Terra Magazine

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

MPF aciona Justiça contra pintura de estrela vermelha em helicóptero de governo do PT

Altino Machado às 2:18 pm

A Justiça Federal vai avaliar se um helicóptero adquirido recentemente pelo governo do Acre está sendo usado para fins publicitários. De acordo com uma ação civil pública do Ministério Público Federal, existe uma enorme desproporção da estrela vermelha pintada na fuselagem do aparelho, que faria confundir a estrela constante na bandeira do Acre com a estrela símbolo do PT. O partido cumpre o terceiro mandato consecutivo à frente do governo estadual.

O helicóptero, modelo Esquilo AS 350 B2, foi comprado por R$ 7,9 milhões com recursos quase totalmente provenientes de convênio do governo estadual com o Ministério da Justiça, por meio do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci).

Leia mais:

MPF dá prazo para remoção de estrela vermelha em helicóptero

Governo do PT não vai remover estrelha vermelha de helicóptero

O helicóptero foi adquirido após o ex-governador Jorge Viana assumir a presidência do Conselho de Administração da fabricante Helibras. O MPF anunciou que o Ministério da Justiça também está sendo demandado para que fiscalize a aplicação de recursos segundo princípios republicanos.

De acordo com o MPF, a ação demonstra, citando episódios da primeira metade do século XX, que a confusão entre símbolos do Estado e símbolos de partidos políticos é prática perniciosa aos ideais democráticos.

Para o MPF, o uso da estrela trata-se de clara e evidente utilização do que é conhecido pelos que trabalham com marketing por publicidade associativa. O método é amplamente utilizado pelas empresas de publicidade. Por meio dele o receptor da mensagem (transmitida pelo símbolo) é incentivado a tirar conclusões imediatas por um processo de associação, por simples estímulo sensorial, automaticamente implementado pelo cérebro.

A ação demonstra que essa prática também foi constatada na execução do Pronasci no Estado de São Paulo, oportunidade em que a bandeira paulista foi desfigurada para representar um tucano estilizado.

Caso a Justiça atenda aos pedidos da ação, o governo do Acre deverá adequar a pintura do helicóptero ao disposto na Lei 1.170/95, com a imposição de multa pessoal ao gestor, no valor de R$ 50 mil diários, caso haja descumprimento da decisão.

Além disso, o Ministério da Justiça também poderá ser obrigado a fiscalizar de maneira eficiente a aplicação das verbas de convênios firmados no âmbito do Pronasci, bem como a expedir orientação a cada um dos entes participantes para que se abstenham de fazer propaganda político-partidária utilizando bens públicos adquiridos para a execução do programa.

Foto: Eduardo Duarte

Blogs que citam este Post

domingo, 25 de outubro de 2009

Lula, Cristo e Judas

Altino Machado às 11:27 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

“Se Jesus Cristo nascesse no Brasil e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”. (Lula, em entrevista a Folha de S. Paulo, 22/10/2009).

Vamos ver se isso é verdade. Supunhetamos que Jesus nasceu em Belém. Podemos imaginar as circunstâncias. Foi assim: estamos na periferia de Belém do Pará, em 1980. Uma caboca bonita, do pé roxo e de olhar triste, chamada Maria, e seu marido Zé, trabalhador de uma serraria, visitam a prima Isabel. É de noite. Faz um calor amazônico. Eles sintonizam a Rádio Aurora, emissora concedida à cunhada do senador Gilvan Borges (PMDB/AP–vixe!). Eis que de repente o programa “Alô Alô Amazônia”, entre tantos avisos para os ouvintes do interior, coloca no ar um anúncio surpreendente:

- Alô, alô, Dona Maria! Alô, alô, Dona Maria, no bairro do Jurunas, Rua Mundurucus, esquina com a Travessa dos Apinagés! Gabriel, o Anjo do Senhor, anuncia que a senhora vai conceber e dar à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e reinará eternamente na casa de Jacó e seu reino não terá fim.

O último que soube da notícia foi seu Zé, coitado, ali, num cantinho, fumando um Continental sem filtro. Tentando disfarçar, Maria disse pra prima:

- Erraste, maninha! Eu, hein! A buchuda aqui és tu!

Acontece que uma buchuda sempre reconhece a outra. Bebel, grávida de seis meses de Zacarias, ex-jogador do Paissandu, avaliou com um olho clínico a barriga da prima e saudou:

- Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre.

A caboca Maria confessou, então, a recente gravidez e cantou o mais belo carimbó já gravado pelo Pinduca - o Magnificat:

- Dona Maria chegou, chegou, com a mandioca / Glorificando ao Senhor, Senhor, com a tapioca”.

E completou:

- O Senhor fez em mim maravilhas / Santo é seu nome. Saciou com tapioca os famintos / deixou os ricos sem nada. Derrubou do trono os poderosos / e exaltou os humildes.

Esse era o programa de vida da criança que ia nascer.

Entre os doutores

Pronto! Acabamos de parir o Cristo brasileiro do Lula. Ele nasceu num casebre, perto do Forte do Presépio, no dia 25 de dezembro de 1980, no segundo ano da presidência do general Figueiredo, sendo governador do Pará o coronel Alacid Nunes. O tetrarca de Ananindeua era Jader Barbalho, conde de Abacatal. Naquele mesmo ano, nasceu o PT, comandado por Lula, líder das greves históricas de quase 200 mil trabalhadores do ABC paulista, com piquetes e assembléias gigantescas em estádios de futebol.

Os pais de Jesus iam todos os anos, em outubro, para as festas do Círio de Nazaré. Numa dessas, o menino, que tinha apenas doze anos, se perdeu no meio de dois milhões de romeiros que seguiam à procissão. Maria e José registraram o desaparecimento na Delegacia do Jurunas, na av. Roberto Camelier. Três dias depois o acharam num auditório do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), no Campus Universitário do Guamá, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os.

Todos os que o ouviam ficavam maravilhados com a sabedoria dele. E sua mãe lhe disse:

- Meu filho, que nos fizeste? Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição.

Ele respondeu, conjugando o verbo saber como nenhum brasileiro o faz:

- Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu País? Estava conversando com doutores formados na França - Rosa Acevedo, Edna Castro, Raul Navegantes – mostrando pra eles meu compromisso com os famintos, os humildes, os cativos.

O menino cresceu em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens. Fez tudo o que tinha de fazer. Foi batizado no bosteiro do rio Guamá, viajou pelo Marajó e baixo Amazonas, operou milagres – o maior deles foi sobreviver em condições de extrema miséria. Falou em comício, um deles com o palanque armado em cima de uma montanha:

- Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque vos alegrareis!

Eram promessas carregadas de esperanças, sonhos, utopias. Esse era seu programa! Para difundi-lo, arregimentou doze militantes, entre eles alguns pescadores e feirantes do Ver-o-Peso.

Foi aí  que o conde de Abacatal resolveu tentá-lo, levando-o para a Jaderlândia, em Castanhal. Mostrou-lhe, o viveiro de rãs, os bois no pasto, as terras e as fazendas Rio Branco e Campo Maior, os cofres cheios de grana desviada do Banpará, e disse-lhe, com mesóclise e tudo:

- Dar-te-ei todo este poder e a glória desses reinos e todos os projetos financiados com dinheiro da Sudam, que agora são meus. Tudo isso será teu, se renunciares a teu programa, te prostares diante de mim e beijares minha mão.

Beijo de Judas

Jesus Paraense respondeu, então, ao conde de Abacatal:

- Saca fora, capiroto! O meu reino não é o deste imundo. Está escrito: o Espírito do Senhor paira sobre mim, porque me ungiu e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para anunciar aos cativos a libertação e a redenção.

Com essa atitude, Jesus Paraense recusou a coligação, mostrando que Lula se equivocou, não sobre a necessidade de fazer aliança, sem a qual não existe vida política, mas com a escolha dos parceiros.

Coligar é  saudável. Mas com quem? Para que? O próprio Jesus Nazareno fez isso. Ele não precisou vir ao Brasil para atrair Judas, com quem de fato se aliou. Judas Iscariotes se tornou militante de seu partido, era o apóstolo responsável pelas finanças. Afinal, custa dinheiro fazer campanha pela Galiléia, Cafarnaum, Nazaré, etc. Judas, o cara que arrecadava fundos para as viagens, era uma espécie de delúbio sem mensalão. Mas quando Judas contrariou o programa traçado no Sermão da Montanha, Cristo rejeitou a aliança com ele e preferiu ser crucificado entre dois ladrões.

O erro de Lula, portanto, foi não definir os limites das alianças. Quando ele afirma que, aqui no Brasil, Cristo se aliaria a Judas, está tentando justificar seu pacto com Renan Calheiros, Sarney, Collor, Jader Barbalho, não em torno de princípios, mas do mais abominável fisiologismo, do toma-lá-dá-cá, trocando apoio por cargos, prebendas e favores, exatamente como fez o FHC.

Lula –eu acho– foi o melhor presidente do Brasil. Quem não concordar, que me indique outro: Deodoro ou Floriano? Prudente de Moraes? Sarney, Collor, Itamar? No entanto, Lula foi só isso: um presidente um pouco melhor que os seus antecessores. Mas ele não inovou, não avançou, não reformou, não revolucionou nada, como a gente esperava de um metalúrgico nordestino, sofrido e inteligente, num país sempre governado por doutores. Ao contrário, manteve e fortaleceu as forças políticas retrógradas, não tocou nas estruturas corrompidas, podres e arcaicas do Brasil.

Lula governou, renunciando a muitos itens do programa do PT, numa aliança na qual quem tem a hegemonia em diversas áreas é o Judas, que matou a utopia e impôs suas práticas políticas, sua metodologia, sua falta de princípios. O dano que isso causa à juventude não tem tamanho. Sinceramente, Lula poderia fazer muito mais na oposição, cobrando, exigindo, fiscalizando.

Se Cristo, imitando o Lula, aceitasse beijar a mão de Judas, a Última Ceia seria a primeira de tantos rega-bofes e acordos políticos. Através de decretos secretos, Pilatos nomearia tia Isabel para a Direção Geral de Creches, o primo João Batista para a Superintendência dos Cemitérios e até o Anjo Gabriel para o Conselho da ANAC, ganhando uma baba. Com o pacto, a governabilidade estaria garantida e Cristo não seria crucificado - é verdade - mas também não mudaria o mundo. Com essa base governista, sua gestão seria medíocre e seu reino teria fim, como o de Lula terá.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Blogs que citam este Post

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Rio Branco (AC) avança no tratamento urbano de resíduos sólidos

Altino Machado às 1:43 pm

Rio Branco (AC) contará, a partir desta sexta-feira, 23, com uma moderna unidade de tratamento de resíduos sólidos urbanos, que será inaugurada pelo prefeito Raimundo Angelim (PT) no Km 22 da BR-364.

Trata-se de um complexo de obras que conta com uma central de recebimento de pneus; espaço de triagem e compostagem (para separar resíduos sólidos recicláveis e o aproveitamento dos resíduos orgânicos para produção de compostos); central de podas e resíduos madeireiros; unidade de tratamento de resíduos de serviços da saúde e células de aterro sanitário.

A obra custou R$ 11 milhões e é uma das mais avanças no tratamento de resíduos sólidos na Amazônia. Rio Branco é reconhecida hoje como uma das cidades mais atraentes e com o melhor serviço de limpeza da região Norte.

O prefeito Angelim tem demonstrado preocupação com a questão ambiental e a implantação da unidade de resíduo sólido em substituição ao antigo aterro sanitário da cidade é o seu maior investimento no setor.

- Trabalhar questões ambientais é fundamental para bons resultados na nossa política de desenvolvimento regional com base sustentável. A unidade de resíduo sólido é um investimento de longo prazo, não só porque cumpre todas as normas da legislação vigente no que se refere à questão ambiental, mas porque vai além, no processo de reciclagem do lixo - disse o prefeito.

A implantação da unidade possibilitará o isolamento do solo do aterro com mantas especiais, onde serão depositados os resíduos. A cobertura permite a contenção do chorume, substância altamente tóxica que se forma a partir do acúmulo de resíduos orgânicos. O líquido será desviado para grandes tanques de decantação.

Fotos: Marcos Vicentti/Divulgação

Blogs que citam este Post

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Justiça Federal mantém aberta porteira para boi pirata na Amazônia

Altino Machado às 4:09 pm

Sete ocupantes ilegais da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, conseguiram que os juízes federais José Airton Portela e Francisco Garcês Castro Júnior, de Santarém, suspendessem as interdições de suas áreas. O grupo foi flagrado pela operação Boi Pirata II, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mas os juízes federais acataram a alegação de que a medida “violou o princípio da livre iniciativa”.

Com a decisão, a Justiça Federal autoriza a continuidade da criação de gado na Flona do Jamanxim, considerada uma das unidades de conservação mais atingidas pela devastação ambiental no Pará, estado que lidera o ranking do desmatamento na Amazônia.

Contra a decisão de Portela, publicada em setembro, Ibama e Ministério Público Federal (MPF) recorreram ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), em Brasília. O recurso foi encaminhado na sexta-feira, 16, ao desembargador federal João Batista Gomes Moreira.

Para Ibama e MPF, se a decisão for mantida “trará a sensação de impunidade, de condescendência com as atitudes atentatórias ao direito ambiental”.

A segunda edição da operação Boi Pirata foi iniciada em junho deste ano no município de Novo Progresso, oeste paraense, onde está a Flona Jamanxim.

A região foi escolhida por figurar entre as que lideram o desmatamento ilegal na região Norte, de acordo com pesquisas do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Entre os mais de 35 mil hectares de terras interditadas pela operação Boi Pirata II, em agosto e setembro o Ibama emitiu termos de embargo e interdição contra os ocupantes ilegais da Flona Jamanxim João Leandro da Costa, João Lopes de Souza, Waldiron Henrique Lopes, Ruben Nestor da Silva, Delair de Oliveira Mendes, Francisco Paulo de Souza e Leônidas Muniz de Santana. Logo em seguida eles pediram à Justiça Federal em Santarém a suspensão da interdição.

As decisões liminares (urgentes) foram publicadas ainda em setembro , cancelando os embargos impostos pelo Ibama. Segundo os fazendeiros ilegais João Leandro da Costa, João Lopes de Souza e Waldiron Henrique Lopes, a interdição “feria o estado democrático de direito, principalmente os fundamentos da dignidade da pessoa humana e dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa”.

- As autuações foram  lavradas com o objetivo de compelir os infratores a promover a retirada dos rebanhos do interior da Flona, uma vez que estavam  sendo criados em áreas desmatadas sem autorização, sob pena de apreensão dos animais -ressaltam no recurso a procuradora federal Juliana Lopes de Sousa, que atua no Ibama, e os procuradores da República Cláudio Henrique Machado Dias, Marcel Brugnera Mesquita e Nayana Fadul da Silva.

De acordo com eles, a Operação Boi Pirata II tinha como meta principal dissuadir os infratores à abertura de novas áreas na região para a criação de gado. Para os procuradores, “uma vez que toda a operação se baseia na lógica da dissuasão, invalidar os procedimentos realizados pelo Ibama no âmbito desta operação coloca em risco não só os resultados práticos da Boi Pirata II mas também toda a atuação da autarquia na região oeste do Pará”.

O recurso do MPF e Ibama contra a outra decisão que liberou a criação de gado na Flona, do juiz Francisco Garcês Castro Júnior, foi protocolado no TRF-1. Na decisão, o juiz suspendeu as interdições impostas às áreas ocupadas ilegalmente por Ruben Nestor da Silva, Delair de Oliveira Mendes, Francisco Paulo de Souza e Leônidas Muniz de Santana. Segundo Castro Júnior,  a medida do Ibama foi “desprovida de necessária intermediação judiciária”.

Blogs que citam este Post

domingo, 18 de outubro de 2009

Dilma Roussef: nem com um tiro de canhão

Altino Machado às 12:01 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

A sala de embarque do aeroporto de Brasília, para onde vim a trabalho, está entupida de gente, nessa sexta-feira. Vou tomar um chá de cadeira de três horas. Conformado, abro o lepitope para escrever o taquiprati. Levanto a cabeça em busca de assunto e quem é que vejo? Meu amigo, o senador João Pedro (PT-AM). Conversamos, rapidamente, sobre o seu projeto de Universidade Pan-Amazônica. Mas eis que, de repente, passa na minha frente, cavalgando lépido e fagueiro, o meu tema: Jáder Barbalho (PMDB, vixe, vixe!).

- Oba! É ele, o meu tema! - grito com meus botões.

A passagem fugaz de Jáder Barbalho, trotando em direção a um portão de embarque, me inspira. Deixo a Universidade Pan-Amazônica de lado e começo a escrever uma carta para a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, usando o modelo epistolar criado pelo finado Waldick Soriano, em uma de suas músicas. Aí vai a carta.

Fé de mais

Dona Dilma, saudações! Escrevo essa carta, mas não repare os senões, para dizer o que sinto e o que penso sobre suas recentes alianças políticas. Leio nos jornais que a senhora esteve na procissão do Círio de Nazaré, em Belém, depois de haver participado do Dia Nacional da Marcha para Jesus, organizada pela Igreja Renascer. Cabem elogios ao seu ecumenismo, embora falte visitar um templo de candomblé e reverenciar a pajelança cabocla do Marajó, sem a qual o ecumenismo é superficial, de fachada.

Alguns jornalistas criticaram sua conduta pan-religiosa. Bobagem! Se houver fé, nada impede de rezar em vários altares e de cantar em diversos terreiros. Não é incompatível transitar por múltiplas religiões. A religião é que nem a língua. A gente tem uma, é monolíngue e respeita a dos outros. Mas pode também ser bilíngüe, aprendendo idiomas alheios. O importante é a fé, que é o que existe de mais profundo, de mais sublime e de mais necessário no ser humano.

Me diga, a senhora tem fé, dona Dilma? Aprendeu catecismo? Fez primeira comunhão? Cadê as fotos com a vela e o missal na mão? Sabe cantar “Virgem Mãe Apareciiii-ida”? A senhora é bi-religiosa ou quer apenas -o que é louvável- marcar posição de respeito e tolerância a todas as religiões? O que foi buscar na procissão do Círio de Nazaré, em Belém? Leio nos jornais que a senhora subiu num palanque em frente ao prédio da Companhia das Docas do Pará para assistir a procissão, distribuiu sorrisos e acenos aos romeiros, ajudou a carregar algumas crianças próximas à corda e até rezou.

Diz-me com quem rezas

No Círio de Nazaré, a senhora rezou, dona Dilma? Qual oração? Alguma jaculatória, tipo “Jesus manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao Vosso”? Os jornais noticiam que suas orações não foram dirigidas ao Sagrado Coração de Jesus, mas ao santo de casa, que é um santo do pau-oco -o deputado federal Jáder Barbalho, presidente local do PMDB (cruzes!)- durante jantar oferecido no Hangar, lá no Centro de Convenções, em Belém. O rega-bofe se estendeu pela madrugada de domingo.

A família Barbalho estava lá em peso, comendo vorazmente, com dentes afiados, como costuma fazer, com destaques para dona barbalha Elcione, o barbalhinho Helder e o chefe do clã, que atacou o pato no tucupi. O certo é que a senhora, dona Dilma, comeu com a barbalhada toda, riu com Jáder Barbalho, paparicou Jáder Barbalho, pediu e ofereceu apoio a Jáder Barbalho, declarou que ele é um “animal político extraordinário” e que as análises políticas dele, na época do “mensalão”, a impressionaram. “Ou se governa junto ou não se governa” - essa foi sua promessa ao PMDB local.

Nesse momento, Jáder arrotou o tucupi do pato, satisfeito, com a língua tremelicando, anestesiada pelo jambu, compreendendo que, caso a senhora emplaque, ele subirá junto a rampa do Planalto. Ninguém viu, mas naquele instante, no altar da Basílica, aconteceu um milagre: uma lágrima rolou pela face da imagem solitária da Virgem de Nazaré. A bichinha ficou mais ferida do que quando foi chutada, em 1995, por aquele intolerante pastor da Igreja Universal, em programa de televisão ao vivo.

Tá certo, dona Dilma, política é tecer alianças. Tá certo, pra governar precisamos do PMDB. Mas por que, então, não procurar Pedro Simon, Jarbas Vasconcellos e o pessoal que lutou contra a ditadura e que é ético? O Jader Barbalho -a senhora não lembra?- é aquele cara que foi algemado e denunciado pelo Ministério Público Federal por desvios de R$ 16, 7 milhões da extinta Sudam. Se a senhora não reza com Pedro Simon, mas com Jader Barbalho, algo de podre ronda sua candidatura a presidente da República. Dilma, com quem rezas? Eu te direi quem és. Confesso: estou com medo.

Com medo de ser

Vejo nos jornais, dona Dilma, no Dia da Marcha para Jesus, sua foto ao lado da bispa Sônia, do apóstolo Estevam Hernandes e do pastor Crivella, sobrinho do Edir Macedo, dono da Igreja Universal, cujo pastou chutou a imagem da Virgem de Aparecida. O casal - a senhora não lembra, dona Dilma? - acaba de sair da cadeia nos Estados Unidos, porque tentou entrar naquele país com dólares escondidos dentro de uma Bíblia. Eles cortaram as páginas da Bíblia e, no lugar da palavra de Deus, esconderam os dólares expropriados de gente humilde.

A bispa Sônia, também conhecida como “perua de Cristo”, e seu marido, o apóstolo Estevam, prometeram orar pela senhora. Sua candidatura precisa dessas orações? Por que essa atração da senhora por algemados e trambiqueiros? O noticiário descreve outro jantar, em Brasília, na Mansão Oásis, com o deputado Valdemar Costa Neto (PR - vixe, vixe!) e o ex-governador Garotinho. Valdemar é aquele que renunciou ao mandato por estar envolvido no escândalo do “mensalão”. E o Garotinho, a quem combatemos no Rio de Janeiro, é aquele que acusou o PT de ser “o partido das boquinhas”.

Ministra, a senhora tem uma biografia limpa. Foi torturada com palmatória, socos, pau-de-arara, cadeira-do-dragão, choque elétrico e o escambau. A gente admira seu passado de integridade e de luta contra a ditadura. Uma pessoa com a sua biografia não merece passar por esse vexame de conviver com gente que apoiou a ditadura, que está envolvida até o talo com corrupção, clientelismo, nepotismo, com tudo aquilo que a gente sempre combateu.

Ministra, olhe em sua volta, se oriente e se observe, veja por quem está cercada, e quem é que está se pirulitando. Com quem falta se aliar, ministra, localmente aqui no Amazonas? Com o Adail, ex-prefeito de Coari? Com os Kennedy de igarapé - os irmãos Souza? Com Amazonino? Ministra, a senhora está deseducando os jovens que querem fazer política, porque está dizendo a eles que é isso mesmo, que não existe ética, que vale tudo para chegar ao poder, que esse negócio de compostura é pra otário.

Dona Dilma, a senhora já chega ao Planalto -se chegar lá- com as mãos amarradas, comprometida até o último fio da peruca com o que existe de mais abominável e mais sórdido nesse país, desde Thomé de Souza, que foi o fundador do PMDB ou do PFL, tanto faz, vixe, vixe. Veja bem -como diz o Lula- se o mordomo do filme de vampiros, o Michel Temer, for o seu vice, esse petista aqui, euzinho, não voto na senhora num provável segundo turno nem com canhão me ameaçando o peito, nem que a Marina Silva me peça de joelhos. Depois de marinar, eu serro.

Dilma lá? Estou com medo da senhora, dona Dilma, com medo de ser, com medo de ser, com medo de ser… infeliz! A senhora está enterrando nossos sonhos, chafurdando no lamaçal com essa porcalhada toda. Desculpa, dona Dilma. Não repare os senões. Mas não dá. Não é pela senhora, mas pela rabiola que vem junto, pelos seus novos amigos, de quem tenho nojo e quero distância.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Foto: Elza Fiúza/ABr

Blogs que citam este Post

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Justiça do Acre condena ex-governador a devolver R$ 24,7 milhões desviados da rubrica “verba secreta”

Altino Machado às 4:54 am
Ex-governador Orleir Cameli se aliou ao PT

Ex-governador Orleir Cameli se aliou ao PT

O ex-governador do Acre Orleir Cameli foi condenado pela juíza substituta Evelin Campos Cerqueira, da 2ª Vara de Fazenda Pública da Comarca de Rio Branco, a devolver R$ 24,7 milhões que foram desviados por ele e sua equipe da rubrica “Suprimento de Fundos - Verba Secreta” durante o período de sua administração, de 1995 a 1998.

Orleir Cameli foi acusado de improbidade administrativa numa ação civil pública movida pelo Ministério Público do Acre. Ele se apropriou de milhões de reais sem nem sequer apresentar um recibo de pagamento. O Tribunal de Contas do Estado (TCE) do Acre constatou que não houve prestação de contas do montante sacado da “verba secreta”.

A “verba secreta” eram confiada a vários membros do governo estadual, condicionada à prestação de contas. Os recibos apresentados foram assinados pelos supridos, não havendo qualquer nota fiscal ou recibo de terceiro atestando que as verbas foram empregadas no interesse público.

Muitas vezes os secretários de Orleir Cameli passavam os valores em espécie para o governador. Alguns emprestaram seus nomes para constar nos documentos contábeis, sem terem administrado os recursos.

Cameli, que estudou até a quarta série, nasceu em Cruzeiro do Sul, no extremo-oeste do país, a partir de onde se tornou um dos empreiteiros mais poderosos da região Norte. Chegou a possuir quatro CPFs e durante sua gestão foi flagrado no aeroporto de Cumbica (SP) contrabandeando um Boeing do EUA carregado de muamba. Responde a dezenas de processos e já foi condenado por invadir terra indígena para exploração ilegal de madeira.

A gestão de Orleir Cameli era tão corrupta que ele chegou a merecer do jornal O Globo a manchete “Um campeão da falcatruas na cadeira de governador”. Camelia era o principal alvo do PT quando o partido fazia oposição no Acre, mas virou aliado e colaborador financeiro dos petistas.

Desde então suas empresas passaram a executar várias obras no Estado, especialmente no asfalmento da BR-364, que liga Rio Branco a Cruzeiro do Sul. Atualmente, é o maior entusiasta do setor privado estadual em defesa do nome da presidenciável Dilma Rousseff.

A sentença estabelece que os R$ 24,7 milhões terão que ser devolvidos com correção monetária e juros de mora. Cameli foi condenado, ainda, a suspensão dos direitos políticos pelo período de oito anos, multa civil no valor correspondente a 10% do valor do dano ao erário estadual, proibição de contratar com o poder público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de cinco anos.

A juíza Evelin Cerqueira reconheceu a prática de ato de improbidade administrativa também contra o ex-secretário da Fazenda Raimundo Nonato de Queiroz e contra o primo do então governador, Cristóvão Correia de Messias, ex-chefe da Casa Civil, que posteriormente se tornou conselheiro do TCE.

Os dois ex-secretário de Cameli foram condenandos, nos termos do art. 12, II, da Lei n. 8.429/92, nas penas de perda da função pública, suspensão dos direitos políticos pelo período de seis anos, solidariamente, ao pagamento de multa civil no valor correspondente a 5% do valor do dano ao erário estadual, considerando a proporcionalidade das condutas dos réus.

Além deles, foram condenados os seguintes secretários e assessores do governo Cameli: Sérgio Baptista Quintalinha, Almir Dankar, Edilberto Ferreira Jansen, Rosângela da Gama Pereira e Elizabete Jerônimo do Vale.

Segundo a Justiça, ficou demonstrada a ilegalidade cometida na movimentação da verba secreta porque não foi comprovado em que foram investidos os valores sacados ou porque foram empregados em finalidades não permitidas por lei.

- O conjunto probatório não deixa dúvidas quanto à prática de ato ímprobo, consubstanciado na ocorrência de lesão ao erário estadual causado por parte do ex-Governador Orleir Messias Cameli durante sua gestão, tendo violado frontalmente os princípios norteadores da administração pública previstos no art. 37, caput, da CF/88, princípios esses a que todos os agentes públicos estão submetidos - escreveu a juíza na sentença.

Segundo Evelin Cerqueira, o ex-governador encabeçou o esquema de desvio da verba secreta, pois ele detinha o poder para autorizar os saques, o que era feito sem qualquer controle quanto ao emprego dos valores sacados.

A juíza assinala que o ex-governador sabia que sua conduta ia de encontro ao ordenamento jurídico.

- Não se concebe que um administrador estadual não tenha conhecimento de que deve ser comprovada as despesas realizadas com o dinheiro do povo, principalmente da forma como era realizada, através de adiantamentos, sem necessidade de prestação de contas imediata, o que facilitava o desvio.

Perfil

Almir Dankar recebeu valores da verba secreta, conforme afirmou em sua contestação, sob a alegação de que o seus vencimentos não estavam de acordo com as funções que exercia. Confessou que pediu para a sua secretária doméstica assinar o recibo de pagamento.

Raimundo Nonato de Queiroz figurou por algumas vezes na qualidade de ordenador de despesas, bem como por ter sido o Secretário de Fazenda do Estado na época da gestão do governo Cameli. Participou ativamente dos desvios de verbas, inclusive, solicitando ao réu Edilberto Jansen que emprestasse o seu nome para figurar na qualidade de suprido. Os valores eram entregues a Queiroz.

Antônio Cristóvão Correia de Messias também figurou na qualidade de ordenador de despesas nos anos de 1996, 1997 e 1998, pois ocupava o cargo de Chefe do Gabinete Civil, órgão esse que participava da movimentação da verba secreta. Declarou perante o Ministério
Público que juntamente com o governador, definiam as despesas de caráter secreto. Entretanto, estranhamente, não se recordou sequer de um exemplo, mesmo tendo ciência de que foram desviados mais de R$ 24 milhões, ou seja, não era uma ação excepcional, mas sim corriqueira na administração pública da época.

Edilberto Ferreira Jansen também colaborou para o desate das movimentações financeiras, pois emprestou seu nome para que as verbas pudessem ser depositadas e sacadas, isso, pelo menos, durante metade da administração do ex-governador Orleir Cameli.

Sérgio Baptista Quintanilha sequer apresentou contestação à ação, reputando-se verdadeiras as afirmações lançadas na inicial pelo Ministério Público. Tal fato, somado com as provas, demonstraram que o réu colaborou diretamente para o desvio das verbas secretas. Figurou inúmeras vezes na qualidade de ordenador de despesa, tendo administrado a conta de suprimento de fundos. Afirmou que sabia que as verbas eram utilizadas em finalidades não previstas em lei, como por exemplo, para tratamento médico de populares, translado de corpo, e até para levar a secretária Marilena Mansour para a cidade do Rio de Janeiro para tratamento médico. “Uma verdadeira farra com os recursos do povo”, assinala a juíza

Rosângela da Gama Pereira e Elizabete Jerônimo do Vale também colaboraram para o desvio, pois emprestaram seus nomes para figurarem na qualidade de suprida, sabendo que outros iriam fazer a movimentação da conta, sem se importar com a legalidade de suas ações e eventuais consequências. Assinaram inúmeros cheques em branco. Elizabete afirmou que sabia que alguns valores serviam como “ajuda financeira” para população, doações para pessoas carentes e para tratamento de saúde de populares.

- Assim, os réus Raimundo, Antônio, Sérgio, Almir, Edilberto, Rosângela e Elizabete, colaboraram diretamente com suas ações para malversação dos recursos públicos, ajudando o réu Orleir a alcançar seu intento, impondo-se a condenação pela prática de ato ímprobo - afirma a juíza Evelin Cerqueira.

Foto: Marcos Vicentti/Página 20

Blogs que citam este Post

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tribunal de Justiça do Acre paga R$ 5 mil a assessora fantasma

Altino Machado às 1:30 pm

Stela Siqueira não se apresenta, não cumpre horário, não trabalha, mas recebe todo mês mais de R$ 5 mil do Tribunal de Justiça do Acre. Ela mandou imprimir recentemente cartões para se apresentar nos salões como assessora especial do gabinete do presidente Pedro Ranzi.

Não é verdade que seja assessora especial. É apenas e tão somente protagonista de uma mamata no ambiente público do Judiciário do Acre.

No dia 3 de março foi nomeada para exercer o cargo de provimento em comissão de Chefe da Seção de Reestruturação e Seleção e de Administração de Cargos e Salários, código PJ-DAS-101.4, sendo lotada na mesma data no gabinete do presidente do Tribunal de Justiça.

Antes disso, a partir de março de 2005, durante a presidência do desembargador Samoel Evangelista, ocupou, sem trabalhar, o cargo de provimento em comissão de Chefe do Setor de Contabilidade, código PJ-DAS-101.2, da Seção de Finanças do Tribunal de Justiça.

No dia 2 de abril de 2007, após a desembargadora Izaura Maia assumir a presidência do Tribunal de Justiça, Stela Siqueira foi exonerada por sugestão da presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário, Rosane Ferraz.

Como Stela é irmã do secretário estadual de Planejamento Gilberto Siqueira, amigo de Izaura Maia, naquela ocasião a desembargadora o procurou para comunicar que a situação era insustentável e que a mesma seria exonerada.

- Ela não trabalhava, mandava alguém buscar o contracheque e o dinheiro caía na conta dela. Continua agindo da mesma maneira e nós vamos tomar as providências necessárias para cessar essa ilegalidade, que significa afronta à dignidade dos servidores que trabalham com abnegação, mas não contam com apadrinhamentos para ganhar dinheiro sem trabalhar. É vergonhoso que ela tenha voltado a ocupar um cargo de confiança no Judiciário nessas condições - comenta Rosane Ferraz.

O blog procurou três setores do Tribunal de Justiça na tentativa de localizar Stela Siqueira, mas as pessoas que atenderam desconheciam o nome e o local de trabalho da “assessora especial” do desembargador Pedro Ranzi.

Detalhe do cartão impresso na gráfica do Judiciário: consta o endereço do Tribunal de Justiça, mas sem telefone do local de trabalho. Para qualquer contato, apenas dois e-mails e um telefone celular particular.

O mesmo celular mencionado pelo colunista social Moisés Alencastro na edição do Página 20, de 4 de setembro de 2007 - mas não reparem os erros da nota “Flores” a seguir:

- Gente é simplesmente chiqueressímos os arranjos florais confeccionada pela design floral Stela Siqueira. Os arranjos são verdadeiras obras de arte. Essa é a razão que a empresária está sendo super requisitada por todos aqueles que admira o belo e o requinte. A dica é seguinte quando for receber em casa, ambiente de trabalho alto estilo ou presentear alguém muito querido é só ligar para 9984-4869.

Blogs que citam este Post

Programa Terra Legal estimula desmatamento na Amazônia, diz Imazon

Altino Machado às 9:53 am

O desmatamento na Amazônia Legal voltou a subir pelo segundo mês consecutivo, em agosto, após um ano em queda, de acordo com dados divulgados nesta quarta-feira, 14, pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), para quem isto é conseqüência  do programa Terra Legal, que distribui a posseiros títulos de terras públicas na região.

Em agosto de 2009, o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD)  do Imazon registrou 273 km² de desmatamento na Amazônia Legal. Se comparado com agosto de 2008, quando o desmatamento alcançou 102 km², houve um aumento de 167%. Porém, cerca de 46% (125 km²) desse desmatamento pode ter ocorrido antes, pois estava situado em áreas cobertas por nuvens nos meses anteriores.

O desmatamento em agosto de 2009 foi maior no Pará (76%), e em menor proporção em Mato Grosso (8%), Amazonas (6%) e Rondônia (5%). Os demais estados contribuíram com cerca de 5% do desmatamento.

No Pará, o desmatamento ocorreu de maneira mais concentrada no trecho da BR-163, que vai da fronteira com o Mato Grosso até Itaituba; na área de influência da rodovia Transamazônica entre os municípios de Marabá e Uruará e em São Félix do Xingu.

Os municípios mais desmatados estão localizados no Pará. A liderança do desmatamento coube a São Félix do Xingu (36 km²) seguido por Altamira com 26,3 km², Novo Repartimento com 23,5 km² e Novo Progresso com 21,2  km².

O desmatamento foi expressivo nas Áreas Protegidas atingindo 48% do total no mês a maior proporção de desmatamento registrada pelo SAD.

As Unidades de Conservação mais afetadas pelo desmatamento foram APA Estadual Triunfo do Xingu (na Terra do Meio) com 18,7 km² desmatados e Floresta Nacional do Jamanxim (BR- 163, Pará) com 4,2 km² e a Terra Indígena Apyterewa (na Terra do Meio, Pará) com 10 km².

Foi possível monitorar com o SAD 92% da Amazônia Legal (excluindo-se o Maranhão) em agosto de 2009. Os dados de degradação florestal de agosto serão divulgados no próximo boletim.

Blogs que citam este Post

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Acre: Justiça condena ex-comandante a devolver R$ 2,2 milhões por falcatruas na PM

Altino Machado às 12:30 pm

O coronel aposentado Jair Thomaz, ex-comandante da Polícia Militar do Acre, foi condenado pela juíza Larissa Pinho de Alencar Lima, da 1ª Vara da Fazenda Pública de Rio Branco, a devolver R$ 2,2 milhões aos cofres públicos.

Trata-se de um processo antigo, de 1996, quando o Ministério Público do Estado (MPE) moveu uma ação civil pública contra os desmandos administrativos na corporação.

Jair Thomaz comandou a PM em 1994 e cometeu diversos atos de improbidade administrativa, apurados inicialmente por uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa.

Ao conceder uma série de vantagens e benefícios ilegais, como ajuda de custo, diárias e bolsa de estudo, Thomaz chegou a instituir auxílio-uniforme para os militares reformados, além de ter contratado empresas com preços superfaturados e emitido diversos cheques sem prestar contas.

O comandante da PM fracionava as compras e, por meio de carta convite, adquiriu da empresa “fantasma” J. Comércio e Representação Ltda, diversos bens: carne bovina, frango congelado, colchões, arroz, feijão, farinha, material de limpeza, condicionadores de ar, máquinas de escrever, ração para cavalo, travesseiros etc.

O Tribunal de Contas do Estado apurou que a empresa não dispunha de cadastro junto à administração pública nem de endereço, uma vez que o local constante nas notas fiscais como se fosse sede do estabelecimento, na verdade é um imóvel residencial.

Como era o único ordenador de despesas, o comandante da PM obteve por ato próprio diversas vantagens pecuniárias, fazendo com que seus vencimentos experimentassem um significativo aumento, por meio de ajuda de custo, transporte, diferença de ressarcimento e auxílio saúde.

De acordo com a denúncia do MPE, Thomaz ordenava pagamentos de benefícios e indenizações a quem entendesse devido, sem qualquer parâmetro ou autorização legislativa, e na quantia que melhor lhe aprouvesse de maneira discricionária e arbitrária.

A PM, através de seu comandante, firmou três contratos para construção de casas em Senador Guiomard, assim como salas de aula e calçadas, todas sem o devido processo licitatório. As reformas não foram realizadas, mas o preço ajustado foi pago.

A empresa Parintins Const., Edificações e Pavimentações foi contratada para construção de quatro casas, porém as unidades, maiores do que as previstas, acabaram construídas por membros da PM, mediante pagamento de diárias.

- Podem ter ocorrido falhas administrativas ilegais que, no máximo, desrespeitam a lei de licitações. Falhas ilegais, mas nunca imorais - alegou Thomaz no processo.

O ex-comandante da PM, que atualmente reside em Goiânia (GO), também foi condenado à suspensão dos direitos políticos pelo período de cinco anos, pagamento da multa civil de até duas vezes o valor do dano, além da proibição de contratar com o poder público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio, pelo prazo de cinco anos.

Blogs que citam este Post

Viúva e filha de Chico Mendes são acusadas de desvio de dinheiro

Altino Machado às 8:41 am

O Ministério Público do Estado (MPE) do Acre propôs à Justiça uma ação de improbidade administrativa contra Ilzamar Mendes e Elenira Mendes -viúva e filha do líder sindical e ecologista Chico Mendes-, além de Davi Cunha, marido de Elenira.

A ação foi protocolada na sexta-feira, 9, na Vara Cível de Xapuri, pelo promotor de Justiça Mariano Jeorge de Souza Melo, após ter conduzido investigação preliminar durante a qual foram ouvidos os três acusados e cinco testemunhas.

Os atos de improbidade administrativa envolvem R$ 685 mil que foram repassados nos últimos três anos pelo governo do Estado do Acre via convênios com o Instituto Chico Mendes (ICM), presidido por Elenira Mendes.

A investigação do MPE começou quando Deusamar Mendes, irmã de Ilzamar, casada com Zuza Mendes, irmão de Chico Mendes, entregou ao promotor de Justiça cópias de recibos com pagamentos irregulares no ICM.

Criado em junho de 2006, o ICM  é pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, de natureza social, cívica, ambientalista, ecológica, educacional, esportiva, agrária e beneficiente, sediado em Xapuri, a 188 quilômetros de Rio Branco, onde o seringueiro Chico Mendes foi assassinado em 22 de dezembro de 1988.

O MPE afirma que os recursos repassados pelo governo do Acre não foram utilizados na execução dos objetivos dos convênio ou, se foram, isso se deu em sua parte mínima. O promotor afirma que a investigação preliminar comprovou desvio de dinheiro para finalidades diversas, inclusive com apropriação indevida.

Elenira Mendes recebe do ICM em torno de R$  4 mil como salário, mas quem assinava alguns recibos era o tesoureiro Davinei Cunha, cunhado dela. Em outras oportunidades quem assinou os recibos foi o marido Davi Cunha.

A viúva Ilzamar Mendes, segundo a promotoria, ganha salário indevido do ICM no valor de R$ 3 mil. Numa das planilhas consta que chegou a receber salário no valor de R$ 6 mil.

- Não trabalha no ICM e recebe esses salários apenas porque assim teria decidido o governo, conforme declaração de Davi Cunha. O governo estaria fazendo cortesia com o chapéu alheio, pois teria determinado o pagamento de salários a quem nunca trabalhou para o Estado e nem mesmo para o ICM - assinala o promotor Mariano Melo.

Sob a justificativa da necessidade de pagar encargos e salários de empregados, os réus passaram a “arrumar empregados fictícios”, lançando nomes e números de CPFs de pessoas que não trabalham ou nunca trabalharam no ICM.

Elenira Mendes e Davia Cunha são acusados pela promotoria de Justiça de fazer com que os empregados do ICM assinassem recibos com valores superiores ao salário efetivamente recebido. Em alguns casos os recibos eram assinados em branco para que depois fossem preenchidos e assim feitos os ajustes para a prestação de contas.

O próprio Davi confessou que dava um jeito de conseguir os nomes e números de CPFs de pessoas, preenchia recibos e assinava como se fosse a pessoa cujo nome consta no recibo.

Raimilson Mendes Dantas prestou serviços para o ICM em 2007. Recebia salários que giravam entre R$ 300,00 e R$ 350,00. Porém, em recibos datados de setembro, outubro e novembro de 2007, consta que recebia mensalmente a quantia de R$ 720,00. Na planilha referente ao mês de março de 2009, consta que Raimilson teria recebido o salário de R$ 1.846,00.

O ICM é administrado por Elenira Mendes desde a fundação. Ela também administra o Centro de Memória Chico Mendes, conhecido como Fundação Chico Mendes e a Casa Chico Mendes.

Desde que foi fundado, o ICM passou a firmar convênios com o governo do Acre para a preservação do meio ambiente. O governo libera recursos que são depositados na conta do ICM.

A promotoria de Justiça pede, em sede de liminar, que o ICM seja proibido de firmar convênios com municípios e governos estadual e federal até que as irregularidades sejam sanadas.

Pede que seja requisitado pela Justiça os extratos dos últimos três anos de movimentação em duas contas bancárias do ICM, nas agências do Banco do Brasil em Rio Branco e Xapuri, além de cópias junto à Secretaria Estadual de Planejamento das prestações de contas de todos os convênios  e aditivos.

Caso sejam condenados peja Justiça, além ressarcir o cofre público dos danos e pagar multa civil, os réus podem perder os direitos políticos pelo prazo de 10 anos. O ICM poderá ser proibido, também por 10 anos, de contratar com o poder público ou receber benefícios e incentivos fiscais e creditícios.

Procurados pelo Blog da Amazônia, Elenira Mendes e Davi Cunha disseram que preferiam não se manifestar sobre as acusações. Elenira se limitou a dizer que estava muito assustada e que avaliava se divulgaria um comunicado à imprensa.

- Eu e Elenira não escondemos nada durante nossos depoimentos ao promotor. Muita coisa da denúncia dele é verdade, mas infelizmente está em jogo uma briga familiar - disse Cunha.

Blogs que citam este Post

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Especialistas questionam estudos e viabilidade da hidrelétrica de Belo Monte

Altino Machado às 8:57 am

Um painel de 40 especialistas lançou documento com análises do projeto hidrelétrico de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), previsto pelo governo para ser oferecido em leilão em novembro. Os pareceres foram entregues ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), para servir como insumo da análise sobre a viabilidade ambiental do projeto, e ao Ministério Público Federal (MPF), que verificará se há violações da lei, dadas as graves conseqüências do projeto.

O painel identificou diversas omissões e falhas nos estudos de impactos ambientais, que dificultam análises mais conclusivas sobre temas considerados vitais. Apesar do pouco tempo que tiveram para a análise dos documentos, os especialistas concluíram que Belo Monte deve causar graves consequências para a região, seus habitantes e os ecossistemas da floresta amazônica e, ainda, que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) ignora a dimensão da maioria desses impactos.

- A inédita ineficiência energética do projeto e o processo acelerado e atropelado das audiências públicas mostram que o governo e as empreiteiras pleiteiam uma grande obra a qualquer custo - assinalam os especialistas.

Leia mais:

Impacto de usina no Xingu pode ser três vezes maior que Tucuruí

Batalha do Xingu (1)

Batalha do Xingu (2)

Entre os temas analisados estão a viabilidade econômica do projeto; os impactos da construção numa área cobrindo mais de 1000 km2; os impactos sobre as populações indígenas; o caos social que seria causado pela migração de mais de 100 mil pessoas à região e pelo deslocamento forçado de 20 mil pessoas; os impactos sobre peixes e fauna aquática em geral; a possibilidade de extinção de espécies; as emissões de grandes quantidades de gases de efeito estufa; a insegurança hídrica e alimentar; a subestimação da população atingida e subestimação da Área Diretamente Afetada (ADA).

- O barramento altera a dinâmica sazonal da Volta Grande do Xingu, exuberante palco da biodiversidade amazônica que evoluiu seguindo esta dinâmica flutuante das águas, um monumento fluvial de primeira grandeza - adverte o engenheiro elétrico da Universidade de São Paulo  Francisco Hernandez, um dos coordenadores do painel.

Hernandez considera Belo Monte “de duvidosa viabilidade de engenharia, uma obra extremamente complexa que depende da construção não apenas de uma barragem, mas de uma série de grandes barragens e diques que interromperá o fluxo de águas numa área enorme, demandando a movimentação de terra e rocha com volumes semelhantes ao da construção do Canal de Panamá”.

Na avaliação do engenheiro, Belo Monte deve gerar pouca energia durante o período de três a quatro meses por ano de águas baixas, que denomina de “ociosidade anunciada”.

- Este quadro não justifica um investimento estimado em R$ 21 bilhões, conforme a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ou em mais de R$ 30 bilhões, conforme estimativas de empresas privadas e do presidente da Eletronorte, sem contar o enorme custo social e a enorme devastação que o projeto causaria - acrescenta Hernandez.

Para a antropóloga da Universidade Federal do Pará (UFPA), Sônia Magalhães, co-coordenadora do painel, o EIA subestima a população rural, de forma que a população diretamente afetada pode ser o dobro daquela indicada.

- Somente um novo levantamento pode confirmar o número real. Os programas propostos para mitigação não contemplam a enormidade do projeto e seus impactos - afirma a antropóloga.

Entre os impactos mais importantes identificados pelos estudos dos especialistas estão os que deveriam resultar do desvio de mais de 80% da vazão do Xingu para dois canais artificiais no caminho para a casa de força.

Segundo estudos feitos pelo hidrólogo Jorge Molina Carpio, não há justificativa técnica demonstrável para a escolha da chamada “vazão ecológica” que deixará as populações da Volta Grande do Xingu em situação de insegurança hídrica e alimentar.

- A Volta Grande do Xingu sofrerá, ao longo de cerca de 100 km, redução da vazão e rebaixamento do lençol freático, originando um Trecho de Vazão Reduzida (TVR) com vários impactos biológicos e sociais associados, como os problemas para a navegação e os efeitos sobre as florestas inundáveis.

Análise similar é feita por Geraldo Mendes dos Santos, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), uma das maiores autoridades em ictiofauna amazônica.

- O valor máximo previsto para as vazões no TVR não passa de 8.000m3/s, mas é bom lembrar que este valor não chega nem a um terço do valor máximo da cheia natural do Rio Xingu, que gira em torno de 23.000m3/s.

Isso significa que o TVR jamais disporá das condições naturais antes existentes e sob as quais a fauna e a flora se desenvolveram.

- Por certo, o conjunto das espécies que vivem neste trecho do rio não sobreviverá sob um regime de vazão imposto por decreto ou norma administrativa, quer estas venham do governo, das empresas ou mesmo da ciência - afirma Mendes dos Santos.

Paulo Buckup, presidente da Sociedade Brasileira de Ictiologia, e um grupo de ictiólogos afirmam: O EIA “não dimensiona o impacto real sobre a ictiofauna na área de 100 km que será atingida (…). A vazão reduzida irá provocar a mortandade de milhões de peixes ao longo dos 100 km ou mais da Volta Grande e não há medida a ser tomada que mitigue ou sequer compense este impacto”.

Antonio Carlos Magalhães, antropólogo que se dedica há décadas a estudos na região, também especialista do Painel, sustenta que a Volta Grande se constitui no principal alvo de Belo Monte.

- É  onde estão localizados a barragem principal , diques, canais, canteiros e a redução da oferta de água pela vazão reduzida proposta. Todas as principais obras ficarão no limite das terras indígenas, sujeitas aos impactos físicos da obra e, sobretudo, aos impactos sociais e culturais que a proximidade do canteiro de obras, afluxo de população empregada e em busca de emprego sabidamente provocarão.

Os pesquisadores concluíram que os efeitos sobre a população da Volta Grande, principalmente indígena, serão o equivalente a uma seca permanente, com diminuição do lençol freático, mudanças nos trechos navegáveis, importante perda de fauna aquática e terrestre, além de escassez de água.

Mesmo com tão graves consequências, os índios, ribeirinhos e lavradores da Volta Grande não foram considerados pelo EIA como diretamente impactados.

De acordo com Nirvia Ravena, professora da UFPA, ao deixar de existir, a segurança hídrica é um direito violado, mas uma vez que ela sequer é mencionada não há como detectá-la no EIA.

- A lógica exige que os atingidos pela secura do rio e das águas subterrâneas sejam considerados atingidos tanto quanto os atingidos pela inundação de suas terras e benfeitorias. A ética exige que todos os que seriam de fato prejudicados sejam considerados como atingidos, e nesse caso, o numero oficial estaria claramente abaixo da realidade - analisa Oswaldo Sevá, engenheiro mecânico, professor da Universidade Estadual de Campinas.

Hermes Medeiros, doutor em ecologia, professor da UFPA, parte de uma constatação que impressiona: a bacia hidrográfica do Rio Xingu apresenta uma das maiores riquezas de espécies de peixes já observada na Terra, com cerca de quatro vezes o total de espécies encontradas em toda a Europa.

- O fato mais notório sobre os mamíferos aquáticos é que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) trata deles apenas de maneira descritiva, com base na literatura e em dados de coleta. Não há um parágrafo sequer sobre avaliação de impactos que a hidrelétrica acarretará sobre eles, nem sobre o ambiente em que vivem. Esta omissão é grave e precisa ser reparada.

Com Belo Monte, a barreira geográfica natural das corredeiras e pedrais da Volta Grande deixará de existir, o que ameaça a biodiversidade presente.

Medeiros conclui que o sistema de eclusas proposto poderá romper este isolamento, causando extinção de centenas de espécies, além de impactos socioeconômicos imprevisíveis, inclusive para o próprio aproveitamento hidrelétrico, por processos que uma vez deflagrados não podem ser revertidos ou controlados.

Sobre o desmatamento, Medeiros questiona a ausência no EIA de previsões para o futuro, o que seria possível com a aplicação de métodos de simulação amplamente utilizados hoje. Apenas a expectativa de implantação do projeto já resultou em fluxo migratório e em aceleração no processo de desmatamento da região em períodos anteriores. Além disso, a região está no arco do desmatamento, já apresentando extensas áreas degradadas e pouco produtivas.

Essas projeções de desmatamento são fundamentais sobretudo com a proximidade das Unidades de Conservação (UCs) e Terras Indígenas (TIs) das áreas que serão ocupadas pelas obras e pelo afluxo populacional.

- No EIA existe uma inconsistência entre o que é discutido pelos especialistas de ecossistemas terrestres, que assumem que a floresta inundável será perdida, e a desconsideração destes efeitos na proposição de unidades de conservação como medidas compensatórias - afirma Hermes Medeiros.

A justificativa para a ênfase dada pelo setor energético à fonte hidráulica para geração de energia se apóia no argumento da energia limpa. Hidrelétricas emitem metano, um gás de efeito estufa com 25 vezes mais impacto sobre o aquecimento global por tonelada de gás do que o gás carbônico, de acordo com as atuais conversões do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC).

Philip Fearnside, do Departamento de Ecologia do INPA,  observa que os autores do EIA calculam as baixas emissões de metano das hidrelétricas por ignorar duas das principais rotas para emissão desse gás: a água que passa pelas turbinas e pelos vertedouros.

- O estudo considera apenas o metano emitido na superfície do próprio lago, e nem menciona as emissões das turbinas e vertedouros, o que é uma distorção ainda mais grave no caso de Belo Monte do que para outras barragens, uma vez que a área do reservatório de Belo Monte é relativamente pequena, porém, com grande volume de água passando pelas turbinas.

Foto: Monti Aguirre/International Rivers

Blogs que citam este Post

domingo, 11 de outubro de 2009

Círio de Nazaré: 2 milhões de romeiros participam da maior procissão católica do mundo em Belém (PA)

Altino Machado às 12:57 pm

Mais de 2 milhões de pessoas participaram neste domingo, 11, em Belém (PA), do Círio de Nazaré, a maior procissão católica do mundo. Foram quase seis horas de romaria para deixar a Imagem Peregrina da Virgem de Nazaré na sua morada na Praça Santuário.

A berlinda entrou na praça Santuário e a imagem Peregrina foi retirada dois minutos depois pelo diretor da festa. O vidro da berlinda, que quebrou logo no início da procissão quando a imagem foi colocada, caiu no chão ao ser retirado.

Veja também:
» Gripe suína é motivo de promessa no Círio de Nazaré

A mais reverenciada de todas as Marias está representada numa pequena imagem encontrada pelo caboclo Plácido José de Sousa, em 1700. Ela tem importância vital para o povo paraense que já estava nas ruas de Belém antes do sol raiar, para participar do Círio de número 217, a principal das 11 romarias em homenagem à Santa.

Fotos: Raimundo Paccó

Blogs que citam este Post

O dia em que Mercedes Sosa cantou em Manaus

Altino Machado às 7:25 am

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Maio de 1980. A cantora Mercedes Sosa passa quase incógnita por Manaus, se hospeda no Hotel Tropical e acaba dando um show, que não estava programado, no Teatro Amazonas. Concede longa entrevista a mim e a Natacha Andrade. Selecionamos o conteúdo e publicamos uma parte no Porantim, tablóide “em defesa da causa indígena”, e a outra, no jornal A Lucta Social, do PT-Amazonas, ambos editados por esse locutor que vos fala.

Foi por acaso que soubemos da presença de Mercedes Sosa. Quem nos avisou foi um dos motoristas do Hotel Tropical, cuja lucta por um piso salarial fixo de 8 mil cruzeiros havia recebido o apoio do PT local, no final de abril. A cantora vivia, naquela época, em Paris, exilada em razão das perseguições da ditadura do general Videla. Escolheu Manaus para descansar de uma excursão artística e conhecer um pouco a Amazônia.

O show no Teatro Amazonas foi decidido na última hora, não houve divulgação, a não ser aquela feita boca a boca nas salas de aula da Universidade. Uma mente arejada do governo Lindoso - não lembro mais se foi o poeta Élson Farias - facilitou os contatos institucionais para a cessão do teatro. O certo é que no dia 6 de maio, a grande intérprete da canção latinoamericana cantava, com a casa lotada, os ingressos vendidos a preço popular de 100 cruzeiros (Ela recusou proposta feita para cobrar mil cruzeiros).

Falecida domingo passado, em Buenos Aires, Mercedes Sosa tinha 44 anos quando passou por Manaus, explodia de criatividade e conservava rara beleza outonal, como mostra a foto do Porantim. Cantou músicas conhecidas do seu repertório, duas delas na língua Toba, um povo indígena da Argentina. Após o show, voltamos a conversar. Reproduzo trechos da entrevista publicada nos dois jornais, cujos exemplares arquivei.

La mano al índio

“Mercedes Sosa: Dale tu mano al índio” - essa foi a manchete de página do Porantim (Manaus, ano III, nº 19/20 junho/julho 1980), que puxava brasa pra nossa sardinha, citando Canción para mi América - cantada no show no Teatro Amazonas, de autoria do uruguaio Daniel Viglietti: “Dale tu mano al índio / dale que te hará bien / y encontrarás el camino / como ayer yo lo encontré“.

No entanto, Mercedes não caiu na armadilha de particularizar a luta: “Estou cantando para que se estenda a mão não apenas ao índio, mas ao homem da América Latina. Canto por todos os oprimidos, pelos índios, pelo trabalhador, pela mulher, pelo negro e por todos os marginalizados”. A cantora, desde o ‘Nuevo Cancionero’, nos anos 1960, sempre mostrou preocupação com a vida cotidiana dos humildes. Aliás, em sua boca, essas palavras deixavam de ser ‘chavão’ para adquirir força e boniteza de poesia.

Na entrevista, retomando o final da música: “La copla no tiene dueño / patrones no más mandar / la guitarra americana / peleando aprendió a cantar”, ela confirmou: “É isto. Foi lutando que a guitarra americana aprendeu a cantar. Sinto que o meu trabalho de artista cresce à medida em que me posiciono ao lado dos explorados”. Diante de nossa insistência com o movimento indígena, ela responde:

“Acho correto lutar pelo direito de cada povo expressar sua cultura. Contudo, devemos ter cuidado, isso não pode ser usado para a desunião dos povos da América. Sempre lutei pela unidade, primeiro da Argentina e, depois, da América Latina. O homem amazônico é meu irmão, sofre a mesma opressão que o homem da minha província de Tucumán. Os povos indígenas do Brasil devem aprender português, é uma forma de se defender.Devem aprender a somar, dividir, enfim, certas coisas necessárias à sua sobrevivência como povo numa sociedade como a que vivemos”.

En la mierda

O outro jornal alternativo que paparicou Mercedes Sosa foi A Lucta Social (Manaus, maio de 1980, Ano I, nº 4), com a seguinte manchete: Mercedes Sosa: com o PT e com os que vivem ‘en la mierda’. O texto de abertura também puxou a brasa para o nosso jaraqui: “Na entrevista, Mercedes se solidarizou com a greve dos metalúrgicos do ABC paulista e com o PT. Manifestou apoio à luta dos trabalhadores na Argentina e o compromisso que todo artista deve ter com os que vivem ‘en la mierda’”.

O jornal, envolvido pelo clima de greves de São Paulo, noticiou o show de forma panfletária: “O público vibrou quando ela interpretou ‘La Carta’ da chilena Violeta Parra. A letra registra a notícia do irmão preso por apoiar uma greve, e conclui: “Por suerte tengo guitarra / y también tengo mi voz / también tengo siete hermanos / fuera del que se engrilló / todos revolucionários / con el favor de mi Dios”.

Mercedes eximiu-se de discutir a situação interna do Brasil, mas por analogia acabou se manifestando, quando denunciou a repressão ao movimento operário na Argentina. Elogiou Chico Buarque e Milton Nascimento, “por causa do show que deram para arrecadar fundos para os grevistas do ABC”. E deu uma risadinha irônica, ao saber da afirmação de Paulo Maluf de que os salários dos metalúrgicos paulistas eram elevados. - “Mentiroso!” - ela disse.

Fizemos uma pergunta provocadora: - “Mercedes, um jornalista amazonense, malufista, criticou você por estar hospedada num hotel de luxo como o Tropical”. Ela rebateu: - “Isto é só um pretexto. Na verdade o que ele está criticando é o meu compromisso político, o que ele ataca são as propostas de transformação da sociedade. Nós, artistas, somos trabalhadores das artes, alguns bem pagos, sem que isso mude o nosso compromisso com as lutas populares por melhores condições de vida”.

- “Tristeza y penas en mi alma…Ay mi paloma, sin esperanzas!”. Às vezes, seu canto parece amargurado, como em Zamba del Regreso. Afinal, existe esperança?

- “Apesar de tudo, ou ‘apesar de você’, como canta Chico Buarque, há sempre esperança. Nos olhos dos jovens está a vontade de transformação. Vocês me disseram que consideram uma façanha lotar o Teatro Amazonas sem qualquer publicidade. Acontece que as pessoas estão acordando. A música, sozinha, nada transforma, mas pode contribuir no processo de despertar. Ontem, no show, eu disse que é preciso cantar canções que façam dormir as crianças e despertar os adultos”.

Três meses após a entrevista, num golpe de sorte, eu e Marilza Mello encontramos Mercedes Sosa em Paris, num jantar oferecido pelo pintor argentino Luis Felipe Noé, amigo do poeta Thiago de Mello. Mercedes lembrava com alegria e bom humor do dia em que cantou no Teatro Amazonas. Depois disso, La Negra continuou pelo mundo “andando y cantando que es mi modo de alumbrar”.

Agora a cantora de milongas, de chacareras, de zambas, de cuecas, de todos os ritmos americanos, “perdida en las cerraciones” nos deixou, quien sabe, vidita, por donde andará?”. Seus admiradores cantaram ‘luna tucumana´ na hora em que dela se despediram: “Ay lunita tucumana, tamborcito calchaqui. Más cuando salga la luna, cantaré, cantaré”.

“Su canción es simiente, es de barro y de cielo, es semilla y espiga, es futuro y recuerdo”. Talvez, por isso, algumas pessoas que lotaram o Teatro Amazonas há quase trinta anos, alumbradas por seu canto, possam entoar hoje as palavras que ela dedicou a Alfonsina: “Sabe Dios qué dolores viejos calló tu voz. Te vas, Alfonsina, con tu soledad; Qué poemas nuevos fuíste a buscar?”

No ‘zamba para no morir’, ela profetiza: “No me asusta la muerte ritual, sólo dormir, verme borrar. Una historia me recordará siempre. Veo el campo, el fruto, la miel, y estas ganas de amar. No me puede el olvido vencer”. Pedimos emprestados os versos de César Vallejo, poeta que ela amava, para dizer que as imagens de seu velório transmitidas pela tv mostraram que “su cadáver estaba lleno de mundo” .

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Blogs que citam este Post

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Trabalhadores resgatados de condições degradantes no centro de Porto Velho

Altino Machado às 6:01 pm

Oito trabalhadores na construção civil, mantidos em regime de trabalho análogo ao de escravo, foram resgatados no início da noite desta quinta-feira, 8, pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), numa ação conjunta com  a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Rondônia. A ação comandada pelo procurador Francisco José Pinheiro Cruz e o auditor do Trabalho, Bianor Salles Cochi.

Os trabalhadores foram contratados pela construtora Primavera em cidades de Rondônia (Rolim de Moura, Candeias do Jamari e Porto Velho) e do Amazonas (Humaitá), para  a reforma de um prédio público na capital rondoniense. Alguns foram alojados em condições degradantes numa residência na rua Almirante Barroso, na região central da cidade.

O local onde foram encontrados os trabalhadores, não oferece as mínimas condições de habitabilidade. Quartos e banheiro (sem privacidade) foram improvisados com tapumes de madeira compensada na sala e varanda, em precário estado de conservação.

As camas e colchões disponibilizados para os trabalhadores estão fora dos padrões das normas regulamentadoras; o ambiente é insalubre, com paredes mofadas; cômodos sem ventilação e claridade natural;  área de vivência de chão batido e cercado de lixo; nos dormitórios não há armários individuais para os trabalhadores, nem condições de higiene mínimas, entre outras irregularidades.

O alojamento foi interditado, os trabalhadores removidos para um hotel, com as despesas de hospedagem e alimentação a serem pagas pela construtora, durante o período necessário à rescisão indireta dos contratos, pagamento das verbas rescisórias e de indenização por dano moral individual, mais as despesas com o retorno às cidades de origem dos obreiros.

Perseguição

Ao acionarem o MPT, os trabalhadores disseram que vinham sendo perseguidos e maltratados pelos responsáveis da construtora para quem trabalhavam, sofrendo ameaças constantes. Por último, o empregador chamou a Policia Militar para prender um dos trabalhadores que, por não aceitar mais receber irrisórias quantias como adiantamento, resolveu pedir desligamento e reivindicar seus direitos trabalhistas.

Outro operário disse que em 40 dias de trabalho recebeu apenas R$ 40 reais do valor total de R$ 2 mil que combinou por sua mão-de-obra como pintor de parede. Além de não pagar os salários, o dono da construtora ordenou que fosse cortada a alimentação dos empregados que queriam seus direitos.

Fotos: Divulgação

Blogs que citam este Post

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Compra de bilhete da TAM pode ser alterada na web

Altino Machado às 2:36 pm

A pedido do Ministério Público Federal (MPF), a TAM Linhas Aéreas passou a oferecer serviços de reembolso e remarcação de passagens por meio do seu site. O MPF havia alertado a empresa sobre a necessidade de que mecanismos idênticos aos oferecidos para a compra fossem disponibilizados também para a alteração dos bilhetes.

A obrigatoriedade de equivalência de meios para a contratação e para cancelamento de serviços é determinada pelo Código de Defesa do Consumidor, informou à TAM o procurador da República Alan Rogério Mansur Silva, que atua no Pará. Em resposta encaminhada, a companhia aérea informou que o serviço foi instalado no início de setembro no site da empresa.

O tema passou a ser analisado pelo MPF em 2008, depois que a procuradoria da República em Belém recebeu reclamações de consumidores sobre o fato de algumas empresas só permitirem o cancelamento, remarcação e reemissão de passagens em suas lojas ou por meio de atendimento telefônico, mesmo quando o bilhete foi adquirido via internet.

- O cancelamento, remarcação e reemissão de bilhetes por outro canal de venda, diverso do contratado (no caso, da internet) se mostra excessivamente oneroso para o consumidor que contratou os serviços da companhia aérea pela rede mundial de computadores - observou Mansur Silva na recomendação encaminhada à TAM.

Blogs que citam este Post

Posts mais antigos »

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol