Terra Magazine

agosto 29, 2008

Science destaca os geoglifos do Acre

Altino Machado às 2:28 pm

EVANDRO FERREIRA

Em artigo assinado pelo escritor Charles Mann, autor do livro “1491 - Novas Revelações das Américas antes de Colombo”, a revista Science desta semana destaca os geoglifos descobertos no Acre pelo pesquisador Alceu Ranzi, em 1977, quando ainda era estudante de geografia. Segundo a revista, depois de descobertos, os geoglifos só foram formalmente reconhecidos pelo Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica da Amazônia, com o apoio do museu americano Smithsonian, de Washignton, mais de uma década depois.

Com formato de círculos, diamantes, hexágonos e retângulos, os geoglifos medem entre 100-350 metros de diâmetro, delimitados externamente por trincheiras com 1-7 m de profundidade. Muitos deles são acessíveis por largas avenidas de terra, algumas delas com 50 m de largura e até um quilômetro de comprimento.

- Os geoglifos são tão importantes como as linhas de Nazca - afirma Alceu Ranzi, se referindo às famosas e misteriosas figuras desenhadas em pedras na costa peruana. Alceu diz que, embora os geoglifos já sejam conhecidos há mais de 20 anos, “até agora ninguem sabe qualquer coisa sobre eles”.

» Mais textos e fotos no site Geoglifos do Acre

Hoje, Alceu Ranzi, Denise Schaan (Universidade Federal do Pará) e pesquisadores da Finlândia lideram um grupo de pesquisadores que está identificando os geoglifos. Até o momento, mais de 150 deles já foram identificados no Acre e nos estados vizinhos do Amazonas e Rondônia.

O pesquisador finlandes Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinki, acredita que só foram encontrados menos de 10% dos geoglificos que devem existir. Durante a realização da reportagem que resultou na matéria de Science, um sobrevôo revelou mais dois deles. Datação feita com carbono sugere que estas estruturas são relativamente recentes, a mais antiga delas de 1.250 anos atrás.

A razão de sua construção, entretanto, ainda permanece incerta. Mas do pouco que se conhece, a pesquisadora Denise Schaan afirma que é dificil inserir os geoglifos no que se pensava da Amazônia no passado. Sempre se pensou que o oeste da Amazônia, com solos pobres e desprovida de fontes de proteinas, impedira o desenvolvimento de grandes e sofisticadas socieades.

Sempre se pensou que os grupos nativos, que se aventuraram em viver nesta região, estavam concentrados em volta de vales de rios inundáveis periodicamente (várzeas), que têm solos de melhor qualidade. Nas demais áreas, que inclui as regiões de terra firme e cabeceiras dos rios, que incluem praticamente todo o oeste da Amazônia, se achava que eram quase vazias da presença humana.

Apesar disso, nos últimos 20 anos arqueologistas, geógrafos, estudantes de solos, geneticistas, e ecólogos têm acumulado evidências de que o oeste da Amazônia era habitado há centenas de anos por uma população regional de tamanho razoável e organizada, tanto nas áreas de várzeas como de terra firme.

Os geoglifos, a mais recente descoberta que apóia esta teoria, parecem ocupar uma extensão de aproximadamente 1000 quilômetros desde o Acre e Rondônia, até os departamentos de Beni e Pando, na Bolivia.

Os pesquisadores ainda estão tentando entender como e se estas estruturas são relacionadas e o que podem revelar sobre as pessoas que as criaram. Clark Erickson, da Universidade da Pennsylvania, afirma que, longe de cairem nas armadilhas dos obst’culos ecológicos representados pela Amazônia, estes habitantes pioneiros transformavam sistematicamente o ambiente em volta deles. Um exemplo: ele acredita que os geoglifos dificilmente poderiam ser construídos em áreas de florestas, portanto, foram feitos quando a região tinha uma cobertura florestal de menor porte.

A reportagem sugere que as descobertas recentes na região indicam que estes habitantes do oeste da Amazônia não apenas alteraram seu ambiente, mas também a biota. As envidências sugerem que foi nesta região pouco conhecida que estes agricultores primitivos desenvolveram alguns dos cultivos mais importantes da atualidade. Entre as espécies citadas: pimenta de cheiro (Capsicum baccatum e C. pubescens), tabaco, cacau, pupunha e a mais importante delas, a mandioca.

- As evidências mostram que a região era uma encruzilhada entre as sociedades do leste dos Andes e as que viviam nas montanhas. Esta sugestão é apoiada pelo fato de todos os grupos linguísticos das terras baixas da América do Sul estarem representadas lá - afirma Susanna Hecht, geografa da University da Califórnia

Para finalizar: o antropologista boliviano Guillermo Rioja afirma:

- O que quer que tenham construído, estas sociedades foram completamente esquecidas. E faz apenas 400 anos que estas sociedades desapareceram. Por que ninguem aqui sabe qualquer coisa sobre elas? Elas estavam vivendo aqui por tanto tempo e ninguém sabe quem eram!

Segundo Mann, uma razão para a falta de atenção por parte dos pesquisadores, no ponto de vista do pesquisador boliviano, é o fato de que os arqueólogos sempre focaram as sociedades andinas do Peru e da Bolívia, com suas grande ruínas de pedras.

- A idéia é que as tribos nas terras mais baixas viviam como animais na selva. E quando você afirma que essas pessoas eram grandes e importantes civilizações no oeste da Amazônia, eles não acreditam. Mas é verdade.

»»» Evandro Ferreira é botânico, pesquisador do Inpa e do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre

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agosto 28, 2008

“Na Amazônia só não tem baiano”, diz o ex-líder dos garimpeiros da região

Altino Machado às 11:21 am

José Altino Machado, 66, ganhou fama internacional ao liderar, nos anos 80, a legião de 40 mil garimpeiros que invadiu as terras dos índios ianomami em Roraima. Também já foi acusado de usar propriedades e aviões particulares, bens acumulados na mineração, para ajudar fazendeiros e madeireiros a invadirem a Terra do Meio, no Pará.

O ex-presidente da União dos Garimpeiros da Amazônia, tantas vezes acusado de genocídio contra os ianomami, vive em Governador Valadares (MG), onde nasceu, e se dedica a criar gado tabapoã e a produzir milho.

Mas o fazendeiro não deixa de acompanhar e de dar pitaco sobre o que se passa na Amazônia, como ontem, quando o Supremo Tribunal Federal começou a julgar a ação contra a demarcação da Raposa Serra do Sol, que colocou em pé de guerra índios e agricultores de Roraima.

- O julgamento no STF significa a vitória da falta de cultura e da falta de verdade histórica. Antes de mexer em qualquer questão indígena, a sociedade brasileira deveria decidir o que os índios serão para o Brasil. Eles formarão uma nação, eles serão nacionais? Eles terão deveres ou não pertencerão ao país? Essas questões precisam ser solucionadas antes - disse Altino Machado em entrevista ao Blog da Amazônia.

Como líder dos garimperios, Machado era tão ou mais radical que Paulo César Quartiero, o líder dos arrozeiros de Roraima. Mas o que é a Amazônia para esse mineiro que começou a aventura em busca de ouro quando tinha apenas 25 anos de idade e que se tornou num dos personagens mais controversos da história recente da ocupação da região?

- Na Amazônia só não tem baiano, que é uma outra raça brasileira. A Amazônia é uma região de pessoas para lá de excepcionais. Ela suga de todas as regiões as pessoas mais rebeldes do sistema social brasileiro, que não aceitam a mendicância, o comando ditatorial de governos. Para a Amazônia se vai pela alma para enfrentar outra fronteira de vida. Na Amazônia, a gente é avaliado pelo que a gente é e não pelo que a gente tem. Essa é a grande diferença da Amazônia em relação ao resto do mundo. Lá só tem quem trabalha, lá só tem quem sabe, quem faz. É por isso que a Amazônia não acomoda baiano.

Leia a entrevista com o xará do blogueiro:

Como o senhor acompanhou o voto do relator, no STF, em manter a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e pela retirada dos arrozeiros?
O julgamento no STF significa a vitoria da falta de cultura e da falta de verdade histórica. Antes de mexer em qualquer questão indígena, a sociedade brasileira deveria decidir o que os índios serão para o Brasil. Eles formarão uma nação, eles serão nacionais? Eles terão deveres ou não pertencerão ao país? Essas questões precisam ser solucionadas antes. Quanto ao voto do relator, tem gente que não nasceu para estar no Supremo Tribunal Federal. É a impressão que aquele ministro passa com um voto político.

Mas os direitos indígenas não estão expressos na Constituição?

Não. Nem as terras são deles. Elas pertencem à União. As comunidades indígenas e seus defensores que me desculpem, mas os índios são uma reles utopia. Eles pregam que devem permanecer com uma cultura, como estão, porém quando um comeu uma branca civilizada, do nosso meio, na forma cultural como os caiapó fazem sexo, foi condenado à cadeia como estuprador. Fizeram isso só para que todo mundo veja que se pode condenar, pois ninguém foi buscá-lo para cumprir a pena. Dos índios ou para eles, tudo o que temos elaborado é em relação ao que eles tem direito. Jamais o que eles significam e são em relação à União nacional. Nunca procuramos dar-lhes autonomia total e definida ou então, por outro lado, providenciamos carteira de identidade para todos. Aí ficaria bem mais fácil terem seus direitos assegurados, sem esbulho. O pior de tudo é que, aculturados, ficarão sem ter o que fazer ou angariar subsistência com isso.

Como o senhor viu o ex-ministro Francisco Rezek, advogado dos arrozeiros, criticando duramente os garimpeiros que ocuparam Roraima nos 80 e 90?
Rezek é o exemplo clássico do academicismo que existe no Brasil, cuja maioria tem medo do povo. E o que estava lá em Roraima, naqueles anos, era o povo. Ele tem todas as razões do mundo para não se dar bem com a gente. Ele não estava preparado para ser chanceler, como não estava preparado para ser ministro do Supremo Tribunal Federal, quando deu uma vitória a Fernando Collor contra o apresentador Sílvio Santos. Ali ele recebeu como prêmio o posto de chanceler do Brasil. Mas não fez nada quando um avião civil foi derrubado pela Colômbia e seus ocupantes, garimpeiros brasileiros, foram assassinados.

A situação em Roraima pode ter impacto em outras regiões da Amazônia?
Lá é mais grave. Ali está acontecendo o começo da africanização do Brasil. Estão misturando duas etnias antagônicas, que não se toleram.  A lei pode reconhecer direito original, mas não pode conceder direito original. Em que pese os direitos originais defendidos pelo jurista Dalmo Dalari, os macuxi não têm direitos originais porque nem são índios brasileiros. Eles migraram da costa do Caribe quando foram perseguidos pela colonização espanhola. Os macuxi foram responsáveis pelo maior genocídio de índios contra índios no Brasil. Quase dizimaram os wapixana. E a questão continua: metade quer a divisão da Raposa Serra do Sol e outra metade não quer. Essa rivalidade vai permanecer. Eles, entre si, têm mais rivalidade do que para com o branco. O que ninguém mostra na imprensa é que a Consolata, missão religiosa católica, possui 35 mil reses. Eles nunca esconderam isso, mas ninguém publica. O que está acontecendo já é uma disputa econômica. Da mesma forma que os índios querem mogno mais abaixo, na Amazônia, lá em Roraima querem minas de diamantes. As áreas deles agora têm que ir até onde tem garimpo, onde tem pasto mais verde e diamante.

Eles não têm direito de explorar esses recursos?
Acho que têm, sim. Por isso é que eu acho que, antes de qualquer coisa, é preciso definir o que os índios são para evitar que sejam tomados bens de outros. Para evitar que sejam atropelados os direitos dos outros, precisamos definir quem eles são. Após isso, se define o que deve ser devolvido, o que se entrega a eles, o que os transforma em responsáveis.

E o projeto para exploração mineral em áreas indígenas?
Esse projeto que tramita no Congresso Nacional é uma bobagem, falácia. Ninguém fará contrato com quem não tem obrigação nenhuma em cumpri-lo. Índio é inimputável. É o único povo da terra que carrega o seu direito em trânsito. Para onde eles se movimentam, para onde ele vão, a área se torna deles. Precisamos de leis que digam onde o branco não pode estar nas áreas deles, onde nós não podemos adentrar. Do contrário, nenhuma lei ou autoridade pode obrigá-los a ficar dentro de suas áreas. Foi o caso dos ianomami, que são apenas 7 mil e nunca ocuparam uma área daquele tamanho. Aquilo não existe. Com a chegada do garimpo, a área implodiu porque os índios acorreram, por uma questão de subsistência, para os postos onde estavam os garimpeiros. Isso fazia com se espalhassem de forma mais extensa na área. Então onde não existia índio passou a existir e a área foi sendo ampliada. Boa parte dos macuxi foi trazida das Guianas para o Brasil pela Consolata nos anos 70. Quando a Polícia Federal enyrou no caso foi dito em defesa deles que índio não tem pátria. Então a gente fica sem saber o tamanho dessa coisa.

Como o senhor avalia a política ambiental sob o comando do ministro Carlos Minc?

Eu acho a Marina Silva um doce de pessoa. Quanto ao Carlos Minc, conheci esse rapaz no Rio de Janeiro há muitos anos. Ele tem um currículo bom e imaginava que fosse corresponder ao histórico de resistência contra a ditadura etc. Mas vejo que a magia da cadeira do poder mexeu com a cabeça dele. Esperava-se que ele apresentasse um projeto de como as coisas devem funcionar e não de paralisação. Ele já chegou falando em guarda ambiental, isto é, ele copiou Fernando Collor: um orgasmo a cada continência de um general de quatro estrelas. Mas não pensem eles que a Amazônia vai ficar aí para espaço verde ou par ser invadida amanhã por quem quer que seja. Custa muito dinheiro fazer uma ação militar.

O que é a Amazônia?
Na Amazônia só não tem baiano,  que é uma outra raça brasileira. A Amazônia é uma região de pessoas para lá de excepcionais. Ela suga de todas as regiões as pessoas mais rebeldes do sistema social brasileiro, que não aceitam a mendicância, o comando ditatorial de governos. Para a Amazônia se vai pela alma para enfrentar outra fronteira de vida. Na Amazônia, a gente é avaliado pelo que a gente é e não pelo que a gente tem. Essa é a grande diferença da Amazônia em relação ao resto do mundo. Lá só tem quem trabalha, lá só tem quem sabe, quem faz. É por isso que a Amazônia não acomoda baiano. E não tendo sesta, não tem como baiano ficar. Baiano gosta de dormir e acordar tarde. O único baiano na Amazônia que não deu para nada e virou senador foi meu amigo Ademir Andrade. Mas o grande problema mesmo é saber quem são os índios. Quem são os índios e como vamos tratá-los? Quais os direitos que vamos dar a eles? Qual a possibilidade de entendimento que vamos ter com eles? Eu conheço uma sociedade indígena infinitamente melhor do que a maioria das pessoas que fazem as leis dela.

»»» Atualização às 16h18, a pedido do entrevistado José Altino Machado:

“Caro Altino,

solicito ao prezado xará fazer destacar em seu blog as minhas mais sinceras desculpas ao povo baiano. A entrevista nem era sobre os baianos. Por um momento de descontração, sobre migrantes para lá, falei da constatação de que na Amazônia não existia uma boa ocupação por parte de baianos. Em função do folclore do lugar, lhe disse que seria uma brincadeira antiga com meu particular amigo e ex-senador Ademir Andrade. Lamento muito o ocorrido, especialmente por ter tirado do eixo o principal da entrevista, levando para o titulo aquele meu comentário. Além disso, você afirma na apresentação da entrevista que sofri acusação como genocida. À época, usaram e abusaram dessa acusação para tentar nos anular em decorrência de nossos posicionamentos contrários às ONGs estrangeiras. A acusação não prosperou porque apurou-se que quem buscava e socorria aos índos era tão somente eu em meu avião. Nem governo e sua Funai faziam isso. Quando curados, eu mesmo devolvia os índios às suas tribos. A doença nada tinha a ver com garimpeiros. Era malária não tratada pelo governo ausente. Sobre isso nem uma linha publicada. Quanto ao restante das opiniões contrárias, tornaram-se apenas retórica política para anularem nossas reivindiações. E para para mim hoje são tão lendas quanto a lenda que afligiu aos baianos. Hoje sou recebido com segurança em qualquer comunidade indígena, o que não ocorre com muitas das “lideranças” deles, residentes aqui fora ou não. Agradeço a justiça das necessárias correções”.

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agosto 26, 2008

Terremoto no Peru assusta os moradores do Acre

Altino Machado às 7:14 pm

Um terremoto de 6.3 na Escala Richter foi sentido em Rio Branco, a capital do Acre, às 16 horas - 17 horas em Brasília. O epicentro aconteceu a 95 quilômetros de Pucallpa, a capital do departamento de Ucayally, no Peru, a 152 km de profundidade. Ele foi registrado pelo Observatório Sismológico da Universidade de Brasília.

- Foi um terremoto significativo e tectônico, isto é, devido a placa de nazca  estar colidindo com a placa sul-americana - disse ao Blog da Amazônia o professor George Sand França, chefe do Observatório Sismológico da UNB.

Pucallpa está situada a oeste de Cruzeiro do Sul (AC), a segunda maior  cidade acreana, localizada no extremo-oeste do Brasil. O epicentro do terremoto ocorreu a a 205 quilômetros da cidade.

França disse que a população do Acre costuma sentir os tremores mais profundos, que geralmente ocorrem de 100 a 300 quilômetros de distância, em território peruano.

- Como o terremoto foi percebido pelos moradores de Rio Branco, que está a mais de 800 quilômetros de distância do epicentro, é possível que em Pucallpa o tremor tenha causado algum dano material - observou Sand-França.

O terremoto também foi percebido em Cruzeiro do Sul, mas sobretudo no centro de Rio Branco, onde vários prédios foram abandonados. O Corpo de Bombeiros recebeu várias chamadas para vistoriar prédios que balançaram.

- Nós estávamos trabalhando, operando computadores, quando as mesas e cadeiras começaram a balançar. O tremor deve ter durado uns três segundos. Ficamos todos assustados e abandonamos o prédio - relatou Ajax Barbosa, que trabalha no prédio da Brasil Telecom, no centro de Rio Branco.

No município de Mal. Thaumaturgo, na fronteira do Acre com o Peru, a atriz carioca Sheyla Santanna, também testemunhou o terremoto enquanto trabalhava numa escola dos índios ashaninka.

- Nós estávamos dentro da sala quando a casa balançou e não foi pouco. Pensei que alguém estava balançando a casa de madeira e paxiúba. Parecia que tudo ia desabar. Ainda paguei o mico de gritar para que que os índios parassem de balançar a casa. Então alguém gritou que a terra estava tremendo e foi assustador. Eu nunca tinha sentido a terra tremer - disse.

Foto de Marcos Vicentti mostra o prédio mais alto do centro de Rio Branco, com seis andares, onde o terremoto causou falta de energia elétrica. Funcionários de lojas e escritórios usaram o elevador e a escada para fugir. Servidores públicos também abandonaram em pânico seus postos de trabalho. Ninguém se feriu.

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agosto 25, 2008

Botânico encontra no Acre formação vegetal ainda desconhecida pela ciência

Altino Machado às 12:45 am

Florestas do leste do Estado estão classificadas de forma equivocada no Zoneamento Ecológico-Econômico, afirma Evandro Ferreira

Com certa freqüencia a ciência dá provas de que conhece pouco a Amazônia. Na semana passada, após 15 dias de trabalho numa Avaliação Ecológica Rápida (AER), no Parque Estadual Chandless, no Acre, o botânico Evandro Ferreira emergiu com duas importantes contribuições para o conhecimento e proteção das florestas da região.

A primeira delas é uma constatação: as florestas do leste do Acre estão classificadas de forma equivocada no ZEE (Zoneamento Ecológico-Econômico) do Estado. Parte delas se comportam como florestas sub-caducifólicas, ou seja, onde grande número de árvores perdem completamente as folhas no período mais seco do ano.

A segunda é quase um enigma: a AER no Chandless, coordenada pela Fundação SOS Amazônia, para fornecer informações para a elaboração do plano de manejo do parque, que está sob a responsabilidade da Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Acre, revelou uma formação vegetal ainda desconhecida para a ciência.

Vistas do alto, as clareiras que surgem no leste do Acre, na fronteira com o Peru, mais parecem áreas de florestas que sofreram queimadas. Estão situadas numa das regiões mais remotas da Amazônia. Ao investigá-las,  os pesquisadores descobriram que não foram abertas pelo homem, embora os poucos moradores que existem na região denominem as áreas como “queimadas”.

- A maior “queimada” já identificada tem mais de 5 hectares. Apesar de relativamente pequenas, o aceso às mesmas é muito difícil. Na borda ocorre uma vegetação arbustiva densa, com muitos cipós e seu interior só é acessível com barco, pois não se sabe a profundidade da lâmina de água no local. Não sabemos que tipo de animais e plantas existe nestas formações, nem sabemos as razões delas terem aparecido. Vale comentar, ainda, que provavelmente todas as queimadas são incluídas nas estatísticas de desmatamento do Inpe. É óbvio que isso é um equívoco - relata Evandro Ferreira em entrevista exclusiva ao Blog da Amazônia.

Acreano, nascido em Rio Branco, pesquisador do Inpa e do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre, Evandro Ferreira tem mestrado em Botânica no Lehman College, e Ph.D. em Botânica Sistemática pela City University of New York & The New York Botanical Garden (NYBG).

Ele conduz o conceituado blog Ambiente Acreano, onde aborda ciência, tecnologia, política e meio ambiente. Leia a entrevista a seguir:

Qual é a classificação da floresta do Acre?

De acordo com o Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre, o ZEE, no Estado existem duas grandes Regiões Fitoecológicas - o Domínio da Floresta Ombrófila Densa (FOD) e o Domínio da Floresta Ombrófila Aberta (FOA), de acordo com a classificação proposta pelo Projeto Radambrasil. Em outras palavras: temos as florestas abertas e as florestas densas.

Por que a floresta acreana terá que ser reclassificada?

Ocorre que na região leste, incluindo uma ampla área ao longo da fronteira com o Peru, da cabeceira do Rio Acre até a região de Santa Rosa do Purus, foi observado que mais de 50% das árvores de grande porte da floresta, com mais de 20 metros de altura, perdem as folhas durante o período de estiagem ou seca, que se estende entre abril e setembro. Elas apresentam comportamento caducifólio, isto é, perdem as folhas, no período mais seco do ano.

Este comportamento está relacionado com o que?

Este comportamento está diretamente relacionado à estiagem severa que ocorre na região. Como conseqüência, o dossel da floresta se abre e permite a passagem de uma quantidade exagerada de luz, que atinge o solo da floresta, causando um provável aumento da temperatura no interior da floresta. Nessa condição, o vento também penetra mais facilmente nas partes mais baixas da floresta, carreando a umidade, e causando o dessecamento relativamente rápido da liteira (folhas, cascas e outras partes vegetais que caem ao solo), que se acumula com a queda das folhas das árvores do dossel da floresta.

No que isso ajuda aos cientistas?

Este comportamento das florestas do leste do Acre ajuda a explicar o perigo de incêndios florestais espontâneos que o Dr. Foster Brown tem propagandeado em artigos e entrevistas. Durante a grande seca de 2005 foi a própria floresta que acumulou liteira em quantidade tal que favoreceu, juntamente com a seca, a ocorrência de incêndios florestais de grande monta como os observados na Reserva Extrativista Chico Mendes.

Qual pode ter sido o impacto disso naquele trágico 2005?

Vale ressaltar que os incêndios florestais de então e a seca exagerada que provocou a morte de muitas árvores e arbustos, possam ter contribuído para uma diminuição na densidade de árvores de grande porte nas florestas do leste do Acre. Essas ainda são impressões sem provas catogóricas. Por isso que o Foster Brown tem alertado sistematicamente que essas florestas são verdadeiras bombas prontas para queimar de forma ainda mais dramática em caso de seca similar à de 2005.

A expedição constatou algo que agrava essa percepção?

Veja que é na região leste, considerando o Rio Purus como marco divisório, que ocorre a maior parte das Florestas Abertas do Acre, seja com sub-bosque dominado por bambu ou palmeiras. Um fato concreto já foi constatado: quando a floresta apresenta bambu como elemento dominante do sub-bosque, a densidade de árvores com mais de 10 centímetros de diâmetro por hectare de mata é de pouco mais de 350 indivíduos. Quando o bambu está ausente, a densidade sobe para quase 600 indivíduos. Considerando que o bambu tem como característica biológica a mortandade de grandes populações, é de se supor que uma área considerável de floresta da região leste do Acre é vulnerável a incêndios florestais.

E o que acontece quando o bambu morre?

A morte do bambu provoca o aumento da insolação que atinge o chão da floresta, provocando a dessecação do solo e afetando indiretamente, especialmente, as grandes árvores, que, sob stress hídrico, tendem a perder folhas como forma de proteção contra a falta de água. Por isso podemos afirmar com grande possibilidade de certeza que a floresta do leste do Acre, especialmente nas cercanias da fronteira com o Peru, é diferente. Não pode simplesmente ser classificada como Floresta Ombrófila Densa, como está no ZEE.

E qual classificação caberia a essa floresta?

Segundo o Manual Técnico da Vegetação Brasileira, do IBGE, que é referência e a obra mais respeitada sobre o assunto, as florestas do leste do Acre se encaixam na classificação Floresta Estacional Semidecidual ou, numa denominação mais antiga, em Floresta Tropical Subcaducifólia. Veja que a palavra “semidecidual” se refere ao fato de que um grande número de árvores, o dossel da floresta, se comporta como espécies caducifólias, ou seja, que perdem totalmente as folhas durante o período mais seco do ano. A palavra “estacional” se refere ao fato de que estas florestas se localizam em regiões onde o período seco mais acentuado pode durar entre quatro e seis meses, o que vem a ser o caso do leste do Acre. O ZEE não cita em nenhum momento a ocorrência destas florestas sub-caducifólias no leste do Acre.

Isso pode parecer irrelevante, mas qual conseqüência prática um equívoco desses pode gerar?

Todos nós sempre pensávamos que as florestas acreanas não poderiam pegar fogo espontaneamente porque eram florestas perenifólias, como é a maioria das florestas ombrófilas (amigas das chuvas) ou florestas tropicais. Sempre se pensou as florestas acreanas como úmidas o suficiente para não permitir a entrada de fogo. Agora estamos vendo que isso não é verdade. Essa ‘desinformação’ involuntária é que causou o espanto dos acreanos ao ver, em 2005, as florestas nativas em chamas

A avaliação ecológica do Parque Estadual Chandless revelou uma formação vegetal desconhecida (foto acima) para a ciência. Como é aquilo que você chama de “queimadas”  no meio da floresta? São naturais?

Sim. Do alto pareciam apenas clareiras abertas em lugares absolutamente isolados, longe de assentamentos humanos. Decidimos investigar e descobrimos que os poucos moradores da região chamam estas clareiras de “queimadas” e que não foram abertas pelo homem. Surgiram naturalmente. Ao visitar algumas delas constatamos se tratar de uma espécie de igapó, com a diferença que não existe vegetação de grande porte em seu interior. Teoricamente poderia ser chamado de “banhado”, uma formação que ocorre nos pampas gaúchos, com estrutura vegetacional similar. A maior “queimada” já identificada tem mais de 5 hectares. Apesar de relativamente pequenas, o aceso às mesmas é muito difícil. Na borda ocorre uma vegetação arbustiva densa, com muitos cipós e seu interior só é acessível com barco, pois não se sabe a profundidade da lâmina de água no local. Não sabemos que tipo de animais e plantas existe nestas formações, nem sabemos as razões delas terem aparecido. Vale comentar, ainda, que provavelmente todas as “queimadas” são incluídas nas estatísticas de desmatamento do Inpe. É óbvio que isso é um equívoco.

Realmente ainda conhecemos muito pouco a floresta?

O fato de termos encontrado estas formações vegetais desconhecidas naquela região do Acre só denota o quanto ainda temos que investir para conhecer nossas florestas e seus recursos. É na região leste do Acre que o desmatamento é mais acentuado. A descoberta mostra ainda o lado positivo da criação de unidades de conservação. Elas são uma garantia de que os pesquisadores terão condições de estudar com relativa calma e com a profundidade necessária tudo de desconhecido que ainda resida na floresta.

Nos outros anos, no começo de agosto, no Acre, o céu já estava totalmente tomado por fumaça. Neste ano foi diferente. Isso tem a ver com as proibições de desmate e queimadas impostas pelo Ministério Público?

Pelo menos, no caso do Acre, tudo indica que sim. Veja que depois da grande seca de 2005, quando o fogo ficou fora de controle no Acre, providências concretas para evitar desastres similares foram tomadas. Pessoas foram capacitadas a combater incêndios florestais, brigadas de combate a incêndios foram criadas em quase todos os municípios. Desde então, o Governo do Estado tem implementado um programa consistente de combate ao desmatamento e às queimadas ilegais. Bem ou mal, estas ações e programas estão sendo tocados e isso não existia antes de 2005. Hoje, a repressão e a ameaça de multas estão presentes. Fica faltando investir na educação ambiental da população. Mas acho que houve uma mudança de postura por parte dos produtores a partir de 2005. Antes se queimava sem escrúpulos e quando o fogo saía de controle os prejudicados não reclamavam dos prejuízos. Hoje os produtores estão alertas para os desastres que o fogo fora de controle pode causar, pois sabem que os vizinhos que vierem a ser prejudicados irão bater nas portas da justiça em busca de reparação. E terão o apoio do Ministério Público. As queimadas e incêndios florestais de 2005 foram um desastre social e econômico, mas parece que tiveram um efeito profundo na mente e na forma de agir dos nossos produtores.

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agosto 21, 2008

Etnia ashaninka denuncia ação da Petrobras em terras de índios isolados

Altino Machado às 12:09 am

Lideranças ashaninka da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, no Brasil, dizem  que a Petrobras está preparada para iniciar atividades de prospecção e exploração de petróleo e gás, no alto rio Juruá, no Peru, em lote sobreposto a territórios de comunidades nativas e de índios isolados - A nosso ver, a intenção da Petrobrás constitui uma flagrante e condenável contradição com o discurso de responsabilidade socioambiental adotado pela empresa no Brasil e com a legislação que a empresa é obrigada a respeitar em nosso país - afirma documento  da Associação Ashaninka, presidida por Moisés da Silva Piyãko (foto), enviado ao presidente da Unión de Comunidades Indígenas Fronterizas del Peru (UCIFP), Edison Panayfo. O posicionamento dos ashaninka, que vivem no Acre, na fronteira com o Peru, é uma resposta ao convite que receberam para participar do “I Taller de Capacitación y Fortalecimiento en Actividades de Hidrocarburos para Líderes Indígenas”, na Comunidad Nativa Nueva Shauaya, para discutir temas relacionados à prospecção e exploração de petróleo e gás, preparar as comunidades indígenas para os “os novos desafios do desenvolvimento sustentável” e “lograr relações harmoniosas entre o Estado, as empresas petrolíferas e as comunidades”. Aproveitando possibilidade aberta pela legislação peruana, a empresa brasileira Petrobras Energia Peru S.A. tornou-se, em dezembro de 2005, concessionária, por um período de 40 anos, do Lote 110, localizado no alto rio Juruá peruano, em águas binacionais, com extensão de 1,4 milhão de hectares. O lote é sobreposto à Reserva Territorial Murunahua e a territórios de comunidades ashaninka, jaminawa e amahuaca, já titulados ou reivindicados. A leste, o lote tem limites, ainda, com o Parque Nacional Alto Purús, estando sobreposto à sua zona de amortecimento, no trecho onde está a Reserva Territorial Mashco-Piro, criada em 1997 para proteger grupos isolados Mashco-Piro. Conseqüências no Brasil Os ashaninka assinalam que, nos últimos 15 anos, têm planejado e posto em prática ações voltadas ao aproveitamento sustentado dos recursos naturais de seu território e a melhoria da vida de suas famílias. Com iniciativas próprias e mobilizando órgãos do Estado brasileiro, têm procurado vigiar e defender os limites de sua terra indígena e alertar para as graves conseqüências sociais e ambientais da atividade madeireira em territórios indígenas e unidades de conservação em ambos os lados da fronteira Brasil-Peru, especialmente nos altos rios Juruá, Amônia e Tamaya. - As concessões feitas nos últimos anos pelo Estado peruano a empresas de vários países de lotes destinados a prospecção e exploração de petróleo e gás no alto rio Juruá e no rio Tamaya, sem qualquer consulta prévia, informada e de boa fé aos povos e comunidades indígenas sobre cujos territórios os lotes foram estabelecidos de forma unilateral, é uma clara violação à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e à Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas - afirma o documento. Segundo os ashaninka, a concessão de lotes para a prospecção e exploração de petróleo e gás em florestas banhadas por bacias hidrográficas binacionais, em regiões de fronteira internacional, caso dos rios Juruá e Amônia, poderá causar graves conseqüências ambientais às comunidades que vivem em terras indígenas e unidades de conservação do lado brasileiro e comprometer fontes de água utilizadas para consumo humano em sedes municipais e comunidades na floresta. No caso do Alto Juruá peruano, a concessão de lotes de petróleo e gás pelo governo peruano criou sobreposição com a quase totalidade da Reserva Territorial Murunahua, área de 481.560 hectares, criada em 1997 para a proteção de povos indígenas isolados murunahua, chitonahua e outros. - A pretensão das empresas canadenses True Energy Trust e North American Vanadium Inc., de dar início à prospecção e exploração de petróleo e gás em sua concessão no Lote 126, que tem extensão de pouco mais de um milhão de hectares, está situado na fronteira internacional, coincide com parte do limite oeste de nossa terra indígena no rio Amônia e do Parque Nacional da Serra do Divisor, e encontra-se sobreposto a territórios não titulados de comunidades Ashaninka no alto rio Tamaya. Os ashaninka acusam a política de desenvolvimento do governo peruano no Alto Juruá de estar associada a empresas transnacionais, optando por promover a prospecção e a extração de petróleo e gás em região fronteiriça, onde a atividade madeireira continua a causar imensos prejuízos ambientais. A consequência tem sido a invasão de reservas territoriais e unidades de conservação, a abertura de extensa rede de estradas e caminhos, a destruição de recursos florestais e da fauna, a inutilização de áreas utilizáveis para a agricultura e a contaminação de fontes de água, além de correrias (matança organizada de índios), contatos e migrações forçados de índios isolados, violações dos direitos humanos e trabalhistas e a desestruturação das formas de organização comunitária, política e cultural em várias comunidades. Danos irremediáveis O evento da UCIFP foi interpretado pelo ashaninka como evento bipartite e não triparte como era pretendido. Eles dizem que os interesses e as ações de governo peruano e das empresas concessionárias aparecem de maneira articulada e indissociada: foi o governo que, por meio de suas políticas, concedeu os lotes às empresas e agora atua, sob a fachada da “capacitação”, como facilitador de processos de negociação entre empresas e organizações e comunidades indígenas, visando que estas dêem seu consentimento ao inicio das atividades de prospecção e exploração de petróleo e gás sobre seus territórios. - Ao contrário do que procura fazer crer a convocatória do “taller”, encaminhada pela UCIFP, não acreditamos que a atividade de extração de petróleo e gás abra qualquer alternativa de desenvolvimento sustentável para as comunidades e territórios indígenas no Alto Juruá. Segundo o documento das lideranças ashaninka, “ainda que venham a ser executadas ações para a prevenção, a mitigação e a compensação dos impactos sociais e ambientais inicialmente previstos, as conseqüências da prospecção e da exploração de petróleo e gás serão definitivas e irremediáveis sobre os recursos naturais (água, florestas, caça e pesca) das quais as comunidades dependem para sua sobrevivência imediata e futura, sobre as condições de saúde das comunidades e sobre suas formas próprias de organização social, política e cultural”. Os ashaninka lamentam que a UCIFP,  acusada de estar associada com os interesses da empresa madeireira Forestal Venao SRL, decida discutir agora a possibilidade da operação de empresas petrolíferas nos territórios das comunidades que representa, especialmente em reserva territorial destinada a índios isolados, que nenhuma possibilidade têm de ser consultados.

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agosto 14, 2008

Esquerda faz “desmanche social” para manter poder

Altino Machado às 12:07 am

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Uma realidade bem diferente da imagem politicamente correta que se conhece do Acre, dominado por três governos consecutivos do PT de Chico Mendes, Marina Silva e dos irmãos Jorge e Tião Viana, começa a emergir formalmente de uma análise sobre participação da sociedade e da governança de espaços de definição de políticas públicas do Estado.

Financiado pelas organizações Rede Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), com apoio da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e WWF-Brasil, o estudo foi conduzido pelo agrônomo Luis Meneses, 39, ex-coordenador do Programa Amazônia do WWF, que atualmente é consultor em governança institucional e gestão de programas ambientais.

A análise, suficientemente ácida para ferir o brio do “governo da floresta”, expõe o desmanche social promovido pelos partidos de esquerda, sobretudo o PT, para tentar se perpetuar no poder político do Acre. Expõe da mesma maneira a relação incestuosa à qual se submeteram diversas lideranças do movimento social.

Segundo a análise, as organizações de base reconhecem que o crescimento político do movimento de esquerda no Acre fez aumentar a ingerência de políticos junto ao movimento sindical. A situação tem reforçado um paternalismo onde sindicatos sentem-se subordinados ao governo e aos políticos e não podem se manifestar contra nada em função do estabelecimento de convênios e outros benefícios próprios de quem controla os cofres públicos.

No final dos anos 80, sendo a maior expressão do movimento social acreano, Chico Mendes forçou o Banco Mundial a financiar um plano de mitigação dos impactos socioambientais decorrentes do asfaltamento do trecho da BR-364 entre Porto Velho (RO) e Rio Branco. Atualmente, seus antigos aliados constroem rodovias sem respeito às leis ambientais e defendem ou calam diante dos impactos gerados por diversas obras de infraestrutura na região.

O “governo da floresta”, que começou em 1999 com o engenheiro florestal Jorge Viana, poderá ter continuidade com o senador Tião Viana, a partir de 2011, como “governo do petróleo”.  Existem até pretensos ambientalistas que aderiram à atividade agropecuária que tanto criticavam e se tornaram destacados articuladores e defensores do plantio de cana-de-açuçar para produção de etanol na região.

O marasmo do movimento social é crescente, não existe mais articulação, e isso resulta no arrefecimento do papel contestador e aguerrido dos anos 70 e 80, quando foi capaz de impulsionar uma ruptura na política local com a eleição de lideranças que hoje são respeitadas dentro e fora do país. Além disso, a cultura do cargo público comissionado tem enfraquecido a atuação do movimento e gerado confusão de papéis na interlocução com a sociedade.

- Isso é constatado pelas organizações entrevistadas e também foi observado em relação à ascensão do PT ao Governo Federal. Esses quadros, que representam as melhores cabeças do movimento, quando no governo, tendem a compreender que participação das organizações do movimento podem ser substituídas pelo histórico pessoal e político dessas pessoas - afirma Meneses.

Na semana passada, ao tomar conhecimento da existência da análise,  o governador do Acre, Binho Marques (PT),  conversou rapidamente com Luis Meneses e manifestou intenção de instituir no Estado um mecanismo de certificação de organizações não-governamentais.

Leia a entrevista com Luis Meneses a seguir:

Firmou-se no Brasil a imagem de que no Acre a sociedade civil tem espaços ideais de definição de políticas públicas. O Acre é mesmo uma ONG, conforme disse certa vez a economista Maria da Conceição Tavares?

Essa imagem remonta a outros tempos - o final da ditadura e inicio da reforma democrática do país, quando os governos civis tinham um posicionamento de direita ou de centro. Nesta época, a sociedade civil no Acre fez a diferença, pois se fez ouvir internacionalmente quando o movimento social extrativista descobriu a afinidade com o movimento ambientalista na pessoa do Chico Mendes. Neste embalo e nesta oportunidade de recursos, surgiram importantes ONGs que defenderam direitos e propuseram novas formas e idéias de relação e atendimento  ao povo da floresta. A Comissão Pró-Índio e o Centro dos Trabalhadores da Amazônia, as mais antigas, lutaram por direitos de acesso a territórios. Foram pensadores e realizadores de uma nova forma de atender as comunidades extrativistas e indígenas, se dedicando à educação, saúde e, posteriormente, à viabilidade econômica das florestas como forma de geração de renda. No cenário político conservador do Acre de então, o movimento social e as ONGs pouco conseguiam influenciar as políticas públicas dos governos. A estratégia do barulho, da mobilização pública e da reivindicação,  por vezes surtia algum efeito positivo para os interesses destes grupos. Há uma década, as ONGs do Acre desempenharam um papel de projeção de novas idéias em relação a floresta e seus povos. Isso se fez ouvir no país e lá fora, em maior grau, do que aqui no próprio Estado. Com o advento do governo petista, mais conhecido como “governo da floresta”, o papel das ONGs e das organizações do movimento social muda e, infelizmente, enfraquece.

Como explicar o fato de que o movimento social definha no Acre na mesma proporção em que se conquista poder político?

Primeiramente, é importante definir dois fatores internos do movimento social e ambientalista que estão associados a este definhar, associados a uma crise financeira e outra de lideranças. Hoje, o movimento social e ambientalista, que são as organizações de representação de trabalhadores rurais e urbanos, de povos indígenas, e as ONGs com atuação urbana e rural, se encontram com sérios problemas de recursos para manutenção de suas atividades e pagamento de dívidas, principalmente trabalhistas. Esta situação tem origem na diminuição do fluxo de recursos financeiros, principalmente internacionais. Recursos de agências de cooperação bilateral, aquelas associadas a governos, e fundações internacionais que ajudaram o movimento socioambientalista a se estruturar na Amazônia. Houve uma redução significativa após o 11 de setembro em função de prioridades mais associadas com a redução do terrorismo.  Outro problema, está associado à visão estratégica dessas organizações em um mundo de constantes mudanças. Esse fato está diretamente relacionado com a crise de liderança do movimento social e ambientalista. Essa crise nasce no empréstimo dos seus melhores quadros ao governo e se agrava em função da não renovação e não formação de novas lideranças.

Como assim?

Na relação com o governo, a partir do momento que este adota pautas de políticas que eram bandeiras do movimento, ocorre uma nova demanda para o movimento. O papel reivindicatório é trocado por uma necessidade de proposição, de auxiliar no desenho, na estratégia, na forma de fazer acontecer aquela política. E aí a falta de visão estratégica e de conhecimento sobre como fazer a máquina funcionar impedem uma relação mais qualificada entre governo e sociedade.

Por que ocorre de modo tão atabalhoado a governança dos espaços de definição de políticas públicas justamente quando se tem à frente deles pessoas que tiveram razoável inserção na organização das demandas da sociedade?

Governança de processos, projetos, organizações e espaços devem ter três aspectos desenvolvidos: estrutura (quem faz o que, relacionado à definição  de papéis e responsabilidades), funcionamento (o como) e o indivíduo, tendo em vista o desenvolvimento do indivíduo para desempenhar aquilo que se espera do projeto ou da organização. O que se observa na gestão destes espaços é que não há uma abordagem que pense nestas diversas dimensões. A estrutura é mais bem pensada e rígida, e visam propiciar o controle do estado sobre o espaço.  O funcionamento não está baseado nas reais necessidades daquele coletivo e no cumprimento de suas competências. Os regimentos internos destes espaços são cópias uns dos outros. São leis mortas que o governo não cobra porque sabe que não faz sua parte adequadamente.  Por sua vez, a sociedade também não cobra porque igualmente não desempenha suas funções adequadamente.

Então o que falta?

Falta profissionalização da gestão destes espaços e isto requer pessoas com habilidade de empreender as dinâmicas requeridas por esses espaços. Falta estrutura adequada (espaço, recursos, staff) e falta qualificação de representante para quem participa. Outro fator interessante é a origem das pessoas do governo. Como a maioria dos integrantes do governo tem origem no movimento social, essa maioria parece considerar que este fato da origem já qualifica a participação do movimento social nas definições de políticas.

No final dos anos 80, Chico Mendes forçou o Banco Mundial a financiar um plano de mitigação dos impactos socioambientais da BR-364. Atualmente, seus antigos aliados constroem estradas ou se calam diante dos impactos delas e de outras obras de infraestrutura na região. O que está acontecendo?

Na minha opinião e de outras pessoas da sociedade civil que foram entrevistadas neste trabalho da UICN, WWF e GTA, a identidade partidária faz com que a participação do movimento social e ambientalista não seja tão forte, pois devem aceitar, não contrapor e ter paciência com as propostas do governo. Por isso, vemos que o papel de contestação que o movimento social e ambientalista sempre teve nos governos é arrefecido. Esse fato pôde ser observado no Ministério do Meio Ambiente. Como a ministra era Marina Silva, não se podia bater forte. Ela gozava do voto de credibilidade do movimento. Embora sofresse críticas, as críticas não eram tão duras.

O que mais contribui para o marasmo do movimento social decorrente do que você chama de “silenciosa acomodação política dos conflitos”?

Este marasmo, que se traduz na falta de articulação e comunicação entre as organizações da sociedade civil e no arrefecimento do papel contestador e aguerrido do movimento social e ambientalista, pode ser decorrente de fatores como ausência de um projeto político do coletivo dessas organizações. Na verdade não há mais uma bandeira de luta definida do que a sociedade civil quer para o Acre e, preocupante, boa parte das ONGs está sem estratégia de longo prazo para suas próprias organizações. As organizações estão reativas às pautas do governo e sem capacidade de intervir e propor políticas. Outro fator está associado ao compadrio partidário, onde há dificuldade de discutir questões em função das alianças atuais e históricas tendo em vista as relações pessoais e políticas.

A migração de quadros do movimento social para o Governo enfraquece a atuação do próprio movimento gerando uma confusão de papéis destas pessoas na interlocução com a sociedade?

Sim. Isso é constatado pelas organizações entrevistadas e também foi observado em relação à ascensão do PT ao Governo Federal. Esses quadros, que representam as melhores cabeças do movimento, quando no governo, tendem a compreender que participação das organizações do movimento podem ser substituídas pelo histórico pessoal e político dessas pessoas.

O governo do Acre dá sinais de que considera o extrativismo inviável para o desenvolvimento econômico e já estamos com um pé no agronegócio da produção de etanol. Existe o risco de passarmos de “governo da floresta” para “governo do petróleo”. O que a sociedade pode fazer para preservar a identidade que a levou a conquistar tanto poder no Acre?

As ONGs que têm sobrevivido a essa crise, que não é só acreana, mas amazônica, têm se firmado como os chamados think tanks, ou seja, núcleos de pensamento. Essas organizações, que podemos citar como Ipam, Imazon, ISA, que, historicamente, têm investido em pesquisa e geração de conhecimento, desempenham um papel fundamental e reconhecido hoje, que é o de propor e contrapor políticas públicas. Precisamos de ONGs que ajudem a pensar mais estrategicamente o desenvolvimento do Acre. Para isso, precisa de investimentos e tempo na formação de quadros. Outra oportunidade mais imediata, está na segunda fase deste processo proposto por UICN, WWF e GTA, de elaboração de uma agenda de políticas socioambientais da sociedade civil do Acre. A proposta é gerar metas e estratégias de pautas políticas prioritárias para um coletivo de organizações que permita avançar nas prioridades e interesses destas organizações. Este processo da agenda também tem importância fundamental de propor uma reflexão da forma de atuação do coletivo de organização quanto à discussão de políticas públicas e buscar uma nova governança do processo que permita fortalecer o movimento na sua relação com o governo estadual.

O seu diagnóstico assinala que organizações de base dizem que o crescimento político do movimento de esquerda no Acre aumentou a ingerência de políticos junto ao movimento sindical, reforçando um paternalismo onde sindicatos sentem-se subordinados ao governo e aos políticos, não podendo se manifestar contra em função do estabelecimento de convênios e outros benefícios. Como romper essa relação incestuosa?

As organizações precisam encontrar seu propósito e sua função para o século 21, desenvolver análises de contexto e visões de longo prazo. E assim começar a talhar as lideranças que precisa para alcançar os seus projetos. Tendo rumo e identidade, e, claro, controle interno de suas bases, é menos provável que esta ingerência política se perpetue baseada no interesse de poucos.

O movimento dos povos indígenas pela conquista de seus territórios inspirou, por exemplo, as lutas dos trabalhadores rurais no Acre em defesa da floresta. Agora, ambos se mostram desarticulados, embora haja várias organizações atuando em nome deles. Ainda existe algo de novo a ser dito pelas populações tradicionais da Amazônia?

Interessante observar que a projeção e conquista de direitos destes povos estão muito associados a lideranças com carisma interno e externo e visão estratégica  que traga novos referenciais e bandeiras. Hoje, tanto o movimento indígena quanto o extrativista, carece de lideranças com este perfil. E tampouco as ONGs de assessoria, como são chamadas, respondem às demandas destes povos ou têm legitimidade para desencadear processos de mudanças necessárias de ordem política.  Estes povos não querem mais intermediários, mas também não possuem hoje a qualificação necessária que lhes permita influenciar políticas com a qualidade,  que leve aos resultados esperados.  A qualificação de lideranças é algo fundamental para que estes movimentos consigam atingir outros patamares. E, nesse caso, vejo que os povos indígenas têm avançado muito mais que os extrativistas. Hoje em Rio Branco, existem mais de 12 índios cursando universidades. Isto trará resultados para dentro das aldeias e na visão política do movimento indígena.

O governador petista Binho Marques, que é originário do movimento social, prometeu que o Acre será o melhor lugar para se viver na Amazônia até o final de 2010. Você acredita que seja possível a reversão dos indicadores sociais até lá?

Essa é uma meta ambiciosa em função do prazo e interessante porque incorpora a dimensão emocional da felicidade como meta política. Hoje, na Europa, políticos têm levantado a bandeira da felicidade em países cujos problemas não são saúde ou educação ou infra-estrutura, mas muito mais de suicídios, drogas, entre outros, que estão associados  à “infelicidade do indivíduo”. O desafio acreano é abrange os direitos básicos a e infra-estrutura e, muito importante, o desenvolvimento do indivíduo. Neste sentido, as políticas locais e nacionais têm sido pouco consistentes e persistentes para termos cidadãos preparados para o século 21.

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agosto 13, 2008

Biógrafo de Galvez identifica sua obra em minissérie da TV Globo

Altino Machado às 12:09 am

O jornalista, diretor de documentários e escritor espanhol Alfonso Domingo, 53, é autor da novela “La Estrella Solitaria” (Algaida Literaria, 448 páginas), que revelou ao país dele a aventura de seu compatriota Luis Galvez Rodrigues de Arias, o aventureiro que proclamou, em 14 de julho de 1899, o Estado Independente do Acre e pediu o reconhecimento das nações

Ou, conforme escreveu Javier Macua na apresentação do livro, em 2003, Domingo revela “a história de uma bala perdida que desenhou um país no meio da selva e um homem politicamente incorreto para seu tempo”.

Galvez é retratado por Domingo como um personagem real que organizou ministérios, criou escolas, hospitais, um exército, corpo de bombeiros . Ele concebeu um país moderno para a época, com preocupações sociais, ambientais e urbanísticas. Foi juiz, emitiu selos de correios, sendo um deles entre os mais cobiçados pelos filatelistas, além de ter idealizado a atual bandeira do Acre - uma estrela vermelha solitária destacando-se no verde e amarelo da insígnia brasileira.

Galvez chegou a proibir no Acre o casamento com jovens menores de dezesseis anos,  que era costume numa região onde a companhia feminina era privilégio de poucos. O país Acre, que surgiu cercado pela floresta exuberante, no barranco do rio, era habitado por 13 mil almas.

Galvez era jornalista, espadachim e mulherengo. Nasceu em 1864 e trocou Cádiz por Buenos Aires. Passou pelo Rio de Janeiro e Manaus, onde dirigiu um cabaré no apogeu da exploração da borracha. No Amazonas, conheceu Guillermo Uhtoff e ambos decidiram fundar o Estado Independente do Acre.

Quando o Acre ainda era possessão da Bolívia, Galvez trabalhava como jornalista no Amazonas e denunciou a existência do Bolivian Syndicate - um acordo secreto entre o país boliviano e os Estados Unidos, que cobiçavam a valiosa exploração de látex.

- O retrato de Galvez que surgiu era o de um homem capaz, com grandes idéias, um homem que queria e podia levantar um país. Sua epopéia me parece maravilhosa, porque, ademais, não tirou um único rendimento econômico, ao contrário, quase se arruinou. Era uma espécie de Lord Jim reivindicando seu nome. Uma grande figura - disse o escritor com exclusividade ao Blog da Amazônia.

O Estado Independente durou apenas nove meses e Galvez acabou expulso do Acre. Regressou para a Espanha. Enfermo e sozinho, morreu em Madrid, em 1935. Antes, porém, em 1902, numa entrevista ao Diário de Buenos Aires, Galvez deixou uma previsão como testamento político:

- Os ianques têm uma mão sobre o coração da América do Sul. Porém não se vê. E quando se vê será tarde: o polvo haverá multiplicado seus tentáculos e poderá dar impunemente a pressão que lhe convier às suas insaciáveis e enormes conveniências.

Domingo conheceu melhor a aventura de Galvez ao percorrer o Acre, em 1992, para realizar o documentário Acre, la Amazonía olvidadasobre a terra de Chico Mendes. Passou cinco anos pesquisando a vida do compatriota, inclusive o arquivo - apenas dois caixões - que está em Pernambuco. Não existem mais parentes de Galvez na Espanha, mas de Uhtoff, sim. E o escritor não esconde a afeição por esse personagem, segundo ele, o Sancho Pança da história, o que estava por trás do primeiro estadista do Acre e autor dos desenhos dos selos do Estado Independente, os primeiros de um país.

- Um personagem fascinante, pícaro, aventureiro e que colecionava borboletas. Há família sua em Cádiz e existem fotos dele, um personagem que dilapidou sua fortuna familiar. Ele sim, esteve no corpo diplomático espanhol – o demitiram por dívidas de jogo em Viena -  e dali saiu a lenda do Galvez diplomático - acrescenta Domingo.

“La Estrella Solitaria”, publicado há cinco anos, serviu para a novelista Glória Perez, da Rede Globo, compor um personagem mais real na minissérie “Amazônia - De Galvez a Chico Mendes”, onde o aventureiro espanhol apareceu com sua amante Maria Alonso, dançarina da Companhia Zarzuela, com quem viajou para o Acre. Domingo não viu a minissérie na íntegra, mas disse ter ficado surpreso com a presença de Maria Alonso, uma personagem que afirma ser ficcional em sua obra.

- Só pude ver pela internet algumas cenas e vejo que, efetivamente, é minha Maria Alonso. O que posso fazer? Em princípio, certificar-me de que isso é assim, vendo a totalidade dos capítulos da série do Acre, e logo depois demonstrar que esse personagem é invenção minha. Não quero processar nem meter-me em pleitos jurídicos, mas gostaria que o meu livro fosse publicado no Brasil para que todos pudessem ver de onde se originou.

“La Estrella Solitaria”, recebeu o Prêmio Ciudad de Salamanca. Foi editado por Algaida, que tem os direitos durante uma série de anos.

- São eles os que, em qualquer caso, deveriam empreender ações judiciais se as acreditam oportunas e com o meu consentimento - assinala o escritor.

Porém, a novelista Glória Perez o contesta e pediu à reportagem o endereço eletrônico de Domingo para contatá-lo e enviar os DVDs da minissérie.

- Consultei o Alfonso Domingo para saber se Maria Alonso era personagem histórico, para poder manter o nome. Era. Por isso mantive.  Mudei o caráter dela. O certo é que o trabalho do Alfonso foi fundamental para que eu pudesse traçar um Galvez mais perto do real, uma vez que ninguém nesse país pesquisou sobre ele. Nunca escondi isso. Falei exaustivamente dele em todas as entrevistas. O livro está citado nos créditos da minissérie e não foi por falta de sugestão minha que não o lançaram no Brasil. Muitas vezes declarei o quanto seria importante para o Acre que se fizesse esse lançamento - afirma a novelista acreana.

E Galvez segue exercendo seu fascínio sobre os acreanos. Em breve, quando o prédio da Assembléia Legislativa do Acre for reaberto, após as obras de uma reforma, o público encontrará uma estátua de Galvez na entrada, assinada por Christina Motta, a mesma artista que fez a estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana, e do poeta Juvenal Antunes, em Rio Branco (AC),  que é um outro ícone dos aventureiros que povoaram a região acreana.

- Galvez foi o primeiro legislador do Acre - argumenta o deputado Edvaldo Magalhães (PC do B), presidente do Legislativo.

De Madri, onde reside, o escritor Alfonso Domingo conversou com o Blog da Amazônia.

Quando começou o seu contato com o Acre?

Em 1992. Creio que foi quando li o livro “Galvez, o imperador do Acre”, do Márcio Souza. Depois me encontrei na vida com o brasileiro Dácio Mingrone, que vivera no Acre, e decidimos fazer uma série documental sobre a terra de Chico Mendes. Viajamos em 1995 e fizemos o documentário.

Naquele ano vocês enfrentaram problemas com a Polícia Federal e o que há de relevante no documentário?

Eram os tempos do governador Orleir Cameli, aquele que enfrentava 17 processos, dentre eles, por contrabando, saque de madeira de áreas indígenas. Tanto para ele como para a classe que governava o Estado, não fazia a menor graça que fôssemos ao Acre, víssemos a extração ilegal de madeira, falássemos com os seringueiros, com as cooperativas, com os indígenas. Aproveitando uma brecha legal, porque nossos vistos estavam adequados, e até a importação temporária da câmara, quiseram ver o material e o que havíamos filmado. Neguei-me e nesse dia escondemos as fitas gravadas. Ali estavam entrevistados desde os herdeiros de Chico Mendes até o padre Paolino Baldasari, de Sena Madureira. Enfim, tínhamos falado com muita gente, dentre as quais, o bispo Moacir Grechi e o prefeito de Rio Branco, Jorge Viana, quem, por sinal, nos avisou, lealmente, que a Polícia Federal iria a nosso encalço. A série se fez e se chama “Acre, la Amazonía olvidada” [Acre, a Amazônia esquecida], três capítulos de uma hora, que Dácio e eu fizemos. Recebemos vários prêmios nacionais e internacionais e a série foi transmitida na França e na Espanha. Também entrevistamos fazendeiros. Não era um trabalho parcial, quisemos que falassem todos os envolvidos, mas reconstruímos o crime de Chico Mendes e falamos do complô que houve para matá-lo.

E quando Luis Galvez Rodrigues de Arias entra em sua vida ou você na vida dele?

Era isso que ia comentar. Ainda que já conhecesse a figura de Galvez por meio do Márcio Souza, foi ao chegar no Acre, especialmente a Porto Acre, a antiga Puerto Alonso, quando percebi que a sua história não estava bem contada. Um amigo me deu os dois volumes de “Formação Histórica do Acre”, do Leandro Tocantins, e bebi, absorto, a história de Galvez. Decidi que era um dos heróis literários da minha vida e dediquei quase cinco anos a pesquisar a sua figura. Em minha segunda viagem, entrevistei a Tocantins, no Rio, e levei-lhe a certidão de nascimento de Galvez, que havia encontrado no Banco de España, de onde fora demitido por falsificar um cheque. A história se tornava interessante. Mas meu retrato de Galvez diferia bastante do bêbado e do crápula que desenha Márcio Souza, a quem também conheço e entrevistei, precisamente para a série do Acre. O retrato de Galvez que surgiu era o de um homem capaz, com grandes idéias, um homem que queria e podia levantar um país. Sua epopéia me parece maravilhosa, porque, ademais, não tirou um único rendimento econômico, ao contrário, quase se arruinou. Era uma espécie de Lord Jim reivindicando seu nome. Uma grande figura.

Ainda existem familiares de Galvez na Espanha?

Não existem, em princípio, familiares de Galvez, ou, se os há, são muito distantes. Ele teve vários irmãos, mas só um teve descendência, em Cádiz. Era um marinheiro que apenas teve contato com ele, porque quando a família se mudou para Madri, ele ficou em Cádiz. De quem, sim, existem familiares, e têm uma história muito boa, é de Guillermo Uthoff, o Sancho Pança da história, o que estava por trás de Galvez, seu amigo, que fez os desenhos para os selos do Estado Independente do Acre, os primeiros de um país. Um personagem fascinante, pícaro, aventureiro e que colecionava borboletas. Há família sua em Cádiz e existem fotos dele, um personagem que dilapidou sua fortuna familiar. Ele sim, esteve no corpo diplomático espanhol - o demitiram por dívidas de jogo em Viena -  e dali saiu a lenda do Galvez diplomático etc. Toda essa história está relatada em “La Estrella Solitaria”, na qual conto as peripécias de Galvez e Utohff  e interpreto aos personagens, tão presentes como a selva acreana e os homens que trabalhavam nela, dentre eles, alguns galegos, por sinal.

Márcio Souza foi injusto com a história e com o personagem ao escrever “Galvez, imperador do Acre”?

Bom, ele escreveu a sua novela, que quer mostrar a loucura de Manaus e da Amazônia naquela época. Cria um personagem delirante, mas, em sua novela, em seu livro, o escritor tem direito de fabular quando não tem dados, ainda que seja de um personagem histórico. O que eu fiz foi uma pesquisa, averigüei tudo o que foi possível sobre Gálvez, e escrevi um livro com esses novos dados e com a minha nova interpretação. Minha única objeção ao Márcio, talvez porque ele não foi ver a documentação que existe em Pernambuco, foi fazê-lo imperador de um país, quando Galvez era um fervoroso republicano, um bom democrata e um dos primeiros antiimperialistas. De fato, graças a Galvez, talvez o Acre hoje não seja ianque.

Tive o prazer de indicar “La Estrella Solitaria” à novelista Glória Perez, da Rede Globo, que usou o livro para compor a minissérie “Amazônia - De Galvez a Chico Mendes”. Você já viu a minissérie ?

Bom, chegamos a um ponto delicado. Glória pôde ler “La Estrella Solitaria” porque a recebeu de Betina, uma amiga sua que eu conheci no Festival de San Diego, na Califórnia. Ela estava nesse momento preparando a série para a Globo, e me perguntou, por correio, uma série de coisas sobre Galvez e a sua história. Disse-lhe que a versão do livro tinha seus direitos, mas insistiu que iam se abreviar fatos históricos. Logo me perguntou insistentemente sobre um dos personagens que apareciam no livro, Maria Alonso, a amante de Galvez. Eu lhe respondi que existira uma cantora assim, mas que meu personagem era pura invenção, ainda que me baseasse em outros fatos, como a Companhia de Zarzuela que acompanha Galvez em sua viagem ao Acre. Quando me disseram que a série tinha ido ao ar e um bom amigo de Manaus me disse de Maria Alonso, a verdade é que me surpreendeu muito. Só pude ver pela internet algumas cenas e vejo que, efetivamente, é minha Maria Alonso. O que posso fazer? Em princípio, certificar-me de que isso é assim, vendo a totalidade dos capítulos da série do Acre, e logo depois demonstrar que esse personagem é invenção minha. Não quero processar nem meter-me em pleitos jurídicos, mas gostaria que o meu livro fosse publicado no Brasil para que todos pudessem ver de onde se originou. Encantaria-me que se pudesse fazer um filme sobre Galvez, no Acre e na Espanha. Já houve várias tentativas de Hollywood, segundo acredito e me contou Márcio Souza, para fazer um filme. Dentre eles, está Robert Redford.

Então não pretende mover ação judicial contra a TV Globo por ter usado na minissérie a personagem criada por você?

Não, em princípio. “La Estrella Solitaria”, por ter recebido o Prêmio Ciudad de Salamanca, foi editado por Algaida, que tem os direitos durante uma série de anos e são eles os que, em qualquer caso, deveriam empreender ações judiciais se as acreditam oportunas e com o meu consentimento. Como te dizia, também deveríamos ver a totalidade da série, não apenas o que consegui ver pela internet.

Sendo um conhecedor profundo da história, como você pode definir o Acre?

Obrigado pelo “conhecedor profundo”, não o mereço, ainda que preze conhecer e amar muitas partes da Amazônia. O Acre pode ser definido, parafraseando a Júlio Cortázar, como um estado de ânimo. É uma mostra da inter-relação entre a natureza e o ser humano, como a paisagem pode marcar tanto o caráter das pessoas ou como a ação das pessoas pode mudar a paisagem. O Acre é mágico. O Acre não é apenas a selva, mas todos os que nela habitam e interagem -índios, seringueiros, camponeses, xamãs-, nos damos conta de que a luta por um mundo justo e mais livre é possível. E até necessário, diria eu.

Luciano Martins Costa, jornalista e escritor paulista, diz que o Acre é um estado de espírito.

Mais ou menos o mesmo. O Acre está suspenso entre o céu, a terra e a água, como numa rede, sobre a folhagem da selva. O Acre é poesia, e também dureza. Como a mãe natura.

Após 15 ou 20 anos, mudou de modo signficativo a percepção da sociedade européia em relação à Amazônia?

Eu creio que deve ter mudado muito. A mensagem –se assim se pode dizer- de nossa série documental, era que sem futuro para o ser humano, não haveria futuro para a selva. No Ocidente, ou melhor, na Europa, deixou-se de considerar a Amazônia como o jardim do Éden para pensar nas pessoas que nela habitam e que são os primeiros que têm que preservá-la, com a ajuda de todos, claro está. Se não há consumidores de madeira no Primeiro Mundo, não se saqueiam as florestas. Sim, eu creio que houve mudança. Tudo está conectado e tanto afetam a Amazônia as decisões a nível mundial, como influi na política mundial o que acontecesse na Amazônia. Houve muita esperança com os estados onde governava o partido do presidente Lula, e se fizeram muitas coisas. Mas há que seguir avançando.

Qual o trabalho que você realiza atualmente?

Agora mesmo estou trabalhando em uma novela sobre El Bosco e em uma série documental na África, com músicos e pintores. Acabo de terminar uma novela sobre o bandido norte-americano Billy The Kid e os hispanos. Na primavera, me editam outra novela sobre uma figura histórica e desconhecida da guerra civil espanhola. Não sofro de tédio, me falta tempo.

Grato pela entrevista.

Altino, uma coisa a mais. Tenho um livro que é uma viagem pela Amazônia, “La Serpiente Líquida”. Percorro desde o rio Ucayali, no Peru, até Belém, no Brasil. Uma parte importante do livro se passa no Brasil, desde Boa Vista até Manaus. Foi o último livro que publiquei, uma mistura de viagens, histórias, lendas, xamãs, ritos, enfim, Amazônia em estado puro. Falo de muitos amigos, dentre eles, Joaquim Marinho, de Manaus, um dos mortais que possui em sua coleção um selo da República Independente do Acre.

Com a palavra, a novelista acreana Glória Perez

“Altino, eu consultei o Alfonso Domingo para saber se Maria Alonso era personagem histórico, para poder manter o nome. Era. Por isso mantive.  Mudei o carater dela. Passou a ser uma prima dona em toda a extensão da palavra, caprichosa, impetuosa, quando no livro era amorosa, doce, o amor verdadeiro de Galvez. Se você leu, deve ter percebido. O certo é que o trabalho do Alfonso foi fundamental para que eu pudesse traçar um Galvez mais perto do real, uma vez que ninguém nesse país pesquisou sobre ele. Nunca escondi isso. Falei exaustivamente dele em todas as entrevistas. O livro está citado nos créditos da minissérie e não foi por falta de sugestão minha que não o lançaram no Brasil. Muitas vezes declarei o quanto seria importante para o Acre que se fizesse esse lançamento. Enfim, na hora em que isso for feito, faço questão de ser a primeira a declarar de novo a importância desse livro, não apenas para a minissérie, mas para o resgate da própria história do nosso Estado e do nosso país. Que bom que você esteja batalhando por isso. Conte comigo”.

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agosto 12, 2008

Novo álbum de João Donato tem participação de Zeca Pagodinho

Altino Machado às 1:11 am

João Donato e Zeca Pagodinho se conheceram na semana passada durante encontro inusitado.  Ambos estão gravando seus respectivos CDs em salas separadas, claro, do estúdio Companhia dos Técnicos, no Rio de Janeiro.

Zeca chegou ao estúdio com a última edição da revista de bordo da TAM, na qual João Donato é personagem de uma entrevista em que aparece de pijama com trenzinhos na estampa. E declara:

- De jazz a samba, tudo é uma questão de “tucaticatuca”.

Zeca disse que depois de ler a entrevista ficou curioso por conhecer Donato e que o encontro no estúdio teria sido uma feliz coincidência.

Donato mostrou a Zeca a gravação da música que lançou o compositor acreano nos Estados Unidos, em 1962 - “Sambou, Sambou”, um tema que depois ganhou letra de João Mello.

Zeca aceitou o convite de Donato para cantar “Sambou, Sambou”, no CD que seria todo instrumental.

O lançamento será no próximo janeiro pela Acre Musical, o selo de João Donato. Ele disse que a interpretação de Zeca é recheada de improvisos, rimando tamborim com anjo serafim.

Aos 74 anos de genialidade, Donato já decidiu:

- Tô correndo agora porque, em dezembro, vou passar pelo menos 15 dias de papo pro ar, no Acre.

Fotos:  Divulgação/Denise Schultz

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agosto 11, 2008

“A população tem que pressionar e exigir”

Altino Machado às 9:31 am

No mês passado, o procurador da República Anselmo Cordeiro, 27, protagonizou um feito inédito do Ministério Público Federal (MPF) no Acre: acompanhado de fiscais do Ibama e agentes da Polícia Federal, comandou uma operação destinada a conscientizar fazendeiros e trabalhadores rurais no interior do Acre sobre os riscos e as conseqüências legais decorrentes de queimadas na região.

Ele visitou propriedades na estrada AC-90 e na BR-317, nos municípios de Capixaba, Brasiléia, Epitaciolândia e Assis Brasil, bem como na BR-364, no trecho entre Bujari, Sena Madureira e Manuel Urbano. Foi bem recebido por todos, mas deu o recado de que está disposto a enfrentar com rigor os responsáveis por queimadas de pastagens e florestas no Acre durante a estação seca da Amazônia, que ocorre de junho a setembro.

Cordeiro nasceu em Ribeirão Preto (SP), formou-se em direito pela Universidade de São Paulo e ingressou no MPF há um ano. Ao prestar concurso público, escolheu o Acre para trabalhar. Antes disso, exerceu cargo de procurador da Fazenda Nacional, em Brasília.

O Procurador Regional dos Direitos do Cidadão surpreende pela sua juventude diante de tão alto posto do poder público e, principalmente, pelo compromisso demonstrado desde que chegou ao Estado. Teve atuação destacada, por exemplo, na recente proibição de desmate e queima no Acre no período de 70 dias.

Leia a entrevista:

Recentemente, em atitude inédita do Ministério Público no Acre, o senhor percorreu várias regiões do Estado advertindo produtores rurais sobre a queima de florestas e pastagens. O que o senhor observou?

O interessante foi chegar perto do povo e ver qual o perfil das pessoas que estão em condições ou não de queimar. Pude observar que muitas vezes não é só uma questão de cultura do uso do fogo, de uma falsa crença de que não existiria outro método, mas, também, uma crença de que isso é normal, uma ausência de criminalidade da conduta. Embora a operação envolvesse órgãos públicos de persecução criminal, deu para perceber que as pessoas tinham satisfação de estar nos recebendo. As pessoas têm muito a sensação de ausência do estado. Quando elas vêem que existe autoridade indo até elas pessoalmente, para explicá-las que o uso do fogo é proibido e qual o risco dessa conduta, de certa forma se sentem prestigiadas. Essa receptividade para mim foi surpreendente, pois imaginei que não houvesse.

Durante o anúncio da proibição do uso do fogo, o senhor disse que caminhamos para abolir essa prática em definitivo na Amazônia. Por que?

Estou convencido. Qualquer cientista sério nos fala sobre as mudanças climáticas, que é uma questão planetária, mas representa uma ameaça especial à floresta. O clima da floresta tende a mudar e isso tende a mudar a própria vegetação, com ou sem causa dos agentes locais. O professor Foster Brown costuma falar da importância de uma árvore nesta região, para proteger o solo e as nascentes de água. O uso do fogo é bastante perigoso e, o que é pior, combinado com uma situação climática, pode ter conseqüências muito graves. Antes havia o entendimento de que o fogo não conseguiria invadir a floresta. Isso pode ser válido para o passado, mas vai chegar o dia em que o fogo vai penetrar na floresta e as conseqüências podem ser danosas. Nós não temos condições de saber quando isso vai acontecer, pois sou um aplicador do direito, mas posso me valer do princípio da precaução, que é um princípio da nossa ordem jurídica. Então, existindo o risco, e esse risco é real, temos que tentar evitá-lo. Além disso, não está em jogo apenas o bem ambiental em si. Nós temos que tentar proteger também o patrimônio e a vida das pessoas. Existe um risco e a cada ano esse risco é maior, pois rios como o Acre estarão mais secos. Se existe a mudança climática e a floresta está em perigo, o futuro vai demandar instrumentos tecnológicos para substituir totalmente o uso do fogo, seja para uso agrícola ou pastoril.

Ao proibir desmatamento e queima, além do cancelamento das autorizações que foram emitidas, não estão sendo sacrificados os pequenos produtores que dependem do uso do fogo?

Nós precisamos mobilizar a sociedade, mostrar para o grande e o pequeno agricultor, que essa alternativa do fogo precisa ser excluída. Nós não podemos ficar postergando anos após anos. Permitindo isso, estaremos sendo irresponsáveis com a vida, com a saúde das pessoas. Nós estamos, juntamente com o Ministério Público Estadual, tentando identificar a política pública que o Estado necessita para fins de aproveitamento do solo alternativo ao fogo, isto é, aquilo que o Estado demanda e aquilo que, de fato, está sendo feito. Todas as pessoas que visitamos mencionaram a necessidade de maior apoio tecnológico e de qualificação do poder público para poder deixar de lado o uso do fogo. Eles pediram isso e assim se deu um compromisso nosso para com eles. Lógico que isso demanda política pública e política pública não faz você judicializar isso. Sabemos que é uma medida que precisa ser construída. Nós vamos trabalhar em defesa da maximização das políticas públicas existentes, para que os pequenos possam ter condições de aproveitar o solo já degradado sem o auxílio do fogo. Enquanto isso, não podemos deixar que as pessoas permaneçam na inércia, com aquela velha alegação de que é impossível o uso do solo sem o uso do fogo. Produtores devem exigir do poder público a política que merecem. Deve partir da população a pressão para que o poder público preste essas políticas que resultem no fim do uso do fogo. Inversamente, existem muitas facilidades.

O senhor acredita que essa percepção é crescente na sociedade?

O produtor até agora tem duas alternativas: ou ele usa ou não usa o fogo. E se ele não usa, vai forçar o poder público a prestar aquilo que lhe é de direito: mecanização, alternativas sócio-econômicas, extensão rural. Essa é uma questão que o Estado precisa assumir. A população tem que pressionar e exigir do poder público tudo isso. A pressão popular tem mais força que a pressão de um procurador ou de um promotor de justiça. A questão é: se queremos abandonar o uso do fogo, temos que partir para essas políticas públicas. Isso só acontecerá se houver pressão da população.

Além da proibição do uso do fogo, quais outras questões demandam atuação do Ministério Público Federal no Acre?
Sem pormenorizar numa lista, creio que as questões ambientais e da saúde indígena demandam uma participação efetiva do Ministério Público Federal em toda a região Norte.

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agosto 6, 2008

Viagem de luxo na Amazônia Peruana

Altino Machado às 1:39 pm

Apenas quem já suportou o ambiente hostil da Amazônia, sobretudo os ataques dos insetos e a modorra decorrente do calor e umidade, é capaz de imaginar o quanto vale encontrar na floresta um modesto tapiri, coberto de palha e sem paredes, para pernoite e alento da matéria sofredora, ao final do dia, após percorrer as belezas naturais da gigantesca região.

O homem simples da Amazônia sabe que não tem preço o abrigo de uma choupana, onde pode atar a rede ou dormir no assoalho de paxiúba para seguir viagem ao amanhecer do dia seguinte. Isso pode até não ter preço, mas, em Iquitos, no Peru, viajantes e aventureiros de diversas partes do mundo chegam a pagar US$ 700,00 para pernoitar no barco Aqua,  durante viagens pelos rios e florestas da Amazônia Peruana.

São turistas ricos, principalmente da Ásia, Europa e Estados Unidos, ávidos por expedições organizadas no primeiro cruzeiro de luxo daquela região, navegando no Amazonas, o mais largo, caudaloso e extenso rio do planeta.

A localização da nascente, a cerca de 1 mil km no sentido sul da cabeceira do rio Marañon, faz com que o rio Amazonas, com 6.850 km de extensão, supere o Nilo, com 6.695 km, também em extensão. E o barco ancora em diferentes pontos do rio e seus passageiros exploram áreas remotas da floresta, como a Reserva Nacional de Pacaya-Samiria.

O Aqua é luxo só. Foi concebido pelo famoso arquiteto e designer peruano Jordi Puig. Conhecido como um dos melhores designers de interior de seu país, tendo seu trabalho sido destacado duas vezes na revista britânica “Wallpaper”, Puig deu o seu toque especial ao belo Aqua.

O barco mede 30 metros de comprimento e ostenta 12 suítes luxuosas, com 21 e 22 metros quadrados, cada uma com duas camas, ar-condicionado, janela panorâmica e sala de estar. Quatro das suítes são interligadas para abrigar famílias.

Tarifas e descontos

Aqua tem comunicação por rádio e telefone por satélite. Seus hóspedes podem gastar, sem pressa, o tempo livre, pois existe restaurante, bar, deck e sala de observação. Existe, ainda, uma pequena loja com todos os apetrechos necessários para quem se aventura a conhecer a Amazônia sem abandonar o conforto.

Os banheiros dispoem de água quente 24 horas por dia. Embora haja água suficiente para uso diário, produzida pelas instalações de tratamento do barco, os passageiros são orientados a economizá-la, na medida do possível.

- Estamos fazendo uma operação para tratamento e utilização responsável da água e dos resíduos a bordo, bem como de baixos níveis de emissões de gases dos motores  - disse a gerente de marketing e vendas Dalia Gibu ao Blog da Amazônia.

O Aqua começou a operar em março deste ano, mas ainda não recebeu a bordo gente famosa. A tripulação conta com 17 pessoas e três guias que falam inglês e espanhol. Traslado até o barco, comidas e vinhos, caminhadas e autorizações para visitar a reserva Pacaya-Samiria estão incluídos nos preços cobrados de quem quer ter direito à confortável aventura.

Os passageiros podem escolher roteiros de três, quatro ou sete noites. Para roteiro de sete noites, por exemplo, cada pessoa desembolsa US$ 4,5 mil (suíte) ou US$ 4,9 mil (master suíte).

Apenas crianças a partir de sete anos de idade podem viajar no Aqua. Com menos de 12 anos, as crianças recebem desconto de 20% sobre a tarifa, bem como o adulto que ocupar o sofá-cama. Uma terceira pessoa, que seja criança com menos de 12 anos, no sofá-cama, paga apenas US$ 350 por noite.

“Propina” de US$ 30,00

Nas três primeiras noites, os passageiros navegam até a nascente do Amazonas, adentram no rio Marañon e visitam a reserva Pacaya-Samiria. Atividades: pesca, observação da nascente do Amazonas, dos botos-vermelhos, além de uma visita à aldeia Puerto Miguel.

Nas demais noites, observam vitória-régias, percorrem o rio Ucayalli, excursionam para observar jacarés, caminham para visitar a aldeia Hatum Posa, realizam expedição noturna ao rio Pacaya, pescam e finalmente visitam Iquitos.

Os passageiros permanecem aproximadamente duas horas em cada lugar, contando com tempo suficiente para explorar e tirar fotografias da exuberante vida salvagem da Amazônia Peruana.

A direção do Aqua geralmente é consultada por turistas sobre qual é o valor da propina (gorjeta) ideal para os guias e a tripulação.

- A qualidade do serviço deveria determinar a quantidade das propinas - assinala o manual de informações distribuído aos passageiros. O manual sugere a cada um o valor de US$ 20.00 a US$ 30.00 por dia, para ser dividido com a tripulação, e entre US$ 7.00 e US$ 10.00 por passageiro, por dia, para os guias.

O mesmo manual assinala que é apenas uma sugestão, pois “las propinas” são uma decisão “muy pessoal” que podem ser pagas com cartão de crédito ou depositadas numa caixa assinalada para tal fim dentro do Aqua.

Respeito ao meio-ambiente

Alguns produtos são realmente indispensáveis durante as excursões: chapéu, de preferência de aba grande para proteger o colo, bloqueador e protetor solar, repelente contra insetos, máquina fotográfica, óculos de sol, água, camisa de manga larga e binóculos. Quem esquece de levar alguns desses artigos paga caro para adquirí-los na chicosa boutique do Aqua, que só abre em caso de necessidade.

Nas expedições do Aqua, cada grupo de 10 visitantes é conduzido por um guia. Existem medidas de segurança para reduzir o impacto aos frágeis ecossistemas, além de proporcionar privacidade e vida solitária em Pacaya-Samiria. Um paramédico a bordo do Aqua está disponível para atender aos passageiros.

Os hóspedes são instruídos a seguir os caminhos indicados pelos guias, a não perturbar nem retirar plantas nativas e animais, não levar comida e nem deixar qualquer tipo de lixo na reserva. Devem usar roupas de cores claras e evitar o uso de jóias.

Enquanto o Aqua navega em direção ao local onde nasce o rio Amazonas, as maravilhas da paisagem se revelam aos hóspedes. Eles podem explorar, a partir de sete barcos de apoio, os afluentes e ecossistema na floresta inundada.

A reserva Pacaya-Samiria, localizada na bacia onde nasce o Amazonas, abrange uma área de mais de 2 milhões de hectares e abriga uma fauna silvestre extraordinária. Os passageiros, claro, se encantam com as centenas de espécies, incluindo algumas ameaçadas de extinção,  como o boto, o jacaré-açu e a lontra gigante.

No porto de Iquitos

Quem está a bordo come e bebe com requinte. Existe um cardápio de delícias típicas peruanas com uma seleção de vinhos sul-americanos. O menu tem a assinatura de Pedro Miguel Schiaffino, um dos mais renomados chefs do Peru, ex-chef de “James Beard House”, em Nova Iorque.

Refeições especiais para crianças e vegetarianos podem ser solicitadas, mas adultos necessitam especificar suas restrições dietéticas. Sucos de frutas tropicais, refrigerantes, água e vinho com as refeições estão incluídas nas tarificas do cruzeiro amazônico.

O clima em Iquitos é quente e úmido,com uma temperatura máxima, em média anual, de 31ºC (88ºF) e uma mínima de 21ºC (70ºF). A estação seca, de junho a novembro, e o período chuvoso, de dezembro a maio, se caracterizam por mudanças na flora e flora, bem como no clima. As condições do rio mudam com as estações, mas cada estação agrada de de modo diferente aos visitantes.

Durante a época das chuvas, os rios e seus afluentes ficam cheios, permitindo que os barcos naveguem até a floresta inundada. Na época da seca, a água do rio diminui, mas belas praias surgem na paisagem.

As expedições no Aqua ocorrem durante todo o ano e cada viagem pode ser considerada única e atrativa dada a mudança das estações. Os roteiros estão sujeitos a alterações devido as condições meteorológicas e de sazonalidade. Os níveis dos rios e seus afluentes podem variar, assim como os tempos de navegação, por isso, as excursões podem ser alteradas, segundo o critério do comandante.

- As comunidades nos recebem muito bem e estamos tentando apoiá-las e informá-las sobre as vantagens e os benefícios que podem obter com o desenvolvimento do turismo sustentável na região - acrescenta Dalia Gibu.

A viagem ao rio Amazonas começa no porto de Iquitos, para onde não existe vôos diretos diários a partir de Lima, a capital do Peru. Os vôos até lá duram cerca de uma hora e vinte e cinco minutos. Para chegar e partir de Iquitos, o melhor é tomar os vôos semanais da Lan Peru, aos sábados e terças-feiras, por volta das 17 horas.

Zugaro

Francesco Galli Zugaro é fundador e proprietário da Aqua Expeditions, a primeira companhia a fazer cruzeiro de luxo na Amazônia Peruana. Ele trabalhou como operador de navio-butique nas Ilhas de Galapagos e sonhou por muito tempo em levar os viajantes à uma das regiões mais bonitas e remotas do mundo.

Zugaro, que reside no Peru e tem experiência profissional na indústria de viagem, tem habilidade em ambientes multiculturais e fluência em quatro idiomas. Ele Já residiu em oito países diferentes.

Clique aqui para obter mais informações sobre o Aqua Expeditions.

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