Botânico encontra no Acre formação vegetal ainda desconhecida pela ciência
Florestas do leste do Estado estão classificadas de forma equivocada no Zoneamento Ecológico-Econômico, afirma Evandro Ferreira

Com certa freqüencia a ciência dá provas de que conhece pouco a Amazônia. Na semana passada, após 15 dias de trabalho numa Avaliação Ecológica Rápida (AER), no Parque Estadual Chandless, no Acre, o botânico Evandro Ferreira emergiu com duas importantes contribuições para o conhecimento e proteção das florestas da região.
A primeira delas é uma constatação: as florestas do leste do Acre estão classificadas de forma equivocada no ZEE (Zoneamento Ecológico-Econômico) do Estado. Parte delas se comportam como florestas sub-caducifólicas, ou seja, onde grande número de árvores perdem completamente as folhas no período mais seco do ano.
A segunda é quase um enigma: a AER no Chandless, coordenada pela Fundação SOS Amazônia, para fornecer informações para a elaboração do plano de manejo do parque, que está sob a responsabilidade da Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Acre, revelou uma formação vegetal ainda desconhecida para a ciência.
Vistas do alto, as clareiras que surgem no leste do Acre, na fronteira com o Peru, mais parecem áreas de florestas que sofreram queimadas. Estão situadas numa das regiões mais remotas da Amazônia. Ao investigá-las, os pesquisadores descobriram que não foram abertas pelo homem, embora os poucos moradores que existem na região denominem as áreas como “queimadas”.
- A maior “queimada” já identificada tem mais de 5 hectares. Apesar de relativamente pequenas, o aceso às mesmas é muito difícil. Na borda ocorre uma vegetação arbustiva densa, com muitos cipós e seu interior só é acessível com barco, pois não se sabe a profundidade da lâmina de água no local. Não sabemos que tipo de animais e plantas existe nestas formações, nem sabemos as razões delas terem aparecido. Vale comentar, ainda, que provavelmente todas as queimadas são incluídas nas estatísticas de desmatamento do Inpe. É óbvio que isso é um equívoco - relata Evandro Ferreira em entrevista exclusiva ao Blog da Amazônia.
Acreano, nascido em Rio Branco, pesquisador do Inpa e do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre, Evandro Ferreira tem mestrado em Botânica no Lehman College, e Ph.D. em Botânica Sistemática pela City University of New York & The New York Botanical Garden (NYBG).
Ele conduz o conceituado blog Ambiente Acreano, onde aborda ciência, tecnologia, política e meio ambiente. Leia a entrevista a seguir:
Qual é a classificação da floresta do Acre?
De acordo com o Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre, o ZEE, no Estado existem duas grandes Regiões Fitoecológicas - o Domínio da Floresta Ombrófila Densa (FOD) e o Domínio da Floresta Ombrófila Aberta (FOA), de acordo com a classificação proposta pelo Projeto Radambrasil. Em outras palavras: temos as florestas abertas e as florestas densas.
Por que a floresta acreana terá que ser reclassificada?
Ocorre que na região leste, incluindo uma ampla área ao longo da fronteira com o Peru, da cabeceira do Rio Acre até a região de Santa Rosa do Purus, foi observado que mais de 50% das árvores de grande porte da floresta, com mais de 20 metros de altura, perdem as folhas durante o período de estiagem ou seca, que se estende entre abril e setembro. Elas apresentam comportamento caducifólio, isto é, perdem as folhas, no período mais seco do ano.
Este comportamento está relacionado com o que?
Este comportamento está diretamente relacionado à estiagem severa que ocorre na região. Como conseqüência, o dossel da floresta se abre e permite a passagem de uma quantidade exagerada de luz, que atinge o solo da floresta, causando um provável aumento da temperatura no interior da floresta. Nessa condição, o vento também penetra mais facilmente nas partes mais baixas da floresta, carreando a umidade, e causando o dessecamento relativamente rápido da liteira (folhas, cascas e outras partes vegetais que caem ao solo), que se acumula com a queda das folhas das árvores do dossel da floresta.

No que isso ajuda aos cientistas?
Este comportamento das florestas do leste do Acre ajuda a explicar o perigo de incêndios florestais espontâneos que o Dr. Foster Brown tem propagandeado em artigos e entrevistas. Durante a grande seca de 2005 foi a própria floresta que acumulou liteira em quantidade tal que favoreceu, juntamente com a seca, a ocorrência de incêndios florestais de grande monta como os observados na Reserva Extrativista Chico Mendes.
Qual pode ter sido o impacto disso naquele trágico 2005?
Vale ressaltar que os incêndios florestais de então e a seca exagerada que provocou a morte de muitas árvores e arbustos, possam ter contribuído para uma diminuição na densidade de árvores de grande porte nas florestas do leste do Acre. Essas ainda são impressões sem provas catogóricas. Por isso que o Foster Brown tem alertado sistematicamente que essas florestas são verdadeiras bombas prontas para queimar de forma ainda mais dramática em caso de seca similar à de 2005.
A expedição constatou algo que agrava essa percepção?
Veja que é na região leste, considerando o Rio Purus como marco divisório, que ocorre a maior parte das Florestas Abertas do Acre, seja com sub-bosque dominado por bambu ou palmeiras. Um fato concreto já foi constatado: quando a floresta apresenta bambu como elemento dominante do sub-bosque, a densidade de árvores com mais de 10 centímetros de diâmetro por hectare de mata é de pouco mais de 350 indivíduos. Quando o bambu está ausente, a densidade sobe para quase 600 indivíduos. Considerando que o bambu tem como característica biológica a mortandade de grandes populações, é de se supor que uma área considerável de floresta da região leste do Acre é vulnerável a incêndios florestais.
E o que acontece quando o bambu morre?
A morte do bambu provoca o aumento da insolação que atinge o chão da floresta, provocando a dessecação do solo e afetando indiretamente, especialmente, as grandes árvores, que, sob stress hídrico, tendem a perder folhas como forma de proteção contra a falta de água. Por isso podemos afirmar com grande possibilidade de certeza que a floresta do leste do Acre, especialmente nas cercanias da fronteira com o Peru, é diferente. Não pode simplesmente ser classificada como Floresta Ombrófila Densa, como está no ZEE.
E qual classificação caberia a essa floresta?
Segundo o Manual Técnico da Vegetação Brasileira, do IBGE, que é referência e a obra mais respeitada sobre o assunto, as florestas do leste do Acre se encaixam na classificação Floresta Estacional Semidecidual ou, numa denominação mais antiga, em Floresta Tropical Subcaducifólia. Veja que a palavra “semidecidual” se refere ao fato de que um grande número de árvores, o dossel da floresta, se comporta como espécies caducifólias, ou seja, que perdem totalmente as folhas durante o período mais seco do ano. A palavra “estacional” se refere ao fato de que estas florestas se localizam em regiões onde o período seco mais acentuado pode durar entre quatro e seis meses, o que vem a ser o caso do leste do Acre. O ZEE não cita em nenhum momento a ocorrência destas florestas sub-caducifólias no leste do Acre.
Isso pode parecer irrelevante, mas qual conseqüência prática um equívoco desses pode gerar?
Todos nós sempre pensávamos que as florestas acreanas não poderiam pegar fogo espontaneamente porque eram florestas perenifólias, como é a maioria das florestas ombrófilas (amigas das chuvas) ou florestas tropicais. Sempre se pensou as florestas acreanas como úmidas o suficiente para não permitir a entrada de fogo. Agora estamos vendo que isso não é verdade. Essa ‘desinformação’ involuntária é que causou o espanto dos acreanos ao ver, em 2005, as florestas nativas em chamas
A avaliação ecológica do Parque Estadual Chandless revelou uma formação vegetal desconhecida (foto acima) para a ciência. Como é aquilo que você chama de “queimadas” no meio da floresta? São naturais?
Sim. Do alto pareciam apenas clareiras abertas em lugares absolutamente isolados, longe de assentamentos humanos. Decidimos investigar e descobrimos que os poucos moradores da região chamam estas clareiras de “queimadas” e que não foram abertas pelo homem. Surgiram naturalmente. Ao visitar algumas delas constatamos se tratar de uma espécie de igapó, com a diferença que não existe vegetação de grande porte em seu interior. Teoricamente poderia ser chamado de “banhado”, uma formação que ocorre nos pampas gaúchos, com estrutura vegetacional similar. A maior “queimada” já identificada tem mais de 5 hectares. Apesar de relativamente pequenas, o aceso às mesmas é muito difícil. Na borda ocorre uma vegetação arbustiva densa, com muitos cipós e seu interior só é acessível com barco, pois não se sabe a profundidade da lâmina de água no local. Não sabemos que tipo de animais e plantas existe nestas formações, nem sabemos as razões delas terem aparecido. Vale comentar, ainda, que provavelmente todas as “queimadas” são incluídas nas estatísticas de desmatamento do Inpe. É óbvio que isso é um equívoco.
Realmente ainda conhecemos muito pouco a floresta?
O fato de termos encontrado estas formações vegetais desconhecidas naquela região do Acre só denota o quanto ainda temos que investir para conhecer nossas florestas e seus recursos. É na região leste do Acre que o desmatamento é mais acentuado. A descoberta mostra ainda o lado positivo da criação de unidades de conservação. Elas são uma garantia de que os pesquisadores terão condições de estudar com relativa calma e com a profundidade necessária tudo de desconhecido que ainda resida na floresta.
Nos outros anos, no começo de agosto, no Acre, o céu já estava totalmente tomado por fumaça. Neste ano foi diferente. Isso tem a ver com as proibições de desmate e queimadas impostas pelo Ministério Público?
Pelo menos, no caso do Acre, tudo indica que sim. Veja que depois da grande seca de 2005, quando o fogo ficou fora de controle no Acre, providências concretas para evitar desastres similares foram tomadas. Pessoas foram capacitadas a combater incêndios florestais, brigadas de combate a incêndios foram criadas em quase todos os municípios. Desde então, o Governo do Estado tem implementado um programa consistente de combate ao desmatamento e às queimadas ilegais. Bem ou mal, estas ações e programas estão sendo tocados e isso não existia antes de 2005. Hoje, a repressão e a ameaça de multas estão presentes. Fica faltando investir na educação ambiental da população. Mas acho que houve uma mudança de postura por parte dos produtores a partir de 2005. Antes se queimava sem escrúpulos e quando o fogo saía de controle os prejudicados não reclamavam dos prejuízos. Hoje os produtores estão alertas para os desastres que o fogo fora de controle pode causar, pois sabem que os vizinhos que vierem a ser prejudicados irão bater nas portas da justiça em busca de reparação. E terão o apoio do Ministério Público. As queimadas e incêndios florestais de 2005 foram um desastre social e econômico, mas parece que tiveram um efeito profundo na mente e na forma de agir dos nossos produtores.
Parabéns pelo blog, Altino!
Comentário por Paula — agosto 25, 2008 @ 3:37 pm
Parabéns pelo seu trabalho! Seu blog é um dos meus canais para estar atualizado a respeito do Acre.
Comentário por Paulo Moreira — agosto 26, 2008 @ 7:49 pm
O botanico tem d eanfatizar que a escla do ZEE, tambem, eh um atenuante para que essas areas nao tenham aparecido no relatorio e nos mapas do zoneamento.
Sou facvoravel que todos os estados e municipios que ja possuam o ZEe procurem alterantivas de melhorar o nivel de detalhes do mesmo, para que possamos visualizar as diferentes feicoes, nao so da vegetacao, mas, tambem, da geomorfologia, dos solos, do relevo e outros.
Obrigado
Comentário por Cosme — agosto 28, 2008 @ 1:50 pm