“A população tem que pressionar e exigir”
No mês passado, o procurador da República Anselmo Cordeiro, 27, protagonizou um feito inédito do Ministério Público Federal (MPF) no Acre: acompanhado de fiscais do Ibama e agentes da Polícia Federal, comandou uma operação destinada a conscientizar fazendeiros e trabalhadores rurais no interior do Acre sobre os riscos e as conseqüências legais decorrentes de queimadas na região.
Ele visitou propriedades na estrada AC-90 e na BR-317, nos municípios de Capixaba, Brasiléia, Epitaciolândia e Assis Brasil, bem como na BR-364, no trecho entre Bujari, Sena Madureira e Manuel Urbano. Foi bem recebido por todos, mas deu o recado de que está disposto a enfrentar com rigor os responsáveis por queimadas de pastagens e florestas no Acre durante a estação seca da Amazônia, que ocorre de junho a setembro.
Cordeiro nasceu em Ribeirão Preto (SP), formou-se em direito pela Universidade de São Paulo e ingressou no MPF há um ano. Ao prestar concurso público, escolheu o Acre para trabalhar. Antes disso, exerceu cargo de procurador da Fazenda Nacional, em Brasília.
O Procurador Regional dos Direitos do Cidadão surpreende pela sua juventude diante de tão alto posto do poder público e, principalmente, pelo compromisso demonstrado desde que chegou ao Estado. Teve atuação destacada, por exemplo, na recente proibição de desmate e queima no Acre no período de 70 dias.
Leia a entrevista:
Recentemente, em atitude inédita do Ministério Público no Acre, o senhor percorreu várias regiões do Estado advertindo produtores rurais sobre a queima de florestas e pastagens. O que o senhor observou?
O interessante foi chegar perto do povo e ver qual o perfil das pessoas que estão em condições ou não de queimar. Pude observar que muitas vezes não é só uma questão de cultura do uso do fogo, de uma falsa crença de que não existiria outro método, mas, também, uma crença de que isso é normal, uma ausência de criminalidade da conduta. Embora a operação envolvesse órgãos públicos de persecução criminal, deu para perceber que as pessoas tinham satisfação de estar nos recebendo. As pessoas têm muito a sensação de ausência do estado. Quando elas vêem que existe autoridade indo até elas pessoalmente, para explicá-las que o uso do fogo é proibido e qual o risco dessa conduta, de certa forma se sentem prestigiadas. Essa receptividade para mim foi surpreendente, pois imaginei que não houvesse.
Durante o anúncio da proibição do uso do fogo, o senhor disse que caminhamos para abolir essa prática em definitivo na Amazônia. Por que?
Estou convencido. Qualquer cientista sério nos fala sobre as mudanças climáticas, que é uma questão planetária, mas representa uma ameaça especial à floresta. O clima da floresta tende a mudar e isso tende a mudar a própria vegetação, com ou sem causa dos agentes locais. O professor Foster Brown costuma falar da importância de uma árvore nesta região, para proteger o solo e as nascentes de água. O uso do fogo é bastante perigoso e, o que é pior, combinado com uma situação climática, pode ter conseqüências muito graves. Antes havia o entendimento de que o fogo não conseguiria invadir a floresta. Isso pode ser válido para o passado, mas vai chegar o dia em que o fogo vai penetrar na floresta e as conseqüências podem ser danosas. Nós não temos condições de saber quando isso vai acontecer, pois sou um aplicador do direito, mas posso me valer do princípio da precaução, que é um princípio da nossa ordem jurídica. Então, existindo o risco, e esse risco é real, temos que tentar evitá-lo. Além disso, não está em jogo apenas o bem ambiental em si. Nós temos que tentar proteger também o patrimônio e a vida das pessoas. Existe um risco e a cada ano esse risco é maior, pois rios como o Acre estarão mais secos. Se existe a mudança climática e a floresta está em perigo, o futuro vai demandar instrumentos tecnológicos para substituir totalmente o uso do fogo, seja para uso agrícola ou pastoril.
Ao proibir desmatamento e queima, além do cancelamento das autorizações que foram emitidas, não estão sendo sacrificados os pequenos produtores que dependem do uso do fogo?
Nós precisamos mobilizar a sociedade, mostrar para o grande e o pequeno agricultor, que essa alternativa do fogo precisa ser excluída. Nós não podemos ficar postergando anos após anos. Permitindo isso, estaremos sendo irresponsáveis com a vida, com a saúde das pessoas. Nós estamos, juntamente com o Ministério Público Estadual, tentando identificar a política pública que o Estado necessita para fins de aproveitamento do solo alternativo ao fogo, isto é, aquilo que o Estado demanda e aquilo que, de fato, está sendo feito. Todas as pessoas que visitamos mencionaram a necessidade de maior apoio tecnológico e de qualificação do poder público para poder deixar de lado o uso do fogo. Eles pediram isso e assim se deu um compromisso nosso para com eles. Lógico que isso demanda política pública e política pública não faz você judicializar isso. Sabemos que é uma medida que precisa ser construída. Nós vamos trabalhar em defesa da maximização das políticas públicas existentes, para que os pequenos possam ter condições de aproveitar o solo já degradado sem o auxílio do fogo. Enquanto isso, não podemos deixar que as pessoas permaneçam na inércia, com aquela velha alegação de que é impossível o uso do solo sem o uso do fogo. Produtores devem exigir do poder público a política que merecem. Deve partir da população a pressão para que o poder público preste essas políticas que resultem no fim do uso do fogo. Inversamente, existem muitas facilidades.
O senhor acredita que essa percepção é crescente na sociedade?
O produtor até agora tem duas alternativas: ou ele usa ou não usa o fogo. E se ele não usa, vai forçar o poder público a prestar aquilo que lhe é de direito: mecanização, alternativas sócio-econômicas, extensão rural. Essa é uma questão que o Estado precisa assumir. A população tem que pressionar e exigir do poder público tudo isso. A pressão popular tem mais força que a pressão de um procurador ou de um promotor de justiça. A questão é: se queremos abandonar o uso do fogo, temos que partir para essas políticas públicas. Isso só acontecerá se houver pressão da população.
Além da proibição do uso do fogo, quais outras questões demandam atuação do Ministério Público Federal no Acre?
Sem pormenorizar numa lista, creio que as questões ambientais e da saúde indígena demandam uma participação efetiva do Ministério Público Federal em toda a região Norte.
Boa Tarde!
Fiquei muito feliz em ler esta matéria e deixo meus parabéns ao procurador da República Anselmo Cordeiro. Continue sempre assim e fique com Deus.
Comentário por joice — agosto 11, 2008 @ 1:01 pm
Esse é o verdadeiro Brasileiro tinha que aparecer mais com essa disposição, quem sabe se o caminha era mais facil. Brarabens.
Comentário por Carlos Saldanha — agosto 11, 2008 @ 1:57 pm
Finalmente um homem de coragem !!!!!!!
Valeu pela iniciativa.
Comentário por Enrique Graziano — agosto 11, 2008 @ 2:00 pm
graças a ( DEUS )
Foi escolhido para o acre o jovem brilhante e preocupado com as florestas Brasileiras. Incorruptivel, difrente dos anteriores que, passaram pelo cargo. Agora sim, o Brasil vai dar certo, com jovens procuradores honestos e preocupados.
O Mundo espirítual, está muito feliz com o jovem procurador do acre. Este ira ter seu nome escrito, no livro da vida.
Beijos ( Rio de Janeiro)
OBS: FOI, e melhor, noticia que eu li, nos ultimos 20 anos.
Comentário por João Batista Martins — agosto 11, 2008 @ 2:04 pm
Precisamos de profissionais competentes como Dr. Anselmo para um mundo melhor.
Nossa geração e principalmente as futuras agradecem.
Comentário por kika — agosto 11, 2008 @ 2:52 pm
Só dá para acreditar no futuro do Brasil se mentes brilhantes com atitudes de coragem como do Dr. Anselmo tomarem conta das áreas de decisão do país.
Por favor, Dr. Anselmo, prepare-se para o exercício de cargo eletivo executivo; o Brasil precisa urgentemente disso! Mostre para os seus colegas jovens que eles também têm que enfrentar, com coragem e determinação, o “ranso” atualmente existente nos poderes da República. Uma mudança de mentalidade é a única salvação para este maravilhoso país.
Meus parabéns! Continue neste rumo que é o certo, sem dúvida alguma!
Comentário por Bernardo — agosto 11, 2008 @ 3:31 pm
Meu parabéns ao procurador da República Anselmo Cordeiro, que além da relevante ação ambiental ainda demonstra uma preocupação em conscientizar a população de que é fundamental a cobrança popular para que as ações públicas se façam obrigatórias. A conscientização popular talvez torne, a longo prazo, desnecessária a sanção legal.
Comentário por Eduardo — agosto 11, 2008 @ 3:37 pm
Rick, parabéns pelo incrível trabalho realizado no Acre!!!
Comentário por Patrícia — agosto 11, 2008 @ 9:28 pm
Profissional brilhante, cidadão consciente, um exemplo de competência e honestidade a ser seguido!!!!
Sucesso, Rick!!!!
Comentário por Soraya — agosto 13, 2008 @ 12:31 pm
Antes de ler essa matéria, estava lendo outra sobre um projeto de lei que surrupia alguns hequitares da serra da canastra. Fiquei revoltada. Quando li a matéria que mostra uma atitude tão acertada e consciente, fiquei digamos assim, esperançosa. E acredito que é de jovens assim que estamos precisando em nossa política e no nosso judiciário. Acredito que para as mudanças acontecerem realmente neste país temos que mudar as bases: os “cidadãos” que não desempenham mais sua funções como deveriam. Parabéns ao jovem procurador da República. E que deus lhe proteja.
Comentário por Leticia Pinheiro — novembro 18, 2008 @ 10:04 am
Essa política de mecanização não é tão simples assim. Primeiro, porque quem é fazendeiro, e tenho muitos amigos e conhecidos que são, sabem que as despesas com isso não são nem de longe pequenas. Segundo, o Estado promete uma quantia significante pra esse tipo de investimento, mas na prática não aplica nem um décimo direito da quantia designada, o que faz que seja insuficiente os recursos para cumprir a demanda.
Digo e repito: sou a favor de uma política que evite o fogo, mas isso é algo que deveria ter sido feito desde que a prática começou a se tornar recorrente no estado, isso há cerca de 30 anos atrás. Agora, com as coisas como estão, o governo que arque com as consequencias de não ter tido esse cuidado antes, em vez de tratar os que trabalham com isso como criminosos, multando a torto e a direito, fazendo um enriquecimento ilícito do estado.
Agora, offtopic: esse Anselmo já é Procurador da República aos 27 anos! Tenho a mesma idade e ainda sou apenas assessor do MP! Raios!!!
Esse cara como como? Usando um livro como prato?!? Eu hem!!!
Comentário por Roberto — maio 6, 2009 @ 12:17 pm
Corrigindo:
Esse cara come como? Usando um livro como prato?!? Eu hem!!!
Comentário por Roberto — maio 6, 2009 @ 12:50 pm
Com certeza mais um golpe do governinho da esquerda festiva… Nesta região o óleo diesel custa cerca de R$ 3,00 o litro, mecanizar como????? O governo vai financiar? E se for, com os juros praticados torna-se inviável…. Obrigando o produtor a fazer isto a arrecadação vai aumentar e eles podem comprar mais votos com as famosas bolsas. Acordem para a verdadeira intenção!!!! Acorde o sr. também, as pessoas te trataram bem por medo das multas abusivas que vcs aplicam, creia-me, não foi por respeito não!!!!
Comentário por FernandoZ — maio 7, 2009 @ 8:47 am