Terra Magazine

agosto 29, 2008

Science destaca os geoglifos do Acre

Altino Machado às 2:28 pm

EVANDRO FERREIRA

Em artigo assinado pelo escritor Charles Mann, autor do livro “1491 - Novas Revelações das Américas antes de Colombo”, a revista Science desta semana destaca os geoglifos descobertos no Acre pelo pesquisador Alceu Ranzi, em 1977, quando ainda era estudante de geografia. Segundo a revista, depois de descobertos, os geoglifos só foram formalmente reconhecidos pelo Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica da Amazônia, com o apoio do museu americano Smithsonian, de Washignton, mais de uma década depois.

Com formato de círculos, diamantes, hexágonos e retângulos, os geoglifos medem entre 100-350 metros de diâmetro, delimitados externamente por trincheiras com 1-7 m de profundidade. Muitos deles são acessíveis por largas avenidas de terra, algumas delas com 50 m de largura e até um quilômetro de comprimento.

- Os geoglifos são tão importantes como as linhas de Nazca - afirma Alceu Ranzi, se referindo às famosas e misteriosas figuras desenhadas em pedras na costa peruana. Alceu diz que, embora os geoglifos já sejam conhecidos há mais de 20 anos, “até agora ninguem sabe qualquer coisa sobre eles”.

» Mais textos e fotos no site Geoglifos do Acre

Hoje, Alceu Ranzi, Denise Schaan (Universidade Federal do Pará) e pesquisadores da Finlândia lideram um grupo de pesquisadores que está identificando os geoglifos. Até o momento, mais de 150 deles já foram identificados no Acre e nos estados vizinhos do Amazonas e Rondônia.

O pesquisador finlandes Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinki, acredita que só foram encontrados menos de 10% dos geoglificos que devem existir. Durante a realização da reportagem que resultou na matéria de Science, um sobrevôo revelou mais dois deles. Datação feita com carbono sugere que estas estruturas são relativamente recentes, a mais antiga delas de 1.250 anos atrás.

A razão de sua construção, entretanto, ainda permanece incerta. Mas do pouco que se conhece, a pesquisadora Denise Schaan afirma que é dificil inserir os geoglifos no que se pensava da Amazônia no passado. Sempre se pensou que o oeste da Amazônia, com solos pobres e desprovida de fontes de proteinas, impedira o desenvolvimento de grandes e sofisticadas socieades.

Sempre se pensou que os grupos nativos, que se aventuraram em viver nesta região, estavam concentrados em volta de vales de rios inundáveis periodicamente (várzeas), que têm solos de melhor qualidade. Nas demais áreas, que inclui as regiões de terra firme e cabeceiras dos rios, que incluem praticamente todo o oeste da Amazônia, se achava que eram quase vazias da presença humana.

Apesar disso, nos últimos 20 anos arqueologistas, geógrafos, estudantes de solos, geneticistas, e ecólogos têm acumulado evidências de que o oeste da Amazônia era habitado há centenas de anos por uma população regional de tamanho razoável e organizada, tanto nas áreas de várzeas como de terra firme.

Os geoglifos, a mais recente descoberta que apóia esta teoria, parecem ocupar uma extensão de aproximadamente 1000 quilômetros desde o Acre e Rondônia, até os departamentos de Beni e Pando, na Bolivia.

Os pesquisadores ainda estão tentando entender como e se estas estruturas são relacionadas e o que podem revelar sobre as pessoas que as criaram. Clark Erickson, da Universidade da Pennsylvania, afirma que, longe de cairem nas armadilhas dos obst’culos ecológicos representados pela Amazônia, estes habitantes pioneiros transformavam sistematicamente o ambiente em volta deles. Um exemplo: ele acredita que os geoglifos dificilmente poderiam ser construídos em áreas de florestas, portanto, foram feitos quando a região tinha uma cobertura florestal de menor porte.

A reportagem sugere que as descobertas recentes na região indicam que estes habitantes do oeste da Amazônia não apenas alteraram seu ambiente, mas também a biota. As envidências sugerem que foi nesta região pouco conhecida que estes agricultores primitivos desenvolveram alguns dos cultivos mais importantes da atualidade. Entre as espécies citadas: pimenta de cheiro (Capsicum baccatum e C. pubescens), tabaco, cacau, pupunha e a mais importante delas, a mandioca.

- As evidências mostram que a região era uma encruzilhada entre as sociedades do leste dos Andes e as que viviam nas montanhas. Esta sugestão é apoiada pelo fato de todos os grupos linguísticos das terras baixas da América do Sul estarem representadas lá - afirma Susanna Hecht, geografa da University da Califórnia

Para finalizar: o antropologista boliviano Guillermo Rioja afirma:

- O que quer que tenham construído, estas sociedades foram completamente esquecidas. E faz apenas 400 anos que estas sociedades desapareceram. Por que ninguem aqui sabe qualquer coisa sobre elas? Elas estavam vivendo aqui por tanto tempo e ninguém sabe quem eram!

Segundo Mann, uma razão para a falta de atenção por parte dos pesquisadores, no ponto de vista do pesquisador boliviano, é o fato de que os arqueólogos sempre focaram as sociedades andinas do Peru e da Bolívia, com suas grande ruínas de pedras.

- A idéia é que as tribos nas terras mais baixas viviam como animais na selva. E quando você afirma que essas pessoas eram grandes e importantes civilizações no oeste da Amazônia, eles não acreditam. Mas é verdade.

»»» Evandro Ferreira é botânico, pesquisador do Inpa e do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre

Blogs que citam este Post

2 Comentários »

  1. Altino: nao conecia o blog. Fiquei fã. Excelente a matéria sobre os geoglifos. Ano passado visitei Nazca e Palpa (que pouca gente conhece). Tem muita coisa para se descobrir sobre esse tema. Parabéns, forte abraço. Nelson

    Caro Nelson, volte sempre. Abraço.

    Comentário por Nelson — setembro 6, 2008 @ 12:32 pm

  2. Bastante interresente esta materia, porém nos brasileiros temos que ser melhor iformados sobre nosso patrimonio( antropologico, ambiental, etc.)

    Comentário por Elias Novaes — setembro 15, 2008 @ 12:14 pm

Feed RSS para os comentários do post. Link de TrackBack

Deixe seu comentário

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol