Acreanos reagem ao gentílico “acriano” do Acordo Ortográfico
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde o dia 1º de janeiro, fez surgir no Acre um movimento de políticos e intelectuais em defesa do gentílico acreano para continuar designando quem nasce no Estado. A reação ao “acriano” como a única grafia correta para quem é natural do Acre, como sugere o Acordo Ortográfico, mexeu com o brio daqueles que se orgulham como os únicos que são brasileiros por opção.
Na verdade a nova questão do Acre ganhou contornos de movimento quando a deputada federal Perpétua Almeida (PC do B) percebeu a reação espontânea da população, vários artigos em jornais e blogs, e decidiu convocar intelectuais do Estado para enfrentamento do caráter restritivo do Acordo Ortográfico em relação Estado e sua história.
- Descobrimos que as contestações devem ser dirigidas para a Academia Brasileira de Letras, mas devidamente fundamentadas e com a salvaguarda de instituições afins, como a Universidade Federal do Acre, a Academia Acreana de Letras, a Assembléia Legislativa e os demais poderes. Acreano era uma variação assumida pela população desde o surgimento do Acre, mas agora o Acordo Ortográfico quer eliminá-la e não vamos aceitar - assinala a parlamentar.
Os documentos da história do Acre mostram que havia divergência quanto ao acreano e acriano, mas a primeira grafia acabou prevalecendo no processo histórico da conquista do Estado. O presidente da Assembléia Legislativa do Acre, deputado Edvaldo Magalhães (PC do B), já convenceu seus pares da Mesa Diretora a baixarem um ato para que gentílico seja preservado nos documentos oficiais.
- Tomaremos essa decisão amparados em pareceres da Academia Acreana de Letras e da Universidade Federal do Acre. É a nossa identidade social, histórica e cultural que está sendo ameaçada e não poderíamos aceitar isso passivamente. Nós não somos “acrianos” - afirma Magalhães.
Até o governador do Acre, Binho Marques (PT), aderiu ao movimento. Na semana passada, Marques deu ordens para que a estatal Agência de Notícias do Acre descartasse o “acriano” que fora adotado pelos redatores após o Acordo Ortográfico ter entrado em vigor no país.
O gramático e filólogo Evanildo Cavalcante Bechara, 81 anos, titular da cadeira nº 16 da Academia Brasileira de Filologia e da cadeira nº 33 da Academia Brasileira de Letras, em breve receberá uma comitiva de políticos e intelectuais acreanos que se sentem ofendidos quando tratados como acrianos.
- Eu vejo no movimento pela manutenção do acreano uma devoção ao nome. Os árabes dizem: dar nomes às coisas é sinal de possuí-las. Então eu vejo o movimento sentimental dos acreanos com alegria, porque eu vejo o respeito pela forma escrita. Como filólogo, repito, isso me causa muita alegria. Mas como técnico da língua, vejo em acreano com “e” um erro de história da língua. Quer dizer, nós estamos defendendo acreano em nome da história do Estado, mas contrariando a história da língua. Então o que há é a história da língua, que é universal, contra a história dos acreanos, que é digna de respeito e admiração, mas é muito pontual. Mas vamos ver - pondera.
Evanildo Bechara deu a seguinte entrevista ao Blog da Amazônia:
Professor, os acreanos terão que virar acrianos por causa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa?
Sim, é verdade, porque o acordo, já aprovado, manda. No Acre são dois problemas: do ponto de vista lingüístico e do ponto de vista histórico. Do ponto de vista histórico, vocês estão com a razão de defender acreano, com “e”. Do ponto de vista lingüístico, a formação da palavra tem que ser acriano, com “i”, como é camoniano, açoriano. Compreendeu? De modo que o acreano com “e” é uma exceção a um fato de língua. Então, do ponto de vista de língua, tem que ser acriano mesmo. O acordo diz: “Escrevem-se com i, e não com e, antes da sílaba tónica/tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos de i pertencente ao tema: horaciano, italiano, duriense, flaviense, etc.): açoriano, acriano (de Acre), camoniano, goisiano (relativo a Damião de Góis), siniense (de Sines), sofocliano, torriano, torriense [de Torre(s)]“. A palavra acriano aparece rigorosamente assinalada.
A Academia Brasileira de Letras ficou com a incumbência de avaliar casos como esse, portanto…:
Veja bem: à altura em que nós estamos, com a implementação iminente do acordo, tenho a impressão que ainda prematuro a pessoa fazer qualquer movimento nesse sentido.
Qual movimento?
O movimento de continuar a escrever acreano com “e”.
O que acontece se a população do Acre continuar se declarando acreana, com “e”?
Não acontece nada. Apenas ela não está obedecendo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, isto é, a uma decisão democrática de sete países falantes de língua portuguesa e que tem ao lado de acreano… Os acreanos vão ficar apenas diferençados dos açorianos, das pessoas que escrevem camoniano.
O senhor queira me desculpar por insistir: o que acontece se a população decide não cumprir o acordo?
A rigor não acontece nada. Apenas os alunos que fizerem concursos para as instituições oficiais, se o professor não aceitar o apelo popular e ficar na estrita decisão oficial, os alunos serão penalizados com uma falta ortográfica. E ainda mais, o que é mais grave, porque não sabem escrever o nome da sua cidade ou região. É como antigamente a palavra Brasil, não é? A palavra Brasil, por influência inglesa, era escrita com “z”. Ainda no início de nossa Academia, ela era uma “Academia Brazileira”, com “z”. O nosso Rui Barbosa sempre escreveu o nome dele com “y”, mas acontece que a Fundação Casa de Rui Barbosa, instalada na casa onde ele morava, a fundação escreve Rui Barbosa, com “i”, de acordo com a decisão ortográfica de 1943. Todo mundo tem o direito de escrever como imagina, como quer. Há muita gente que ainda escreve filosofia e fósforo com “ph” etc. É um direito que lhe cabe. Ao lado desse direito pessoal existe um compromisso social e a ortografia é um compromisso social.
Mas se a população do Acre se identifica nesse compromisso social, histórico e cultural com a tradição do “e” em acreano, talvez porque isso remeta ao “e” de Acre, não tem como isso ser considerado?
Defender acreano porque termina por “e” é um erro de história da língua. Veja bem: em acreano esse “e” não faz parte do radical. Então esse “e” desaparece. Por exemplo: Camões. Também tem um “e” no fim, mas quando se faz o adjetivo camoniano, esse “e” tem que ser passado pra “i”. É o que acontece com Açores, que também tem “e”. Mas quando se faz um derivado, ele passará a açoriano, com “i”.
Tudo bem, professor, mas os filólogos, antes do atual acordo, já sugeriam as opções acreano ou acriano, porém a população do Acre jamais tolerou o acriano com “I”.
Sim, claro, como muita gente não aderiu à mudança do horário brasileiro de verão. Isso é perfeitamente possível, mas o que vai acontecer é que os acreanos não vão saber escrever lingüista e filologicamente o seu nome, como antigamente não sabíamos escrever Brasil com “s” e sim Brazil com “z”. Portanto é uma opção do pessoal, dos habitantes, dos filhos, do Acre.
É uma opção?
Sim, é uma opção deles. É uma opção que está sujeita, por exemplo, numa prova de um aluno, ao professor dizer: “Você não saber escrever o nome do seu próprio estado?”. A pessoa pode passar por esse dissabor.
O presidente da Assembléia Legislativa do Acre, deputado Edvaldo Magalhães, pediu um parecer da Academia Acreana de Letras e da Universidade Federal do Acre porque está disposto a baixar um ato da mesa diretora mantendo como oficial o uso do acreano com “e”. A decisão poderá influenciar o Executivo e o Judiciário. Como o senhor interpreta essa atitude?
Eu interpreto como uma boa vontade de atender aos seus eleitores, mas cometendo um erro de ciência lingüística. Então a pessoa fica na opção entre cometer um erro por amor à forma e demonstrar um desconhecimento de um fato de língua. É como o poeta que acha que lágrima devia ser escrito com “y” porque o “y” lembra o rolar da lágrima pela face.
Existe alguma relação desse caso acreano com aquele dos baianos, exigiram que o nome da Bahia fosse mantido com “h”?
Existe, claro. Ali havia uma razão, mas não era de ordem sentimental como é o caso do Acre, de acreano. Escrever acriano ou acreano não causa nenhuma oposição como havia entre Bahia e baia. A pessoa que estava escrevendo isso, naturalmente sob a influência de Pedro Calmon, que era da Comissão de Ortografia da Academia. Os reformadores, signatários do acordo, ficaram sensibilizados a isso. Realmente havia aquela trota de opor Bahia a baia. Essa razão de ordem até política não existe no caso de Acre e e “acri”. Vamos supor, se Acre estivesse nas mesmas condições e trabalhasse as mesmas razões pelas quais os baianos trabalharam a palavra Bahia com “h”… O senhor vê que baiano já não tem mais o “h”. Isso foi exclusivamente para o caso de Bahia por causa da brincadeira com baia. Em acreano o senhor não tem um fundamento para dizer… É como Cavalcante e Cavalcanti, no Nordeste, com “e” e com “i”. Os que escrevem Cavalcanti com “i” dizem que os Cavalcante com “e” são ladrões de cavalo. Então quem tem Cavalcanti com “ti” procura escrever Cavalvante com “te”. A minha família, por exemplo, é to Cavalcanti, mas a pessoa que me registrou me registrou com “te” - Cavalcante. Então eu fui incluído no grupo de ladrões de cavalo. Saí, não, fui incluído porque todos os meus antecedentes escrevem Cavalcanti e eu sou escrito com “e”.
Agora que o senhor falou em cavalo, me veio novamente a questão da origem do Acre. Não é mesmo possível a Academia Brasileira de Letras fazer concessão a esse povo que quer ser acreano e não acriano, mas que é brasileiro por opção?
Por opção e sofrimento. Todos nós estamos sofrendo a crise, uma educação deficiente, uma saúde praticamente inexistente. Todos nós passamos por isso. Eu respeito muito o ponto de vista dos acreanos. Respeito sentimentalmente. Isso para mim, como filólogo, é um motivo de muita alegria. Eu vejo no movimento de vocês pela manutenção do acreano uma devoção ao nome. Os árabes dizem: dar nomes às coisas é sinal de possuí-las. Então eu vejo o movimento sentimental dos acreanos com alegria, porque eu vejo o respeito pela forma escrita. Como filólogo, repito, isso me causa muita alegria. Mas como técnico da língua, vejo em acreano com “e” um erro de história da língua. Quer dizer, nós estamos defendendo acreano em nome da história da cidade, mas contrariando a história da língua. Então é uma história da língua, que é universal, contra a história dos acreanos, que é digna de respeito e admiração, mas é muito pontual. Mas vamos ver. É como os portugueses, lá em Portugal, que são contra o acordo porque eles se dizem os donos da língua. Nós somos apenas condôminos da língua. Mas a verdade é que o destino da língua portuguesa hoje está mais no Brasil do que em Portugal.
O movimento que se formou no Acre em defesa da manutenção do acreano envolve políticos e intelectuais. Ele agendou uma reunião na Academia Brasileira de Letras e certamente vai encontrá-lo para tratar da questão, não?
Pois é, veja você em que me meteram. Mas eu terei muito prazer em receber os acreanos porque eu sou pernambucano. Não sou carioca, não. E mais: não fui eu que fiz o acordo. Esse acordo já estava feito em 1986, depois o texto foi revisto, em 1990. E eu só entrei para a Academia 10 anos depois. Nós temos um grande professor de português, Adriano da Gama Kury, que é natural do Acre. Apesar de já ter passado dos 80, está em plena forma e é um excelente colega. O irmão dele, Mário da Gama Kury, é um dos nossos melhores conhecedores de língua clássica - grego e latim. Ambos são grandes professores de língua portuguesa com vários livros publicados. Adriano está rigorosamente contra o acordo, por causa do “y” e do “k”.
Então os irmãos Gama Kury, ambos acreanos, são capazes de aderir ao movimento que se forma no Acre contra o acriano do acordo.
Não, acho que não, por causa dos compromissos científicos deles que são muito fortes. Mas é um caso a pensar.
REAÇÃO ACREANA
“Não direi que sou nem admitirei ser tratado como “acriano”. A língua portuguesa é minha. Eu faço dela o que bem entender. Para escrever errado, basta o que já sei… Todo mundo sabe que isso é golpe da indústria do livro, qualquer um é capaz de imaginar o tamanho da bolada que o governo vai gastar, nos próximos anos, republicando todo o material didático, do primeiro ano à universidade. Uma mina de ouro. Necessidade mesmo, não existe. Ninguém deixa de entender um romance do Saramago por alguma palavra grafada sem hífen, subumano ou coisa semelhante, assim como não é preciso traduzir Guimarães Rosa para que os portugueses o entendam e apreciem. Eu havia decidido ignorar essa reforma idiota. Como escritor, não necessito dela: uso meu idioma, aquele que aprendi de meu povo e que vou aperfeiçoando e adaptando às minhas preferências. É um lindo idioma, com origens diversas: no português antigo, no nheengatu, nas influências de diversas imigrações, nos sucessivos colonialismos culturais, na criativa reação popular, na antropofagia dos modernos, na contribuição regional de panos e aruaks… o que faltar, vou inventando (…) Nasci no Acre, vou morrer acreano.” (Antonio Alves, jornalista e escritor)
“Acreano diz respeito a uma naturalidade. Quem nasce no Estado do Acre é acreano. Há também os acreanos por opção. E é assim há muito tempo, o que envolve toda uma História, uma bela e respeitável História. Há tradição e sentimento. Há cultura e laço social. A grafia acreano não é assim como um sujeitinho que se muda ao vento que vem de longe, nem é como um predicado que pode variar, como se fosse um apelido. Ser acreano não é algo que se adjetiva ou diminui por acordos, regras ou tratados. Acreano não é uma palavra para ser vista pelas vogais que a compõem, átonas ou não, mas por todo o conjunto que personifica uma boa gente. Ser acreano é algo único, é aptidão revolucionária, é a caracterização de um povo, e isto não é mutante. Ser acreano é perene! (…) Ora, o emprego é determinado pela história da palavra e pela etimologia! Além deste efetivo amparo à manutenção da palavra acreano, no Acordo há vários exemplos de exceções às regras e há também vários deles em que se permite a grafia alternativa, em relação a palavras ou a acentos. Na Base VIII se possibilita grafar bidé ou bidê, croché ou crochê, dentre outras formas. Na Base IV, é possível manter ou suprimir o g em amígdala, por exemplo. Na Base II, pela etimologia se mantém o h em herbáceo, mas pela consagração do uso ele permanece suprimido em erva. E para não ficar muito longa a menção à regra, digo, por fim, que a Base III aborda a diferença no emprego de homofonia, regulado pela história das palavras e que o item 3º da Base I aponta que os vocábulos autorizados registrarão grafias alternativas admissíveis. Então, nenhuma rigidez é imutável na regra ortográfica, como também não é na vida. E a língua é personificada na vida das pessoas, pelo uso, pela significação, pelo contexto histórico e pela tradição, como ocorre com a palavra acreano. (José Augusto Fontes, escritor e juiz de direito)
“De qualquer forma, quem elabora a evolução, quem faz a língua, contrariando, às vezes, a forma proposta pelos gramáticos e filólogos, é o falante. E este, no caso específico, ainda não decidiu nada. Percebo que começam, agora, a avistar, pela primeira vez, o adjetivo gentílico “acriano”. Algumas pessoas até se assustam e pensam tratar-se de erro crasso, uma gralha condenável. Assim, embora os gramáticos e dicionaristas tradicionais como “Aurélio” e “Houaiss” tragam acriano como ‘a melhor forma’, não se pode perder de vista que o uso faz a forma. E desde que o Acre é Acre sempre se escreveu acreano (…) Tenho 61 anos e nunca vi outra grafia aqui em nossa terra. (Luísa Galvão Lessa, doutora em língua portuguesa)
Crédito da foto: Arquivo ABL/ Richam Samir

Dom Quixotes da Política
É inteiramente louvável e digno de reconhecimento o esforço do deputado Edvaldo Magalhães (presidente da Aleac) e da deputada federal Perpétua Almeida que, em atenção ao “clamor popular” contra o uso do adjetivo “acriano”, mobilizaram tantas estruturas de poder e representação a fim de derrubar mais essa arbitrariedade cometida contra os acreanos, em sua relação simbólica com a língua e com o qualificativo de procedência, tão importante para a identidade sociocultural de um povo.
O que admira, entretanto, é que as mesmas estruturas de poder e importantes lugares de representação não tenham sido acionados quando aconteceu uma agressão e arbitrariedade ainda maior contra o povo acreano: a mudança artificial do nosso horário para atender a demandas da Rede Globo e, evidentemente, beneficiar, na forma de publicidade, o senador acreano que encabeçou tal projeto. Nem é necessário lembrar que nesta agressão, a da mudança do horário, a violência não é apenas simbólica e cultural, por interferir inclusive em nossa relação com a natureza; trata-se, sobretudo, de uma agressão com implicações bastante materiais e concretas, que afetaram (negativamente) o cotidiano de pais, mães, crianças, professores, trabalhadores …, obrigados a saírem de casa com tempo ainda escuro para cumprirem suas respectivas obrigações. Também não é preciso lembrar que, de forma similar, neste caso registrou-se clamor popular até maior, não só amplificado pela mídia, por intelectuais ou políticos, mas nos espaços da rua, dos bairros, das escolas, das empresas, das lojas, dos lares etc. Apesar disso, não se viu manifestação alguma ou providências tão prontamente encaminhadas por parte desses setores que agora se levantam contra o “acrianos”.
Tais contradições, não tão difíceis de perceber, chamam atenção para algumas cositas:
1° - É muito fácil (e portanto digno de pouco mérito) empreender acirrada batalha contra algo cujo agente social ou político não está claramente identificado. O Congresso? A Academia Brasileira de Letras? O Acordo Ortográfico? Até aqui temos agentes genéricos e, portanto, nenhum! No caso da mudança de horário os agentes ficaram muito bem demarcados e identificados, o que até facilitaria ações mais pontuais por parte de representantes que comprassem a briga em nome do estranhamento causado ao “homem comum”.
2° - Como decorrência desse primeiro aspecto, fica claro até onde nossos “representantes legais” estão dispostos a ir em nome do interesse geral. Ou seja, quando há interesses fortes e bem demarcados a questão muda de figura. Sem falar que é sempre bom ter a seu favor a simpatia da matrona Rede Globo (Amazônica), o que sempre traz a possibilidade de se reverter em visibilidade e publicidade, apostando, evidentemente, na pouca memória da população (apesar de neste caso o organismo físico não colaborar muito no processo de esquecimento, sobretudo os intestinos, como bem disse alguém num texto publicado no site do Altino).
3° - Ao que esse caminho trilhado até aqui parece indicar, o comportamento de “nossos representantes” revela-se oportunista em ambos os casos. No caso do adjetivo, por querer ganhar crédito e visibilidade numa “acirrada” disputa contra ninguém. Muito provavelmente a ABL vai liberar sem crises a continuidade do uso de “acreanos”, ninguém vai perder nada com isso mesmo. Vamos só manter a fama de briguentos, “diferentes” e de um povo cujo processo de incorporação nacional ainda não é completamente resolvido (e não devemos encarar isso como algo ruim). E no segundo caso, o do horário, nosso “defensores” revelam-se oportunistas por não quererem ou não ousarem se desgastar confrontando os interesses de um cacique político local, articulados ao de uma grande emissora de TV, sem falar nos ganhos em termos de visibilidade, como já mencionado. Ou seja, não fazem nada que não traga algum proveito próprio.
Comentário por Eduardo — quarta-feira, 25 de março de 2009 @ 11:25 am
Apoio essa iniciativa dos nossos irmãos acreanos de manter o gentílico dessa forma. É legítima essa reivindicação desses brasileiros por opção. Nada de acriano. ACREANO, SIM E PONTO FINAL.
Comentário por JULIO TERROSO — quarta-feira, 25 de março de 2009 @ 12:39 pm
Tá sobrando tempo demais pra esse povo !
A quem interessa as coisas do Acre ?
Comentário por paulo carvalho — quarta-feira, 25 de março de 2009 @ 12:40 pm
Na realidade essa nova lei ortografica foi feita para que a população compre mais dicionarios e assim as editoras e outras empresas possam lucrar.
Comentário por Nicacio — quarta-feira, 25 de março de 2009 @ 12:45 pm
Brasil, terra de tolos! Não podemos criar animais silvestres brasileiros em cativeiro, mas podemos importar, manter e criar animais alienígenas de outros países… Somos uma pátria de tolos: protegemos o que é dos outros e destruímos o que é nosso. Agora, destruímos a riquíssima língua brasileira: será que todos que grafarão “acriano” também utilizarão “cú” ao invés de “bunda” ? Alas!
Comentário por Francisco Antonio Salerno Neto — quarta-feira, 25 de março de 2009 @ 12:52 pm
cri, cri… cantou o grilo…
Comentário por Enfado — quarta-feira, 25 de março de 2009 @ 3:22 pm
Só uma observação sobre o comentário da Drª Lessa: quem decide a língua nos parametros formais de modelo a ser usado nas escolas e nos concursos é a classe dominante e não povo. Seria bom se a Língua Escrita fosse fiel a variante popular. Sei que primeiramente surgiu a Língua Falada e posterior a Língua Escrita que veio para tentar reproduzir uma perpectiva linguística, isto é, da nobresa do clero e por último, da burguesia. Ainda temos que fazer acontecer a variante popular ser modelo a ser seguido.
Nilton Brito de Amorim
Comentário por Nilton — quarta-feira, 25 de março de 2009 @ 7:37 pm
Há questões muito mais interessantes do que essa a serem discutidas pelos políticos acrianos (ou acreanos, como queiram); pena, no entanto, que eles não querem enxergar. Afinal, seus salários continuarão os mesmos…
Comentário por Tiago — quinta-feira, 26 de março de 2009 @ 2:41 am
sr. paulo carvalho, seu comentário é pouco adequado. a muitos, e não só aos acreanos, interessam as coisas do acre. belo estado, com uma adorável capital, uma bela história desconhecido por pessoas como o senhor.
devemos respeitar nossos patrícios, nossos irmãos de nação, seja lá onde estiverem. esse país é mais vasto do que o senhor imagina.
Comentário por antonio — quinta-feira, 26 de março de 2009 @ 9:59 am
O ACRE NÃO EXISTE…
O ACRE NON ECXISTE.. ;d
=p
ISSO É FATO!!
HAHAHAHA
Comentário por JOÃO PAULO — domingo, 29 de março de 2009 @ 8:22 pm
Apenas tirando onda com o ilústríssimo, mas “acreano” vai ser sempre escrito com “e”. E “acriano” vai ser escrito com “i”…
;^)
Comentário por pablo — quarta-feira, 1 de abril de 2009 @ 10:02 am
Se o tema não envolvesse assunto tão sério, eu diria que Bechara ficou gaga ou estava tirando onda da nossa cara.
Não sou acreano, mas sempre aprendi acreano nas escolas em Porto Velho. E hoje como escritor e palestrante residindo em Curitiba vou continuar escrevendo “acreano”.
O ponto no qual Bechara se apega para defender o indigesto “acriano” pode muito bem ser usado contra ele. Se a questão é manter a história da língua que tal voltarmos a escrever “phosphoro”, “pharmacia”, “archaico”, “estylo”, “facto”, etc. Afinal, o que conta é a história da língua.
Vai entender esta tal Academia Brasileire de Letras e seus “imortais”!
[:D]
Comentário por Denilso de Lima — terça-feira, 14 de abril de 2009 @ 9:33 pm
Sobre a polêmica dessa imposição para se escrever “acriano” e não mais “ACREANO”, tenho lido artigos importantes da Profa.Dra. Luisa Galvão Lessa, no Jornal A Gazeta (Acre), onde o assunto é bem fundamentado. Diz ela: “Este gentílico não é um invento de ocasião, um fato de palavra, mas um fato de linguagem que faz parte da cultura, da tradição regional, da alma do povo”.
Comentário por Aldemir Silva Martins — domingo, 3 de maio de 2009 @ 10:42 pm
Continuando…
Mais adiante, escreve: “Assim, no caso do gentílico acreano — impregnado da cultura e da tradição regional – nasceu do topônimo Acre. E, como diz Dick (1990), ele integra um processo pleno de motivação a partir do qual é possível deduzir conexões entre o nome e a área geográfico-social por ele designada, entre o nome e a tradição, entre o nome e a história, entre o nome e os costumes.
Então, essa imposição que faz o Acordo Ortográfico, contraria todo o ensinamento de que “os homens fazem as línguas e não a língua os homens”, como disse Fernão de Oliveira, em 1536. Justo será manter as duas variantes, como sempre existiu: a histórica e a lingüística”.
Afirma que o Acordo Ortográfico não se sustenta, pois está repleto de concessões, aqui e ali, para atender Portugal e Brasil. “o Acordo está repleto de concessões ou exceções, palavras com acento agudo ou circunflexo, palavras com consoantes mudas, enfim, muitas quebras de unidade entre o cânone europeu e o brasileiro”.
Então, gente, é o seguinte: vamos escrever, sempre, ACREANO< assim fez a nossa história. Assim é o uso, a tradição, os costumes. Isso tudo é cultura e a língua traduz, exatamente, a cultura. Parabéns, Doutora Lessa, pela voz sensata, sábia.
Comentário por Aldemir Silva Martins — domingo, 3 de maio de 2009 @ 10:44 pm
O Aldemir Silva falou bem, mostra ter sentimento pela terra acreana. Também tenho lido os artigos da Dra. Luisa Galvão Lessa. Ela arrebenta, sustenta aquilo que diz porque sabe. Olhem só a pasagem abaixo, que ela escreveu na Gazeta (Acre)
“nenhuma rigidez é imutável na regra ortográfica, como também não é na vida. E a língua é personificada na vida das pessoas, pelo uso, pela significação, pelo contexto histórico e pela tradição. E, dessa forma, uma inovação pode ser rejeitada (por alguns, pelo menos) se parecer não-funcional ou eventualmente menos elegante que uma forma/sentido já existente, bem ao gosto da comunidade, enraizada entre seus membros, que tenha ganhado a força da tradição.”
É isso, aí, está explicadinho, somos ACREANOS!
Comentário por Alda Letícia Sena — domingo, 3 de maio de 2009 @ 11:14 pm
acreano (acriano) – Pelo Acordo Ortográfico de 1990, hoje em vigor, deve-se passar a escrever apenas acriano e abandonar a tradicional grafia acreano. Em favor de acreano / acriano podemos aduzir os seguintes argumentos:
a) em casos análogos, a própria versão oficial e atualizada do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP 2009) faz concessões e dá exemplos de duplo registro de grafias. Haja vista as palavras bajeense (pela norma) e bageense (usual), de Bagé RS; rodeense (pela teoria) e rodeiense (sei de ciência própria que 100% dos moradores de Rodeio Bonito RS dizem assim); esteense (teoria) e esteiense (uso), de Esteio RS. É de ressaltar que os dicionários Novo Aurélio e Aulete (internet) só registravam as formas amplamente usuais rodeiense e esteiense, bem como acreano e acriano.
b) além desses vocábulos, constam no VOLP 2009 três casos bastante similares a acreano / acriano: o primeiro diz respeito a lajiano (forma teórica) e lajeano (forma usual; omite lageano, tido como o gentílico de Lages SC); o segundo caso é aquiliano / aquileano, referentes a Aquiles, ambas as formas constando no VOLP; o terceiro registro é booliano (pela norma do Acordo) e booleano (usual), vocábulos de emprego raríssimo quando comparados a acreano. CONCLUSÃO: por que o VOLP arrola lajeano, aquileano e booleano, e por que não acreano, termo tradicional e de muito maior uso?
b) é ponto pacífico em linguística que o uso soberano precede as normas, e a prática é anterior à gramática. Já Horácio dizia que o uso é o critério ou arbítrio, o direito e a norma do falar (em latim: usus arbitrium est et jus et norma loquendi). No caso de acreano, o Acordo Ortográfico de 1990 deixou para trás o uso soberano, legislando apenas em favor da teoria, provavelmente a fim de unificar as formas terminadas em eano / iano para certas ocorrências. Se o signo e a linguagem são uma convenção dos falantes, a forma acreano dá de dez a zero em acriano, representando esta última apenas uma convenção entre legisladores, embora bem intencionada. Pode-se afirmar que acreano representa o uso de talvez 99% dos usuários do termo: é a prática superando a gramática, é a revolta dos fatos contra os códigos, a história e a tradição vivas convivendo com uma inovação.
CONCLUSÃO: bem haja o brio e a reação da população, políticos e inteletuais do Acre em defesa do gentílico acreano para continuar designando quem nasce no Estado. Certamente, pelos exemplos inseridos no VOLP em casos similares, a dupla grafia acreano e acriano é perfeitamente aceitável e até necessária, deixando a escolha para o falante. Apoiamos o movimento histórico e patriótico dos acreanos, que com certeza farão um apelo para a Academia Brasileira de Letras manter oficialmente válida a forma acreano e incluí-la num adendo ou na próxima edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
Rosalino Alberto Marangon - ex-professor de Português no Rio Grande do Sul.
Comentário por Rosalino Alberto Marangon — segunda-feira, 31 de agosto de 2009 @ 3:22 pm
Ninguém gosta do Acordo Ortográfico, mas essa de unificar tudo é importante. E no final de tudo, “acriano” só é feio, mas nem faz tanta diferença assim grafar “acreano” ou “acriano”. No sotaque acaba saindo “acriano” msm… É só questão de costume, gente. Depois que estiver em todos os jornais, revistas, livros, dicionários e equipamentos multimídia, logo pega…
Comentário por Wellington — segunda-feira, 2 de maio de 2011 @ 1:11 am