos na beira de uma bacia e no ferro de brasa.

O que isso significa?
Que eu lavava muita roupa e ia para o ferro de brasa engomar a roupa. Era muito trabalho.

Qual a sua principal atividade hoje?
Participo de grupos de idosos, participo de coral, de quadrilha junina e gosto de dançar demais, graças a Deus. Além disso, nado, pulo, faço caminhada e jogo futebol.

Tudo isso?
Sim, tudo isso. Danço muito porque eu gosto e, de vez em quando, ainda tomo uma cervejinha pra desanuviar. Agora me diga uma coisa: com quem estou falando?

Sou Altino Machado, repórter da Terra Magazine, para quem escrevo o Blog da Amazônia. A senhora vai ficar mais famosa após essa entrevista.
É o que eu espero. Agora entendi. Pena que já estou velha e não posso, depois da fama, ficar por aí passeando do jeito que eu gostaria.

A senhora já tem netos, bisnetos e tataranetos?
Tenho netos e bisnetos. Tataranetos ainda não tenho, mas estou com esperança de ter.

Por que?

Estou com uma bisneta de 16 anos.

Quando a senhora casou estava com quantos anos?
Estava com 28 anos.

Nasceu em qual estado?
Nasci em Chaves, no Estado do Pará, em 1909. Estou aqui em Macapá desde 1959.

Então o açaí do Pará e do Amapá corre nas suas veias?
Com certeza. Até hoje tomo açaí demais.

Grato por nos atender. Boa sorte, dona Iaiá.

Muito obrigada. Um abraço. Xau, xau.

Na companhia de parentes e amigos do Clube de Paraquedismo

Na companhia de parentes e amigos do Clube de Paraquedismo

Foto 1: Elden Carlos/Diário do Amapá
Fotos 2 e 3: Sidnei Belcides Avelar

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Neto do mandante da morte de Chico Mendes pega 50 anos de cadeia por duplo latrocínio

Altino Machado às 7:33 am
Ramoile

Ramoile: tradição de conduta social ruim

A juíza Denise Castelo Bonfim, da 2ª Vara Criminal da Comarca de Rio Branco, condenou Artur Ramoile Alves da Silva e Silva, 19, a 50 anos de prisão em regime fechado. Neto do fazendeiro Darly Alves da Silva, mandante do assassinato do líder sindical e ecologista Chico Mendes, em 1988, Ramoile cometeu duplo latrocínio (roubo seguido de morte) em fevereiro e março deste ano.

O primeiro crime envolveu o trabalhador Carlos Luis da Silva, 39, que foi abordado ao chegar em casa. Armados de revólveres, Artur e um comparsa anunciaram o assalto de motocicleta. A vítima reagiu e foi assassinada com um tiro na cabeça.

No segundo crime, Arthur Alves agiu sozinho no assassinato do comerciante Raimundo Lustosa Leão, 66 anos, quando este abria uma pequena banca de venda de frutas. O comerciante morreu com um tiro no pulmão após entregar R$ 100 ao criminoso.

Leia mais:

Darly Alves: “Chico Mendes foi um mártir e eu também”

Vídeo da entrevista com o fazendeiro

O neto de Darly Alves da Silva foi condenado na quarta-feira, 14, um dia antes da data em que Chico Mendes completaria 65 anos de idade. Na sentença, a juíza assinala que Ramoile não possui bons antecedentes e tem conduta social ruim.

- Personalidade do réu é de pessoa violenta e destituída de um mínimo de solidariedade, com total desprezo à dignidade e à vida humana - afirma Denise Castelo Bonfim.

A juíza decidiu que o sentenciado não poderá apelar em liberdade. Segundo ela, seria paradoxal admitir tal hipótese, quando aguardou toda tramitação processual preso.

- Eventos como esses deixam toda sociedade em pânico, horrorizada, refém de bandidos inescrupulosos, que no alto de suas reações psicopáticas não poupam ninguém. A população não mais agüenta tamanha insegurança e audácia dos meliantes, e encontra-se estarrecida com a enorme onda de criminalidade que vem assolando esta cidade nos últimos meses, colocando em descrédito o próprio Judiciário e as demais instituições responsáveis pela segurança pública neste Estado.

Foto: Lenilda Cavalcante

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Governo do PT distribui 50 mil panetones a servidores públicos no AC

Altino Machado às 4:57 pm

O governador do Acre, Binho Marques (PT), que está em Copenhague, na Dinarmarca, não quebrou a tradição petista de distribuir 50 mil panetones aos funcionários públicos, iniciada durante o primeiro mandato da gestão do governo Jorge Viana.

A Secretaria de Estado da Gestão Administrativa contratou (leia no Diário Oficial do Acre) a empresa V. João Mahle para fabricar cada panetone por R$ 9,66. O governo vai pagar à empresa R$ 483 mil para que os panetones sejam entregues na representação do Acre em Brasília, em Rio Branco, a capital, e nos municípios do interior do Esatdo.

No mercado local, a média de preços do panetone é de R$ 5,80. Com bandeira acreana estilizada, o panetone do “governo da floresta” é distribuído com  cartão e mensagem a seguinte mensagem:

- Natal e Ano Novo, com todos e para todos.

A mensagem prossegue no verso:

- Que este Natal abençoe todo o povo do Acre. Que em 2010 todos nós possamos ajudar cada um que vive neste lugar tão especial do mundo a ter uma vida melhor. Binho Marques. Governador do Estado do Acre.

Trecho do Diário Oficial do Acre

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Falta de ética: questão mais imediata do meio ambiente brasileiro

Altino Machado às 8:57 am

POR NELSON TEMBRA

Garoto pesca bagre em Teotônio, cachoeira que será destru�da e inundada no rio Madeira

Ribeirinhos pescam bagres na cachoeira Teotônio, que será destruída em RO

Em plena época da Conferência Climática COP-15, a ideia de fraternidade é a peça-chave para a plena configuração da cidadania entre os homens, pois, por princípio, todos os homens são iguais, pelo menos deveriam ser. De certa forma, a fraternidade é dependente da liberdade e da igualdade, pois, para que cada uma efetivamente se manifeste é preciso que as demais sejam válidas.

A fraternidade é expressa no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos do Homem que afirma que “todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.

Marcado para revisão devido a inconsistências práticas e exemplos históricos passados e contemporâneos de confiabilidade duvidosa, o substantivo feminino “fraternidade” é um conceito da investigação crítica e racional dos princípios fundamentais relacionados ao mundo e ao homem, ligado às ideias de autonomia e espontaneidade e à inexistência de desvios ou incongruências, sob determinado ponto de vista, entre dois ou mais elementos comparados.

Na prática, a fraternidade tem sido frequentemente confundida pelo mau cidadão comum, pelo mau governante e pelo mau gestor empresarial com a expressão “caridade”, que expressa um sentimento ou uma ação altruísta de ajudar o próximo sem buscar qualquer tipo de recompensa; e a expressão “solidariedade”, que expressa um sentimento ou união de simpatias, interesses ou propósitos entre os membros de determinado grupo, embora essas palavras tenham significados radicalmente diferentes.

Enquanto a fraternidade expressa a dignidade de todos os homens considerados iguais e assegura-lhes plenos direitos sociais, políticos e individuais, a ideia de caridade cria uma desigualdade ainda mais abissal, na medida em que faz crer que alguns deles possuam mais direitos e sejam superiores e, portanto “generosos” quando compartilham algumas “migalhas” com os demais.

Infelizmente nem todos ou poucos são dotados de razão e de consciência conforme expresso no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos do Homem, embora de todas as liberdades, a mais inviolável seja a de pensar…

Para não dizerem que só ilustro como maus exemplos os projetos da Vale do Rio Doce, trago para reflexão e análise o exemplo bibliográfico oportuno sobre construção de hidrelétrica, do final da década de 90, bastante didático e representativo do mesmo modus operandi habitual, citado por Vicente Rahn Medaglia, em Sinópse da Filosofia do Meio Ambiente.

Esses conceitos estão presentes em se analisando um caso que ficou conhecido como mais um crime ambiental: a Hidrelétrica de Barra Grande, situada no Rio Pelotas, divisa com o estado de Santa Catarina. Mais de 5 mil hectares de mata nativa foram sacrificados em nome de geração de energia. Essa mata teria um potencial de serviços ambientais, como captação de CO2, regulação do clima, regulação dos ciclos hidrológicos, etc., perdido para sempre.

Para a construção da Usina Hidrelétrica de Barra Grande foi feito “como manda a lei”, um Estudo de Impacto Ambiental (EIA). O EIA foi elaborado por uma empresa, que, surpreendentemente, mentiu sobre a composição vegetal da área submersa pela barragem. No EIA foi dito que a área comportava somente capoeiras e capoeirões, estágios de sucessão ecológica que não são protegidos por lei. Ocorre que, de fato, metade da área era composta por vegetação primária, ou seja, que nunca havia sido derrubada pelo homem ou áreas em que se encontrava em estágio avançado de regeneração. Como sabemos, essas duas últimas formações são protegidas por lei, mas o Ibama, órgão responsável por vistoriar o estudo e verificar se ele estava correto, não apurou essas irregularidades.

O Ministério de Minas e Energia comemorou essa mega-hidrelétrica como mais uma obra que aceleraria o crescimento econômico do país, mas não o desenvolvimento social. De fato, a construção dessa hidrelétrica, como todas as demais, só foi possibilitada pela alegação, por parte do poder público, de que ela era de “interesse público”.

Esse exemplo nos fornece elementos para que tenhamos uma ideia superficial sobre de que forma os conceitos filosóficos se aplicariam. Em primeiro lugar, tentemos identificar a cadeia de ações que aí está envolvida. Essa cadeia é estabelecida simplesmente perguntando-se o porquê de cada ação. Então, começando pelo fato “foi construída uma usina hidrelétrica que irá inundar uma grande floresta”. Por quê? “Pois se considera que a energia elétrica gerada é importante”. Por quê? “Pois com energia elétrica a economia do país pode crescer, e o crescimento econômico é algo importante”. Por quê? “Pois crescendo a economia, o país tem mais dinheiro, e ter dinheiro é importante” Por quê? “Pois dinheiro traz felicidade”. Em se chegando nesse ponto, não cabe mais perguntar por quê? Não faz sentido perguntar por que se quer ser feliz. O que se pode perguntar é o que é e a quem pertence a tal felicidade, já que é isso que determina toda a escala de valores. Em se assumindo que o dinheiro traz felicidade, fica então justificada a ação da construção da barragem.

Passemos ao modelo de felicidade presente na cadeia de justificativas apresentada. Em primeiro lugar, cabe notar que é consequência direta da construção da barragem a inundação de 5 mil hectares de mata considerados como área prioritária para conservação pelo próprio Ministério do Meio Ambiente. Assim, seja qual for a justificativa dada ao empreendimento, ela deve contemplar esse fato.

Perguntemos quem é que ganha dinheiro com esse empreendimento. Pode-se considerar que são os trabalhadores da obra, mas o dinheiro que eles ganham é pouco. Quem de fato ganha dinheiro às claras são os acionistas, já que a barragem é um empreendimento totalmente privado. Poder-se-ia dizer que isso representa somente a contraparte da geração de energia, que é considerada igualmente um bem que contribui para a felicidade dos cidadãos que teriam energia em suas casas. Mas isso tampouco é o caso, já que a hidrelétrica foi construída por grupos industriais de produtos eletro intensivos, como alumínio (da Alcoa - Aluminium Company of America - com metade das ações do empreendimento), cimento e celulose (da Votorantin, também acionista), entre outros grupos. Essa hidrelétrica se coloca em um contexto de auto-geração, ou seja, os produtos dessas fábricas necessitam de muita energia e são muito rentáveis, logo, é ótimo negócio construírem suas próprias hidrelétricas.

Colocados esses pontos, a justificativa ética da obra ficaria mais complicada, já que, para tanto, o sistema de valores assumido deveria considerar lícito sacrificar um bem público, o meio ambiente, em nome de um bem privado, o lucro de algumas megacorporações multinacionais. Isso só seria factível se assumíssemos que o correto é que quem pode mais, ou quem possui mais poder, use todos os meios que considere cabíveis, possíveis, impossíveis, imagináveis e inimagináveis para perseguir seus interesses, doa a quem doer.

Como poderíamos denominar essa posição? “Cratocentrismo” verde (do grego krátos, “força”), ou “Crematocentrismo” amarelo (do grego chrémata, “dinheiro”), ou simplesmente “Cratocrematocentrismo” cada vez mais verde e amarelo?

Nelson Tembra é agrônomo e consultor ambiental

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domingo, 13 de dezembro de 2009

Soy latinoamericano

Altino Machado às 11:37 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Bessa Freire e Thiago de Mello

O tema era a solidariedade entre os povos da América. O lugar: o Teatro Banzeiros, em Porto Velho (RO), lotado por universitários, professores, ambientalistas, gente da comunidade e, sobretudo, estudantes secundaristas. Os debatedores: o poeta Thiago de Mello, o engenheiro florestal peruano Jhon Yuri e esse locutor que vos fala, os três participantes de uma mesa coordenada anteontem pelo historiador Marco Teixeira, autor de pesquisas sobre os quilombolas.

Pensei em fazer um discurso paletó-e-gravata, com direito à definição prévia do conceito de solidariedade. Ainda bem que desisti. Ninguém deu conferência. O tom foi coloquial, de bate-papo, quase saudosista. Aproveitamos para jogar conversa fora diante de uma platéia que reverenciou o poeta da floresta, o grande homenageado. Lembrei que foi com ele, Thiago, que aprendi a conhecer e a amar a América Latina, depois de juntos atravessarmos a pé a fronteira do Uruguai, em 1969, fugindo da polícia.

Los hermanos

Recordamos algumas histórias vividas no exílio. Do Uruguai, pátria do cantor Viglietti, passamos correndinho pela Argentina, onde os militares sufocavam o tango. No Chile, testemunhamos a vitória de Allende, embriagados pela música de Violeta Parra. No Peru, os huainitos, la flor de la canela e um cavalheiro de fina estampa. Quando entrei na Bolívia, levava carta de Thiago para seu amigo Augusto Céspedes, autor de ‘Metal del Diablo’.

Estão vivos sons, cheiros e cores dessas pátrias por onde andamos e que solidariamente nos abrigaram. Música, poesia, literatura, política, y por supuesto, culinária. Nesse tempo de exílio com Thiago - um maravilhoso narrador - ouvi suas histórias do convívio com escritores, intelectuais e músicos de cada país. Vivenciei outras. Contamos algumas delas ao público.

Quando chegamos ao Chile, no final de 1969, Thiago me levou à Peña de los Parra, onde Angel e Isabel Parra se apresentavam todas as noites. O último encontro do poeta amazonense com os dois chilenos havia sido anterior ao suicídio de Violeta, a mãe deles. Precisavam acertar os ponteiros da memória. No camarim, antes do espetáculo, o poeta apontou pra mim e disse aos seus amigos: - Esse caboco gosta muito da música de vocês.

Foi então que Isabel me pediu para acompanhá-la até a bilheteria. Lá, disse para uma gordinha charmosa que vendia as entradas:

- Olha bem pra cara dele. Gravou? Ele pode entrar aqui, sem pagar, todas as vezes que quiser.

A gordinha gravou. Não preciso dizer que usei e abusei do passe livre. O repertório dos irmãos Parra incluía música de diferentes países. Aprendi todas. Cantei muitas delas, recentemente, nas noitadas musicais realizadas durante um curso que dei em Santa Cruz de la Sierra para funcionários bolivianos da Petrobrás. Um engenheiro que tocava violão me fez um elogio:

- Nascer em um país da América Latina não basta para ser latinoamericano. É preciso se impregnar deles. Você conseguiu.

No debate, lembramos Darcy Ribeiro, que deplorava o fato de o Brasil viver sempre de costas para os seus vizinhos, situação que, no dizer de Darcy, foi mudada - quanta ironia da história! - pelo golpe militar de 1964, responsável pelo exílio de milhares de brasileiros nos países hermanos. A mesa redonda se encerrou com Thiago declamando Os Estatutos do Homem, por solicitação do jornalista Altino Machado.

O Festival

O debate aqui relatado ocorreu dentro da programação do FestCineAmazônia - a sétima edição do Festival de Cinema e Vídeo Ambiental da Amazônia, realizada de 7 a 12 de dezembro, quando foi exibido o documentário “Uma só América - um caminho feito de muitos caminhos”, de Jurandir Costa, Fernanda Kopanakis e Carlos Lévi, criadores e organizadores do Festival.

O documentário revela os problemas enfrentados pela Pan-Amazônia na visão de um agrônomo boliviano, Abraham Imopoco Oni, que acompanhou a equipe do FestCineAmazônia por Rondônia, Peru, Bolívia e Colômbia. “Os rios que nos separam são os mesmos rios que nos unem” - declarou Abraham. O evento cumpre uma função social relevante, como assinalam seus organizadores:

- O Festival é, antes de tudo, um instrumento de discussão ambiental e da formação de uma nova consciência para reduzir os impactos da natureza. Viver sem agredir a natureza deixou de ser uma plataforma ambientalista e se tornou uma necessidade geral do Planeta. Em Rondônia, são sete anos de debates sobre a preservação do meio ambiente através da arte cinematográfica. É como se a terra fosse uma grande sala de cinema e a nossa região fosse a tela de projeção.

Dessa forma, Rondônia indica caminhos alternativos para esse tipo de evento. O eterno Secretário de Cultura do Amazonas, Berinho Braga, que promove a caricatura de um tal de Amazon Film Festival, levando para Manaus as “celebridades” do Big Brother Brasil, teria muito a aprender com o evento de Rondônia, que além de fazer parte do circuito nacional de festivais, promove o acesso ao cinema, pela primeira vez, de muitas comunidades carentes.

Consagrado como uma bandeira em defesa da natureza, o FestCineAmazônia desenvolveu um projeto inovador na inclusão cinematográfica, invertendo o conceito de público. Não se limita aos expectadores habituais, mas leva o cinema às pessoas que não tem acesso. Através da Mostra Paralela, filmes e vídeos são vistos por milhares de adultos, jovens e crianças, que lotam as salas alternativas em vários espaços: nos bairros periféricos, no circo, nos terreiros, nas escolas, no beiradão às margens do rio Madeira e em biroscas como o Bar do Chicão na comunidade Cachoeira do Teotônio.

Silêncio total

Tive a oportunidade de assistir duas projeções dessas. Uma no Centro de Umbanda de Mãe Marli, que exibiu o filme “Pierre Verger: Mensageiro entre dois mundos”, de Lula Buarque, com Gilberto Gil percorrendo os caminhos do fotógrafo francês. A outra, no loteamento Ayrton Sena, em lona armada num campinho de futebol. Lá se apresentou o palhaço Xuxu, personagem do ator Luiz Carlos Vasconcellos, que interpretou o médico Dráuzio Varela no filme Carandiru.

Durante a apresentação do palhaço Xuxu, que levou o público ao delírio, eu disse a Thiago, sentado ao meu lado:

- Isso é poesia pura. As fronteiras se esfumaçaram. O Xuxu, concorrente seu, é um grande poeta e você um grande palhaço.

Luiz Carlos deu também uma das três oficinas do Festival, intitulada “Técnicas de Palhaço”. As outras duas foram Curso Prático de Roteiro, ministrada por Humberto Oliveira, e Processo de Realização Cinematográfica, a cargo do cineasta Marcus Villar.

O júri assistiu a mais de 250 filmes e vídeos inscritos de vários estados do Brasil, selecionando 46 finalistas que concorreram à premiação do Festival. Foram exibidos ainda vários filmes, como Corumbiara, de Vincent Carelli, que documenta o massacre de índios por fazendeiros no sul de Rondônia, em 1980, e o filme Hotxuá, registro poético sobre os índios Krahô, dirigido por Leticia Sabatella e Gringo Cardia, projetado na cerimônia de encerramento.

Vincent Carelli, Letícia Sabatella, Stepan Nercessian e Chico Diaz foram os homenageados deste ano do FestCineAmazônia. Na sexta-feira, Thiago de Mello entregou o troféu a Stepan e ontem, sábado, no fechamento do Festival, o índio Krahô Ismael entregou o de Leticia Sabatella.

O Festival terminou, mas fiquei na minha cabeça com a música do chileno Paco Grondona, que - acreditem, há testemunhas - Thiago e eu cantamos a duas vozes na sexta feira, em pleno palco de um teatro de Porto Velho:

- Anda, preparándote a vivir, en América, tu América. Las riquezas, una nomás. La opresión, una nomás. Y la lengua, una nomás.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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sábado, 12 de dezembro de 2009

Thiago de Mello se emociona ao declamar “Os Estatutos do Homem” em festival na Amazônia

Altino Machado às 8:38 am

O poeta Thiago de Mello, 83, se emocionou nesta sexta-feira, 11, em Porto Velho (RO), ao declamar “Os Estatutos do Homem”, poema que já foi traduzido para mais de 30 idiomas.

Natural de  Barreirinhas (AM),  Thiago de Mello aceitou declamar o poema dele mais famoso a pedido do Blog da Amazônia.

No Teatro Banzeiros, diante de uma platéia de 200 estudantes do ensino médio que participavam de um dos eventos do Festcine Amazônia, o poeta explicou:

- Os Estatutos do Homem não me pertencem mais. Pertencem a tantas esperanças. Vou atender de maneira muito singular o pedido do Altino. Eu não gosto de dizer esse poema. Ele me comove. Não sei se terei mais dias para cumprir essa esperança de ser o homem que eu canto. Altino, eu espero, quando te façam um pedido com a naturalidade que tu fizestes, que tu atendas. Tá bem? Eu não direi todo o poema. Eu direi algumas estrofes.

Thiago de Mello e o professor José Ribamar Bessa Freire, que fugiram juntos do Brasil durante a ditadura militar e viveram, entre outros países, no Chile e Peru, participaram de um debate sobre “Solidariedade entre os povos da América”.

O poeta criticou o capitalismo como fonte de todos os danos socioambientais e citou como exemplo de falta de solidariedade quem não contribui para melhorar a vida na Amazônia. Thiago de Mello apelou aos estudantes para que plantem árvores.

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