POR FERNANDO MELO
Acompanho pela imprensa o desenrolar da ação civil pública movida conjuntamente pelos Ministérios Públicos Federal e Estadual, com o objetivo de extinguir o uso do fogo no Acre, a partir de 2011.
A última movimentação pública sobre o tema resultou da audiência de justificação convocada pela Justiça Federal para conhecer as razões das partes envolvidas. Não saiu acordo. O Governo do Acre, prefeituras e representantes de órgãos ambientais rejeitaram as condições propostas.
Na seca de 2005, o chefe da Embrapa no Acre, pesquisador Judson Ferreira Valentim, lembrou, em artigo publicado no site da empresa, que o Estado tinha mais de 1,8 milhão de hectares de áreas desmatadas, dos quais, cerca de 740 mil, são de áreas bem aproveitadas. Nesse espaço tínhamos mais de 95 mil hectares de culturas anuais, a maioria com mandioca, cerca de 13 mil hectares com culturas perenes e 630 mil hectares de pastagens produtivas.
No entanto, Valentim alertava: mais de 1 milhão de hectares eram áreas de pastagens em degradação e áreas de capoeiras abandonadas, sujeitas às queimadas intencionais ou acidentais todos os anos. Sugeria que a recuperação e o uso intensivo destas áreas degradadas seriam as melhores alternativas para viabilizar a agricultura de subsistência dos pequenos produtores e a pecuária intensiva e sustentável, sem necessidade de desmatamentos e queimadas.
Quatro anos se passaram e arrisco dizer que atualmente já teríamos alcançado perto de 2 milhões naquelas condições. Durante meus estudos para entender a lógica da agricultura familiar, apresentei uma emenda parlamentar criando condições para que a unidade da Embrapa no Acre transfira aos agricultores familiares tecnologias desenvolvidas por seus pesquisadores de todo o Brasil. Aloquei R$ 5,8 milhões para esse projeto. Visamos construir dois centros de tecnologia para a cultura da mandioca e a aquisição de 200 microtratores.
Somente no Orçamento Geral da União para 2009, ajudei a colocar R$ 13 milhões para apoiar projetos de desenvolvimento do setor agropecuário.
Ação exemplar
Comparo essa ação civil pública movida pelos Ministérios Públicos Federal e Estadual com aquela que o MPF moveu e a Justiça Federal condenou o governo estadual a construir o Canal da Maternidade – depois denominado Parque da Maternidade.
Aquela condenação mudou Rio Branco e o sucesso da obra fortaleceu o governo da Frente Popular e garantiu a reeleição do Jorge Viana em seu segundo mandato.
Da mesma forma, penso que, numa eventual condenação, o Acre poderá mais uma vez se tornar referência positiva, alterando uma prática milenar ultrapassada e insustentável, a da utilização do fogo para promover a agricultura familiar, os nossos conhecidos “roçados”.
Sei que a Embrapa Amazônia Oriental vem, há algum tempo, construindo e organizando uma rede de pesquisas para o manejo de capoeira, como alternativa ao uso de fogo no campo. É um projeto com inovações tecnológicas, que se consolida na medida em que consegue parcerias.
Por isso, acredito que o uso dessas inovações e a ajuda dos governos federal, estadual e municipal, e dos órgãos ambientais, permitirão cumprir exatamente e dentro dos prazos tudo o que foi pedido na inteligente ação.
Nos meus estudos, constatei que em todo o Acre, até 2006, apenas 394 dos quase 30 mil estabelecimentos agropecuários contavam com tratores agrícolas em suas propriedades. São dados daquele ano, do censo agropecuário do IBGE.
Somente com esse número podemos justificar a necessidade do uso insustentável do fogo para se fazer agricultura no Acre. As ferramentas que utilizamos para trabalhar a terra são rudimentares e o trabalhador rural sofre muito com o trabalho pesado.
Políticas públicas fizeram surgir programas e projetos de diferentes órgãos do governo federal, estadual, dos municípios. Organizações não-governamentais obtêm êxito com experiências e projetos pilotos de alternativas aos sistemas de produção agropecuários que dependem dos desmatamentos e queimadas.
E os benefícios? Foi ainda o pesquisador Judson Valentim que admitiu, naquele inesquecível 2005, muito bem descrito em seu artigo, que são muito restritos. Porque os projetos têm alcançado de forma efetiva menos de 10% destes produtores. Convenhamos, o pesquisador tinha e tem razão ao dizer que, infelizmente, não existem soluções mágicas para desmatamentos e queimadas.
Segundo ele, para que esta situação não se repetisse nos próximos anos, seria ideal “aproveitar o incômodo da fumaça para refletir e, quando a fumaça passar, juntar esforços em um plano integrado para estabelecer e executar uma agenda positiva de ações proativas e preventivas para mudar de vez esta situação”.
Dispomos de tecnologia
Na situação dos pequenos, praticantes da agricultura de subsistência, a Embrapa considerou essencial estabelecer um programa agressivo de mecanização de três ha de áreas degradadas e o fornecimento de três toneladas de calcário e fertilizantes para a produção de alimentos, em troca da eliminação dos desmatamentos e queimadas. Isso evitaria a derrubada e a queima de uma média de 3 hectares de florestas e capoeiras, bem como a emissão na atmosfera de cerca de 500 mil quilos de carbono por produtor a cada ano.
Além disso, ele considerava, pequenos, médios e grandes pecuaristas poderiam criar um rebanho até três vezes maior apenas com o uso de tecnologias já disponíveis. Tudo isto permitiria reduzir significativamente as taxas de desmatamento e queimadas com benefícios econômicos sociais e ambientais para toda a população do Acre.
Temos essa tecnologia. São os microtratores, que poderão tirar o nosso homem do campo do passado e transportá-lo para o século XXI.
Façamos as contas. Na minha emenda para a Embrapa planejamos a aquisição de microtratores que trabalham em aéreas abertas e destocadas. Esse tipo de equipamento dá conta de limpar e remover a terra até três hectares por dia. Das 30 mil propriedades, cada uma deve ter no mínimo dois hectares. Precisamos de 60 mil hectares trabalhados.
Com a compra de mil microtratores teremos uma produtividade de três mil hectares/dia. Portanto, em apenas 20 dias obteríamos os 60 mil hectares de terra trabalhados. Cada trator custa em média R$ 30 mil, ou seja, para aquisição de 1.000 tratores, precisamos de R$ 30 milhões, em três anos.
Outra alternativa seria o incentivo aos produtores para o acesso aos créditos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), pelo qual poderiam adquirir os seus próprios equipamentos. Ao mesmo tempo em que o governo acreano poderia criar, a exemplo dos governos dos estados de São Paulo e do Paraná, programas voltados para o aumento do nível tecnológico na agricultura.
O restante, como bem explicou Valentim, viria a ser realidade por meio de sólidas parcerias entre os órgãos federais, estaduais, municipais e os produtores acreanos.
Faço minhas as palavras do pesquisador em 2005: “Não podemos permitir o que tem ocorrido nos anos anteriores. Com as primeiras chuvas a fumaça vai embora e o assunto dos desmatamentos, das queimadas e o incômodo da fumaça são esquecidos até que novos dados dos desmatamentos sejam divulgados ou quando a Amazônia começa a pegar fogo novamente”.
Viajo na próxima semana para o nordeste do Pará, onde a Embrapa Amazônia Oriental aplicou o programa da roça sem queima, uma espécie de fogo zero. E ele é aplicável no Acre, com respeito às instituições, ao ambiente digno e ao direito do homem de plantar, colher e ter qualidade de vida.
» O deputado Fernando Melo (PT-AC) é membro titular da Comissão da Amazônia e suplente na Comissão de Agricultura da Câmara.