Terra Magazine

fevereiro 9, 2010

Vídeo inédito mostra ave descoberta no Brasil

Altino Machado às 12:40 pm
no Brasil só é encontrado no Acre

Flautim-rufo: no Brasil só é encontrado no Acre

O Blog da Amazônia é o primeiro veículo a registrar em vídeo e fotos, no Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre, em Rio Branco, a captura de um flautim-rufo (Cnipodectes superrufus).

Descrita pela ciência há dois anos, no Brasil a espécie foi encontrada até agora apenas no Acre, onde o ornitólogo Edson Guilherme faz anilhamento dela há mais de 10 anos.

Munida de equipamentos sofisticados, uma equipe norte-americana fracassou recentemente no Acre na tentativa de documentar com exclusividade a captura do flautim-rufo.

Além do Acre, o flautim-rufo é encontrado nas regiões de Puerto Maldonado, no Peru, e de Pando, na Bolívia.

No Brasil, existem apenas três espécimes coletados e taxidermizados, oriundos do Acre, que estão depositados no Museu Emílio Goeldi, em Belém (PA).

Os demais espécimes, capturados em território peruano, estão guardados em museus da Louisiana (EUA) e de Lima (Peru).

Numa área de 100 hectares de capoeira, com auxílio de estudantes do curso de biologia, o ornitólogo tenta saber quanto tempo vive a longo prazo cada espécie. A partir disso, espera desenvolver ações de conservação para as aves que vivem em fragmentos isolados de floresta.

- A probabilidade dessas espécies entrarem em extinção é muito pequena porque o Acre só tem 10% de sua área desmatada e 50% já são áreas protegidas [terras indígenas e unidades de conservação] - afirma.

Edson Guilherme considera o Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre uma área potencialmente turística para atrair milhares de pessoas no mundo que se dedicam à observação de aves.

- Aqui, nós identificamos pelo menos 15 espécies endêmicas da Amazônia Ocidental, ou seja, os amantes de aves que têm interesse em observá-las, encontram um parque dentro da área urbana de Rio Branco, perto dos hotéis. Elas podem observar essas aves que são raras em outros locais, pois temos aqui uma pequena amostra das aves que são endêmicas da Amazônia Sul-Ocidental.

Edson Guilherme ganhou notoriedade no ambiente acadêmico no ano passado ao concluir o doutorado. Após quatro anos de pesquisas, o ornitólogo revelou o registro inédito no Brasil de cinco espécies: o flamingo-da-puna (Phoenicoparrus jamesi), o pica-pau-anão (Picumnus subtilis), o arapaçu-de-tschudi (Xiphorhynchus chunchotambo), o caneleiro (Pachyramphus xanthogenys) e o flautim-rufo (Cnipodectes superrufus).

De acordo com o ornitólogo, o grande número de espécies registradas no Acre corrobora a idéia de que o sudoeste amazônico é, de fato, uma região de alta diversidade avifaunística.

Guilherme registrou 655 espécies de aves nos limites territoriais do Acre. Elas representam mais da metade de todas as espécies de aves registradas na Amazônia.

- Se levarmos em consideração somente as espécies que ocorrem na margem sul do complexo Solimões-Amazonas, a avifauna encontrada no Acre corresponde a 73,6% das espécies registradas para esta região zoogeográfica - assinala.

Espécie foi descrita pela ciência há dois anos

Espécie foi descrita pela ciência há dois anos

A avifauna do Acre é composta principalmente por espécies residentes, além das espécies migratórias e invasoras. A maioria (75,5%) das espécies registradas pela primeira vez para o Acre foi de espécies residentes.

Das 1.882 espécies de aves confirmadas para o Brasil, 22 só foram registradas no Acre, o que indica a grande singularidade da avifauna do Estado. Segundo Edson Guilherme, dentre os Estados da Amazônia brasileira, apenas Roraima teve sua avifauna inventariada recentemente.

Foram registradas 741 espécies em Roraima, que é um número 11,4% maior que o registrado no Acre. Duas causas ao menos podem explicar as diferenças entre a riqueza de espécies detectadas nos dois estados.

- A primeira delas é que Roraima possui uma extensão territorial 32% maior que a do Acre. Já a segunda, e mais importante, é que Roraima abriga um número significativo de fitofisionomias não encontradas no Acre, tais como: florestas secas, florestas montanas, os tepuis e as savanas - analisa o ornitólogo.

Edson Guilherme acredita que a avifauna do Acre poderá sofrer um acréscimo de até 99 espécies no futuro. Somando‐se os registros já confirmados com aqueles não confirmados e os de provável ocorrência, estima‐se que o número total de espécies de aves no Acre deve ficar em torno de 754.

- Se estas predições se confirmarem, o Acre, apesar da sua área reduzida, terá uma das avifaunas mais ricas entre todos os estados brasileiros - conclui o pesquisador.

Flautim-rufo na malhadeira

Flautim-rufo na malhadeira

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fevereiro 7, 2010

Jovens não têm a menor idéia do horror que foi a ditadura militar no Brasil

Altino Machado às 10:30 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

Quando cheguei, às duas da tarde, ela já estava lá, esperando. Não me conhecia e me olhou, obliquamente, me estudando como se eu fosse um fungo bolorento: quem é esse cara? Não havia viva alma no auditório da Biblioteca Pública, na Rua Barroso, em Manaus, naquele 19 de abril de 1978. Nós dois éramos os palestrantes num evento sem público sobre o Dia do Índio, organizado pelo artista plástico Álvaro Páscoa, da Fundação Cultural do Amazonas. Foi ele quem nos apresentou.

Geny Brelaz de Castro, formada pela Universidade Federal de Pernambuco em Farmácia e Bioquímica, em 1970, é a primeira índia diplomada do Brasil. Estuda fungos, comestíveis uns, venenosos outros, mas também pesquisa parasitas agressores -alguns mortais- que infectam gente, animais e plantas, e apodrecem as árvores. O outro palestrante -esse locutor que vos fala- era, então, professor da Universidade Federal do Amazonas, com uma tese inconclusa de doutorado em Paris sobre história indígena.

- Cadê o público? Quem é que vai sair de casa com esse calor infernal para ouvir falar de índio, numa hora dessas, depois de almoçar jaraqui frito com baião-de-dois? - indaguei apreensivo.

Álvaro Páscoa deu uma baforada no cachimbo e nos tranqüilizou. Já estava tudo agendado com o professor de Educação Moral e Cívica da Escola Técnica Federal, chamado Cauby, um pomposo nome de origem tupi. No horário de sua aula, ele traria os alunos de várias turmas, com controle da lista de presença.

Efetivamente, arrastados compulsoriamente, os alunos lotaram o auditório. Cauby, um sargentão, fechou as portas para ninguém fugir. Não era preciso. Geny falou primeiro e deu um show. Quem a conhece sabe do que estou falando. Ela tem tal domínio de palco e de microfone que bota no chinelo a Hebe Camargo. Cativou os meninos. Falou nas toxinas presentes na farinha que eles haviam acabado de comer, nos hábitos alimentares, nas bebidas indígenas, nas plantas medicinais. Contou histórias. Enfim, lavou a égua.

Especialista em micologia, Geny, que é da nação Munduruku, incorporou a ciência oral milenar do seu povo ao saber escrito aprendido na universidade. Ela sabe tudo sobre fungos. Pesquisou a farmacopéia indígena, os fungos na preparação do tarubá -uma bebida indígena- e os microorganismos em farinhas da Amazônia. Já era naquela época uma pesquisadora respeitada com participação em congressos e artigos publicados no Brasil e no exterior. Foi aplaudidíssima pelo auditório.

Falar depois dela era um desafio. Tentei dar meu recado. Apoiado em documentos, descrevi o desaparecimento de muitos saberes, devido ao massacre das nações indígenas, uma das maiores catástrofes demográficas da história da humanidade. Fui aplaudido ruidosamente. No debate, o professor Cauby quis se exibir para os alunos. Discordou do termo “nação indígena”, que eu havia empregado, considerando-o inapropriado e perigoso.

- Só um traidor da Pátria chama índio de nação - aloprou.

Sua intervenção, aplaudida com assobios e gritos de apoio, me intimidou. Esclareci: quem chamou os índios de “nações” foi o português, não era invenção minha, estava na documentação da época. O termo “nação”tinha, inclusive, significado mais amplo, pois era também usado como coletivo. Recitei versinho cantado pelas crianças lusas:

- Aranha aranhão, sapo sapão, bichos de toda nação.

Fui saudado por uma onda de aplausos. Ai entendi que qualquer discurso seria aplaudido. Foi o que aconteceu no duelo que se seguiu.

Cauby:

- Não existem nações indígenas. Somos todos brasileiros. Quem fala em nações indígenas quer dividir o Brasil, que é uma só nação, uma única pátria - disse Cauby. (Clap, clap)

Eu:

- Conversa fiada. Nação é uma coisa, estado é outra. Comete erro primário quem confunde conceitos tão diferentes. Um estado pode abrigar muitas nações. (Clap, clap).

Cauby:

- Exatamente, é o caso da União Soviética. Só os comunistas pensam assim, porque querem minar os alicerces da Pátria. (Clap, clap).

Eu:

- Tolice. A Suíça é um estado plurinacional. Lá, tem mais nações do que buracos em queijo suíço. A existência de tantas nações não dividiu o estado suíço, não anulou sua natureza capitalista. Ao contrário, fortaleceu. (Clap, clap).

No final de cada intervenção, uma onda de aplausos para o orador da vez. Quem falasse por último, ganhava. A Geny só ali, na moita, calada, observando tudo. Foi aí que Cauby, que havia feito o curso da Escola Superior de Guerra, engrossou o pirão e disparou o tiro de misericórdia, com um - digamos assim - argumento triunfante:

- Hoje, não é só Dia do Índio. É também Dia do Exército Brasileiro e da vitória na primeira Batalha de Guararapes. Você não homenageou o Exército. Você é comunista.

Fiquei gelado. Hoje, parece bobagem, mas naquele contexto era uma denúncia grave. Afinal, um ano antes, de volta do exílio, foi essa acusação que me levou a passar três semanas preso, em Manaus, quando fui encapuzado e maltratado. (Anexo 01) Estávamos em plena ditadura militar, com um governador biônico, Enoch Reis, nomeado pelo general Geisel, que por sua vez também não havia sido escolhido pelo voto popular.

Os jovens de hoje, em sua maioria, não têm a menor idéia do horror que foi a ditadura. Não havia liberdade de expressão e de associação. O povo não podia votar em presidente, governador, prefeito. A censura impedia que as idéias circulassem nos jornais, no teatro, na música, no cinema, nos livros, na sala de aula. Professores, estudantes, jornalistas, artistas, músicos, cineastas e sindicalistas eram presos não pelo que fizeram, mas pelo que disseram ou pensavam e até pelo que achavam que você tinha a intenção de pensar.

Em todas as universidades, havia uma Assessoria Especial de Segurança e Informação (AESI), com delatores pagos com bons salários para dedurar quem expressasse opinião contra a ditadura. Na Universidade do Amazonas, seu chefe era José Melo de Oliveira. Tenho em mãos cópia de dois ofícios circulares assinados por Melo, em 1974, e enviados a todas as faculdades e institutos. Um deles pedia os nomes das pessoas que pretendiam organizar “uma exposição de livros soviéticos”, o outro exigia controle sobre a formatura de alunos e até sobre o discurso do orador da turma.

Depois disso, ele fez carreira na administração publica, foi Secretário de Educação do governador Amazonino Mendes, e ficou conhecido como José Melo Merenda, por causa do desvio de recursos da merenda escolar. Atualmente, é Secretário de Estado do Governo Eduardo Braga (PMDB, vixe, vixe!). (Anexo 02).

Não podemos esquecer, também, que em Manaus, no período de 1975 a 1979, funcionou um centro de formação, que recrutava e treinava agentes especializados em espionagem, infiltração, repressão política e torturas, financiado pela Operação Condor, conforme comprovam documentos encontrados nos arquivos da polícia política paraguaia, abertos ao público pela Justiça de lá (O Globo, domingo, 7/05/2000, pg. 48)

Há quem, hoje, defenda a ditadura militar. Depois de dois artigos contra a tortura publicados aqui nesse espaço, recebi cartas de alguns leitores com um argumento bizarro: a ditadura foi necessária, porque se os comunistas vencessem, eles aboliriam a liberdade de expressão, suprimiriam as eleições, prenderiam seus opositores, torturariam, etc. Ou seja, para impedir a implantação de um hipotético regime totalitário se fez tudo aquilo que supostamente o inimigo faria: prisão, tortura, censura, etc.

Ih, meu espaço está terminando! E a Geny, como foi que ela me salvou? Ah, a Geny foi genial, leitor (a)! Quando o sargentão me emudeceu com aquela acusação, Geny pegou o microfone, piscou um olho discretamente pra mim e fez uma defesa tão delirante quanto à peça de acusação, dando um xeque mate no Cauby:

- Se o palestrante é comunista, então eu também sou comunista e o Comando Militar da Amazônia (CMA) está cheio de comunistas, porque tudo que ele disse aqui, eu ouvi foi da própria boca dos generais, lá dentro do quartel (clap, clap, clap, claps).

Cauby ficou bestificado. Geny tinha autoridade pra falar. Ela havia acabado de receber uma medalha do CMA, por ter descoberto algum fungo lá aquartelado. Depois disso, fez concurso para professora da UFAM, onde foi Chefe do Laboratório de Patologia, ganhou muitas medalhas, inclusive a do Mérito Universitário, foi convidada a palestrar na Índia, na Argentina, na Europa, França e Bahia, se aposentou, mas continua ativa, pesquisando, é feliz e vive para sempre no meu coração: a solidária e generosa Geny.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

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fevereiro 6, 2010

Agentes penitenciários são presos acusados do assassinato de estuprador

Altino Machado às 12:50 pm

Três agentes penitenciários estão presos em Rio Branco (AC) acusados de envolvimento no assassinato de Magaiver Batista de Souza, de 22 anos, cujo corpo foi encontrado numa cela do presídio de segurança máxima Antonio Amaro Alves, na tarde de 31 de dezembro.

O preso havia confessado ter violentado e assassinado, na noite de Natal, uma enteada de dois anos na comunidade Trincheira, no município de Sena Madureira, a 144 quilômetros da capital. Ameaçado de morte pelos detentos do presídio estadual, Magaiver foi encaminhado para o presídio federal de segurança máxima.

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Após estuprar e matar menina de dois anos, Magaiver gera polêmica

Os agentes Daniel Júlio Ferreira da Mota, Ronney Christian Jerônimo Batista e Arthur de Jesus Nascimento da Silva, do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen), desde então eram investigados pela tortura e assassinato do preso.

De acordo com a polícia, os três agentes penitenciários teriam planejado a violência mediante o uso de cassetete, o que causou lesões cerebrais (traumatismo craniano encefálico) que causaram a morte de Magaiver.

Logo após o crime, baseado em laudo da Polícia Técnica, a direção do Iapen chegou a divulgar uma nota na qual afirmava que o preso havia se enforcado com um lençol. Porém, o atestado de óbito revelou que o estuprador e assassino da criança sofreu traumatismo craniano.

O inquérito ainda não foi relatado, mas as provas foram suficientes para que a juíza Denise Bonfim, da 2ª Vara Criminal de Rio Branco, decretasse as prisões.

- Nós abominamos a tortura. Neste caso, a tortura evoluiu para um óbito, mas o Estado agiu rápido - assinalou o secretário de Drieitos Humanos Henrique Corinto, que acompanhou as investigações da polícia.

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fevereiro 5, 2010

Belo Monte: licenciar, destruir e meter a mão

Altino Machado às 6:25 am

POR OSWALDO SEVÁ

O deputado Carlos Minc (PT), antes de ser ministro do Meio Ambiente, foi Secretário Estadual do mesmo assunto e teve a oportunidade de salvar a Cidade Maravilhosa de se tornar ainda mais um lugar poluído e sujeito a riscos de origem industrial. Mas ignorou as medições dos poluentes atmosféricos que mostravam o ar mais envenenado de todo o país em vários pontos da região metropolitana do Rio de Janeiro; concedeu sem mais delongas as Licenças Ambientais para a Petrobrás e seus sócios construírem, ao lado de dois raros rios ainda limpos que desembocam na Baia de Guanabara, um dos maiores pólos petroquímicos do Mundo, o Comperj. E no lado oposto da cidade, deu licença para a Vale e os alemães da Thyssen Krupp construírem, na beira da Baia de Sepetiba, uma das maiores siderúrgicas do Mundo.

O presidente do Ibama, Messias Franco, homem de confiança dos grandes poluidores de Minas Gerais, onde fez sua brilhante carreira de ambientalista, assumiu o cargo em 2008 para desbloquear as licenças ambientais dos grandes projetos do capital internacional na Amazônia.  Assim fez, dando sinal verde para barrar o maior afluente do rio Amazonas, o rio Madeira, em Rondônia; e agora, em fevereiro de 2010, ambos os iluminados dirigentes abriram oficialmente o caminho para barrar um dos maiores e mais esplêndidos monumentos fluviais do mundo, a Volta Grande do rio Xingu, no Pará, concedendo a Licença Právia para o mal afamado projeto da usina Belo Monte.

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Especialistas questionam estudos e viabilidade da hidrelétrica de Belo Monte

Batalha do Xingu

Aquilo que o ministro esconde e a mídia ajuda, é uma obra que não se compara a nenhuma outra hidrelétrica jamais construída no país, com quatro grandes barragens, duas usinas com turbo-geradores, uma represa no Xingu e cinco pequenas represas em terra firme na região da Rodovia Transamazônica, dezenas de quilômetros de diques para evitar o extravasamento da água represada, mais de 50 mil hectares alagados, outro tanto destruído pelos canteiros de obras, retirada de material rochoso, escavações de largos e longos canais, estradas e outras construções. Mais de 20 mil pessoas serão expulsas de suas moradias, a maioria delas nos bairros de Altamira, cidade que se tornará uma pequena São Paulo, cercada pelo seu próprio esgoto jogado nos vários igarapés que a cruzam antes de desaguar no Xingu, e com inundações cada vez mais destrutivas e putrefatas.

A Licença Prévia (LP) foi concedida à empresa “holding” federal de eletricidade, a Eletrobrás, e os condicionantes exigidos devem ser por ela cumpridos. Só que as empresas que vão de fato construir e operar a usina ainda não são conhecidas, nem mesmo a Eletrobrás será a sócia principal de qualquer consorcio empresarial que venha a ser formado, pois o governo Lula a proibiu de ser majoritária; pode ser até que nem esteja presente na composição acionaria, e que alguma de suas grandes filiais (como Furnas ou Chesf) seja bastante minoritária. Portanto, os capitais privados internacionais ou mesmo de origem nacional que “ganharem” a licitação –pra quem nisso acredita– estão desoneradas de qualquer obrigação ambiental.

No próprio verbete de 11 linhas que informa na LP o escopo da obra licenciada, os iluminados cometeram um ato falho, reconhecendo o que sempre foi escamoteado: que, no trecho abaixo da barragem Pimental, o Xingu terá uma vazão d’água “residual”. E a reafirmação de uma mentira: de que somente dois municípios, Vitoria do Xingu e Brasil Novo, seriam atingidos pelas conseqüências diretas da obra. Negam que os municípios de Senador Porfírio e Anapu, na outra margem da Volta Grande do Xingu, sejam prejudicados.

A licença concedida engloba a) os quatro canteiros de obras das quatro barragens; b) as linhas elétricas de alta voltagem para alimentar esses canteiros; c) as Linhas de Transmissão das duas usinas até as Subestações já existentes da Eletronorte e que permitiriam ligá-las ao sistema brasileiro interligado; d) as jazidas de retirada de rochas, areia e terra para as obras e d) as rodovias de serviço pesado que ligariam os quatro canteiros de obras à Rodovia Transamazônica, que nesse trecho ainda não é hoje asfaltada.

Nas LPs é costume colocar as exigências a serem cumpridas no verso da licença. Nesse caso, o verso tem oito paginas e 40 itens, dos quais seis deles preocupados com os planos para salvar, monitorar e reproduzir as tartarugas, e nenhum deles mencionando as 20 mil pessoas a serem expulsas.

Na exigência nº 32 , o Ibama abre mão de licenciar os alojamentos de trabalhadores, os sistemas de água, esgoto, drenagem e aterros de lixo correspondentes, todas as demais estradas, inclusive as que deveriam ser remanejadas, novos portos necessários para a obra. Esse item cita no meio dessa lista das “sobras” a licenciar,  genericamente,  os “ressentimentos”, que não tem qualquer previsão nem planejamento no Estudo de Impacto Ambiental, nem qualquer compromisso de que os mais de vinte mil cidadãos seriam reassentados.

No item 28, exige-se que o Incra e o Instituto de Terras do Pará se manifestem sobre os “assentamentos a serem atingidos”, ou seja, sobre os colonos que anos antes batalharam e receberam seus lotes e que devem sair. Quem sabe façam com eles o mesmo que estão fazendo as empresas que constroem a usina de Estreito, na divisa do Tocantins com o Maranhão: nada! Que deixem de ser colonos e se virem!

Uma grande novidade é a democracia racial: de tanto os críticos insistirem que milhares de índios moravam na região, fora de Terras Indígenas delimitadas, ou seja, em bairros de Altamira e nas barrancas do Xingu, o Ibama acaba exigindo, no item 19, que sejam feitos programas mitigatórios e compensatórios para essas famílias, “considerando a especificidade da questão indígena, sem no entanto gerar diferenciação de tratamento no âmbito da população da Área diretamente afetada e da Área de Influencia direta”. Ou seja: não ouviram nem consultaram ninguém decentemente, não tem porque fazer com os índios. Não tem compromisso de reassentar ninguém, nem os índios. Todo mundo tem que ser desrespeitado igual e empobrecer igual. Nem o aristocrata pernambucano Gilberto Freyre imaginou tanta igualdade de direitos nessa população miscigenada e pacífica.

Outros itens mirabolantes exigem que seja mantida pela Eletrobrás a qualidade da água nas represas –coisa que raras prefeituras e governos estaduais fazem hoje nos rios, represas e litorais brasileiros- e que seja resolvida de alguma maneira a “transposição das embarcações na barragem Pimental”. Os iluminados supõem naturalmente que as voadeiras de oito a doze passageiros e os pequenos batelões de uma tonelada que ali trafegam atualmente possam ser versáteis a ponto de vencer os pedrais e a vazão “residual” em meio aos pedrais e ilhas abaixo da barragem, depois serem  guinchados gratuitamente por alguma grua e depois navegarem numa grande represa com ondas e ventos fortes, chegando sãos e salvos em Altamira no mesmo dia.

Mas o que certamente algumas ONGs conservacionistas gostaram mesmo nessa LP, está nos itens  24 e 28. O item 24 prevê a criação de três novas Unidades de Conservação Ambiental: uma tipo APA (em geral totalmente fictícia em termos de proteção, pelo Brasil afora) para as tartarugas no trecho seco da Volta Grande, outra “de Preservação permanente” numa área a escolher, que tenha cavernas importantes – cuja existência sempre foi rechaçada no EIA ; e outra, “de Uso sustentável” para conservar o ambiente dos pedrais rio acima até a foz do maior afluente do Xingu, o rio Iriri -exatamente a área prevista para a próxima destruição hidrelétrica, a usina Babaquara, agora chamada “usina Altamira”, para puxar o saco dos políticos e comerciantes da cidade. O item 28 exige a instalação, pela a Eletrobrás, de duas bases de fiscalização ambiental, flutuantes e completamente equipadas. Quem sabe essas bases servirão para fazer o que fazem as lanchas e camionetes adquiridas pelas empresas que estão construindo as obras no rio Madeira, em Rondônia: policiar e intimidar os pobres moradores ribeirinhos que insistem em continuar pescando e plantando mandioca e feijão para comer.

O que o ministro e o presidente do Ibama realmente gostaram foi de anunciar o “preço” da licença, segundo eles, a modesta quantia de R$ 1,5 bilhão, isto é, mais de 10% do valor total de investimento que o governo está anunciando ou menos da metade do que os empresários e estudiosos calculam. Nesse caso, o ministro nem esperou que a Eletrobrás fizesse a conta direitinho e apresentasse o “Valor de Referência (VR) para fins de Compensação Ambiental e as informações necessárias ao cálculo do grau de Impacto (GI) conforme o Decreto 6.848, de 14.05.2009.”

Não sabemos se o Messias do Ibama pretende obter cargos eletivos e precisaria de fundos para a campanha, mas o ministro Minc certamente sim, pois vai se desincompatibilizar ainda esse mês para concorrer. Para mim e todos os que ajudaram o Belo Monte a morrer duas vezes e ainda batalhamos para que o rio Xingu e seus moradores sejam salvos da destruição e da pobreza, e para que  o dinheiro publico seja salvo da maior expropriação já inventada, esse  deputado dos coletes coloridos não merece em 2010 ser eleito nem síndico de prédio na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Oswaldo Sevá é professor no Departamento de Energia e na Pós-Graduação em Antropologia da Unicamp, estudioso de hidrelétricas há 35 anos  e do projeto Belo Monte  há 22 anos.

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fevereiro 4, 2010

Rio Branco será 1ª capital com cobertura integral de internet grátis no país

Altino Machado às 2:15 pm
Governador Binho Marque

Governador Binho Marques: "o Acre não será mais o mesmo"

O governo do Acre lançou na manhã desta quinta-feira, 4, em Rio Branco, o programa Floresta Digital, que possibilitará o acesso da população urbana dos 22 municípios à internet com banda larga até o final do ano. O governo também anunciou que vai começar neste ano a distribuição de 9 mil netbooks aos estudantes do terceiro ano do ensino médio.

Com mais de 150 mil quilômetros quadrados, sendo 98% deles cobertos por mata virgem, o Acre tem 700 mil habitantes. O governo estadual investiu R$ 30 milhões no Floresta Digital, cujo sinal de internet banda larga gratuita alcança inicialmente todo o perímetro urbano da capital. Os demais municípios terão cobertura total a partir de setembro, o que inclui 100 comunidades isoladas da região.

- O máximo que a gente for capaz de imaginar e sonhar será muito pouco diante do que vai acontecer no Acre a partir do Floresta Digital. Nós estamos criando algo confiantes na capacidade da molecada espalhada no Acre inteiro. Estamos consolidando o maior projeto de inclusão digital do país - afirmou o governador Binho Marques (PT).

Para viabilizar o Floresta Digital, o governo estadual estabelceu parceria com a Agência de Comércio e Desenvolvimento dos Estados Unidos (USTDA). O estudo técnico do programa, que custou US$ 573,8 mil, foi financiado integralmente pela agência norte-americana.

- Além de gratuito, o acesso à internet no Acre não sofrerá qualquer tipo de restrição. A única exigência que faremos é um cadastro de todos os usuários do serviço. Investimos R$ 30 milhões, mas, a partir de agora, a cada mês, estaremos economizando R$ 1 milhão - disse o secretário da Fazenda Mâncio Cordeiro.

O objetivo do Floresta Digital é possibilitar acesso à internet com banda larga em qualquer local do estado. A cobertura será de 100% da área, inclusive nas comunidades mais isoladas dos centros urbanos.

- Não há outra experiência desse porte em nenhum lugar do mundo - acrescentou o secretário Mâncio Cordeiro, que coordena a Área de Gestão Pública do Governo do Acre.

A partir de hoje, 100 pontos de Rio Branco estão iluminados com o sinal e as pessoas já estão utilizando seus computadores para acessar a web. Quem não capta o sinal pode adquirir antena direcional para ter acesso ao serviço oferecido pelo governo do Acre.

- A única certeza que tenho é que o Acre não será mais o mesmo a partir do Floresta Digital. Nós precisamos radicalizar no acesso à informação - afirmou Binho Marques.

Os 9 mil netbooks que serão distribuídos aos estudantes do terceiro ano do ensino médio obedecerá a um regime semelhante ao de empréstimo de livros em bibliotecas. No final do curso, o estudante terá que devolver o equipamento.

- Na medida que aumentar a quantidade de alunos, faremos novas licitações para não deixar ninguém sem netbook. Por sugestão do governador, estamos analisando a maneira legal de ampliar o prazo de cessão dos netbooks aos estudantes que forem aprovados no vestibular - disse a secretária Maria Correia, da Educação.

A pouco mais de um metro de uma antena, a reportagem conseguiu ter acesso ao Floresta Digital no Mercado Velho, no centro de Rio Branco, onde foi realizada a solenidade de lançamento. Mas vários usuários, sobretudo do centro, estão reclamando da precariedade do sinal. O governo disse que está fazendo ajustes no sistema de antenas.

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fevereiro 3, 2010

Campanha de Marina Silva pode fracassar se omitir a história da presidenciável

Altino Machado às 6:59 am

POR EDILSON MARTINS

Só conhece a profundidade de um buraco quem nele se encontra. Ensina a Lei de Murphy que, conseguindo sair, a probabilidade de cair noutro não pode ser descartada.

As últimas pesquisas eleitorais do DataFolha, realizadas em dezembro último, e na verdade as mais confiáveis, mostraram a candidatura de Marina Silva com 8% de intenção de votos junto ao eleitorado brasileiro.

Digo de fato confiáveis porque esses institutos só revelam pesquisas sinceras três, quatro dias antes das eleições. Quase sempre foi assim. O DataFolha não produz pesquisas encomendadas por partidos, o que não deixa de ser um grande ganho.

O José Serra teve, nessa pesquisa, 37% de intenção de votos, Dilma 23% e Marina Silva, 8%. O Ciro patinou em 13%, mas sua candidatura é mais difícil de ser decifrada do que o último segredo de Fátima.

Até porque o nosso intempestivo Ciro está hospedado numa legenda (PSB) que é parte do latifúndio eleitoral do presidente Lula. Pelo menos é o que parece. Ou assim é, se nos parece.

Ser ou não ser candidato lhe diz respeito, mas não é ele que decide, já que depende dos acordos firmados pelo neto do Arraes com o presidente Lula, por sinal o dono da bola, o dono do campo, e, pensando bem, até mesmo das camisas e chuteiras de quase todos os jogadores desse game da base de sustentação governista.

É preciso não esquecer

Lula surfa numa aprovação de mais de 80% do eleitorado brasileiro, o que não quer dizer que todos sejam seus eleitores. Existe agora a síndrome de Bachelet, a presidenta do Chile, com mais de 80% também de aprovação, e que não conseguiu eleger o seu sucessor. Não custa relembrar: esses números de aprovação já foram alcançados pelo presidente Sarney e, pasmem, de triste memória, até pelo ditador Médici.

Temos agora uma pesquisa recente, saída do forno, do Sensus, entre os dias 25 e 29 de janeiro último.

Serra segue à frente com 33,32%, acompanhado de perto por Dilma, com 27%, Ciro 11,9%, e Marina 6,8%. Esses números, por enquanto, são fotografias, instantâneos, flashes, indicando muito pouco de tendência, que seria outro tipo de pesquisa, mais confiável para os próximos embates.

Pesquisa de intenção de voto é mais volúvel que jura de paixão eterna, ou beijo na face, o chamado selinho, na entrada de baile de dondoca. Falei, falei e não disse nada, diria o Nelson Rodrigues.

O que gostaria de perorar é sobre a candidatura presidencial de Marina Silva. Aventado o seu nome para essa corrida, abandonando um partido no qual construiu sua história, confundindo-se com ele, mas no qual não tinha mais espaço, tornara-se uma estranha no ninho, houve um oh, quase um hurra, ou mesmo um bravo, de certas parcelas da população brasileira.

Os que pensam

País que pensa, o país que não constrói suas lideranças pelas ideologias, viu-se contagiado pelo vírus da esperança. Acreditou, e não fê-lo mal, que surgia algo novo, alguma coisa diferenciada, na paisagem deste ano eleitoral de 2010.

Enfim uma candidata com a cara do país que sonhamos. A cara do Brasil da ética, do Brasil com princípios, do respeito, quase sagrado, à coisa, ao erário.

Uma mulher não só herdeira da herança humana de Chico Mendes, do qual foi amiga próxima, companheira de infortúnios e de derrotas, mas principalmente uma liderança que o país, nos últimos anos, foi descobrindo e aprendendo a respeitar, diga-se mesmo, amar.

O diabo do Maquiável já lembrava que para o príncipe, para o líder, ainda é mais seguro ser temido do que ser amado. Por óbvio o amor é volúvel, passageiro, quase fugidio, quantas vezes. Quem hoje nos beija, amanhã pode nos virar o rosto. O poeta já lembrou que o beijo é a véspera do escarro.

Já o temor é permanente. Esquecemos com rapidez, uma graça, um favor obtido. A ofensa é mais demorada, é preguiçosa, não nos deixa rapidamente.

Enfim, uma luz

Marina surge, não para ganhar uma eleição presidencial, já que esse não é um projeto que se alimente de açodamento. Ninguém é abestado para apostar num milagre desses. Assim nos parece. Ela surge como uma saída, uma luz, vamos usar esse clichê, uma terceira via ente o lulismo e o tucanato. Lulismo porque enfim se compreendeu que não existe PT sem Lula. PT sem Lula é marolinha, queiramos ou não.

A candidatura da Marina Silva nasce lastreada numa certa elite, a elite dos cabeças feitas, dos que lêem jornal, dos que sabem o nome do Presidente da República, dos que odeiam o programa televisivo do Datena? Certamente. Mas no peito dessa elite também bate um coração.

A esperança acalentou, e ainda acalenta, os sonhos de parcela ponderável da população brasileira, principalmente dos que pensam, dos que olham o mundo sem o viés da ideologia, da religiosidade, do fanatismo, que não olham o mundo pelo viés partidário, ou dos interesses pessoais de seu grupo.

Essa gente, diria Dom Helder Câmara, é invisível, é minoria, certamente, mas existe, e vale a pena acreditar em suas utopias. O país justo se constrói também com a contribuição dessa gente, diria ele.

E, no entanto, Marina está patinando em sua performance. Não conseguiu, até hoje, apesar de sua presença nos jornalões, na mídia televisiva, nas rádios, nos blogs mais visitados, de seu currículo, e até mesmo de todas as inserções de seu novo partido ir além da marca dos 10% de intenção de votos. Corre o risco de morrer antes de alcançar a praia.

Há alguma coisa errada nessa história. O que quero dizer é que desconfio conhecer o local, o terreiro, onde o galo está cantando, o porquê de resultado e performances tão pífias. Estou falando de números.

Um partido bizarro

Não vou me deter no saco de gatos que é o Partido Verde. Todos eles são. O Partido Verde presidido pelo Pena em São Paulo, a mala do Sirkys no Rio, um Sarney no Maranhão e até um fazendeiro, fazendeiro de gado, no Amazonas. E fiquemos por aqui para o caldo não entornar.

Dizer que o povo brasileiro é insensível, alienado politicamente, dominado por preconceitos do tipo Rita Lee, manipulado pelo poder econômico, também não vale.

Essa senhora, a paparicada tia Lee, declarou, para quem quisesse ouvir; não votava na Marina porque ela tinha cara de fome. O povo brasileiro, mesmo os satanizados pela exclusão social, é bem melhor que juízos de valor dessa natureza. Coitada da titia Rita.

Sou jornalista, jamais deixarei de sê-lo, imagino, e entre outras enganações, trabalho com marketing político há quase 20 anos. Não é nada, não é nada, não é nada mesmo. Mas ajudei a eleger, dirigindo suas campanhas, políticos do porte de Artur Virgílio, Jorge Viana, Marina Silva, e outros que não quero lembrar, não vou lembrar. Ponto final.

O bicho começa a pegar

A partir do dia 4, portanto a partir de quinta-feira, começa, novamente, a exibição das peças eleitorais do PV. Pelo que foi anunciado, todas as inserções serão destinadas a alavancar as intenções de voto de Marina Silva.

Está sendo dito que Fernando Meireles, que dirigiu o fantástico “Cidade de Deus”, que fez o teaser para viabilizar, e viabilizou, a escolha do Rio como sede das próximas Olimpíadas, participará da edição e formatação dessa campanha. Segundo consta ,já vem participando desde o ano passado.

E, no entanto, vamos repetir novamente, se for algo parecido com o que já foi feito, a candidatura da Marina vai para o beleléu, vai empacar. A tropa de burros, que viabilizou a economia acreana na passagem do século 19 para o século 20, diante de uma ponte estreita, ou sentindo o cheiro de uma surucucu, empacava. E não adiantava segurar o cabo, ameaçar com novas chicotadas.

Não vai sequer repetir o desempenho da agitada, para dizer o mínimo, fundamentalista Heloísa Helena. E olha que a diferença entre elas é abissal. Não é um superlativo, mas vamos supor que seja: o currículo de Marina nada fica a dever a nenhum outro de qualquer político brasileiro vivo. Nem mesmo do Lula, que tem inquestionavelmente uma bela história.

A campanha passada do PV, anunciando a entrada na corrida presidencial de Marina Silva, foi um fiasco. Um fundo verde, certamente para alertar o eleitor que o partido era verde, e já aí nada mais óbvio e redundante, portanto brega, pontuou todas as suas inserções.

TV é entretenimento

E tome perorações de Marina Silva, que cada vez mais produz um discurso rococó, pleno de proselitismo. Ela ficava em on todo o tempo, pontificando sobre questões ambientais, praia por sinal ainda não freqüentada pelas classes C e D.

O palanque eletrônico e o do rádio (o jornal não) é destinado prioritariamente às populações de baixo poder aquisitivo, ao povão, principalmente no horário eleitoral, que quase sempre, fora algumas exceções, é de uma mesmice, bobagem, falta de criatividade de fazer dó.

E lá ficava a Marina, chamando ouvido de escuta, êta linguagem fora do eixo pra esse veículo, com olheiras de fazer inveja à família Adams, voz extremamente bizarra, sem o botox e cirurgias plásticas reparadoras que dominam o sonho de consumo dos políticos atuais, perorando, apontando rumos para o país ameaçado pelas queimadas, desmatamentos, agronegócios, e assim por diante. Só falta denunciar o Avatar como infiltração insidiosa.

As classes A e B, vão para as TVs por assinaturas; o povão não desliga, mas vai trocar um dedo de prosa, aguardando um tempo melhor em seu entretenimento gratuito. TV é um espaço para entretenimento, e não peroração política.

Pode-se dizer tudo do César Maia, e ele certamente merece. Parafuso a menos, abandonou o Rio, que virou um caos, em anos de gestão desastrosa, açodado, mas não se pode negar ser ele craque em leituras de performances eleitorais. Números são com ele mesmo. Ele apontou há tempo o despropósito das peças da Marina Silva na TV.

Briga de foice

No audiovisual, o conteúdo é a imagem. Decorridos dois, três dias, uma semana, ninguém se recorda do que o político falou, mas sim de sua roupa, de seu desempenho, de sua performance. A TV é uma brincadeira entre os ouvidos e os olhos, ganhando sempre, por nocaute, os últimos.

A campanha de Marina, se não resgatar sua história, os deslocamentos cruciais vividos por sua família de seringueiros, retirantes, as grandes diásporas vividas por sua gente, sua belíssima escalada pessoal, vai chover no molhado.

Marina se alfabetiza aos 15 anos, fugindo da selva, da malária, da extração perversa da seringa, chega a senadora da República. Participara antes, juntamente com Chico Mendes e sua gente, dos belíssimos movimentos sociais patrocinados pela Igreja de João XXIII, o padre dos deserdados, põe o país na pauta da consciência ecológica internacional, enfrenta um governo onde todos dizem sim e alguns chegam a beijar-lhe a mão. Marina Silva é emoção, e voto se conquista com emoção.

Essa Marina gongórica, pontuando sobre questões atuais e internacionais, enche de orgulho os ambientalistas, os que falam em reconstruir, redesenhar, reinventar, fazer máscaras de seu rosto, para vender no Carnaval, entre outros modismos.

Ela, em sua simplicidade, terá talvez pernas curtas, numa eleição presidencial, onde o Grande Guia tem com o povo uma conjunção e empatia invejáveis. O PT hoje é um partido profissional, uma máquina de ganhar eleições, uma máquina que veio para ficar.

Marina certamente vai encantar o eleitor antenado, mas voto que é bom, dos excluídos, não terá. O voto dos grotões decide as eleições majoritárias, quase sempre, até porque o país é grande e rico, hoje, mas seu povo ainda não. Talvez saia mais arranhada do que imagina, ela que dispõe, de forma sincera, do melhor e mais honesto projeto de Brasil que tanto aspiramos. E sonhamos.

Marina sem mandato é uma pena, mas nada de grave, posto ter virado uma celebridade, com espaço nos salões do primeiro mundo. Ganhou muitas janelas. Grave é vermos desperdiçar uma das mais alvissareiras notícias que o país teve notícia, nestes últimos anos, onde a mentira e os mensalões foram banalizados, até viraram moeda de troca.

Data vênia, e pedindo desculpas pela forçação de barra, estamos postando (acima) um dos vídeos, que modestamente fizemos, destinado à campanha de reeleição de Marina ao Senado em 2002. No pacote, vai um compacto sobre o Chico (abaixo), também de nossa autoria. Tudo miçangas, coisas passadas de baú velho, mas que até hoje nos orgulha.

O acreano Edilson Martins é jornalista e escritor

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janeiro 31, 2010

Caetano Veloso e Rita Lee ofenderam o povo com preconceito a Lula e Marina Silva

Altino Machado às 9:57 am

POR JOSÉ BESSA FREIRE

Caetano Veloso e Rita Lee com Gilberto Gil e Milton Nascimento

Caetano Veloso e Rita Lee com Gilberto Gil e Milton Nascimento

“Ai, meu Deus!/ O que foi que aconteceu/ Com a música popular brasileira”?

Há pouco, Caetano Veloso descartou do seu horizonte eleitoral o presidente Lula da Silva, justificando: “Lula é analfabeto”. Por isso, o cantor baiano aderiu à candidatura da senadora Marina da Silva, que tem diploma universitário. Agora, vem a roqueira Rita Lee dizendo que nem assim vota em Marina para presidente, “porque ela tem cara de quem está com fome”.

Os Silva não têm saída: se correr o Caetano pega, se ficar a Rita come.

Tais declarações são espantosas, porque foram feitas não por pistoleiros truculentos, mas por dois artistas refinados, sensíveis e contestadores, cujas músicas nos embalam e nos ajudam a compreender a aventura da existência humana. Num país dominado durante cinco séculos por bacharéis cevados, roliços e enxudiosos, eles naturalizaram o canudo de papel e a banha como requisitos indispensáveis ao exercício de governar, para o qual os Silva, por serem iletrados e subnutridos, estariam despreparados.

Caetano Veloso e Rita Lee foram levianos, deselegantes e preconceituosos. Ofenderam o povo brasileiro, que abriga, afinal, uma multidão de silvas famélicos e desescolarizados. De um lado, reforçam a idéia burra e cartorial de que o saber só existe se for sacramentado pela escola e que tal saber é condição sine qua non para o exercício do poder. De outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem está com fome carece de qualidades para o exercício da representação política. A rainha do rock, debochada, irreverente e crítica, a quem todos admiramos, dessa vez pisou na bola. Feio.

“Venenosa! Êh êh êh êh êh!/ Erva venenosa, êh êh êh êh êh!/ É pior do que cobra cascavel/ O seu veneno é cruel…/ Deus do céu!/ Como ela é maldosa!”.

Nenhum dos dois - nem Caetano, nem Rita - têm tutano para entender esse Brasil profundo que os silvas representam.

A senadora Marina da Silva tem mesmo cara de quem está com fome? Ou se trata de um preconceito de roqueira, que só vê desnutrição ali onde nós vemos uma beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu cabelo amarrado em um coque, seus vestidos longos e seu inevitável xale? Talvez Rita Lee tenha razão em ver fome na cara de Marina, mas se trata de uma fome plural, cuja geografia precisa ser delineada. Se for fome, é fome de quê?

O mapa da fome

A primeira fome de Marina é, efetivamente, fome de comida, fome que roeu sua infância de menina seringueira, quando comeu a macaxeira que o capiroto ralou. Traz em seu rosto as marcas da pobreza, de uma fome crônica que nasceu com ela na colocação de Breu Velho, dentro do Seringal Bagaço, no Acre. Órfã da mãe ainda menina, acordava de madrugada, andava quilômetros para cortar seringa, fazia roça, remava, carregava água, pescava e até caçava. Três de seus irmãos não agüentaram e acabaram aumentando o alto índice de mortalidade infantil.

Com seus 53 quilos atuais, a segunda fome de Marina é dos alimentos que, mesmo agora, com salário de senadora, não pode usufruir: carne vermelha, frutos do mar, lactose, condimentos e uma longa lista de uma rigorosa dieta prescrita pelos médicos, em razão de doenças contraídas quando cortava seringa no meio da floresta. Aos seis anos, ela teve o sangue contaminado por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose.

A fome de conhecimentos é a terceira fome de Marina. Não havia escolas no seringal. Ela adquiriu os saberes da floresta através da experiência e do mundo mágico da oralidade. Quando contraiu hepatite, aos 16 anos, foi para a cidade em busca de tratamento médico e aí mitigou o apetite por novos saberes nas aulas do Mobral e no curso de Educação Integrada, onde aprendeu a ler e escrever. Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso de História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada doméstica, lavando roupa, cozinhando, faxinando.

Fome e sede de justiça: essa é sua quarta fome. Para saciá-la, militou nas Comunidades Eclesiais de Base, na associação de moradores de seu bairro, no movimento estudantil e sindical. Junto com Chico Mendes, fundou a CUT no Acre e depois ajudou a construir o PT. Exerceu dois mandatos de vereadora em Rio Branco, quando devolveu o dinheiro das mordomias legais, mas escandalosas, forçando os demais vereadores a fazerem o mesmo. Elegeu-se deputada estadual e depois senadora, também por dois mandatos, defendendo os índios, os trabalhadores rurais e os povos da floresta.

Quem viveu da floresta, não quer que a floresta morra. A cidadania ambiental faz parte da sua quinta fome. Ministra do Meio Ambiente, ela criou o Serviço Florestal Brasileiro e o Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e estimular o manejo florestal. Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias. Reduziu, em três anos, o desmatamento da Amazônia de 57%, com a apreensão de um milhão de metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700 criminosos ambientais, desmonte de mais de 1,5 mil empresas ilegais e inibição de 37 mil propriedades de grilagem.

Tudo vira bosta

Esse é o retrato das fomes de Marina da Silva que -na voz de Rita Lee- a descredencia para o exercício da presidência da República porque, no frigir dos ovos, “o ovo frito, o caviar e o cozido/ a buchada e o cabrito/ o cinzento e o colorido/ a ditadura e o oprimido/ o prometido e não cumprido/ e o programa do partido: tudo vira bosta”.

Lendo a declaração da roqueira, é o caso de devolver-lhe a letra de outra música - ‘Se Manca’ - dizendo a ela: “Nem sou Lacan/ pra te botar no divã/ e ouvir sua merda/ Se manca, neném!/ Gente mala a gente trata com desdém/ Se manca, neném/ Não vem se achando bacana/ você é babaca”.

Rita Lee é babaca? Claro que não, mas certamente cometeu uma babaquice. Numa de suas músicas - ‘Você vem’ - ela faz autocrítica antecipada, confessando: “Não entendo de política/ Juro que o Brasil não é mais chanchada/ Você vem….e faz piada”. Como ela é mutante, esperamos que faça um gesto grandioso, um pedido de desculpas dirigido ao povo brasileiro, cantando: “Desculpe o auê/ Eu não queria magoar você”.

A mesma bala do preconceito disparada contra Marina atingiu também a ministra Dilma Rousseff, em quem Rita Lee também não vota porque, “ela tem cara de professora de matemática e mete medo”. Ah, Rita Lee conseguiu o milagre de tornar a ministra Dilma menos antipática! Não usaria essa imagem, se tivesse aprendido elevar uma fração a uma potência, em Manaus, com a professora Mercedes Ponce de Leão, tão fofinha, ou com a nega Nathércia Menezes, tão altaneira.

Deixa ver se eu entendi direito: Marina não serve porque tem cara de fome. Dilma, porque mete mais medo que um exército de logaritmos, catetos, hipotenusas, senos e co-senos. Serra, todos nós sabemos, tem cara de vampiro. Sobra quem?

Se for para votar em quem tem cara de quem comeu (e gostou), vamos ressuscitar, então, Paulo Salim Maluf ou Collor de Mello, que exalam saúde por todos os dentes. Ou o Sarney, untuoso, com sua cara de ratazana bigoduda. Por que não chamar o José Roberto Arruda, dono de um apetite voraz e de cuecões multi-bolsos? Como diriam os franceses, “il péte de santé”. O banqueiro Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara de quem se alimenta bem. Essa é a elite bem nutrida do Brasil.

Rita Lee não se enganou: Marina tem a cara de fome do Brasil, mas isso não é motivo para deixar de votar nela, porque essa é também a cara da resistência, da luta da inteligência contra a brutalidade, do milagre da sobrevivência, o que lhe dá autoridade e a credencia para o exercício de liderança em nosso país.

Marina Silva, a cara da fome? Esse é um argumento convincente para votar nela. Se eu tinha alguma dúvida, Rita Lee me convenceu definitivamente.

P.S.: Uma leitora cricri, mas competente, que está fazendo doutorado em São Paulo (e a tese, quando é que sai?) me lembra que a FAPEAM e a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Amazonas constituem o lado sério da atual política estadual, responsável, em 2007, pela primeira lei de mudanças climáticas no Brasil.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Foto: Divulgação

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janeiro 29, 2010

Nobel da Paz dos Mortos

Altino Machado às 6:06 am

POR MOISÉS DINIZ

Presidentes Mahmoud Ahmadinejad e Luiz Inácio Lula da Silva

Presidentes Mahmoud Ahmadinejad e Luiz Inácio Lula da Silva

Este artigo é motivado pela declaração da Prêmio Nobel da Paz de 2003, a iraniana Shirin Ebadi, de que “Lula não deveria fazer amizade com governos criminosos”, referindo-se ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

Shirin Ebadi foi a primeira juíza e única representante feminina na corte do monarca Xá Reza Pahlevi, visto pela população como corrupto, que esbanjava gastos em festas regadas a champanhe francês enquanto os iranianos empobreciam.

A iraniana Shirin Ebadi não diz uma única vírgula contra a relação diplomática do Brasil com Israel e não escreve sequer uma poesia contra a declaração daquele mesmo Estado de que pode realizar um ataque aéreo contra o seu país, o Irã dos aiatolás que ela ajudou a construir.

Declarações desse tipo nos levam a olhar com mais profundidade para a história do Prêmio Nobel, especialmente o da Paz. Um olhar mais criterioso vai descobrir que, nem sempre, a paz foi a motivação verdadeira para a concessão de tão prestigiado prêmio.

O Prêmio Nobel, da Nobel Foundation, na Suécia, foi instituído por Alfred Nobel, químico e industrial sueco, inventor da dinamite, em seu testamento. Alfred Nobel deixou 32 milhões de coroas (atualmente uma coroa corresponde a R$ 0,25) para aplicação e distribuição aos laureados.

Numa indisfarçável contradição, o Prêmio Nobel da Paz é pago com dinheiro arrecadado de patentes da dinamite, artefato à base de nitroglicerina, que se tornou o núcleo tecnológico para a produção de material bélico que já exterminou milhões de homens, mulheres e crianças.

É como um criminoso que leva pão para a mãe de sua vítima e garante remédio para as dores terríveis que ela sente depois da morte de sua filha inocente. Alfred Nobel inventara a dinamite, núcleo tecnológico de todas as armas de destruição e morte.

Um prêmio à paz tornava charmoso o seu criador e aliviava a culpa de ter inventado a morte que esfacela corpos e arrebenta lares inocentes. Alfred Nobel não imaginava, todavia, que sua fundação fosse tão longe, laureando criminosos e protegendo interesses econômicos e geopolíticos da velha elite.

O Prêmio Nobel da Paz foi concedido 90 vezes para 120 Nobel entre 1901 e 2009, 97 vezes para indivíduos e 23 vezes para organizações. Nesses 108 anos o Prêmio Nobel da Paz nunca foi concedido a um líder verdadeiro da esquerda mundial, nunca a um líder indígena que se contrapôs aos interesses econômicos de seu país e nunca a um líder comunista.

Sequer foi agraciado um Papa progressista como João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II, responsável pela abertura da Igreja ao sopro da civilização, semeando o diálogo entre os homens e os povos, evitando a morte de milhões, pois a humanidade se abraçou mais e perdoou mais depois do Concílio Vaticano II.

O Prêmio Nobel da Paz, mesmo quando não pode desconhecer importantes figuras da luta pacifista do planeta, agracia os líderes populares junto com os seus algozes. O Nobel da Paz foi concedido a Yasser Arafat, em 1994, mas, na mesma data, foi dado a dois de seus inimigos: Shimon Peres e Ytzhak Rabin.

Quando Nelson Mandela mobilizava a opinião pública do planeta, a Nobel Foundation o agraciou com o Nobel da Paz, mas não esqueceu de laurear junto o principal algoz do povo negro da África do Sul: Frederik Willem de Klerk.

Em 1990 foi a vez de Mikhail Gorbatchov, responsável direto pelo desmantelamento da União Soviética e a conseqüente destruição do seu parque industrial e da infra-estrutura de proteção social dos trabalhadores, gerando milhões de desempregados, alcoólatras, prostitutas, mendigos aos milhões e todos os tipos de criminosos.

De vez em quando, para burlar a opinião pública, eles escolhem alguém que está lutando contra uma ditadura num país sem importância estratégica, como foi o caso da Nobel da Paz de 1991, Aung San Suu Kyi, uma ativista da oposição em Mianmar.

Lech Walesa, em 1983, cumpriu o papel de ser agraciado por ter desmantelado o socialismo na Polônia. Demonstrando que o seu papel era apenas esse, implementou uma política nociva aos trabalhadores poloneses, sucateando a economia e despejando milhões de polacos no desemprego e na violência. Em 2000 Lech Walesa tentou de novo a eleição presidencial e obteve menos de 1% dos votos.

O fim do socialismo no Leste europeu (apesar de seus imperdoáveis erros) provocou o descontrole da elite mundial, que passou a explorar mais a classe trabalhadora, a demitir mais, a reduzir direitos sociais e trabalhistas e a aumentar a sua brutal taxa de lucro no costado dos operários. Sem contraponto político, a burguesia soltou os cachorros do lucro na rua dos pobres do planeta.

Em 1978 o Nobel da Paz foi concedido ao líder de Israel Menachem Begin, um dos pais do sionismo. Em 1981, Begin ordenou o ataque ao reactor nuclear Osiraq, no Iraque e em 1982, o governo de Begin decidiu a invasão israelita do sul do Líbano.

Todavia, foi em 1973 que a Nobel Foundation ultrapassou todos os limites éticos na concessão do Nobel da Paz, agraciando Henry Kissinger. O secretário de estado norte-americano ganhou, com Le Duc Tho, o Prêmio Nobel da Paz, pelo seu papel na obtenção do acordo de cessar-fogo na Guerra do Vietnam. Le Duc Tho recusou o prêmio.

Henry Kissinger, além de ser o estrategista da Guerra do Vietnam, com milhões de mortos, é acusado de ter cometido crimes de guerra durante sua longa estadia no governo, como dar luz verde para a invasão indonésia de Timor (1975) e a golpes de estado no Chile e no Uruguai (1973).

Martin Luther King, uma das honrosas exceções, foi agraciado em 1964 com o Nobel da Paz. Um ano depois o líder negro passou a questionar a Guerra do Vietnam, irritando aqueles que o queriam apenas como líder da luta contra o preconceito racial. Em 1968 foi assassinado.

Em 1945 a Nobel Foundation concedeu o seu prestigiado prêmio a Cordell Hull, considerado um dos pais das Nações Unidas. Todavia, um detalhe grotesco da sua biografia passou despercebido.

Atribui-se a Cordell Hull influência tanto sobre o presidente de Cuba, Federico Laredo Brú, como sobre Roosevelt na negação de ambos os governos para dar refúgio ao navio San Luis que em 1939 tentou chegar à América e Caribe carregado com mais de 900 judeus que procuravam escapar da Alemanha Nazi e tiveram que regressar, tendo a maioria perecido depois nos campos de concentração da Europa central.

Destacamos apenas alguns laureados, com o intuito de demonstrar que o Prêmio Nobel da Paz não representa uma instituição séria de promoção da convivência pacífica entre os povos. Excetuados os casos de concessão a líderes verdadeiros da luta pela paz, fruto da pressão da opinião pública mundial, o Nobel da Paz tem servido a interesses nada pacíficos e nada éticos.

É a paz dos mortos sendo utilizada para vampirizar as maiorias exploradas do novo e do velho mundo. Um prêmio cercado de festa, luzes e glamour, mas adubado pela morte de milhões na periferia do planeta. Subtraídas as honrosas exceções, um prêmio pacífico e ético tanto quanto a dinamite.

Até Barack Obama já recebeu o prêmio da suspeita Nobel Foundation e, enquanto embolsava os 1,4 milhão de dólares em Oslo, fez a defesa da Guerra do Afeganistão. Enquanto isso, Mahatma Gandhi nunca recebeu o Nobel da Paz!

Moisés Diniz é deputado estadual do PCdoB no Acre e autor do livro “O Santo de Deus.

Foto: José Cruz/ABr

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janeiro 27, 2010

MP representa contra senador e prefeito do PT

Altino Machado às 9:20 am

O senador Tião Viana (PT-AC) terá que responder a uma representação do Ministério Público Eleitoral por propaganda antecipada, só permitida a partir do dia 6 de julho.

O Ministério Público Federal já havia instaurado inquérito civil público para apurar as responsabilidades dos envolvidos no caso de um automóvel apreendido com traficantes de drogas.

O automóvel foi confiscado e doado pela Policia Federal para a prefeitura de Jordão, na fronteira Brasil-Peru, para servir de ambulância no atendimento de saúde da população.

Agora, a representação do MP Eleitoral se deve ao fato de terem sido afixados adesivos no carro com a frase “Apoio Sen. Tião Viana”.

Também foram arrolados na representação o prefeito de Jordão, Hilário de Holanda Melo (PT), a empresa Wilken Perez Comunicação Visual, Mirna Borges de Oliveira, servidora da prefeitura e nora do prefeito, além do filho do prefeito, Zózimo Garcia Melo.

Por ter sido verificado o uso de verbas municipais para a aplicação da publicidade, o inquérito civil foi encaminhado ao Ministério Público Estadual para apuração de possível improbidade administrativa por parte dos responsáveis.

Como Tião Viana é pré-candidato ao governo do Acre, o MP Eleitoral entende que está configurada a propaganda eleitoral antecipada e representou junto ao Tribunal Regional Eleitoral do Acre para a apuração das responsabilidades.

- A mensagem veiculada no automóvel pertencente ao município de Jordão se mostra evidente no sentido de captar eleitores e é eficiente para anunciar que o candidato continuará defendendo os interesses dos cidadãos, já que o veículo é visto diariamente pela comunidade não só daquele município, como também da cidade vizinha de Tarauacá, onde a ambulância é frequentemente estacionada - assinala na representação o procurador regional eleitoral substituto Paulo Henrique Ferreira Brito.

A representação pede que seja deferida medida liminar para obrigar a retirada imediata, caso já não o tenham feito, do adesivo. Além disso, pede a condenação de todos os representados, na medida de suas responsabilidades, com multa que pode chegar a R$ 25 mil.

Jordão, um dos municípios mais isolados e pobres do país, ficou famoso nacionalmente por causa de sua precária “motoambulância”.

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janeiro 26, 2010

Conad estabele normas para uso religioso da ayahuasca no Brasil

Altino Machado às 4:44 pm
Cipó jagube usado para fazer ayahuasca

Cipó jagube usado no preparo da ayahuasca

O Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), que já havia reconhecido a legitimidade do uso religioso da ayahuasca, em maio de 2004, aprovou na sexta-feira, 23, “princípios deontológicos” também para uso religioso da bebida, mais conhecida no país como santo daime ou vegetal.

A resolução que dispõe sobre a observância, pelos órgãos da administração pública, das decisões do Conad, sobre normas e procedimentos compatíveis com o uso religioso da ayahuasca e dos princípios deontológicos, foi encaminhada pelo general Jorge Armando Félix, do Gabinete de Segurança Institucional, e publicada na edição de desta terça-feira, 26, do Diário Oficial da União.

Eis a conclusão de um extenso documento, assinado por representantes do Conad e alguns representantes de centros usuários de Ayahuasca no país:

“a. Considerando que o CONAD, acolhendo parecer da Câmara de Assessoramento Técnico Científico, reconheceu a legitimidade do uso religioso da Ayahuasca, nos termos da Resolução nº 05/04, que instituiu o GMT para elaborar documento que traduzisse a deontologia do uso da Ayahuasca, como forma de prevenir seu uso inadequado;

b. Considerando que o GMT, após diversas discussões e análises, onde prevaleceu o confronto e o pluralismo de idéias, considerou como uso inadequado da Ayahuasca a prática do comércio, a exploração turística da bebida, o uso associado a substâncias psicoativas ilícitas, o uso fora de rituais religiosos, a atividade terapêutica privativa de profissão regulamentada por lei sem respaldo de pesquisascientificas, o curandeirismo, a propaganda, e outras práticas que possam colocar em risco a saúde física e mental dos indivíduos;

c. Considerando que a dignidade da pessoa humana é princípio fundante da República Federativa do Brasil, e dentre os direitos e garantias dos cidadãos sobressai-se a liberdade de consciência e de
crença como direitos invioláveis, cabendo ao Estado, na forma da lei, garantir a proteção aos locais de culto e a suas liturgias (CF, arts. 1º, III, 5º, VI);

d. Considerando a decisão do INCB (International Narcotics Control Board), da Organização das Nações Unidas, relativa à Ayahuasca, que afirma não ser esta bebida nem as espécies vegetais
que a compõem objeto de controle internacional;

e. Considerando, por fim, que o uso ritualístico religioso da Ayahuasca, há muito reconhecido como prática legitima, constitui-se manifestação cultural indissociável da identidade das populações tradicionais da Amazônia e de parte da população urbana do País, cabendo ao Estado não só garantir o pleno exercício desse direito à manifestação cultural, mas também protegê-la por quaisquer meios de acautelamento e prevenção, nos termos do art. 2o, “caput”, Lei 11.343/06 e art. 215, caput e § 1º c/c art. 216, caput e §§ 1º e 4º da Constituição Federal.

O Grupo Multidisciplinar de Trabalho aprovou os seguintes princípios deontológicos para o uso religioso da Ayahuasca:

1. O chá Ayahuasca é o produto da decocção do cipó Banisteriopsis caapi e da folha Psychotria viridis e seu uso é restrito a rituais religiosos, em locais autorizados pelas respectivas direções das entidades usuárias, vedado o seu uso associado a substâncias psicoativas ilícitas;

2. Todo o processo de produção, armazenamento, distribuição e consumo da Ayahuasca integra o uso religioso da bebida, sendo vedada a comercialização e ou a percepção de qualquer vantagem, em
espécie ou in natura, a título de pagamento, quer seja pela produção, quer seja pelo consumo, ressalvando-se as contribuições destinadas à manutenção e ao regular funcionamento de cada entidade, de acordo com sua tradição ou disposições estatutárias;

3. O uso responsável da Ayahuasca pressupõe que a extração das espécies vegetais sagradas integre o ritual religioso. Cada entidade constituída deverá buscar a auto-sustentabilidade em prazo razoável, desenvolvendo seu próprio cultivo, capaz de atender suas necessidades e evitar a depredação das espécies florestais nativas. A extração das espécies vegetais da floresta nativa deverá observar as
normas ambientais;

4. As entidades devem evitar o oferecimento de pacotes turísticos associados à propaganda dos efeitos da Ayahuasca, ressalvando os intercâmbios legítimos dos membros das entidades religiosas
com suas comunidades de referência;

5. Ressalvado o direito constitucional à informação, recomenda- se que as entidades evitem a propaganda da Ayahuasca, devendo em suas manifestações públicas orientar-se sempre pela discrição e moderação no uso e na difusão de suas propriedades;

6. A prática do curandeirismo é proibida pela legislação brasileira. As propriedades curativas e medicinais da Ayahuasca - que as entidades conhecem e atestam - requerem uso responsável e devem ser compreendidas do ponto de vista espiritual, evitando-se toda e qualquer propaganda que possa induzir a opinião pública e as autoridades a equívocos;

7. Recomenda-se aos grupos que fazem uso religioso da Ayahuasca que se constituam em organizações jurídicas, sob a condução de pessoas responsáveis com experiência no reconhecimento e cultivo das espécies vegetais sagradas, na preparação e uso da Ayahuasca e na condução dos ritos;

8. Compete a cada entidade religiosa exercer rigoroso controle sobre o sistema de ingresso de novos adeptos, devendo proceder entrevista dos interessados na ingestão da Ayahuasca, a fim de evitar que ela seja ministrada a pessoas com histórico de transtornos mentais, bem como a pessoas sob efeito de bebidas alcoólicas ou outras substâncias psicoativas;

9. Recomenda-se ainda manter ficha cadastral com dados do participante e informá-lo sobre os princípios do ritual, horários, normas, incluindo a necessidade de permanência no local até o término
do ritual e dos efeitos da Ayahuasca.

10. Observados os princípios deontológicos aqui definidos, cabe a cada entidade e a seus membros indistintamente, no relacionamento institucional, religioso ou social que venham a manter
umas com as outras, em qualquer instância, zelar pela ética e pelo respeito mútuo.

PROPOSIÇÕES:

1. QUANTO ÀS PESQUISAS DO USO TERAPÊUTICO DA AYAHUASCA EM CARÁTER EXPERIMENTAL :

a. Devem-se fomentar pesquisas cientificas abrangendo as seguintes áreas: farmacologia, bioquímica, clínica, psicologia, antropologia e sociologia, incentivando a multidisciplinaridade;

b. Sugere-se ao CONAD que promova e financie, a partir de 2007, pesquisas relacionadas com o uso e efeitos da Ayahuasca.

2. QUANTO À QUESTÃO AMBIENTAL E AO TRANSPORT E :

a. Sugere-se ao CONAD que considere a possibilidade de intercâmbio com o CONAMA, se possível lançando mão do auxílio das entidades religiosas, no sentido de estabelecer medidas de proteção às espécies vegetais que servem de matéria prima à Ayahuasca, por meio de legislação específica para essas plantas de uso ritualístico religioso, as quais não podem ser tratadas indistintamente como um
produto florestal não madeireiro.

B. Sugere-se ao CONAD ainda, que faça os encaminhamentos devidos junto aos órgãos competentes do Estado, no sentido de regulamentar o transporte interestadual da Ayahuasca entre as entidades, ouvindo-se previamente os interessados.

3. QUANTO À EFETIVIDADE DOS PRINCÍPIOS DEONTOLÓGICOS :

a. Sugere-se ao CONAD que estude a possibilidade de fixar mecanismos de controle quanto ao uso descontextualizado e não ritualístico da Ayahuasca, tendo como paradigma os princípios deontológicos ora fixados, com efetiva participação de representantes das entidades religiosas.

b. Solicita-se ao CONAD apoio institucional para a criação de instituição representativa das entidades religiosas que se forme por livre adesão, para o exercício do controle social no cumprimento dos
princípios deontológicos aqui tratados.

c. Sugere-se ainda, caso os princípios deontológicos aqui definidos sejam acatados, que disto seja dada ampla publicidade, preferencialmente com a realização de um segundo seminário organizado
pelo próprio CONAD auxiliado pelo Grupo Multidisciplinar de Trabalho, do qual devem participar todas as entidades, sem prejuízo do encaminhamento formal do ato a todos os órgãos dos Ministérios
Públicos e da Magistratura Federal e Estaduais, Polícia Federal e Secretarias de Segurança Pública dos Estados.

Brasília, 23 de Novembro de 2006.

Dartiu Xavier da Silveira Filho
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Presidente do GMT - Representante do CONAD
Edson Lodi Campos Soares
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Vice-Presidente do GMT - Representante
de Mestre José Gabriel da Costa
Paulina do Carmo Arruda V. Duarte
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Representante da Secretaria Nacional Antidrogas/GSIPR

Domingos Bernardo Gialluisi da Silva Sá
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Representante da Câmara de Assessoramento
Técnico-Científico do CONAD
Ester Kosovsky
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Membro do GMT - Representante do CONAD
Edward John Baptista das Neves MacRae
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Membro do GMT - Representante do CONAD
Roberta Salazar Uchôa
_______________________________________________
Membro do GMT - Representante do CONAD
Isac Germano Karniol
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Membro do GMT - Representante do CONAD
Jair Araújo Facundes
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Membro do GMT - Representante de Mestre Raimundo
Irineu Serra
Cosmos Lima de Souza
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Membro do GMT - Representante de Mestre Raimundo
Irineu Serra
Alex Polari de Alverga
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Membro do GMT - Representante de Padrinho Sebastião
Luis Antônio Orlando Pereira
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Membro do GMT - Representante de Outras Linhas
Wilson Roberto Gonzaga da Costa
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Membro do GMT - Representante de Outras Linha”

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